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segunda-feira, 24 de julho de 2017

3055 - Montes, ou seja, coleções



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5315 SX                           Data: 24 de julho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


  MALUCOS. OU MELHOR: COLECIONADORES

Li em algum lugar algo que me deixou preocupado. Dizia que colecionar, qualquer objeto que seja, não é coisa de gente boa da cabeça. Por outro lado, quem mantém não uma, mas várias coleções, deve ser mantido acorrentado ao pé da cama.

Estou enquadrado na segunda categoria. Muito preocupado, portanto.

Esse tema ganhou importância quando de minha última mudança, da Anita Garibaldi para a Paula Freitas. As duas ruas ficam em Copacabana. Poderia ser uma operação tranquila. Não foi o que aconteceu, não sou mais um garoto, quase enlouqueci transportando no meu carro, da Anita até a Paula, uma tonelada de equipamentos de som, trens elétricos e miniaturas de automóvel.

Claro que alguém vai indagar: "Cara, você nunca ouviu falar de 'Gato Preto?' Da 'Lusitana?' E de outras dezenas de empresas de mudanças?" A resposta, definitivamente, é "Não me interessa". Colecionadores são ciumentos, desconfiados e neuróticos. Inadmissível confiar a tarefa de transportar suas preciosidades a truculentos e insensíveis funcionários dessas empresas.

Foi o décimo terceiro trabalho de Hércules. Somente minha coleção de canetas, por motivos óbvios, não deu problemas. Duas caixas de sapato são suficientes para acomodar o incrível acervo de canetas Parker que juntei ao longo dos anos. Nos meus tempos de ginásio, ostentar uma "Parker 21," "51" ou "61" conferia ao proprietário status insuperável. Castas inferiores usavam as "Compactor," "Esterbrook" e "Optimat". Seres inferiores, bem se vê. Nunca vou esquecer o dia em que estreei no Santo Inácio minha "Parker 61" azul turquesa, presente de aniversário de meu tio. Algo comparável ao episódio em que os silvícolas saudaram Diogo Álvares Correia aos gritos de "Caramurú! Caramurú"!

Complicado foi transportar meus equipamentos de som. Tenho presente na minha cabeça que a música refinada que aprecio somente pode ser tocada em aparelhos de altíssima qualidade. Receivers Marantz, caixas acústicas JBL e gravadores Nakamichi ou Revox foram acumulados durante anos. Para desespero de minha mulher. O problema é que alguns Marantz e caixas JBL chegam a pesar mais de trinta quilos. Dois anos depois da mudança ainda estou cansado da aventura que foi transportar, num só dia, oito caixas acústicas até a Paula Freitas. Perdi 4cm de altura. Beth teve que refazer a bainha de minhas calças, diante do encurtamento de minhas pernas.

O "carreto" de dezenas de caixas de trens elétricos Lionel também foi uma tarefa olímpica. Minha paixão pelos "Lionel" começou cedo. Paulo Fortes cantou uma "Traviata" no Municipal, recebeu um belo cachê e correu até a Feira de Leipzig, tradicional loja de brinquedos situada na esquina de Sete de Setembro com Rodrigo Silva. Saiu de lá com meu presente de Natal, uma caixa imensa contendo um trem completíssimo, repleto de acessórios. Poucos meses depois, o cachê de um "Trovador" foi transformado em outra caixa gigante. De lá para cá só fiz aumentar meu império ferroviário.

Minha super coleção de miniaturas de automóvel vai ser tratada em minha próxima crônica. Acho que faz sentido, diante da quantidade de histórias envolvidas...

Colecionadores tendem a justificar suas excentricidades apontando exemplos de outros companheiros envolvidos em situações também esdrúxulas.

É o que faço. Tomo como exemplo meu amigo Carlos Alberto Torres, que não é o capitão da Copa de 70. Ele tem uma esplêndida coleção de escudos de automóveis. Daqueles que são afixados nas grades dianteiras dos automóveis antigos. Uma verdadeira maravilha! Mas, para compensar, o Carlos Alberto também coleciona manteigueiras. Imagino que esteja com o colesterol nas alturas.

Roberto Dieckmann, o Editor do "Biscoito Molhado", é um grande ajuntador de barbeadores elétricos. Quando soube de sua mania, fiquei impressionado. Aquilo não me parecia, de modo algum, algo colecionável. Até que tive acesso ao acervo do meu amigo. A evolução tecnológica daqueles artefatos e, especialmente, do seu design, estavam ali presentes a justificar a mania do nosso Editor.

Meu amigo Chicô Gouveia, o famoso decorador, coleciona tudo que diz respeito a "Tintin," personagem famoso de Hergé, o grande desenhista nascido na Bélgica. O médico Henri Braunstein coleciona bicicletas. Não são muitas. Quarenta, talvez. Nada comparável à coleção de latas de cerveja do Ronaldinho. São mais de dez mil. Todas vazias. O conteúdo, ele bebeu faz tempo.

