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domingo, 13 de agosto de 2017

3061 - Erradicada, jamais calada



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5321 SX                           Data: 13 de agosto de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


MARIA CALLAS VIVE

O PEC - Programa de Erradicação da Cultura é uma das poucas iniciativas que prosperam em meio à crise que se abate sobre o Brasil nos dias de hoje.

A programação de nossos teatros oficiais é cada vez mais pobre, quando não está suspensa. Seus corpos estáveis, orquestras, coros e corpos de baile, têm seus salários atrasados. Algumas orquestras simplesmente deixam de existir. Esse parece ser o destino da gloriosa Orquestra Sinfônica Brasileira, sem programação para o ano de 2017. Ela demitiu os funcionários de sua área administrativa e não paga salários de seus músicos há exatos nove meses.

Registre-se que o Programa de Erradicação da Cultura tem objetivos consistentes e de longo prazo. Alguns maledicentes podem alardear que o PEC não passa de "fogo de palha". Mas não é verdade. O PEC veio para ficar. As indicações de nomes estapafúrdios para ocupar importantes cargos de direção em instituições culturais deixam clara a consistência do projeto.

Esse desabafo tem a ver com a proposta inicial dessa crônica, a de comentar a extraordinária trajetória do soprano Maria Callas. O primeiro item de nossa pauta é a rivalidade que incendiou os palcos de ópera nas décadas de 50 e 60 do século passado, envolvendo Callas e Renata Tebaldi, outra extraordinária artista.

Muita gente assegura que esse antagonismo teria começado no Brasil, no ano de 1951, quando as duas divas andaram dividindo récitas de "Traviata" e de "Tosca" nas temporadas internacionais de São Paulo e do Rio de Janeiro. Não há como negar que as escalações de Callas e Tebaldi nesses espetáculos foram cientificamente planejadas de forma a ensejar comparações entre as duas cantoras, o que foi feito por "Callasianos" e "Tebaldianos" histericamente distribuídos pelas dependências do Municipal do Rio e do Municipal de São Paulo. Essa disputa chegou a um clímax por ocasião de um concerto de gala promovido no Rio de Janeiro, envolvendo os grandes astros estrangeiros que participavam da temporada internacional.

Na ocasião ficou estabelecido que nenhum cantor poderia "bisar" sua apresentação, por mais extraordinária que fosse a ovação recebida. Todos seguiram à risca essa recomendação. Com uma única exceção: Renata Tebaldi. Todos sabiam que ela era idolatrada pelo promotor da temporada, o deputado Edmundo Barreto Pinto. Callas enlouqueceu. E transferiu seu inconformismo para as temporadas subsequentes, promovidas especialmente na Europa e nos Estados Unidos.

Para confirmar essas informações, consultei "Memórias e Glórias de um Teatro - Sessenta Anos de História do Teatro Municipal do Rio de Janeiro", livro precioso escrito por Edgard de Brito Chaves Jr.. Não me fez bem ler o que aconteceu no Municipal do Rio no ano de 1951. Quinze espetáculos de ópera foram promovidos na Temporada Lírica Nacional. Trinta e três compuseram a Temporada Lírica Internacional, que contou com a participação de Beniamino Gigli, Maria Callas, Renata Tebaldi, Giuseppe Di Stefano, Fedora Barbieri, Elena Nicolai, Tito Gobbi, Boris Christoff, Giulio Neri e Gianni Poggi. Vinte e seis concertos foram promovidos pela Orquestra Sinfônica Brasileira. Sete pela Orquestra do Teatro Municipal. Aos quais devemos somar dezenas de apresentações do corpo de baile. O que dizer do Teatro Municipal nos dias de hoje?

Dito isso, voltamos a falar de Maria Callas. Sobre ela vamos colher o testemunho de seu colega Paulo Fortes, sabidamente um crítico severo: "Sua voz não era especialmente bonita, mas você divide o teatro lírico em duas fases. Antes e depois de Callas. Às vezes, quando cantava, parecia ter um pente fino na boca. Mas era sensacional. Fiz, em 1951, um ensaio de "Traviata" com ela. Eram dois elencos e eu estava no elenco da Tebaldi que, por sua vez, tinha uma voz excepcional, lindíssima. 

Mas Maria Callas tinha um carisma incomparável. Terminado esse ensaio, em que o soprano cantara de forma extraordinária, só faltando fazer chover, passo em frente ao seu camarim e sou por ela chamado: "Sr. Fortes, o senhor me faria uma gentileza? Pedir ao Maestro Ruberti para vir ao meu camarim. Preciso avisá-lo de que não posso cantar amanhã..." Atônito, Paulo Fortes observa: "Mas Senhora, depois de um ensaio soberbo como esse, como a senhora chegou a essa conclusão?" Maria Callas, apontando para a garganta, comenta: "Os falsetes, Sr. Fortes...me faltam os falsetes."

Aquele era o prenúncio do temperamento de exceção de uma grande artista, que ao longo de sua carreira despertou ódios e paixões, levando à loucura maestros, encenadores e dezenas de cantores que com ela contracenaram.

Ela chegou ao Brasil em 1951, pouco tempo depois de colocar a seus pés a plateia do Scala de Milão. O que fez reabilitando óperas que há muito não eram encenadas, notadamente "Il Pirata", "Anna Bolena", "I Puritani" e "Medea". Rapidamente alcançou a dimensão de mito. E, como acontece habitualmente com os mitos, inúmeras informações sobre a cantora permaneciam envoltas em controvérsias. A começar pelo seu verdadeiro nome. Algumas variações são cogitadas. Desde Sophia Cecilia Kalos, até Anna Maria Sophia Kalogoropoulou, nome que consta de sua certidão de batismo. É certo que ela nasceu em Nova Iorque, no dia 2 de dezembro de 1923, filha de imigrantes gregos que ali chegaram no mês de agosto anterior.

