Total de visualizações de página

domingo, 19 de novembro de 2017

3078 - ursinhos de pelúcia



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5338 D                          Data: 19 de novembro de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXV


FILHO  DA  PUTA!


Heloísa não desconversou: -Aí eu congelei. 

As razões do congelamento intelectual derivam da surpresa, ou de um conjunto de surpresas e são impossíveis de controlar.

O homem chamava-se Drury, não tinha qualquer traço estrangeiro, ao contrário, era completamente carioca, quem o batizou devia gostar do uísque. Estivera sentado em um círculo de mulheres sorridentes e gargalhantes, e suas pernas trançadas sugeriam uma atitude nada máscula. A calça justa, branca e a fivela do cinto ligeiramente espalhafatosa pareciam confirmar essa primeira impressão.

O sussurro no ouvido de Heloísa foi mesmo inesperado. Era quente, vaporoso, mas não úmido, e tinha não um sotaque, mas um pronunciar gutural. Para quem tinha se apaixonado por fonética, vendo Rex Harrison nos primeiros movimentos de My Fair Lady, era impossível não perceber aquele farfalhar grave, solene, notável apenas em certos encontros consonantais.

Só faltava um peteleco para o encontro total.

Nem demoraram mais na festa, como em um piquenique, saíram sorrindo a pé pela Oswaldo Cruz até o prédio do homem, nem grandioso, nem mixuruca. A porta aberta dava para um visual meio enluarado do granito do Pão de Açúcar, visível entre árvores, numa dessas raras combinações de luz e sombra que as vistas do Rio de Janeiro preparam para embalar os sonhos mais fantasiosos.

Drury foi pegar uma bebida e Helô sentou no sofá imaculado, entre simétricas almofadas de seda, todas com um bico achatado na parte superior, como se esperassem uma régua para alinhá-las. O homem era um decorador de tudo, exterior, interior, fonética. Em frente ao sofá, uma mesa com tampo de vidro escuro e de forma irregular, continha uma meia dúzia de livros, bem dispostos e de vários tamanhos, mas um se destacava, pela cor de um azul muito escuro, pela capa dura e por estar meio escondido.

O primeiro é sempre o que está por baixo. Helô pegou o livro da capa azul, onde se lia CARTOONS!, assim, com exclamação, como o título desta história.

Voando em desenho meticuloso, estavam dois gansos em ato sexual e abaixo, o conhecido dito Fly United, da United Airlines. Aquilo era bem achado e seria impossível não seguir livro adiante.

As folhas não eram impressas no verso e poderiam ir decorar qualquer parede onde não houvesse uma exagerada repressão de costumes.

Na segunda página, uma Margarida com véu de odalisca fumava ópio de um narguilé, enquanto João Bafodeonça, de camiseta, fazia com as mãos um sinal de paciência aos comparsas: “ela ainda não está no ponto...”

Depois, Branca de Neve dobrava sua saia comprida para pendurá-la nos pequenos cabides do anões, cuja canção vinha pela janela, ...pra casa agora eu vou...

Página virada, um cenário de caubói, Tonto algema Dale Evans de braços e pernas abertas, enquanto Zorro venda a vista de Roy Rogers dizendo: "melhor você não ver!"

Sininho, imaculada de meia arrastão e asinhas, desabotoa a fivela das calças vermelhas do Capitão Gancho e dialoga: “comigo aqui, você não se machuca”, uma óbvia referência à dificuldade de se manusear fivelas e botões com um gancho afiado. Adiante, o único nu frontal, a clássica cena do acidente de Jessica Rabbit, em que os desenhistas da Disney, insatisfeitos com o salário, a colocaram sem calcinha, enquanto rodava pelo ar. Três anos depois, a cena se tornaria um caso de sucesso entre os adolescentes de todo o mundo, munidos de vídeo cassetes e pause.

Tudo assim, sugerido, mas sem grosseria, parecia decifrar Drury, seus fonemas, sua calça justa, seu jeitão nada ameaçador.

E mais Helô veria no livro, se ele não voltasse com uma garrafa de champanhe, balde e uns amendoins em lata. Enquanto a garrafa era aberta, na lata de amendoins via-se vários caracteres, no mínimo em sânscrito, que decoravam a tinta branca, dando a impressão de formar a palavra Kamasutra. Mas talvez fosse só impressão.

Que era perfeita, quadros alinhados na parede, uma cor musguenta atrás de uma TV, tudo se encaixava entre luzes indiretas e os brilhos ocasionais de uma escultura de bronze.

No caminho para o quarto, Helô ainda viu uma estante de três níveis encaixada na parede, onde quatro ursões de pelúcia repousavam na prateleira superior, uma meia dúzia de ursos ficava na prateleira do meio e na inferior, uma dúzia de mini-ursinhos.

Dentro do quarto foi uma festa. O amendoim era longo e possuía um sabor indescritível, o rótulo em forma de escudo normando da champanhe era da Pérignon e tudo somava. Helô não deixou barato e nem pra depois.

Só de relógio de pulso, minúsculo porém marcador de horas, percebeu que já era hora de terminar o prazer e de pensar na aula de amanhã, às oito, depois de uma hora de trânsito.