Além desses, costumo relatar mais dois casos com o intuito de provar que não sou tão maluco quanto alguns pretendem insinuar. Em certa ocasião, frequentador da loja Hobby Center na galeria do Cine Bruni Copacabana, conheci um sujeito que disse colecionar "kits" da Revell. Alguém se lembra deles? Eram aviões, automóveis e navios acondicionados em lindas caixas, repletas de partes plásticas que, montadas por pessoas habilidosas, resultavam em verdadeiras obras de arte. Nunca fui um especialista no assunto. Mas a conversa fluiu, até o momento em que não pude disfarçar um certo espanto quando o cidadão me disse que era o feliz possuidor de dez kits do turbo-hélice "Electra," da Varig, há tempos lançado pela Revell. Mesmo inapetente em relação à matéria, eu sabia que aquele era um item raríssimo, disputado a golpes de sabre pelos especialistas. Devo ter feito uma senhora cara de espanto. O certo é que fui prontamente desafiado pelo meu oponente: "Quer ver? Moro aqui mesmo nesse prédio, no quinto andar".

Não tinha nada a perder, aceitei o desafio. Pude constatar que a informação do sujeito não estava completamente certa. Impossível alguém "morar" no tal apartamento. Ele estava abarrotado de kits da Revell. Quantos? Dez mil? Quinze mil? Não sei precisar. Sei que não se podia andar ali dentro. Havia caixas do chão até o teto. Não se via janelas, paredes ou portas. Caminhar entre os cômodos? Chance zero. Dez kits do Electra da Varig? Bobagem... Eu estava diante de um maluco recatado. Devia ter muito mais que isso.

Falta um detalhe para finalizar esse capítulo da crônica. Pois lá vai: todas as caixas dos Revell daquele alucinado estavam ainda envoltas em papel celofane. Jamais haviam sido abertas! O cara nunca havia montado um avião, um navio ou um automóvel! Esse sujeito sim, devia ser acorrentado ao pé da cama...

Outra visita, bem mais recente, também veio atestar minha sanidade mental. Fui convidado a conhecer um gigantesco apartamento em Copacabana, de um senhor interessado, como eu, em miniaturas de automóveis e trens elétricos Lionel. Milhares de trens e carrinhos, amontoados sem o menor critério. A título de brinde, havia, também, uma montanha de equipamentos de som. De altíssima qualidade, notadamente dezenas de gravadores Revox, sonho de consumo dos audiófilos. Completamente destruídos pela maresia. Além disso, o sujeito também mantinha prateleiras e mais prateleiras cheias de aparelhos destinados a testar válvulas. Qual o sentido de colecionar isso? Essa, sinceramente, eu não entendi. Para fechar o capítulo, vale mais um registro. Esse cidadão devia ter, na minha estimativa, uns 90 anos de idade. Ele revelou a necessidade de comprar mais um apartamento, para acomodar suas futuras aquisições.


Sou, portanto, um cara normal. Ou quase...

terça-feira, 18 de julho de 2017

3054 - Em terra de cego, apanha-se muito.


                                                                                                                        
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5314 SX                           Data: 18 de julho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV
  
                                

ANDRÉ, O PRECURSOR

Sou doido por automóveis. Trata-se de mania muito antiga. Entendo que começou com a paixão que eu devotava ao Ford 1948 conversível do meu avô paterno. Passou pelas várias Cadillac Coupé de Ville que meu tio avô José Gomes de Paiva importou nos anos 50. Pelo Belair 56 do Dr. Rafael Xavier, meu avô materno. E, morador da Paula Freitas nos anos 60, não posso deixar de registrar os fantásticos automóveis que de tempos em tempos eram “inaugurados” pelo corretor Marcelo Leite Barbosa, morador do “Jabaquara”, prédio vizinho aquele em que morava o Dr. Rafael.

Contaminado pelo vírus da ferrugem, acabei comprando alguns carros antigos. Tive o bom senso de não ultrapassar os limites que a prudência recomenda. Pelo menos, é o que penso. Minha mulher, claro, não concorda. Mas o certo é que nunca cheguei perto dos acervos ciclópicos que alguns queridos amigos amealharam. Posso também dizer, em meu favor, que meu quarto não cheira a borracha. Não tenho o hábito, disseminado entre muitos companheiros, de armazenar pneus de banda branca embaixo da cama do casal.

Puxo pela memória para lembrar que o primeiro antigomobilista que conheci se chamava André. Também morava na Paula Freitas, bem próximo ao prédio do meu avô. Era um cara bem nascido. No seu edifício, colado ao então recém-inaugurado Hotel Trocadero, morava o poeta Augusto Frederico Schmidt, em grande evidência na época, por conta de sua atividade literária, empresarial e, também, da estreita amizade que mantinha com o Presidente Juscelino Kubitschek.

A notoriedade do poeta fazia com que a Paula Freitas fosse invadida com frequência pelos gigantescos caminhões que eram então utilizados nas transmissões externas de televisão. TV Tupi, TV Rio, TV Continental...todas interessadas em ouvir o que Schmidt tinha a declarar sobre os mais variados assuntos, colhendo, ainda, imagens de um gigantesco papagaio branco que habitava o jardim de inverno do poeta.

Nunca entrei no tal prédio mas sabia, de boa fonte, que seus apartamentos eram descomunais, imponentes.

Na época, início dos anos 60, eu tinha doze, treze anos. O André, nosso personagem, portador de carteira de motorista, teria pelo menos dezoito. Nunca lhe dirigi a palavra. Naquele tempo, essa diferença de idades configurava obstáculo intransponível.

A fama do André teve início no dia em que ele invadiu a Paula Freitas com um enorme Hudson, cinzento e enferrujado, do final dos anos quarenta. O carro chegou resmungando até a frente do imponente prédio e lá ficou meses, imóvel como o Cristo Redentor. Capot sempre aberto, ali nosso herói permanecia mergulhado durante horas, num monta e desmonta sem fim, executando tarefas que em nada contribuíam para que o Hudson voltasse a rodar.