Quando seus pais se separaram, em 1937, sua mãe, Evangelia, decidiu retornar à Grécia. No ano seguinte Callas começou a cursar o Conservatório Nacional de Atenas. As controvérsias sobre sua carreira alcançam, também, datas e locais de suas primeiras apresentações. Parece haver consenso de que sua estreia profissional aconteceu na Grécia, no papel de Beatrice, da ópera "Boccacio", de Franz Von Suppé. 
    
Outras discussões acaloradas envolvem aqueles que se propõem a determinar os períodos de apogeu e de declínio de sua carreira. Que foram fortemente influenciados pelo temperamento extremado e reações inesperadas assumidas pela cantora. O apogeu, é voz corrente, aconteceu na década de 50. A divina dama, primadona absoluta, transformou o Scala de Milão no principal palco de ópera do mundo. Callas era idolatrada, mas ao mesmo tempo odiada.

Sua fama não parava de crescer, ao tempo em que ela se tornava cada vez mais imprevisível. Exigia cachês astronômicos e passou a desprezar seus colegas. Depois de sete anos de trabalho com a estrela, tremendamente conturbados, Antonio Ghiringhelli, diretor geral do teatro, deu-se por cansado. Em maio de 1958, depois de uma série de escândalos, demitiu a cantora. Comentou: " Primadonas vão e vem. O Scala fica".

São desse período, também, dezenas de registros históricos que a cantora fez para a importantíssima gravadora EMI, dirigida pelo famoso executivo Walter Legge.

Sua estreia no Metropolitan Opera House somente aconteceria em 28 de outubro de 1956. Coincidiu com uma terrível entrevista publicada pela revista Time, em que Evangelia, mãe da cantora, a acusava de abandono e maus tratos.

Na Ópera de Roma, em 2 de janeiro de 1958, ela se envolveu em uma grande confusão. Depois de uma noitada por muitos testemunhada numa boate da cidade, teve um desempenho abaixo da crítica numa apresentação da "Norma", de Bellini. Estava presente Giovanni Gronchi, Presidente da Itália. Terminado o primeiro ato, Maria Callas teve a péssima ideia de abandonar a apresentação, fugindo por uma saída de serviço. Sua atitude foi apontada pelos jornais como uma afronta à maior autoridade do país.

Em setembro de 1959 Callas anunciou o fim de seu casamento com Giovanni Battista Meneghini, trinta anos mais velho, que perdurava desde 1949. Ela começou um romance de nove anos com o milionário Aristóteles Onassis, que não resultou em casamento e terminou nove anos depois, quando Onassis assumiu seu relacionamento com Jackie Kennedy, viúva do Presidente John Kennedy. Esse episódio, juntamente com um regime de emagrecimento severo a que a cantora se submeteu, resultando numa perda de peso da ordem de trinta quilos, foi apontado como fator importante para o declínio de sua carreira.

Declínio marcado por terríveis eventos. Como aquele ocorrido no Scala de Milão em dezembro de 1961, quando era apresentada "Medea", de Cherubini. Callas estava, mais uma vez, muito mal de voz. E a plateia não escondia seu incômodo. Ela percebe uma vaia iminente. Vira-se para Jasão, interpretado pelo tenor Jon Vickers, e exclama "Crudel!" Um segundo "Crudel !" é, desta vez, dirigido à plateia. Acompanhado da frase "Ho dato tutto a te!" (Eu dei tudo a vocês!). Maria Callas foi delirantemente aplaudida no final da ópera.

Maio de 1965. No papel de Norma ela contracena com Adalgisa, interpretada pela extraordinária e então muito jovem Fiorenza Cossotto. Callas está enfraquecida e exausta. Quase não se ouve sua voz. Cossotto transforma o dueto entre as duas em autêntico duelo. Prolonga suas frases, sabendo que Maria Callas não tem condições de acompanhá-la. Ao final da ópera, com o fechamento da cortina, Callas desmaia em pleno palco.

Para finalizar, talvez a pior ideia que teve em sua carreira: acompanhada pelo tenor Giuseppe Di Stefano, empreender uma excursão por vários palcos da Europa e do Japão. Fazia oito anos que Maria Callas não pisava um palco de ópera. Ambos ostentavam precaríssimas condições vocais, o que se percebeu desde o primeiro concerto, promovido em Hamburgo. Para agravar a situação, eles eram acompanhados ao piano por Ivor Newton, que tinha mais de oitenta anos de idade e falava o tempo todo sobre sua morte iminente, que coincidiria, segundo ele, com um super agudo emitido pela Callas. Certo de que isso aconteceria, Ivor solicitou de um assistente de palco que estivesse a postos para arrastar seu corpo até os camarins do teatro, sem que ninguém da plateia percebesse. Não podia dar certo...

O último concerto dessa fracassada excursão aconteceu em Sapporo, no Japão, no dia 11 de novembro de 1974. Sapporo foi o último lugar do planeta a ouvir a voz de Maria Callas. Ela morreu em Paris, no dia 16 de setembro de 1977.