Drury vestiu então um robe de seda lilás com o monograma H em roxo. 

Com um sorriso estampado, Helô olhou mais uma vez para o quarto e não freou um cumprimento à performance dele e, já que ela também estava lá, arrematou: "e eu também não fui mal, não...?"

-       - Helô, você foi maravilhosa, disse, enquanto abria a porta. E, apontando para a estante do corredor: “escolha um dos ursinhos da prateleira do meio pra você”.







segunda-feira, 13 de novembro de 2017

3077 - Uerrom?



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5337 SX                           Data: 13 de novembro de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXV


MORRE O ÍDOLO

Faz cerca de quarenta anos. Os jornais passaram um bom tempo se ocupando da queda do Learjet que vitimou o deputado federal Pelópidas Nonato, do Ceará. A queda do avião, segundos depois de decolar do Aeroporto Internacional do Galeão, seria, por si só, motivo para muitas manchetes. Mas o fato foi potencializado pela presença, a bordo, de Kelly Bordéu, estrela do teatro de revistas, que fazia muito sucesso com "Piriri no Pororó", grande atração da Praça Tiradentes.

O Globo, Correio da Manhã e Jornal do Brasil optaram, pelas circunstâncias, por tratar o assunto com a discrição possível. O mesmo não aconteceu com a "Última Hora", que tinha pavor do deputado Pelópidas, líder do governo revolucionário de então. Mas quem chutou o balde para valer foi a "Luta Democrática". O escrachado jornal teve a ousadia de publicar em letras garrafais a manchete "Dona Santinha não estava a bordo!" Santinha, todos sabiam, era a esposa do deputado Pelópidas.

Quando se imaginou que o frenesi em torno da queda do Lear estivesse começando a arrefecer, uma constatação colocou mais lenha na fogueira. Havia mais um passageiro a bordo! Trajando uma vestimenta própria dos mecânicos, sujo de óleo, seu corpo foi encontrado a uma distância razoável do local em que o avião atingiu o solo. Por conta disso, os investigadores levaram algum tempo para ter certeza de que o cidadão estava envolvido no acidente aéreo em pauta.

Acompanhei com atenção a evolução dos acontecimentos. Atenção que alcançou seu ponto máximo quando as autoridades conseguiram identificar, finalmente, o nome da última vítima do Learjet. Fiquei tonto quando a Rádio JB divulgou seu nome, em primeira mão: Nelson de Assis Pereira de Carvalho. "Nelsinho", morador da República do Peru, ex-aluno do Santo Inácio, exímio nadador, cracaço do futebol de praia, ídolo, talvez por conta de suas maluquices, de muitos garotos da República, como eu, cerca de cinco anos mais jovens do que ele.

Fazia tempo que não tinha notícias do Nelsinho. Eu completara a faculdade de economia, estava casado e não morava mais na República do Peru. Recebia ocasionalmente uma ou outra informação sobre ele, todas dando conta de que a vida lhe tinha sido adversa.

Com o correr das investigações, as autoridades chegaram a uma incrível conclusão. Nelsinho estava envolvido no tal acidente, mas não era passageiro do avião. Na verdade, fora o causador da queda do Learjet!

Não é fácil explicar, mas a coisa aconteceu mais ou menos assim : Nelsinho, trilhando seu calvário de problemas existenciais e financeiros, conseguira um emprego na Recauchutadora Oriente, em Duque de Caxias, localizada nas proximidades da pista auxiliar do aeroporto do Galeão. Uma empresa de porte, apta a reformar pneus especiais, fossem eles de avião, ou das gigantescas empilhadeiras operadas ali perto pela Supergasbrás.

Sabe-se lá porquê, numa atitude bem ao estilo da figura que eu conhecia, Nelsinho resolveu colocar quatrocentas libras de pressão num gigantesco pneu que estava consertando. Permanecia de pé, em cima do artefato, martelando-o furiosamente. Deu-se uma terrível explosão. Houve quem achasse que Duque de Caxias sairia do mapa. Meu amigo foi projetado como um míssil. Não fosse o Learjet do deputado, que ele derrubou, teria alcançado a primazia de se tornar o primeiro brasileiro a entrar em órbita. Sorte do Coronel Marcos Pontes que, em circunstâncias muito menos emocionantes, visitou, a bordo de uma nave Soyuz, a Estação Espacial Internacional, anos mais tarde.

A turma da República do Peru proporcionou um sepultamento digno ao Nelsinho. Muitos haviam presenciado suas proezas de excepcional nadador, que deixavam atônitos os frequentadores do Posto 3, em Copacabana. A mise en scène era sempre a mesma. Ele chegava à praia por volta do meio dia, em dias de tremenda ressaca. Fazia por diversas vezes o sinal da cruz e se jogava ao mar, ignorando apelos frenéticos de mocinhas e mães de mocinhas que frequentavam nosso pedaço de praia. A performance era conhecida. Passava uma boa meia hora furando ondas gigantescas. Quando chegava á conclusão de que metade da mulherada da plateia havia enfartado, escolhia finalmente a onda em que pegaria um tresloucado "jacaré", retornando à areia. Era sempre recebido por uma multidão de admiradores. Especialmente admiradoras. Uma única exceção aconteceu no dia em que essa onda “grand finale” arrancou-lhe o calção e nosso herói completou seu enredo inteiramente nu.

