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quarta-feira, 4 de abril de 2012

2123 - a fã do barão

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3923 Data: 2 de abril de 2012

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CARTA DA LEITORA

“Erudito mitron,

Agradeço a iluminação do @, foi agregada às apostilas do curso de Paleografia de 1951, vosmecê em cueiros e eu ainda lépida e fagueira.

Peço-lhe a excelsa gentileza de agradecer à Gina o panegírico que me pespegou, não sou “merecetriz” de tanto. Não agradeço diretamente, obnubilada pelo veto suíço. Amiga minha trabalhando no consulado em Genebra convidou vizinha para um chá, foi retribuído, mas quando a chamou para nova comemoração a helvética recusou, alegando que teria de convidar de novo a minha amiga e isso não terminaria nunca. Mais ainda, agradeço a Gina o endereço do Motel Cartago (BM 3904) na Avenida Suburbana, não para mim, que pendurei chuteiras e escarpins há séculos, poderá ter utilidade para “jeunes filles em fleur” (BM 3906).

Furar a roupa e se tornar populacho me lembrou Maria Graham, que trocava fraldinhas nas meninas da Quinta da Boa Vista. Houve uma briga entre brasileiros pobres e portugueses ricos e as damas abastadas se disfarçaram de lavadeiras com trouxas de roupas na cabeça. Diz a inglesa com muita sabedoria: “Sem calos nas mãos a quem enganariam?” (BM 3908)

Barão. Doze relógios? Tenho dez espalhados pelo chatô, também guardo martelos, tesouras, fita-crepe, chaves de fenda e tudo que precise utilizar sem sair do cômodo em que esteja. Acho prático.

Falando em “peché mignon” (nada a ver com os “mignons” de Henrique III: ofereceram um cigarro a Diaghilev que recusou alegando: “Não tenho vícios secundários”. Benza Deus!

Vou-me “sans peur et sans reproche.”

R

-Às vezes, a nossa amiga Rosa Grieco me trata de mitron que, em francês, significa aprendiz de padeiro. Pelo fato de ela conhecer a história do heroísmo dos padeiros e seus aprendizes, que evitaram a invasão da Áustria pelos turcos, eu não me acabrunho.

Enviei-lhe pesquisas sobre o @ (arroba), e ela, como se vê, agradeceu. Não custa relembrar que o @ era usado pelos copistas anteriores à invenção de Gutenberg.

No parágrafo seguinte, o tratamento muda para vosmecê. Todos se recordam do magistrado que entrou na justiça porque se julgou diminuído pelo fato de um cidadão o chamar de você. Era certamente um ignorante pernóstico, em termos linguísticos e recebeu uma lição de etimologia, sob a forma de veredito, do juiz que julgou o caso.

A origem etimológica de você encontra-se na expressão de tratamento de deferência “vossa mercê”, que evoluiu sucessivamente a “vossemecê”, “vosmecê”, “vancê” e “você”.

“Vossa mercê” (mercê significa graça, concessão) era um tratamento dado a pessoas às quais não era possível chamar de tu.

Rosa escreveu que não é “merecetriz” de tanto. Eis uma palavra aspeada (vai “aspeada”, uma homenagem ao Elio Fischberg, no dia do seu aniversário, que não gosta da “aspada”). “Merecetriz”, na verdade, é uma palavra-valise.

Foi Lewis Carol, autor de “Alice no País das Maravilhas”, que criou as palavras-valises, ao juntar dois conteúdos diferentes à mesma palavra. Porém, foi o escritor James Joyce que explorou o máximos as possibilidades das palavras-valises nos seus livros “Ulysses” e Finnegen's Wake”.

O veto suíço é explicado logo a seguir, não se trata de alguma medida do governo da Suíça contra alguma ajuda financeira aos países europeus encalacrados com o Euro. A Suíça está fora disso.

Esse caso entre a amiga da Rosa, que atuava no consulado do Brasil em Genebra, e a helvética, remete-me ao meu pai, que se mostrou mais sábio nessa questão. Dizia ele: “Não visito para não ser visitado.”

Chuteiras todos conhecem, principalmente no Brasil, mas escarpins... Tenho as minhas dúvidas, embora ele nunca saia definitivamente dos pés das mulheres. Escarpim é um calçado de mulher que nunca saiu de moda. O escarpim esconde os dedos dos pés e é fechado na parte posterior.

Olímpia, a boneca encantada dos “Contos de Hoffmann, por quem o tenor da ópera de Offenbach se apaixonou, calçava, naturalmente escarpins. Não a descalçavam nem quando ficava sem corda. Hoje, com tantos toques modernosos dos diretores, Olímpia deve ter bateria descartável.

Quanto à história do agradecimento da Rosa à minha cunhada, não posso me estender muito, pois tal panegírico não passou pelas minhas mãos.

Reconhece a nossa amiga que não se enquadra mais como uma das “jeunes filles em fleur” - “raparigas em flor”. Lembrou-se dos tempos idos e da literatura que ainda está bem viva para ela na pessoa do escritor Marcel Proust. “À l' Ombre des Jeunes Filles em Fleur” (À Sombra das Raparigas em Flor) constitui o segundo volume do monumental “À la Recherche du Temps Perdu” (À Procura do Tempo Perdido).

No que diz respeito aos furos na roupa para se misturar com o populacho, posso falar de cadeira... diante do computador, pois digitei uma edição do Biscoito Molhado narrando essa história. Estávamos eu e o Elio Fischberg perdidos na sanguinolenta Paris da Revolução Francesa, quando os “sans culottes” surgiram com gritos de “mais carne para a guilhotina”. Para nos confundirmos com a choldra, propus ao Elio a furar, como eu, as próprias roupas. Lendo esse texto, nossa erudita missivista reportou-se a Maria Graham, que morreu em 1842, e nos honrou com sua visita nesta semana (vide BM 2121 e BM 2122).

-”Sem calos nas mãos a quem enganariam?” - escreveu Maria Graham e a reproduziu a Rosa Grieco.

Eu e Elio, no meio dos pobretões parisienses da época do Terror implantado por Robespierre, a quem enganaríamos? Elio tem mãos de pianista, embora não saiba tocar nem “O Bife”, e eu, apertando a massa para fazer biscoito, não ganho calos nas mãos, muito menos molhando o dito cujo.

Apesar de tudo isso, escapamos e caímos em outro período da história. Isso, porém, é um caso para ser tratado em outro Biscoito Molhado.

Sobre os doze relógios do Barão do Rio Branco, eu confesso que soube disso ao ler o livro de memórias de Medeiros e Albuquerque, que ele intitulou “Quando Eu Era Vivo”. Rosa Grieco conhece essa obra, pois mais de uma vez expressou indignação com o fato de ele ir a Paris, na época em que as mulheres estavam carentes por causa dos homens que lutavam na Primeira Guerra Mundial, e fornicar com muitas delas. Justificou-se o escritor com o fato de ter dado duro na vida, de cuidar dos quatro irmãos menores como pai e, por isso, merecia uma recompensa. Rosa Grieco, no entanto, não o perdoa.

Bem, no seu livro de memórias, Medeiros e Albuquerque conta que as mesas de trabalho do Barão do Rio Branco, no Itamaraty, eram tão bagunçadas, que acharam doze relógios nelas, depois que ele morreu.

Agora, vou-me, como a nossa missivista “sans peur et sans reproche.” (sem medo e sem mácula).

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