No ano de 2006 a importante revista Opera News registrou: "Quase trinta anos depois de sua morte, ela ainda é a definição de uma diva como artista e uma das cantoras que ainda vende mais discos".

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

3060 - fogo de palha


           
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5320 SX                           Data: 07 de agosto de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


SUCESSO NEVER MORE


O encontro se repete todo final de tarde. Mario Henrique Simonsen, Paulo Fortes e Carlos Eduardo Nascimento, o “Biscoito”, criador e redator-chefe do Biscoito Molhado, se reúnem para conversar sobre seu assunto favorito, o mundo da ópera. O local, o de sempre. Um barzinho honesto, como de resto acontece com tudo que existe no céu, situado na Avenida da Paz Celestial, quase esquina com Rua dos Arcanjos.

“Biscoito” dá início aos debates com um tema, para ele, absolutamente recorrente. Como explicar que Pietro Mascagni, o autor da “Cavalleria Rusticana”, e Ruggero Leoncavallo, compositor de “I Pagliacci”, tenham alcançado sucesso exclusivamente com essas óperas, passando a vida inteira sem conseguir reeditar esse êxito em tudo o mais que produziram?

Paulo Fortes considerou pertinente a indagação do amigo Carlos, mas ponderou que aquela circunstância, do sucesso jamais repetido, certamente não era uma prerrogativa do mundo da ópera. Comentou que, puxando pela memória, certamente apontaria outros exemplos, relacionados com diversos campos de atividade. Para incrementar a discussão, lembrou o caso do sujeito que, com uma flecha, trespassou a maçã colocada sobre a cabeça do filho muito corajoso. Em tom dramático, próprio dos artistas líricos, indagou: “Quantas vezes mais terá ele repetido essa façanha?” Com a frieza própria dos expoentes da matemática, Simonsen acrescenta: “E se repetiu a experiência, não terá exterminado metade das crianças da vizinhança?”

Paulo e “Biscoito” aceitam a ponderação. Simonsen passa, então, a comentar o sucesso imenso alcançado pela “Cavalleria Rusticana”. Não sem antes salientar que essa ópera não se situa entre suas favoritas. Está, a seu ver, longe de alcançar a dimensão de um melodrama wagneriano, do “Otello” de Verdi ou do “Don Giovanni”, de Mozart. Feita a ressalva, o Professor, dotado de monumental conhecimento sobre o mundo da ópera, dá início à sua digressão. Lembra que em 1886 Mascagni, com 26 anos de idade, não passava de um obscuro músico de uma pequena cidade no interior da Itália. Ostentava um curriculum inconsistente e irregular. Havia produzido uma “Messa di Gloria” e várias peças litúrgicas, sem qualquer repercussão. Estava trabalhando numa ópera intitulada “Guglielmo Ratcliff”, baseada numa peça de Heinrich Heine. Foi quando tomou conhecimento de um concurso promovido pelo famoso editor Edoardo Sonzogno, voltado para a premiação de uma ópera composta em um único ato.

Mascagni decidiu musicar um romance de Giovanni Verga, do qual já fora extraída uma tragédia de sucesso, estrelada pela grande atriz Eleonora Duse. A ópera de Mascagni venceu o concurso de Sonzogno praticamente por aclamação popular. Sua estreia, no Teatro Constanzi, de Roma, em 17 de maio de 1890, significou a consagração instantânea de Pietro Mascagni. Nos anos subsequentes, “Cavalleria Rusticana” ganhou os palcos de todo o mundo. Em determinado momento, chegou a ser apresentada, simultaneamente, em sessenta teatros de ópera.

Carlos Eduardo, o “Biscoito”, ousa fazer alguns acréscimos aos comentários do Professor Simonsen. Lembra que o texto de Verga havia sido publicado pela primeira vez num jornal de pouca expressão, em 1880. Sua adaptação para o teatro aconteceu em 1883. Pietro Mascagni assistiu à encenação quando de sua apresentação em Milão. Para participar do concurso de Sonzogno, o compositor abandonou seus projetos que estavam em andamento. A partitura da “Cavalleria” ficou pronta em 1889. Mas aí aconteceu o inesperado. Considerando que sua música não estava à altura do concurso, Mascagni decidiu não apresentá-la. Quem o fez foi sua mulher, Lina Carbognani. Mesmo chegando às mãos dos juízes com três dias de atraso, ela foi escolhida por unanimidade.

Decidido a não ficar calado, Paulo Fortes menciona outros trabalhos de Pietro Mascagni. Especialmente duas óperas que havia cantado, “Iris” e “L´Amico Fritz”. As duas estiveram longe de alcançar o sucesso da “Cavalleria”. Mas são dois trabalhos repletos de melodias maravilhosas. “L´Amico Fritz” foi produzida em 1891. Um trabalho lírico, sentimental, em que, segundo o barítono, nada de muito dramático acontece. O compositor parecia querer responder à insinuação de que o sucesso da “Cavalleria” se devera exclusivamente à qualidade do libreto e ao potencial da ação dramática contida no texto de Giovanni Verga.

A ópera não fez sucesso. Sucesso que Mascagni permaneceu buscando, em vão, durante os cinquenta anos seguintes. Sobre essa frustração, Paulo lembra uma lamentação do compositor: “ Foi uma pena. Escrevi a “Cavalleria” primeiro. Fui coroado antes de ser rei...”