No Santo Inácio, as presepadas do ídolo também ficaram famosas, tendo culminado na sua expulsão do colégio, no início dos anos sessenta. Lembro bem de duas confusões em que esteve envolvido. Nelsinho era um grande consumidor de "Puf", um dispositivo junino que, jogado ao chão, produzia uma grande cortina de fumaça. Era um susto e tanto. Inadvertidamente a vítima cruzava com nosso amigo, o "Puf" era jogado ao chão e, em meio à fumaceira, Nelsinho gritava : "Mandrake!" Fora o susto, tudo acontecia sem maiores problemas. Até o dia em que escalou como vítima o Carlinhos Bornay, um dos mais delicados alunos do colégio. Carlinhos sofreu um desmaio e foi levado às pressas para a enfermaria do Santo Inácio. Nelsinho foi agraciado com uma suspensão.

Sua expulsão não demorou a ocorrer. Num acesso de gentileza e bons modos, ele  foi visto no recreio portando uma bandeja repleta de bombons. Cruzava com os colegas e candidamente indagava: "Aceita?" É claro que todos aceitavam. Pouco depois o recheio dos acepipes podia ser identificado em meio a muita tosse e engasgos. Variava de serragem a sabão de coco. Novamente, a molecagem poderia não resultar em grandes problemas. Mas não foi o que aconteceu. Osório Neves, o rei dos puxa-sacos, disse para Nelsinho que degustaria a oferta mais tarde, possivelmente em sala de aula. Nelsinho vibrou com a confusão que disso resultaria. Mas o pior aconteceu. O rei dos puxa-sacos resolveu transferir o mimo para o Padre Leonardo, que passou mal prá dedéu. Diante do cadafalso, Osório explicou a origem do brinde. Fim de linha para a trajetória inaciana do Nelsinho.

Na República do Peru, a fama do nosso herói cresceu quando ele botou fogo num apartamento da Rua Prado Júnior. Foi isso exatamente que aconteceu. Mas o evento merece uma explicação detalhada. Depois de meses e meses de tentativas, Hildinha aceitou o convite do Nelsinho para uma noite de amor. O problema era arranjar local para o embate. Nelsinho, como de hábito, estava duro feito um coco. Foi salvo pelo Zé Armando, que lhe cedeu um apartamento. Não tinha a menor ideia sobre quem era o dono do imóvel. Chamou a atenção, apenas, para um pequeno problema: a luz da quitinete havia sido cortada pela Light, por falta de pagamento. Segundo Zé Armando, isso não causava qualquer problema. Em primeiro lugar, porque o apartamento era minúsculo, nele havia apenas uma cama, Nelsinho não teria muitos cômodos a percorrer. Além disso, tudo que se propunha a ali fazer, sabia fazer de cor.

Tudo correu conforme o combinado, salvo um pequeno problema. Devidamente instalados na tal cama, uma cantoria de pássaros passou a perturbar o casal. Nelsinho concluiu que era impossível se concentrar em meio aquela barulheira. Pediu licença à Hildinha para buscar a origem do problema. Acendeu seu isqueiro Ronson, para constatar que do teto pendiam dezenas de gaiolas, repletas de pássaros cantantes. Não reparou que a chama do Ronson alcançou um lençol, igualmente pendurado no teto do aposento. Os bombeiros só chegaram meia hora mais tarde.

Meu último contato com Nelsinho aconteceu quando ele apareceu na República do Peru muito machucado, repetindo sem parar uma frase ininteligível. Fui informado de que sua última ocupação tinha sido a de guarda-costas de um líder estudantil que combatia a revolução de 1964. Numa passeata, foi preso pelo temido inspetor Piroteu e levado para as dependências da Polícia do Exército, na Barão de Mesquita. Apanhou muito. De volta à República, repetia sem parar: "Odicnev Ares Siamaj, Odinu, Ovop, O" . Alguém descobriu que, de trás para a frente, isso quer dizer "O povo, unido, jamais será vencido". Era o que Nelsinho gritava quando foi preso. Na prisão, colocado durante horas seguidas de cabeça para baixo, era obrigado a repetir a frase sem parar, também de cabeça para baixo.

Fui ao enterro do Nelsinho. Eu e dezenas de amigos. Chegamos à conclusão de que ele estava sorrindo. Deve ter achado tudo muito engraçado. 


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

3076 - No Nordeste da Europa...