Com o passar do tempo, esses saraus mecânicos tornaram-se alvo dos comentários da vizinhança. Diziam os porteiros que o pai do rapaz não se conformava com a mania do filho. E, sobretudo, não entendia como ele havia encarado com tamanha indiferença a sugestão de abandonar a Hudson em troca da permissão para utilizar, sem restrições, a maravilhosa Cadillac Fleetwood que habitava a garagem da família.

O pior é que a coisa havia mal começado. Logo a Hudson ganhou a companhia de um Chevrolet Coupé 1941 amarelo, também em estado terminal. Em seguida a dupla virou trio, com a chegada de uma Pontiac 1947 caindo aos pedaços. Lembro de minha avó dizendo: “Não fica bem. Esse rapaz devia ser internado”.

Essa última aquisição precipitou o Waterloo do André. Três carros caindo aos pedaços, enfileirados numa rua classuda como a Paula Freitas dos anos 60...

A antipatia dos vizinhos aumentava a cada dia, inconformados com aquelas ruínas estacionadas em tão nobre recanto.

Nosso precursor cedeu, finalmente, às inúmeras pressões recebidas. Optou por racionalizar a coleção. A providência adotada foi dar um sumiço no Hudson, no Chevrolet e na Pontiac, substituindo-os por um Packard 1940, em estado bem razoável de conservação. O importante é que o Packard andava! Ou melhor, andava e parava. Nas minhas caminhadas por Copacabana, acostumei-me a detectar com razoável frequência a presença do André, enguiçado com o Packard. Os sintomas eram sempre os mesmos: um ajuntamento de gente, o teto do automóvel preto se sobressaindo em meio à multidão e fumaça por todo lado, anunciando o super-aquecimento do bicho.

Tento não ser maldoso, mas era evidente que, em seus enguiços, o Packard revelava uma atração fatal pelos recantos boêmios do bairro. O Le Rond Point, na esquina de Fernando Mendes com Avenida Copacabana, onde Antonio Maria curtia sua tristeza depois de brigar com Dolores Duran, era um must para o Packard. Ali suas panes criavam grande confusão, sendo a Fernando Mendes uma rua muito estreita. Mais tranquilos eram os enguiços em frente ao Bolero, na Avenida Atlântica, ou próximos ao Beco da Fome, no Lido. Civilizadas eram as panes que ocorriam no Posto Esso que ficava embaixo da Boîte Fred´s, na esquina de Atlântica com Princesa Isabel. Onde hoje se localiza o Hotel Meridien. Lá o Packard enguiçava e passava verdadeiras temporadas, até que o André conseguisse convencê-lo a retornar à Paula Freitas.

Enguiços do Packard eram, assim, triviais. Passavam desapercebidos.

Um deles, no entanto, ficou registrado em minha memória. Numa tarde de sábado, disputava-se no Posto 3 uma acirradíssima partida de futebol de praia. E os dois times envolvidos, por conta de arruaças e brigas promovidas em outros jogos do campeonato, haviam perdido o mando de campo, sendo obrigados a jogar as partidas remanescentes do torneio sempre em campo neutro. Jogavam desta feita em frente à Paula Freitas. Calçada apinhada de torcedores, berrando e xingando o tempo todo. Conhecido, só o juiz. Era o Ceguinho, vendedor da loja das Persianas Colúmbia, na Avenida Copacabana. Enxergando muito mal, como o próprio apelido atestava, Ceguinho, goleiro, fora barrado do time de futebol de praia da Paula Freitas. Imprudente, tornou-se juiz, devidamente oficializado pela Federação. No tal jogo, Ceguinho tantas fez, tantos erros cometeu, que levou uma corrida das duas torcidas. Desesperado, fugiu em direção à Avenida Atlântica, no momento exato em que passava seu amigo André com o Packard.

Num filme de final feliz, o André teria salvo o Ceguinho. No filme que eu assisti, o Packard enguiçou cinquenta metros adiante. Os três apanharam muito, nessa ordem: Ceguinho, André e o Packard.

Essas são as lembranças que tenho do André e de seus automóveis, placidamente parados na Paula Freitas, onde uma vaga, atualmente, é disputada a tiro de revólver.


Concluí que aquela figura, que nunca mais encontrei, foi um precursor do hobby de colecionar carros antigos, um visionário, naquele momento em que maravilhosos automóveis dos anos 40 e 50 eram avidamente trocados por fusquinhas e DKWs ou, pior ainda, conduzidos sem cerimonia ao ferro-velho.

domingo, 16 de julho de 2017

3053 - Bastou uma bala...