Nesse ponto da conversa os três amigos concluem que o tema “Cavalleria “Rusticana” está devidamente analisado. “Biscoito” é desafiado a abrir os trabalhos referentes a “I Pagliacci”, a ópera famosa de Ruggero Leoncavallo. Aceita a incumbência, o criador do Biscoito Molhado lembra que o início da carreira do compositor não havia sido nada promissor. Sua primeira ópera, “ Tommaso Chatterton “, deixou de ser encenada porque, às vésperas de sua apresentação, o empresário fugiu com o dinheiro.

Outra tentativa aconteceu com a ópera “I Medici”, primeira de uma trilogia épica nacional, concebida à maneira de Wagner. O tema era o renascimento italiano e ela seria completada com mais duas obras. O editor Ricordi chegou a financiar aquele primeiro trabalho mas ele foi por muitas vezes adiado.

Lembrou Carlos Eduardo que Leoncavallo decidiu lutar pela sobrevivência primeiramente no Cairo e, posteriormente, em Paris. Foi na cidade-luz que sua vida começou a mudar. Ali ele fez amizade com o célebre barítono Victor Maurel. Este o convenceu a tentar seguir os passos de Pietro Mascagni, que fazia muito sucesso com a “Cavalleria Rusticana”.

O compositor decidiu apostar todas suas fichas nesse projeto. Ele viajou para Chiasso, um lugarejo que fica no cantão italiano da Suiça. Durante cinco meses de trabalho ininterrupto produziu o libreto e a música de “I Pagliacci”, seguindo muito de perto os métodos de Mascagni.

No concurso de Sonzogno, no entanto, Leoncavallo não obteve o mesmo sucesso. Ele encontrou dificuldades para adaptar sua ópera às normas do certame. “I Pagliacci” tinha originalmente dois atos.

Simonsen, até então quieto, comentou que o destino havia reservado uma série de coincidências para os dois compositores. Ambos participaram do importante concurso promovido pelo editor milanês Sonzogno. O fato de suas obras serem de curta duração resultou em outra incrível coincidência: as duas óperas costumam ser apresentadas em programa duplo. Tornaram-se, de certa forma, gêmeas nas temporadas líricas dos teatros de todo o mundo. E, finalmente, uma terceira coincidência, desta feita cruel. Tanto “Cavalleria” quanto “Pagliacci” foram obras produzidas no início das carreiras dos dois compositores. E o imenso sucesso que fizeram jamais seria repetido. Tanto Mascagni quanto Leoncavallo passaram o resto de suas vidas na tentativa de reeditar aquele êxito. Em vão.

Para evitar o que definia como “entrar mudo e sair calado”, expressão que usava para ridicularizar papéis insignificantes no mundo da ópera, Paulo Fortes decidiu arrematar a conversa lembrando que Leoncavallo tinha sido um grande amigo do extraordinário tenor Enrico Caruso. E que a gravação que este fizera da ária “Vesti la Giubba”, de “I Pagliacci”, foi a primeira a vender mais de um milhão de cópias. Um feito histórico. Acrescentou que a ópera de Leoncavallo foi a primeira a ser gravada em sua versão completa. E a primeira a ser filmada, também completa. Finalizou sua intervenção observando que o título original da ópera era “Pagliaccio”, e não “I Pagliacci”. A pedido do barítono Victor Maurel Leoncavallo adotou o título no plural. Maurel queria valorizar o papel de Tonio, a ele destinado. No singular, “Pagliaccio” enfatizava apenas a parte de Canio, o tenor.


Simonsen não se sentiu intimidado diante dos conhecimentos revelados pelo barítono. Pelo contrário, desafiou Paulo Fortes a apresentar alguma revelação bombástica em relação ao “Don Giovanni”, de Mozart. No próximo encontro do “trio”, deixaria clara sua proficiência insuperável em tudo que diz respeito à genial criação de Wolfgang Amadeus Mozart.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

3059 - roda pra cá, roda pra lá


           
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5319 FM                           Data: 04 de agosto de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


O POVO CIGANO


A história do povo cigano é cheia de mistérios, contradições  e lendas, primeiro porque teria sido contada  apenas oralmente. Não há, portanto, o que possa  ser indicado como autêntico, na vida desse povo místico, errante, cujos primeiros movimentos migratórios  teriam começado ao longo  do século X, quando chegaram à Europa Ocidental, vindos do Oriente Médio. Há fortes indícios que poderiam sugerir que seriam originários primeiramente do Egito. Eles próprios fantasiavam as informações, atribuindo-se de procedência misteriosa e lendária, naturalmente  uma estratégia de proteção, frente a populações em que eram minoria e, em parte, como postos em  cena seus espetáculos e atividades pessoais. Isso é constatado por fontes de informações modernas, obtidas em testemunhos escritos e através de análises linguísticas e a genética populacional.


No século XVIII, o estudo da língua cigana (o romeni) seria derivada de língua indo-ariana, o que poderia demonstrar que a origem do povo estaria no Nordeste do subcontinente indiano (onde atualmente existem os estados modernos de Índia e Paquistão). Estudos modernos indicam que a língua, baseada nos dialetos europeus, pode localizar-se na Índia Central e, por “empréstimos”, dos territórios por onde migraram desde  o século II a.C. ao século XIV, dos persas ou, por semelhanças, dos gregos e dos eslavos. Posteriormente dos búlgaros e dos espanhóis. Em sua estada nos Balcãs, absorveu o vocabulário germânico e, a partir do século XV as correntes migratórias distribuíram-se por toda a Europa. No século XVI, eles sofreram revezes, sendo expulsos de várias cidades. Com o Descobrimento da América, em 1492, começaram a tomar o rumo do Novo Continente, fugindo de perseguições, marginalizações, castigos e escravização.