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5336 FM                           Data: 10 de novembro de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXV

 A REVOLUÇÃO RUSSA – 100 ANOS


Há 100 anos, Lenin (47 anos), vindo da Suíça, onde estivera exilado por 12 anos, desembarcava na Estação Finlândia, em Petrogrado (São Petersburgo), depois de uma viagem de trem de oito dias, durante a qual estruturava a tese de que a revolução deveria ser violenta, dirigida por um grupo de vanguarda, com base na tese de Karl Marx de que a luta de classe era o motor da História. Foi um abalo na História, que teria muito a contar. 
   No começo do século XX, a Rússia era um país de economia atrasada, dependente da agricultura, com cerca de 80% da produção concentrada no campo. Faltavam alimentos, o emprego era escasso, o caos dominava. Os trabalhadores rurais viviam em extrema miséria, enquanto o czar Nicolau II governava de forma absolutista. Em 1905, ele manda reprimir com extrema violência manifestações populares, no dia 9 de janeiro, que faziam marcha pacífica até ao Palácio Imperial, de São Petersburgo, com a presença do padre George Gaspon, que colaborou com um membro da Polícia Secreta do czar, para destruir organizações de trabalhadores, quando foram contidos, no que ficou conhecido como Domingo Sangrento. O exército fuzila milhares de manifestantes, inclusive os marinheiros do encouraçado Potemkin. Para agravar, Nicolau II leva o país a entrar na guerra mundial, cujos gastos excessivos fizeram aumentar a insatisfação popular. As greves dos trabalhadores urbanos e rurais espalharam-se por todo o país.
   O mundo estava mergulhado na guerra (1914-18), quando ocorreu a rápida derrocada de um dos impérios mais antigos da Europa: a Dinastia dos Romanov, que governava a Rússia  há mais de 300 anos. O Czar Nicolau II (o verdadeiro Deus na Terra) foi morto com toda a sua família. Instaurava-se o caos no país, onde havia fome e miséria entre a  população. Kerensky, (Menchevique – minoria)  assume como governo provisório.
  Logo seguiu-se outra revolução, em outubro, que transformaria o mundo, dividindo-o irremediavelmente em duas partes antagônicas. Ocorria a primeira utopia socialista dos tempos modernos. Milhões de pessoas, em dezenas de países, passaram a ser governadas pelos comunistas, até que, setenta anos depois, com a retirada de alguns tijolos do Muro de Berlim, o poderoso sistema implodia, pressionado por suas próprias condições sociais e políticas. O fato  estarreceu mais uma vez todo o mundo, ao ter a surpreendente revelação de que o mito socialista chegara ao fim.
O começo:  A guerra entre a Rússia e o Japão, em 1904, o primeiro grande  conflito do século XX, pôs à mostra a fragilidade do Império, que foi derrotado por uma potência emergente. Um ano depois, ocorre violenta repressão a uma marcha pacífica, que se transformou numa insurreição. Em 1914, as contradições políticas, econômicas e sociais, sucessivas derrotas, seguidas de grandes baixas, causaram fome e descontentamentos, levando o país à beira de um colapso, que culminaria com a derrubada da monarquia. Os bolcheviques (maioria) assumem o poder quando Lenin retorna do exílio com 29 companheiros banidos do país, para ser o líder de um Revolução que seria a verdadeira transformação política e social em todo o mundo. Após anos de violenta guerra, com milhões de mortos, os bolcheviques vencem e criam a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
A Revolução Russa, a despeito das sucessivas crises, dos milhões de assassinatos ao tempo da ditadura Stalin, é tida como o acontecimento sócio-político mais importante do século XX, tanto em termos do que realizou no Império, transformando, em poucas décadas, um país atrasado, de camponeses analfabetos, na segunda potência industrial e militar do mundo, embora o preço a pagar tenha sido cruel, no período marcado pelo projeto  que pregava a implantação  de um socialismo marxista, que se projetou mundo afora, transformando algumas nações, que se deixaram dominar pelas lideranças comunistas, rejeitadas pelas democracia ocidentais. e pelos regimes nazifascistas. A despeito do que foi feito, muito deixou de realizar.    
A liberação do processo alienante decorrente do modo de produção capitalista, levaria a classe trabalhadora ao paraíso, criaria um mundo de liberdade, igualdade e plena realização dos potencialidades humanas. Essas ideias perduraram por 70 anos, sendo adotadas por várias nações, entre as quais China, Coreia do Norte  e Cuba. Exaltem-se os grandes feitos, como o primeiro voo espacial, pelo astronauta Gagarin, os grandes progressos científicos, os altos níveis de educação, os poderosos armamentos militares, com a fabricação de mais de 7.200 ogivas nucleares, o maior poderio de destruição do mundo.
     Para muitos, visava tomar o poder, sem levar em conta o caos social que reinava em toda a Rússia. Outros, entretanto sonham secretamente com a volta ao passado. Ainda existe o Partido Comunista, na oposição, que detém uns 17% do eleitorado, que serve para legitimar a ideia de um sistema democrático, com vistas a eleições que se realizarão em 2018.
 Há muito a contar. O processo de transformação da Rússia não terminou, embora a grande potência econômica e militar tenha tido sua influência diminuída. A História ainda não teve fim.



Obs.:  As datas são de acordo com o Calendário Gregoriano. A revolução de fevereiro (Calendário Juliano), que derrubou o czar, ocorreu em março, enquanto a revolução de 25 de outubro, quando os bolcheviques tomaram o poder, comemora seu aniversário a 7 de novembro (C.G.)