           
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5313 FM                           Data: 16 de julho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


A HISTÓRIA DE UMA BELA E FASCINANTE MULHER

Eis a história de Mata Hari, uma personalidade famosa, que muita gente desconhece e, de minha parte, confesso saber que havia sido espiã, durante a Primeira Guerra Mundial. É muito pouco. Assim, de curioso que sou, fui às naturais pesquisas.
Mulher de beleza exótica e estonteante, pseudônimo de Margaretha Gertruide Zelle, nascida em Leewarden, na Holanda, a 7 de agosto de 1876, morreu em outubro de 1917, acusada de espionagem. Foi fuzilada em Paris. Aos 25 anos tentou, sem êxito, ser professora. Depois de um longo tempo, em diferentes ocasiões, sua vida tornou-se alvo da curiosidade de biógrafos, romancistas e cineastas, o que a teria transformado  em uma espécie de símbolo da ousadia feminina. Morreu aos 41 anos, em 1917.
Era filha do empresário indonésio Adan Zelle, e mãe holandesa. Tinha 14 anos quando a mãe morreu, o pai casou-se novamente. Mandou a filha e três filhos para viverem com familiares. Quando tinha 16 anos, envolveu-se com um dos diretores do colégio onde estudava, foi expulsa, decidiu fugir de casa, indo morar em Haia, com um tio. Aos 19 anos, anos, casou-se em 1895 com Rudolf John Mac Leod, de 39 anos, um  capitão do exército das Índias Orientais Holandesas, então colônia dos Países Baixos, desde o século XVII até o começo do século XX (hoje, Indonésia). Fora atraída pelo anúncio amoroso publicado em jornal. Divorciou-se sete anos depois, acusando o marido de infidelidade conjugal e maus tratos. A separação oficial somente se deu com a morte do militar, dois anos depois. Tiveram dois filhos, Norman-John e Jeanne-Louise, que adoeceram, o menino morreu aos dois anos, de sífilis, doença congênita  dos pais. Na época, os pais disseram que os filhos haviam sido envenenados por inimigos do militar. Com a separação, Margaretha perdeu a guarda da filha. Sem meios  financeiros para lutar nos tribunais indonésios, mudou-se para a França, em 1903. 
No início, viveu com grandes dificuldades financeiras, tendo conseguido trabalho como modelo, posando para artistas, nua, até se prostituido.  Conseguiu emprego em um circo, onde começou sua carreira de dançarina burlesca, com o nome de Mata Hari  (significa Sol,  literalmente “Olho do dia”, em malaio e indonésio)), que passou a usar quando foi morar em Java, a maior ilha do arquipélago indonésio. Rapidamente tornou-se famosa nos palcos de toda a Europa. Dizia ser princesa hindu, filha de um rajá. O sucesso ocorreu somente depois de se apresentar no Musée Guinet, em Paris, dedicado à cultura asiática. Um jornalista a descreveu como “felina, extremamente feminina, majestosamente trágica.”  Outro a viu como “magra, alta, com a graça flexível de um animal selvagem, e cabelos negro-azulados.”
Em 1912, depois da fama, sua carreira começou a entrar em declínio. No início da guerra passou a circular entre políticos importantes, militares e homens influentes em vários países. Mudou-se para a capital alemã, depois para Amsterdã, fez diversas viagens a Londres, surgindo daí as especulações de que seria espiã, trabalhando para a França e a Alemanha. Circulava com habilidade entre oficiais franceses e alemães, dormindo com uns e com outros como uma cortesã usando seu poder de sedução, tornando-se “um peão  da intriga internacional”, quando teria passado  a atuar na perigosa atividade da espionagem - pelo menos para os historiadores que se ocuparam de sua vida, embora não se tenha afirmado, com exatidão,  ser espiã. Afirmava-se que quebrara o código secreto alemão, o que permitiu aos franceses encontrar  documento que comprovava ser ela uma agente alemã infiltrada entre os franceses. 
Em janeiro de 1917, os franceses interceptaram  mensagem de um oficial  alemão, sediado na Espanha, em que fazia referências a atividades  de um espião identificado como H-21, atribuindo-se essa identificação a Mata Hari. Acredita-se que a mensagem teria sido uma armação alemã contra ela, que havia sido dispensada de seus serviços, considerados ineficientes. Foi quando ocorreu a prisão. A acusação era de que Mata Hari revelara aos alemães detalhes sobre a nova arma dos Aliados – um tanque de guerra, o que teria resultado na morte de dezenas de milhares de soldados. Além disso, os franceses teriam encontrado tinta invisível em seu poder, com que escrevia mensagens aos inimigos. Mata Hari disse que a tinta era para maquiagem artística. Outra acusação, que negou, foi a de haver recebido dinheiro de um cônsul alemão, para atividade secreta. O dinheiro, disse, teria sido usado para pagar casacos de pele e roupas, confiscados numa de suas viagens.
Sobre sua execução, em Paris, surgiram várias especulações, uma das mais fantasiosas, foi sobre a vedação dos olhos, que recusou, diante do pelotão de fuzilamento. Também se disse que que a dançarina havia atirado beijos para os soldados, encantados com o seu chame. Outro detalhe, o mais excitante, diz que a dançarina tirara suas vestes, com a ordem de “fogo.
Embora a acusação de mulher fatal sedutora e perigosa, Mata Hari foi apenas uma vítima das circunstâncias. Na realidade, não houve provas que a comprometessem e a levassem a ser fuzilada. Tudo a seu tempo, os documentos sobre o julgamento da famosa dançarina exótica, que se desnudava nos palcos, serão revelados pelo governo francês ainda este ano de 2017. Será a verdade sobre uma fascinante e bela mulher.


quinta-feira, 13 de julho de 2017

3052 - Urticária cerebral


           
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5312 SX                           Data: 13 de julho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


FALTOU DIZER

Deve ser mania de gente metida a cronista. O certo é que não consigo reler nada que tenha produzido em passado recente ou remoto sem ser atacado pela compulsão de corrigir, acrescentar informações, explicar melhor, e por aí vai.