 Indica-se que Cristóvão Colombo, em sua terceira viagem à América, teria levado os três primeiros ciganos em sua comitiva. Posteriormente, ocorreram deportações  da Europa para o Novo Mundo, por parte de Portugal. Da Espanha, somente podiam viajar com permissão expressa do  rei Filipe I. Logo foi estabelecida proibição da entrada de ciganos na América, tendo sido determinado o retorno dos já enviados. A onda de migrações diminuiu com o começo da I Guerra Mundial, reiniciando-se em 1989 ano em que começou a terceira diáspora cigana. As migrações iniciadas no século XX não significaram melhoria de condições de vida dos ciganos. Ao contrário, agravou-se durante a II Guerra Mundial, com o advento do nazismo, quando pelo menos 20 mil ciganos morreram nos campos de concentração, levados aos fornos crematórios. Investigadores aceita que os ciganos poderiam ter abandonado a Índia em torno do ano 1000, atravessado a região que é hoje o Afeganistão, a Pérsia, a Armênia e a Turquia, originariamente do estado desértico do Rajastão, havendo povoações  ciganas oriundas  no Irã, com o nome de lúrios. Teriam partido em duas vertentes, uma rumo à Europa, através da Grécia, outra para a Síria, Egito e Palestina.

No século XII, enfrentaram o avanço  muçulmano que tentava impor sua religião na Índia e lutado contra os Sarracenos por muitos século, até a Idade Média. Uma de suas fantasias atribui sua descendência relacionada a Caim. Algumas tradições os identificam com magos caldeus da Síria ou com uma tribo de Israel fugida do Egito do tempo dos faraós. Outra lenda, balcânica, considera os ciganos forjadores (ou ladrões) dos pregos da Cruz de Cristo, motivo pelo qual teriam sido condenados a viver errantes mundo  afora.

 Estima-se que existam entre 700 mil e um milhão de ciganos  no Brasil. Em Portugal chegam a 40 mil. Em toda a Europa, de acordo com dados do Banco Mundial,   existe uma população cigana estimada entre sete e nove milhões, a grande maioria vivendo em péssimas condições econômicas e sociais.





quarta-feira, 2 de agosto de 2017

3058 - Cavalos e burros no conversível


           
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5318 SX                           Data: 2 de agosto de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


A VIDA É UMA MERCURY


Alfredinho chega na praia no horário habitual. Passa do meio dia e sua cara amarrotada denuncia uma noite atravessada em endereços pouco recomendáveis do Rio de Janeiro.
Com esforço, consegue abrir os olhos e enfrentar o sol que ferve as areias de Ipanema naquele verão de 1954. Localiza sua turma, estacionada em torno da rede de vôlei da Joana Angélica. André, amigo do peito, é abordado sem cerimonia: “Precisamos ir a São Paulo no sábado que vem”. Não dá chance ao amigo para desqualificar o programa. Explica que o problema é a Dorinha. Que não consegue viver sem ela. Que o xeque-mate que recebera do pai da moça “ou casa ou ela me acompanha no meu novo posto em Washington!” tivera sobre ele um efeito devastador. Dá início a um festival de imprecações: “Aquele coronel de titica! Nanico! Bigode torto! Dois palmos menor que a mulher dele!...

André faz contas para tentar argumentar que a mulher do coronel não era assim tão maior do que ele. Mas prefere discutir a essência da questão. Afinal, o “dá ou desce” do coronel havia ocorrido meses atrás. Por que aquele desespero, agora?

“É porque tá chegando a hora, André...É porque tá chegando a hora. Eu tô desesperado...Não há nada que me console...Não há farra que me acalme...Eu não aguento mais...A Dorinha...Que fleuma, André...Que distinção!...Ela diz que entende minha situação...Que eu ainda tenho muito a aproveitar...Uma deusa, uma verdadeira deusa!...”

André não se atreve a discordar. Só não entende o porquê da viagem a São Paulo. Alfredinho engrena a explicação. “Prá deixar a filha casar, o coronel exige que a gente compre um apartamento. Pode até ser pequenininho, mas tem que ter um apartamento. Com que dinheiro? Com aquela mixaria que eu ganho no banco? Impossível”. Explica, então, o seu plano: “Você se lembra do J. Benitez? Aquele jóquei chileno safado de doer? Pois bem, eu contei prá ele o meu drama e ele disse que tem a solução. No domingo que vem um páreo importante vai ser corrido no Jockey Clube de São Paulo. O volume de apostas vai ser alto. Nesse tal páreo vai correr um cavalo chamado Turbinado. Pangaré horroroso. Não ganha nem par ou ímpar disputado na cocheira. Mas um grupo de sujeitos ligados ao Benitez vai dopar o matungo e, tão certo como dois e dois são quatro, ele vai ganhar de barbada. Um azarão como esse paga um prêmio altíssimo. Quem apostar recebe de volta o capital investido multiplicado por mil, dez mil...sei lá...”

André entende. Mas nem por isso aceita de imediato o convite. Começa uma negociação: “De trem eu não vou. Acho um saco. De ônibus, então, nem pensar. Coisa de pobre. Me dá enjôo. Você bota teu carro na estrada? E paga a gasolina?” Alfredinho topou. Não gostava nada da ideia de submeter seu precioso automóvel a uma viagem tão longa. Mas não tinha jeito. Topou.