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

3075 - Motel Leblon, parte estrebuchante



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5335 SX                           Data: 3 de novembro de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXV


HOTEL LEBLON

É irresistível voltar a falar sobre o Leblon, especialmente depois de reler mais uma vez "O Antigo Leblon - Uma Aldeia Encantada", primoroso livro de Rogério Barbosa Lima que conta a história e "causos" do bairro fascinante em que passei minha infância.

Na primeira guerra mundial, o Leblon era um grande campo arenoso, cheio de alagadiços e brejos, coberto de pitangueiras, espinheiros, palmeiras anãs, cactos e araçás, onde moravam uns poucos pescadores.

A instalação de um ramal de bondes na beira da praia, no trecho que em 1918 foi batizado Avenida Delfim Moreira, conferiu ao Leblon, até então considerado um apêndice da Gávea, o status de bairro independente. Pouco tempo depois, na administração do Prefeito Carlos Sampaio, foram retificados os traçados dos dois canais que ligavam a Lagoa ao mar: o canal da Visconde de Albuquerque e o canal da Barra, hoje conhecido como Jardim de Alah. Entre eles situou-se o Leblon, que os moradores de Ipanema tinham na conta de ilha.

A linha circular Copacabana - Ipanema - Leblon - Gávea foi consolidada em 1938, com a construção de uma ponte sobre o canal do Jardim de Alah, ligando a Visconde de Pirajá à Ataulfo de Paiva. Isso pôs um fim às baldeações e à circulação de bondes pela praia.

Até o início do século, o conjunto de chácaras desmembradas da antiga Fazenda Nacional da Lagoa ainda não se chamava Leblon. A denominação decorreu, provavelmente, de Charles Leblon, proprietário de um grande lote no areal, um quadrilátero delimitado pelo mar e pelas atuais ruas General Urquiza, Visconde de Albuquerque e Dias Ferreira. Convencionou-se que esse seria o "Campo do Leblon". Há quem atribua a denominação do bairro aos atributos físicos do francês, e não, propriamente, ao seu sobrenome (le blond - o louro).

Charles Leblon se ocupava da pesca de baleias. O óleo dos cachalotes era um produto valioso, utilizado na construção civil e na iluminação pública. Quando o Barão de Mauá implantou a iluminação à gás, o francês perdeu o interesse no negócio. Vendeu seu terreno, então, para um cidadão de nome Francisco Fialho.

Iniciada a urbanização do bairro, as primeiras e mais conhecidas famílias que ali se instalaram foram os Cordeiro de Mello, os Padilha (o Colégio Padilha ocupava o terreno onde hoje está situado o prédio em que morei nos anos 50), os Formenti (família do pintor e cantor Gastão Formenti) e os Araújo (Dona Maria Araújo, uma das primeiras moradoras da Rua Aristides Espínola, vinha a ser mãe do produtor João Araújo e avó de Cazuza).

No começo da década de 20, o Hotel Leblon foi construído no início da Avenida Niemeyer. Projeto do arquiteto Antonio Januzzi, consta que seria erguido para abrigar visitantes da exposição do centenário, em 1922. Não deu tempo, ele só ficou pronto em 1926. O espanhol João Otero Seoane respondia pelo empreendimento, tendo pago 150 mil réis ao empresário Conrado Jacob Niemeyer. Há quem considere que a ideia de João Otero era a de ali fazer funcionar um cassino de luxo, nos moldes do Hotel Quitandinha.

É certo que durante algum tempo o Hotel Leblon funcionou como ponto de encontro da sociedade carioca, que acorria ao local para saborear vinhos e conservas que Otero importava da Europa. Muito cedo, no entanto, a simples menção ao hotel passou a ser considerada ato atentatório à moral e aos bons costumes. Foi, possivelmente, o primeiro motel da cidade. "Deixa a Lua Sossegada", marchinha de João de Barro e Alberto Ribeiro para o carnaval de 1935, dizia em seu refrão : "O beijo começava em Realengo / Esquentava no Flamengo / E acabava no Leblon".

O hotel passou a ser visitado por membros do legislativo, frequentemente acompanhados de famosas atrizes. O Presidente Washington Luís, diziam as más línguas, e as boas também, era um grande frequentador.

Rogério Barbosa Lima relata em seu livro diversas peripécias que envolveram o Hotel Leblon. Segundo ele, um bar situado no amplo salão do térreo era frequentado pelo pessoal do bairro, jóqueis renomados, como Luís Rigoni, e artistas novatos que tentavam se sobressair. O autor abre o capítulo "Hotel Leblon e Seus Sortilégios" com a tragédia que vitimou o jóquei Nestor Linhares. Ele era alto para a profissão e dado a conquistas amorosas. Resolveu cortejar uma mulher que ocupava a mesa ao lado. Foi ameaçado por seu acompanhante com um revólver. Nestor arriou as calças, mostrou a bunda para o inimigo e mandou atirar. O sujeito não pensou duas vezes, mandou bala. O jóquei teve a artéria femoral perfurada, morreu pouco depois ainda esguichando sangue. Amado Benigno, médico, ex-goleiro do Flamengo, presente ao local, nada pôde fazer por ele. Conta Rogério que no chão do bar do hotel permaneceu uma mancha de sangue que insistentes lavagens não conseguiram remover.