Três assuntos alvo de publicação recente no “Biscoito Molhado” não saem da minha cabeça. Merecem, a meu ver, considerações adicionais. Faço isso, ou sei que minha pressão arterial permanecerá alterada. Admito, até, ser comparado ao genial comediante Walter D´Ávila. Era ele que interpretava um personagem que queria saber de tudo “muito explicadinho”? Não tenho certeza mas, de qualquer forma, esse também é o meu caso.

Para começar, vamos falar de “Turandot”, a última ópera de Giacomo Puccini. Ela já foi tema de algumas edições do “Biscoito Molhado”, algumas delas brilhantemente produzidas pelo fundador do Blog, o saudoso Carlos Eduardo Nascimento. Vamos falar, especialmente, de Franco Alfano, o compositor um tanto ou quanto obscuro que ficou famoso ao receber a incumbência de completar a ópera que Puccini deixou inacabada ao morrer em novembro de 1924.

É sempre bom começar do princípio. A decisão de produzir “Turandot” foi tomada pelo compositor em março de 1920, depois de uma reunião mantida com Giuseppe Adami e Renato Simoni, os libretistas da obra.

Somente em janeiro de 1921 começaria efetivamente a compor. Em março de 1924 a ópera estava quase completa, faltando apenas o dueto final. Nos meses seguintes Puccini discutiu exaustivamente com seus libretistas os detalhes do final da ópera. No dia 8 de outubro finalmente aprovou uma quarta versão de Giuseppe Adami para os versos do dueto.

Dois dias depois, 10 de outubro, Puccini, fumante inveterado, foi diagnosticado com câncer na garganta. Algumas semanas depois embarcou para Bruxelas, em busca de tratamento. Foi operado no dia 24 de novembro, morrendo cinco dias depois, vitimado por complicações decorrentes da cirurgia.

Puccini deixou 36 folhas com esboços e instruções para o final da ópera. Queria que Riccardo Zandonai concluísse esse trabalho. Mas Tonio, filho de Puccini, criou objeções, e escolheu Franco Alfano, discípulo do mestre, para essa tarefa.

A missão de Alfano foi bastante complicada. Definitivamente, ele não contava com a simpatia do maestro Arturo Toscanini e do editor Ricordi. Uma primeira versão do trabalho foi rejeitada pela dupla. Prevaleceu uma segunda versão, considerada mais de acordo com as anotações de Puccini. Mas o grande constrangimento aconteceria na noite de 25 de abril de 1926, quando aconteceu a estréia da ópera, em Milão. No momento em que iria começar o dueto final, o Maestro Toscanini, numa atitude surpreendente, depositou a batuta e parou a orquestra. Voltou-se para a plateia para dizer: “Aqui a ópera acaba. Porque nesse ponto o Maestro morreu”. O trabalho de Franco Alfano não foi apresentado naquela oportunidade.

Muitos anos mais tarde a música produzida por Alfano alcançou maior grau de reconhecimento. O musicólogo Konrad Dreyden ressaltou a dimensão do trabalho por ele desenvolvido, a partir de anotações incompletas e superficiais do que Puccini cogitava criar para finalizar sua belíssima ópera.

Quis o destino que Alfano viesse a ganhar fama quase que exclusivamente por ter sido escolhido para completar a partitura de “Turandot”. Pouca gente tem informações sobre os sólidos ensinamentos de música que ele recebeu no Conservatório de San Pietro a Magella, em Nápoles, e posteriormente na cidade de Leipzig, na Alemanha, onde viria a travar conhecimento com seu grande ídolo, o compositor norueguês Edward Grieg.
O certo é que boa parte da obra de Franco Alfano caiu no esquecimento. Uma exceção é sua ópera “Risurrezione”, que Placido Domingo cantou no Metropolitan Opera House. A ópera é de 1904, tendo estreado no Teatro Vittorio Emannuele. Sua ária “Giunge il Treno” foi esplendidamente gravada pelo grande soprano Mirella Freni.

Recentemente o “Biscoito Molhado” abriu espaço para abordar a gloriosa trajetória de George Gershwin, o genial compositor norte-americano que faleceu prematuramente, aos 38 anos de idade. Sua ópera “Porgy and Bess”, motivo de grande orgulho para o compositor, foi devidamente mencionada em nossa crônica. Mas sempre é tempo de acrescentar algumas informações, como segue.

Foi em 1926 que George Gershwin leu o romance “Porgy”, de Du Bose Heyward, que relata acontecimentos ocorridos em Catfish Row, um cortiço de negros localizado no Cais de Charleston, na Carolina do Sul.

Gershwin vislumbrou a possibilidade de transpor aquela ação para um palco de ópera. Imediatamente enviou uma carta a Heyward, propondo-lhe uma parceria. Este concordou. Os entendimentos iniciais pareciam caminhar bem, mas Gershwin, muito atarefado, não tinha tempo para se dedicar a escrever a ópera.

Em colaboração com sua irmã Dorothy, Heyward, cansado de esperar, escreveu “Porgy”, um texto para o teatro, que estreou em 1927. No outono de 1932, depois de consultar George Gershwin, Du Bose Heyward vendeu os direitos do romance para Al Jolson. A ideia do famoso cantor era se associar a Jerome Kern e Oscar Hammerstein II para produzir um musical. Ele faria o papel principal, devidamente maquiado para interpretar o aleijado Porgy, apaixonado por Bess, que se desloca num carrinho puxado por uma cabra.