A jóia do Alfredinho era uma Mercury 1950, conversível. Preta. Preta com estofamento vermelho e preto. Era a sua paixão. Comprara o carro dois anos antes, ainda zero quilômetro, num leilão da alfândega, juntando para isso dinheiros provenientes de uma infinidade de origens: pequenas heranças recebidas do pai e de uma tia solteirona, venda de um sítio em Miguel Pereira, venda de um piano, empréstimo no Banco Moreira Salles e por aí vai. Em dois anos o carro não chegara a rodar nem 5 mil quilômetros. O que já estava gasto era o manual do proprietário, de tanto o Alfredinho mostrar para os amigos os predicados do automóvel. “Olha aí, dizia ele: tem power top, power windows, power front seats, leather interior, full instrumentation, whitewall tires...” Todos ficavam maravilhados.

André partiu, então, para a segunda etapa da negociação. “ O Rangel pode ir?” “Pode”, concordou o Alfredinho. “ E o Zé Roberto?” “Pôxa, André, o Zé  é muito gordo...Vai reduzir nossa velocidade...gastar muita gasolina...pode até quebrar as molas do automóvel...” “ Sem o Zé eu não vou”, impôs o André. Ficou resolvido, assim, que o Zé iria. “ E o Renatinho?” A sugestão despertou a ira do Alfredinho: “ Não, não e não! Cinco no carro eu não levo! Além do mais, todo mundo sabe que o Renatinho dá azar! O bicho tem uma tremenda urucubaca! Lembra a Copa do Mundo, quando ele começou a gritar “ É campeão! É campeão!” Na mesma hora o Uruguai foi lá e fez 2 x 1 ! E quando ele foi preso no Baile do Municipal ? Mil e quinhentas mulheres livres e desimpedidas e ele canta a nora do chefe de polícia! Não dá mesmo! O Renatinho, não!”

André cedeu. Ficou tudo combinado para a viagem, no sábado seguinte. Sairiam do Rio bem cedo, ainda de madrugada, para chegar em São Paulo no comecinho da tarde. No dia seguinte compareceriam ao hipódromo, para levantar a grana que resolveria o problema do Alfredinho.

A Viagem

Sábado seguinte. São quatro da manhã e todos estão reunidos na garagem da casa do Alfredinho, na Nascimento Silva quase esquina de Joana Angélica. A maravilhosa Mercury sai da garagem espremida e todos embarcam com destino à Rodovia Presidente Dutra. Tudo está às escuras. Na Avenida Rodrigues Alves, o cais do porto ainda dorme. Só o que se vê são as luzes amareladas dos navios. Um transeunte, retardatário ou madrugador, caminha encolhido, parecendo assustado com a cerração que cobre aquela região mal afamada do Rio de Janeiro.

Em 20 minutos a Mercury chega à Via Dutra. Uma hora depois os faróis do automóvel já podem ser apagados. Horto Florestal de Santa Cruz...Belvedere...Ponte Coberta...a Mercury segue em direção ao Monumento Rodoviário. Passa o represamento do Rio Guandu, que fornece a água consumida no Distrito Federal. Saída para Volta Redonda, à direita. Resende. Estado de São Paulo. Lavrinhas, Cruzeiro. A partir daí Rangel, que nasceu no interior do estado, não pára mais de falar: “ Cachoeira Paulista tem 6.800 habitantes. Lorena foi denominada Porto de Hepacoré, o que significa, em tupi-guarani, lugar das goiabeiras. Virou Lorena quase no final do século XVIII, em homenagem ao Capitão General Bernardo José de Lorena. Guaratinguetá tem 21 mil habitantes . Foi fundada em 1651...” Em Aparecida, a Mercury pára e é reabastecida. Rangel continua o discurso. “ Taubaté tem 35 mil habitantes. Foi aldeia dos índios Guaianazes, e se chamava Itaboaté...”

Nesse ponto, André interrompe a aula, toma coragem e confessa que Renatinho, o maior azarado do planeta, não aceitara ficar fora da excursão. Possivelmente até já estaria em São Paulo, tendo embarcado na “litorina” que saíra da Central do Brasil na noite anterior. Alfredinho ficou furioso. Berrou durante meia hora, só se acalmando quando concluiu que Renatinho jamais chegaria a São Paulo. Certamente o trem iria enguiçar no meio do caminho.

Passava um pouco do meio dia quando a Mercury alcançou as ruas de São Paulo. Um lanche rápido e os quatro amigos se dirigiram ao hipódromo de Cidade Jardim. Conforme o combinado, encontraram o chileno Benitez na cocheira de Turbinado. A aparência do cavalo era a pior possível. Parecia impossibilitado de caminhar, quanto mais correr...

Ouviram, então, as explicações do Benitez e dos três sujeitos mal encarados que cuidavam do cavalo. Meia hora antes do páreo o animal receberia a injeção de um coquetel poderosíssimo de medicamentos, capaz de transformá-lo num belzebu de patas. Tudo cientificamente planejado: dosagem, distância do páreo, etc..

Surgiu, então, um probleminha. Os sujeitos mal encarados exigiram dinheiro do Alfredinho, um “pedágio” pela sua participação naquela empreitada lucrativa. Não teve jeito, o pedágio foi pago.

Feitas as contas, Alfredinho chegou à conclusão de que o dinheiro que sobrara para apostar era muito reduzido. Turbinado pagaria um prêmio altíssimo, mas mesmo assim era imprescindível apostar uma quantia compatível com o retorno que precisava obter.
                                 