Em seguida, Rogério fala de Hélio Torviso, companheiro de bairro, que teve o acelerador de sua motocicleta preso quando, em alta velocidade, buscava subir a Avenida Niemeyer. Bateu na parede do hotel, abaixo de uma de suas janelas. Tamanha foi a pancada, que sua cabeça entrou no tórax, deformando e encolhendo o seu corpo, do qual foram arrancados roupas e sapatos.

Tragédia de grandes dimensões aconteceu com um lotação que, vindo do Vidigal, perdeu a direção na descida da Niemeyer, despencando do barranco e caindo à beira do canal. Três passageiros foram projetados pelas janelas, saindo ilesos. Os demais ocupantes ficaram presos no interior do veículo, que atingiu um cabo de alta tensão e explodiu em chamas. A rapaziada do Grêmio, envolvida num racha na praia em frente, correu para ajudar. Rogério e seu irmão Ronaldo recorreram ao extintor de incêndio do Clube Colúmbia, na esquina da Rita Ludolf. Não fez efeito. Morreram cerca de vinte passageiros, vitimados por graves queimaduras. Durante um bom tempo os jornais se ocuparam da tragédia.

Rogério Barbosa Lima completa seus relatos comentando o sério acidente protagonizado no mesmo local pelo italiano Victorio Coppolli, competidor do Circuito da Gávea em sua reluzente Bugatti. E fecha com o aviador que, recentemente separado da mulher, inconformado, projetou seu avião no pátio do hotel, diante de uma multidão de espectadores.

Ao fim do capítulo, Rogério pede desculpas aos leitores pelo relato de tantas desditas, num livro repleto de casos divertidos e boas lembranças. Leitor contumaz de sua obra, posso afiançar que esse saldo é extremamente positivo.


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

3074 - o algoritmo do futuro



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5334 FM                           Data: 25 de outubro de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXV


O MEU FUTURO


   
Eis algo novo, não sei por qual motivo, aparece nos meios de informação, sem a devida explicação para os não ligados à Matemática ou à Informática. Trata-se de um substantivo comum de difícil definição, pelo menos para mim, cuja ignorância não permite enxergar um palmo diante do nariz. Fui à pesquisa para saber o que é Algoritmo e logo encontrei o que diz o computador, que é um conjunto de operações sequenciais, lógicas e não ambíguas que, aplicadas a um conjunto de dados, permitem encontrar a solução para um problema em um número finito de passos.

Parei para pensar, analisando primeiramente meu estado físico, que é não dos piores mas de alguém, embora razoavelmente saudável, que está em fim de carreira, pela lógica dos números finitos que são aplicados ao seres humanos, nascidos para viver um período limitado de tempo. Quando passam dos 90, limitam-se aos cuidados especiais estabelecidos pelas ciências médicas, com o uso de  produtos destinados a evitarem um AVC, um infarto fulminante ou até mesmo uma gripe malcurada, que podem levar o indivíduo a outras paragens, rumo ao desconhecido. Desse modo, cuido-me com os medicamentos prescritos, evito a pressa ao andar pelas ruas esburacadas – dessas cabem cuidar os prefeitos e seus auxiliares, o que não fazem, por incompetência administrativa (ou por outros motivos, que os tais alegam para justificar o não feito). Não sei se o Algoritmo pode ser aplicado para salvar as vítimas e seus causadores.

Filosofando um pouco, no silêncio de um dia chuvoso, não creio que possa haver algo depois do fim. Terminado o período de minha modesta  mas agradável existência, acho que nada mais resta. Admitindo, entretanto, que meu iluminado e profícuo espirito alcance o infinito e tenha um retorno, espero que seja em um corpo saudável e razoavelmente apolíneo, QI no índice mais elevado, quem sabe, de um engenheiro competente  e criador, nascido em era de avançada tecnologia,  em que o tal Algoritmo seja aplicado até por crianças, afeitas aos intrincados meandros dos computadores. Serei eu, em novo corpo, criando o que imagino o que hoje é sonho de um futuro distante: transportes individuais movidos a energia solar, que trafeguem levados por um colchão de ar, em absoluta segurança, com radares que evitem choques ou acidentes provocados por pilotos irresponsáveis, como os de hoje, que usam telefone quando dirigem veículos poluidores, quando bebem ou quando estão transtornados pelos problemas causados por  uma esposa que tenha pespegado um lustroso par de chifres em represália  à infidelidade do distinto, como acontece nos dias atuais (já foi pior, quando reluziram facas afiadas,  ou balas fulminantes deram contas do recado). Meu espírito reencarnado deverá ter, também, a capacidade de harmonizar os dissidentes, que possa ser um criador de produtos que evitem doenças, e que prolonguem a vida, pois, como hoje, gosto de viver e gostarei muito mais, com os alimentos sem agrotóxicos, com roupas descartáveis, sem a necessidade de criadores de modas, como os de hoje, que são ligados aos fabricantes de tecidos e  adereços  embelezadores sofisticados, já que as belas já nascerão no ponto. E, muito mais, que as comunicações sejam praticamente sem palavras, que os pensamentos sirvam para entendimentos, embora um diálogo possa ser necessário, quando os dizeres sejam como suave música para o encanto das ninfas futuras, tudo como hoje, quando meia dúzia de termos enternecem e dão um sentido mágico à vida. Mesmo porque, deverá ser muito chato viver, como  na  Suécia ou na Dinamarca, onde pouco se fala, o que torna o  dia, já muito curto, um tanto sem sabor. Enfim, que eu, como engenheiro, médico ou cientista espacial, possa ser o que não sou, hoje, por culpa da minha incompetência. Não precisava  ser um Beethoven ou um novo Mozart, apenas músico de jazz, para dedilhar um piano “manero” criando efeitos que só os puros conseguem, como estando em estreito contato com Deus.