Mas o entusiasmo de Al Jolson em relação a esse projeto também arrefeceu. George Gershwin ficou à vontade para concretizar seu acalentado sonho de produzur uma ópera.

A primeira versão de Porgy and Bess tinha quatro horas de duração. Ela foi apresentada no Carnegie Hall, numa encenação fechada ao público, no outono de 1935. Uma versão experimental teve lugar no Colonial Theatre de Boston, em 30 de setembro de 1935. A estreia na Broadway aconteceu em 10 de outubro, no Alvin Theatre.

Durante os ensaios em Boston, George Gershwin procedeu cortes e refinamentos em sua partitura. Ele buscou reduzir o tempo de encenação, em prol do maior dinamismo da ação dramática. Nessa temporada em Nova Iorque “Porgy and Bess” alcançou 124 apresentações. A direção do espetáculo foi confiada ao experiente Rouben Mamoulian e a regência a Alexandre Smallens. O barítono Todd Duncan e o soprano Annie Brown eram as grandes estrelas do espetáculo.

O fato é que poucas óperas experimentaram uma trajetória tão conturbada quanto “Porgy and Bess”. Quando o compositor morreu, em 1937, o trabalho, que ele considerava ser sua obra prima, não havia ainda obtido o reconhecimento do público e da crítica.

Algumas controvérsias acompanharam o percurso dessa obra durante praticamente cinquenta anos. A mais séria delas, possivelmente, a definição precisa do que viria a ser essa produção brilhante de Gershwin. Ele a definia como uma ópera folclórica americana. Mas durante décadas ela foi considerada por muitos um grande musical da Broadway. Por outro lado, os cortes que o próprio compositor procedera na partitura, com vistas ao maior dinamismo da representação, parecem ter significado um sinal verde para diversas mutilações que prejudicaram o trabalho, nos seus primeiros 50 anos de vida. Poucas vezes ele foi apresentado com suas mais de três horas de duração originais. Recitativos foram frequentemente suprimidos e cortes absurdos prejudicaram a brilhante orquestração do autor.

Somente em 1976, a partir de uma grande encenação da ópera em sua versão integral, na Houston Grand Opera, o público norte-americano conseguiu avaliar a verdadeira dimensão do extraordinário trabalho de George Gershwin.

A ópera levaria inacreditáveis cinquenta anos para chegar ao templo da arte lírica norte-americana, o Metropolitan Opera House. Isso aconteceu em 1985. Foram 16 encenações com o teatro super lotado, para prestigiar um elenco em que despontavam Simon Estes, Grace Bumbry, Bruce Hubbard, Gray Decker e Florence Quivar, sob a regência de James Levine.

Finalmente, completamos nosso ciclo de “revisões” falando de “Madame Butterfly”. Ela foi tema recente do “Biscoito Molhado”, apontada como ópera adorada pelo grande público depois de registrar uma estreia absolutamente desastrosa.

“Madame Butterfly” nasceu sob a forma de uma novela de autoria de John Luther Long, contando uma história que não trazia grandes novidades, o drama de uma gueixa ingênua traída por volúveis ocidentais. David Belasco logo a transformou numa peça de teatro em um ato, assistida em Londres por Giacomo Puccini no verão de 1900, cidade que o compositor visitava para acompanhar a montagem de “Tosca” no Covent Garden.

Puccini não entendeu uma palavra do que acontecia no palco mas se deixou comover. Regressando à sua casa em Torre del Lago, resolveu consultar David Belasco para saber se ele estaria disposto a vender os direitos de adaptação da peça. Não foi uma negociação fácil, mas o contrato com Belasco foi finalmente assinado em setembro de 1901.

Illica e Giacosa, habituais libretistas de Puccini, começaram o seu trabalho. O compositor buscou informações sobre os hábitos dos japoneses, seus entretenimentos, música e arquitetura. Contou com a assessoria da esposa do embaixador japonês, e também de Sada Yacco, uma famosa atriz japonesa que visitava Milão.

Puccini apaixonou-se por Cio-Cio-San, o personagem principal de sua nova ópera. Trabalhava com afinco na sua produção. De repente, aconteceu uma dolorosa interrupção. Puccini, amante dos automóveis, sofreu um sério acidente em 25 de fevereiro de 1903, quando retornava de Lucca em direção a Milão. Ele quebrou uma perna e ficou um bom tempo desacordado. Quando voltou a si, as lágrimas rolavam por seu rosto e ele repetia: “Pobre Butterfly! Pobre Butterfly!”


Assim que pôde deixar o leito, ele se arrastou até o piano para retomar o trabalho interrompido. A ópera ficou pronta no final de 1903.

terça-feira, 11 de julho de 2017

3051 - A cereja do mito


O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5311 FM                           Data: 11 de julho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANOXXXIV XXXIV


 1) AS CEREJEIRAS DO JAPÃO

Eis apenas um pouco, nada mais do que uma introdução do muito que constitui a história japonesa, sua cultura, seu povo, seu espetacular desenvolvimento político, econômico e social, a despeito das guerras, principalmente a que transformou o mundo, com a explosão de duas bombas atômicas sobre as cidades de Hiroshima – que sofreu entre 90 mil e 160 mil mortos,  e Nagasaki, que teve entre 60 mil e 80 mil, a metade somente no dia do  bombardeio, em consequência de queimaduras e de  envenenamento  devido à radiação atômica. Em dezembro de 2004, o país foi atingido por um terremoto seguido de tsumani, que causou a morte  de mais de 14 mil pessoas e pelo menos 13 mil desaparecidos, levados pelas ondas gigantes que invadiram 40 km terra adentro, provocando um desastre ecológico de enorme gravidade, ao atingir  a usina nuclear de Fukushima, obrigando a retirada de uma área de 45 mil moradores das cercanias, numa área de 10  km.
 