Disposição Sanguinária  
          
Alfredinho já havia ido muito longe. Com lágrimas nos olhos, dirigiu-se à boca de automóveis e vendeu a Mercury por um valor muito abaixo do preço de mercado.

A raiva que acumulara foi despejada no Renatinho, encontrado à noite no hotel de categoria duvidosa em que se hospedaram, na Rua Aurora. “Se você aparecer no hipódromo, eu te mato!”, gritava. “Fervo teu pâncreas!”, bradava, enfatizando incontida disposição sanguinária.

No dia seguinte, chegaram cedo ao Jockey Clube. Turbinado correria no quarto páreo. Nervosismo geral. Benitez logo apareceu no setor das populares para acalmar a turma e afiançar que nada poderia dar errado. “Já tomou a injeção. Está cuspindo fogo pelas ventas! Dando coices nas paredes da cocheira!...”

Alfredinho sentiu-se confiante. Fez as contas e logo se imaginou abraçado com a Dorinha, passeando na praia de Ipanema com a Cadillac conversível que iria comprar com as sobras do seu investimento.

Chega a hora do quarto páreo. Galope de apresentação. Turbinado cruza como um foguete a reta do hipódromo paulistano. Seu jóquei faz um esforço enorme para contê-lo. O bicho parece não se conformar com o intervalo de tempo que separa canter e corrida propriamente dita. Está disposto a correr não só o quarto como também todos os demais páreos do programa.

Turbinado em Ebulição

Chega a hora da adrenalina máxima. No alinhamento, os cavalariços lutam para conter o ímpeto de Turbinado. Quando conseguem que o animal fique quieto por um segundo, a largada é dada e o bicho parte como um foguete. Assume a liderança do páreo mas não consegue ainda se destacar dos demais competidores. O coração de Alfredinho não cabe mais dentro do peito. André, Rangel e Zé Roberto gritam de pé sobre seus assentos. O locutor do hipódromo narra a disputa a plenos pulmões: “ Os competidores contornam a grande curva e entram na reta final!” Nesse momento as “vitaminas” de Turbinado parecem entrar em ebulição. O bicho livra um, dois, três corpos de luz sobre o segundo colocado. A distância não pára de aumentar, Turbinado corre um páreo à parte. Está meia reta à frente do rival mais próximo. Coisa nunca vista no mundo das corridas de cavalos. O disco de chegada se aproxima.

Nesse momento, Renatinho, que desobedecera a ordem de Alfredinho e permanecera escondido próximo ao portão de acesso às arquibancadas, aproxima-se eufórico dos amigos, aos gritos de “ Não perde mais! Não perde mais!”

Foi o bastante. A dez metros da linha de chegada Turbinado desabou, projetando longe o seu jóquei. Colapso fulminante, logo diagnosticado pelos veterinários.

Renatinho preparou-se para morrer. Mas, surpreendentemente, Alfredinho permaneceu calmo. Olhos fixos no horizonte, sem dizer nada. Sonado, abobalhado. Saiu do hipódromo apoiado no ombro dos amigos, sem dizer uma palavra.

À  noite, embarcaram na rodoviária. Ônibus do Expresso Brasileiro. Silêncio absoluto. Fazia, já, sete horas que Alfredinho não proferia uma palavra. Permanecia a expressão distante, aparvalhada.

O ônibus cruza a Via Dutra, concluindo a dramática aventura. De repente, ouve-se baixinho a voz do Rangel: “ Jacareí, fundada em 1652. Seu nome significa, em tupi-guarani, Rio dos Jacarés...”


O ônibus pára mais adiante, em São José dos Campos. Lá, três imensos patrulheiros rodoviários conseguiram, com o auxílio de uma chave de roda, abrir a boca do Alfredinho, trincada na carótida do Rangel. 
           

sábado, 29 de julho de 2017

3057 - Come-se bem na Pauliceia Desvairada


           
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5317 LZ                         Data: 29 de julho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO      ANO XXXIV

A RUA DO CAPETA

Não sei se a rivalidade que sempre existiu entre Rio de Janeiro e São Paulo pode ser comparada com as pendengas que envolvem brasileiros e argentinos. Acho até que a coisa está amainando. Muito por conta da decadência que atinge o Rio de Janeiro. Fica difícil exercitar com competência nossa implicância se nossos filhos estão se mudando para São Paulo, em busca de oportunidades, empregos melhor remunerados e um pouco mais de segurança.

Vinícius definia São Paulo como o túmulo do samba. Não sou tão implicante como o poeta. Mas jamais qualifiquei como “um programaço” visitar a Terra da Garoa. Lá compareço, quando necessário. Foi o que aconteceu na semana passada. Uma visita que eu e minha mulher fizemos a uma amiga adoentada.

Cumprido esse ritual, ocorreu-nos conhecer a famosa Rua 25 de março. Ela equivale à nossa Saara. Para quem não sabe, a sigla significa “Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega”. Foi nessa rua que se implantou um imenso shopping a céu aberto, que acabou por se espalhar pelas ruas próximas, todas fechadas ao tráfego de veículos.

Nada a ver com a tal da 25 de março. Aquela foi, realmente, uma terrível experiência! 

Bairrismo à parte, defino aquilo como uma sucursal do inferno (que me perdoe o Capeta). Uma gritaria enlouquecedora, excesso de gente, preços altos e, como se não bastassem todos esses horrores, a rua é aberta ao trânsito! A todo momento os carros só faltam empurrar as pessoas que lá passeiam, olhando as lojas. Na rua os camelôs trabalham em pé, sem mesinhas, atordoando os passantes com ofertas proferidas aos berros. Marisa e eu fugimos apavorados. Mas sem correr. Quem poderia, naquele Maracanã lotado?