sexta-feira, 20 de outubro de 2017

3073 - Vendo dois por um



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5333 SX                           Data: 20 de outubro de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXV


NOVAS VELHAS FICHAS

Volto a mexer no baú de fichas, onde guardo roteiros que preparei para os programas que apresentava nas rádios MEC e Roquete Pinto. O propósito é sortear dois ou três temas por vez, e deles extrair temas para serem publicados no " Biscoito Molhado ". Sou um democrata, atento aos regulamentos. Conduzo esse sorteio nos termos da legislação em vigor. Ele é fiscalizado por representantes do Tribunal Superior Eleitoral, da Receita Federal e, como se impõe nos dias de hoje, dois Procuradores da Lava-Jato.

Minha primeira ficha fala de um programa de rádio que Paulo Fortes produzia e apresentava na Rádio Mayrink Veiga, no ano de 1946. A leitura dessas anotações me remete à incrível figura de Artur da Távola, com quem tive o privilégio de trabalhar na secretaria de cultura da cidade do Rio de Janeiro. 

"Rádio" era tema recorrente de nossas infindáveis conversas. Paulo Alberto, seu verdadeiro nome, somente usado pelos amigos mais próximos, dizia que Sergio Fortes sabia "tocar rádio". Na sua concepção, esse era o mais importante elogio que me podia fazer.

Infelizmente, o rádio acabou. Transformou-se, nos dias de hoje, em reduto de mau gosto, pregações religiosas suspeitas, funk, pagode, música sertaneja, locutores esportivos desprovidos de massa encefálica e de repórteres que vivem às turras com o vernáculo. Não vou falar das orquestras da Rádio Nacional, dos arranjos de Radamés Gnattali, Lyrio Panicalli e Leo Peracchi. De Heron Domingues e Majestade. Da PRK - 30, Max Nunes e Haroldo Barbosa. De Clovis Filho, Jorge Curi e Benjamin Wright. Seria covardia.

De volta às minhas anotações, me dou conta de que o barítono Paulo Fortes participou ativamente de programas de rádio, que produziu e apresentou nas décadas de 1940 e 1950 nas rádios Mayrink Veiga, Roquete Pinto, Jornal do Brasil e Gazeta de São Paulo. Sobre esse período da trajetória de Paulo Fortes, recorro ao testemunho de Carlos Heitor Cony, apresentado no excelente livro " Paulo Fortes, Um Brasileiro na Ópera ", de Rogério Barbosa Lima: " Foi assim que o conheci há anos, quando me botaram para escrever programas na antiga Rádio Jornal do Brasil, então PRF - 4. Minha tarefa era escrever os programas do maior barítono do Brasil: aquele vozeirão imenso, acompanhado pela bravíssima orquestra do Maestro Carlos Vianna de Almeida. cantava boleros, canções napolitanas, trechos líricos. Uma gentil mistura de Frenesi, Perfídia, Granada, com a Cavatina do Barbeiro, o Toreador da Carmen, a Canção do Aventureiro do Guarany. Minha obrigação era unir em má literatura aquela substanciosa salada canora e deixar Paulo Fortes inundar os estúdios e ouvintes com sua voz poderosa e maleável."

Minha ficha, retorno ao tema, faz menção ao ano de 1946. Pouco tempo depois de sua exitosa estreia no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Paulo Fortes recebe de Edmar Machado, Diretor da Rádio Mayrink Veiga, convite para apresentar na emissora um programa em que cantaria árias de ópera, música de câmara, canções napolitanas e clássicos da música popular brasileira.

Em certa ocasião ele cantou "Guacira', de Heckel Tavares. E não poupou agudos no final da apresentação. A frase final da canção, "Pensando em ti...", foi cantada a plenos pulmões, num formidável sol natural. Encerrado o programa, ele é chamado ao telefone. E ouve uma voz reclamar, com acentuado sotaque nordestino: "Menino, eu gostei de sua voz cantando Guacira. Mas você precisa cantar mais piano! Pára de gritar essa música, ô rapaz! " Impulsivo, famoso aos 22 anos de idade, Paulo Fortes, sem esconder o mau humor, indaga: "E quem está falando aí?" a resposta: "É o autor, Heckel Tavares."