Do que se pretende falar, porém, é do elevado grau de modernidade  alcançado pelo povo japonês, que transformou a nação num país altamente desenvolvido. Hoje, suas cidades atraem milhares de turistas, que se encantam com o que veem, com o carinho com que são recebidos pelo povo, com a limpeza de suas ruas, sobretudo com  a floração das cerejeiras, que acontece   no início da Primavera – um espetáculo tão belo quanto fugaz, que exerce verdadeiro fascinio sobre o povo japonês, como encanta  os milhares de turistas, que festejam essa dádiva da natureza, de significado filosófico e poético, tida como uma celebração da vida.

Após a última idade do gelo, por volta de 12000  a.C. o rico ecossistema do arquipélago japonês promoveu o desenvolvimento humano. O aparecimento das primeiras pessoas no Japão data do Paleolítico, há cerca de 35 000 anos.Por volta de 11000  a.C. estes povos desenvolveram um tipo de cerâmica designada de Jomon, a qual é considerada das mais antigas do mundo. Posteriormente surgiu uma cultura conhecida como Yayoi, onde a produção de ferramentas de metal, assim como o cultivo do arroz, foram um importante progresso. Entretanto, o governo central havia começado a assimilar os costumes próprios da Coreia e da China. Esta rápida imposição de tradições estrangeiras, contudo, produziu uma certa tensão na sociedade japonesa e, no ano 794, a corte imperial fundou uma nova capital, Heian-kyō (actual Quioto), dando origem a uma cultura aperfeiçoada da aristocracia. Apesar disso, o sistema centralizado fracassou nas províncias e iniciou-se um processo de privatização de terras, dando origem a um colapso na administração e ordem públicas. A aristocracia necessitava, então, da ajuda de guerreiros para proteger suas propriedades - mais tarde denominada a classe samurai.

O Japão Meiji suprimiu os privilégios samurais – a classe militar dos guerreiros que, no xoguinato, tinham o direito exclusivo de portar espadas e recebiam remuneração do Estado, Os chamados “Senhores da Guerra” perderam seu poder, a servidão camponesa foi abolida, estabeleceram-se as forças armadas nacionais e  estimulou-se acelerada industrialização. O Japão tornou-se a maior potência econômica e militar do Ocidente, depois da II Guerra Mundial e da catástrofe nuclear.
  Com o decorrer da época do pós-guerra, a economia japonesa começou a crescer, contrariando todas as expectativas, com o chamado milagre econômico japonês. Rapidamente, o país se comparava ao Ocidente, tanto no comércio exterior (produto interno bruto, cerca de 40 mil dólares per capita, 2016), como na qualidade de vida. Seu sistema educacional e de saúde é um dos mais avançados do mundo.  O Japão foi  influenciado pelo Ocidente, convertendo-se numa nação industrial, mas manteve os laços com a tradição cultural do país.   

   A partir da segunda metade do século XX, o Japão passou a ser reconhecido pela sofisticada tecnologia, registrando crescimento econômico, de grande significação para o país que, em pouco tempo,  passou a ser potência das mais importantes do mundo, com as exportações com prevalência nas áreas da electrónica, informática, robótica, indústria automobilística e bancária.


 Em menos de três décadas, o país emergiu dos destroços da guerra, assumindo o segundo posto da economia mundial. É a décima população maior do mundo, ocupando uma área de 6.852 ilhas, com aproximadamente 130 milhões de habitantes, 30 milhões dos quais, na capital, Tóquio.

2) OS ELEMENTOS DA NATUREZA


   - Você sabe quais são os elementos da Natureza?
   - Os elementos da Natureza..?
   - Foi o que perguntei. Não, você não sabe. Isso não importa, vamos     pesquisar. Vamos tentar aprender o que a Filosofia  nos pode ensinar. Antes, vamos retroceder aos anos 600 a.C, aproximadamente, quando o homem grego utilizava a mitologia para explicar a natureza e fundamentar a própria organização sociopolítica grega. 