Fomos em direção ao Mercado Municipal, ali perto. Que me perdoem os paulistanos, o tal mercadão só é bonito nos powerpoints bairristas por lá produzidos. Trata-se de outro antro super povoado, barulhento e caro. Pastéis a partir de 20 reais! Conseguimos, apesar do tumulto, uma mesa vazia num bar (tremenda sorte, ela vagou quando estávamos por perto...). Sentamos, chamei uma moça, vestida com o uniforme do estabelecimento. Foi logo informando que ali não se fazia atendimento nas mesas. Era preciso ir ao caixa, pedir o que desejássemos e depois, no balcão, pagar o que havia sido escolhido. Marisa ficou me aguardando enquanto eu saía à cata do caixa, distante do local das mesas. Olhei na direção do guichê e observei uma fila maior que a anaconda do filme. E tão feroz quanto. Voltei e expliquei à minha mulher a inviabilidade do nosso projeto.

Decepcionados, retornamos à estação do metrô, três quarteirões adiante. Tivemos que passar de novo pelo tumulto da já temida 25 de março. Foi quando Marisa proferiu uma verdade absoluta: “No Rio, somos felizes e não sabemos!” Fácil explicar: 13 milhões de habitantes, na nossa região metropolitana, provocam um caos menor do que os 20 milhões que atormentam a Terra da Garoa (os ladrões engravatados do Rio de Janeiro deixam de ser contabilizados no fechamento dessa conta...).

Vamos considerar, também, que nossa Saara é toda destinada aos pedestres. E sempre teremos Copacabana! Eu sabia que um dia, de alguma forma, ainda iria parafrasear Casablanca!

Mas, sendo justos, é preciso fazer alguns comentários favoráveis à São Paulo em relação a fatos que lá observamos. O policiamento é ostensivo e numeroso. Bem diferente do Rio de Janeiro. Duplas de policiais a cada meio quarteirão, não só na 25 de março, como nas transversais e dentro do mercadão. A um deles fomos pedir uma informação que nos foi dada com rapidez, conhecimento e cortesia. Outra coisa importante: como funciona bem o serviço de Uber por lá! Carros novos e limpos, motoristas pontuais e gentilíssimos. Preços, além de muito inferiores ao dos táxis, como também no Rio, sempre arredondados para baixo. Nós sempre os aproximávamos para cima. Afinal, eles mereciam. Outro aspecto importante: como os uberistas pareciam felizes de estar transportando cariocas! Tudo era motivo para elogiar o Rio, nossa descontração e bom humor! Alguns deles conheciam um ou outro ponto do Rio e mencionavam isso com verdadeiro orgulho. Um deles, certamente exagerado, chegou a nos dizer que ganhava o dia quando um carioca entrava no seu carro.

Por algum motivo o metrô, quando saímos do tumulto da 25, já estava mais cheio do que quando viemos. Foi meio difícil entrar, mas conseguimos. A mim, graças à minha calvície e remanescentes fiapos brancos, gentilmente foi oferecido um assento. Que eu sempre aceito por causa do meu menisco rompido. Voltamos, então, para a estação próxima do hotel. Fica dentro do Shopping Santa Cruz. Em sua praça de alimentação come-se com conforto e preços módicos. Daí, sensatamente, fomos relaxar no excelente quarto do Hotel Planalto, na Rua Afonso Celso, Vila Mariana. Seu dono, Sr. Manoel, merece também um comentário: português dos sapatos aos cabelos pintados de preto, aparentando estar na faixa dos 60, ao lhe escutar o sotaque, perguntei de que região ele era. “Nasci aqui na capital mesmo, fui criança para Portugal e retornei ao Brasil já adulto.” Espantoso! E o homem era de uma simpatia total. Grande empreendedor, é proprietário de três hotéis e de um restaurante. Muito simples, ele rega o jardim do hotel sem tirar o paletó! “Faço isto porque gosto, tenho quem o faça, mas eu faço melhor,” e sorriu.

À noite chamamos um Uber que nos levou a uma “trattoria,” no Bexiga, chamada “Belvedere”. Lá, em ambiente tranquilo e simpático, fomos atendidos por um garçom idem e, com música ao vivo que compreendia Roberto Carlos, além das manjadíssimas, mas sempre agradáveis, “Volare”, “Champagne” e “Roberta”. Pedimos uma massa de que nunca havíamos ouvido falar: “mezzalona”. Muito massuda, mas o molho e o parmesão, a bem da verdade, estavam maravilhosos. Na saída, fui falar com o dono, Signor Sesto, em italiano, naturalmente. Um cidadão idoso e irradiando amabilidade, ele encheu meu ego perguntando se eu era italiano. Respondi que era filho de pai italiano e que falava sua língua desde criança, por isso, sem o sotaque brasileiro. Brincando com ele, disse que só tinha o sotaque de brasileiro quando falava português. Não sei se ele entendeu..
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Na próxima ida à São Paulo, pretendo mostrar à Marisa a elegância e as delícias da chiquérrima Rua Avanhandava.

(*) Luciano Zanelli estreou hoje no seu O BISCOITO MOLHADO e nos enche de preocupação. Além de perdermos eventuais leitores paulistas, percebemos que dos seis leitores reconhecidos, cinco já são redatores. Só falta a Elvira.