No dia seguinte o barítono corre à casa do maestro, no alto da Rua Marquês de São Vicente, na Gávea. Humildemente, pede conselhos sobre a interpretação de suas músicas. Mas não perde a chance de esclarecer uma dúvida que o atormentava desde garoto: "Mas afinal, Maestro, o que é... onde é Guacira?" Heckel Tavares responde: "Menino, não é nada. A própria música está dizendo: Meu pé de serra que nem deus sabe onde está. Isso não é coisa nenhuma. Ou melhor, não era. Agora é sapato, marca de goiabada...tudo é "Guacira". E eu não recebo os direitos autorais...".

---x---

É hora de sortear uma segunda ficha. O assunto passa a ser o extraordinário compositor norte-americano Jerome Kern. Ele pode ser considerado o "pai" do teatro musical norte-americano, do gênero que conhecemos como musicais da Broadway. Esse trabalho de criação consistiu basicamente na adaptação da opereta européia e foi desenvolvido por um grupo de compositores que incluía, além de Kern, seus colegas Irving Berlin, Cole Porter, George Gershwin e Richard Rodgers. Mesmo tendo desempenhado papel tão importante, Jerome Kern pode ser apontado como o menos "americano" desse grupo. Sua produção tem raízes fortes na música clássica e na opereta, mantendo-se distante da influência do jazz, o que é uma tônica, por exemplo, na produção de George Gershwin.

Kern escreveu cerca de 700 canções e 100 partituras completas de filmes e musicais, durante uma carreira que se estendeu de 1902 até seu falecimento, em 11 de novembro de 1945. Ele nasceu na cidade de Nova Iorque. Seus pais, Fanny e Henry Kern, haviam imigrado da Alemanha e batizaram seu filho com o nome Jerome simplesmente porque moravam perto de uma localidade chamada Jerome Park, lugar que eles apreciavam muito.

Fanny encorajou seu filho a estudar piano. Henry, por sua vez, era um vendedor e, entre vários outros ítens, negociava com pianos. Queria que seu filho seguisse seus passos mas Jerome só queria saber de música. Jerome Kern estudou em escolas públicas, foi posteriormente aceito no New York College of Music e completou sua formação musical em Heidelberg, na Alemanha. Na virada do século se encontrava em Londres, onde viria a se casar. De volta a Nova Iorque trabalhou como pianista ensaiador, mas logo começou a se destacar como renomado compositor. Em 1915, muitas de suas músicas já integravam shows da Broadway. Um dos pontos culminantes de sua carreira foi o musical " Show Boat ", produzido em dupla com Oscar Hammerstein II.

Essa produção marcou definitivamente as carreiras de seus autores. A encenação apresenta mais de uma dezena de maravilhosas canções. "Ol´ Man River" e "Can´t help lovin dat man" são, possivelmente, seus números musicais detentores de maior reconhecimento. " Ol´ Man River" consagrou a voz do extraordinário baixo norte-americano Paul Robeson. "Can´t stop lovin dat man" é cantada no musical em mais de uma oportunidade. O momento mais dramático acontece quando ela é interpretada pelo personagem Julie, artista principal de um show que é encenado a bordo do " Cotton Blossom ", uma barcaça que sobe e desce o rio Mississipi. Julie aparenta ser uma mulher branca. Queenie, uma cozinheira negra, acha estranho Julie conhecer aquela canção, que só é cantada por negros. Julie, na realidade, é uma mestiça que tenta esconder suas origens. Casada com um homem branco, está sujeita às leis severas do Estado, que proíbem casamentos inter-raciais.

"Can´t help lovin dat man" fez sucesso na voz de Helen Morgan. Ela interpretou Julie na encenação original de 1927, na reapresentação de 1932 e na versão filmada de 1936. Enquanto viva, Helen Morgan foi praticamente dona da canção. Algo semelhante ao que aconteceu com Judy Garland e "Over the Rainbow". Mas ela morreu cedo, em 1941, Seus discos pararam de tocar e a versão filmada de "Show Boat", de 1936, foi obscurecida pelo filme que a Metro produziu em 1951, com Ava Gardner fazendo o papel de Julie. Sem cantar, é bem verdade. Ela foi dublada pelo soprano Annette Warren.

Não resisto à tentação de encerrar minhas considerações sobre a gloriosa trajetória de Jerome Kern sem falar sobre aquela que é, na minha avaliação, a mais extraordinária canção por ele produzida.

"The way you look tonight" foi composta por Kern e Dorothy Fields para o filme " Swing Time ", de 1936. Ganhou naquele ano o Oscar de melhor canção. Dorothy Fields comenta em suas memórias que Jerome Kern em certa ocasião sentou-se ao piano para apresentar-lhe a canção, em sua versão definitiva. Ela simplesmente não conseguia parar de chorar. 

No filme a canção é interpretada por Fred Astaire . Ele está ao piano. Ginger Rogers está se embelezando num cômodo próximo e também fica extasiada com o que ouve.
"The way you look tonight" mereceu dezenas de gravações, dos mais consagrados intérpretes. No cinema, volta e meia ela reaparece. Como aconteceu em "Chinatown", "O Casamento de Meu Melhor Amigo", "O Pai da Noiva", e no clássico de Woody Allen "Hanna e suas Irmãs".