Os mitos mais antigos de que se têm registros remontam ao período Neolítico, isto é, aproximadamente 10.000 a.COs mitos, vale ressaltar, não são exclusividade da sociedade grega e estão presentes em todas as sociedades, sobretudo em suas épocas de formação. Temos, entre outros, os mitos nórdicos (Ex.: Thor, o deus do trovão) e os mitos egipcios (Ex.: Osires, o deus da Terra).
   O século VI a.C foi marcado pelo encaminhamento de uma estabilidade sociopolítica entre os gregos, cujas cidades passaram a ser organizadas em pequenos grupos, denominados polis, administrados pela aristocracia.
O intercâmbio entre as várias cidades foi intenso e assim como as cidades jônias da Ásia Menor, entre as quais Mileto e Éfeso, as colônias gregas da Itália meridional, entre elas Eléia, ganharam grande destaque pelas iniciativas culturais e políticas. Também o comércio foi bem desenvolvido por aquelas populações, o que lhes trouxe mais riqueza material. Foi nesse contexto que a Filosofia surgiu, num ambiente livre e distante do centro. Somente depois é que chegou à Grécia, propriamente dita, centralizando-se em Atenas.
   A filosofia grega pode ser dividida em três períodos: o primeiro, naturalista, em que o pensamento filosófico busca uma resposta para as questões da natureza, isto é, o período pré-socrático; o segundo, que pode ser dito antropológico metafísico, e abrange, principalmente, as épocas de Sócrates, Platão e Aristóteles; e o terceiro, o período ético, desde o fim da época aristotélica – século IV a.C. – até a decadência da sociedade grega, por volta do século VI  após o nascimento de Cristo.
  A ideia dos quatro Elementos Essenciais provém dos primórdios da Filosofia, ensinada no período pré-socrático, perdurando até o Renascimento – isso, no conceito do Ocidente. Quanto ao conceito oriental, foi disseminado na Índia e na China, encontrando-se na base do Hinduismo  e do Budismo, principalmente no conceito exotérico. Hoje, há quem corresponda os quatro Elementos com o estado da matéria: sólido, líquido, gasoso e Plasma.
   Os filósofos Parmênides e Heráclito tinham opinião diversa. O primeiro dizia que nada pode mudar, enquanto o segundo admitia que suas experiências sensoriais deixavam claro que a natureza está em constante transformação. Comentando o ponto de vista dos dois filósofos, Empédocles dizia que a discórdia era que, como ponto de partida,  ambos tinham assumido  o fato quase inquestionável que haveria apenas um elemento básico. Desse modo, o abismo entre o que a razão nos diz e o que nossos sentidos percebem seria intransponível. Entendia que devemos acreditar no que vemos, e o que vemos é justamente o fato de que a natureza está em constante transformação, possuindo os quatro elementos, que chamava de “raízes”: O Fogo são as pessoas, uma mistura de substância, conhecido por sua energia, que também pode ser visto  como o Sol; o Ar que respiramos, que refletirá no oxigênio, sem o qual não existiria vida humana; a Água ocupa 70% da superfície da Terra e é também essencial para a vida;  a Terra, que representa os seres viventes – pessoas, animais e plantas.
     Para os gregos, que seguiam a tradição de Pitágoras e Aristóteles, haveria um quinto elemento chamado de “Quitessência”  - elemento perfeito, que existiria no plano cósmico ou não terrestre, formados da Lua, do Sol, do Céu e das Estrelas. Geralmente é correspondido com a ideia do Éter, que representa a negação lógica do vácuo. Tal teoria foi adotada pela Igreja Católica e começou a sofrer ataques, principalmente quando Galileu observou a existência de relevo na Lua, o que provaria a imperfeição cósmica.
   Na concepção mais exotérica há autores que consideram o Quinto Elemento como o relâmpago, sendo relacionado com a vida. Outros consideram como o metal ou o aço e alguns admitem que seja o gelo, considerado diferente da água.
Relacionando-se com a Astrologia, cada elemento causa influência a um grupo de três signos, cuja expressão serve de inspiração par obras literárias, plástica ou filosófica.
Na Grécia, entre os filósofos pré-socráticos, a origem da matéria era atribuída a um elemento diferente. Ora o fogo, ora a água. Esse ponto de vista, do que se presume, teria origem no Oriente. Na China, admite-se  a Teoria dos Cinco  Elementos – estados de mutação da matéria-energia.
Os escritos dos filósofos da Renascença, porém, levam a supor que o Ocidente também via os elementos como forças sutis que se manifestariam através de transformações recíprocas.  Também na Índia se vê a aplicação desse conceito de elementos que entram em partes equilibradas na composição da matéria, quando a medicina hindu tenta equilibrar os três humores: Vento, Fogo, Terra, os quais formavam a base da medicina de  Hipócrates e ainda fazem parte da Psiquiatria, onde se diz que certas doenças mentais graves, como a esquizofrenia, estão associadas a certos tipos físicos (como longilíneo, brevilíneo etc.)., indicando-se que de certos elementos ou humor determina-se o tipo físico da pessoa.
A Astrologia, quando usada para estudar aspectos médicos das doenças, investigava se a pessoa era do tipo sanguíneo (ar), do tipo fleumático (água), colérico (fogo) ou bilioso (Terra), também tido como nervoso. A cada tipo corresponde, de acordo com a medicina antropossófica, o seguinte órgão: Colérico-coração; fleumático-fígado; sanguíneo-rins; bilioso- pulmões. Cada um desses tipos teria um órgão indicativo de seu estado de relativa saúde ou doença e durante destinada estação do ano estaria mais propenso a desequilíbrio.
Os Elementos da Natureza podem ser associados aos estados físicos da matéria: Terra-sólido; Água-líquido; Ar- gasoso; :Fogo-plasma. Esses elementos constituem a expressão utilizada para referir-se  aos elementos naturais citados, os quais são essenciais à vida humana. Ao se considerar como tipos de matéria que formam a Natureza, a expressão está errada, pois fogo não pode ser tido como matéria natural, de vez que se trata de uma reação química. Também o conceito de Elemento formado pela Química e a Física modernas. Considera-se como elemento os diferentes tipos de átomos que formam moléculas, tanto naturais como artificiais (reações induzidas). A água, por exemplo se constitui em uma molécula resultante da ligação de dois elementos químicos: o oxigênio e o hidrogênio.