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sábado, 20 de janeiro de 2018

3087 - um nome, uma bandeira, um hino



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5347 SX                           Data: 20 de janeiro de 2018

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


BUNDALELÊ


Está mais do que na hora de mudar o nome do país. "Brasil", definitivamente, não deu certo. Assim como não deram certo "Monte Pascoal", "Ilha de Vera Cruz" e "Terra de Santa Cruz".

"Brasil", devemos reconhecer, até parecia uma sacada inteligente. Inspirada na madeira que por aqui havia, e que se prestava a tingir tudo de vermelho. Só que perdeu o sentido insistir no nome. A quantidade de coisas que se pretende tingir de vermelho diminuiu assustadoramente. Camisas para a torcida do América, por exemplo, nem pensar. No futebol carioca o time rubro cai pelas tabelas. No sul do país, o Internacional de Porto Alegre acaba de fazer uma melancólica incursão na segunda divisão do campeonato brasileiro. Por outro lado, depois de treze anos de incompetência e desvios perpetrados à frente do país, é suposto que tenha diminuído em muito o número de militantes não aloprados do PT dispostos a se vestir de vermelho e manter viva a pregação do partido. Se é que os há.

Outro argumento, este definitivo, é o de que o pau-brasil simplesmente desapareceu. Por conta de uma exploração predatória praticada ao longo de séculos, não restou um vasinho da planta para que eu possa mostrar ao meu neto um exemplar dessa riqueza nacional. Consta que foi identificado o culpado por sua erradicação. Teria sido ele o trisavô do sujeito que deu sumiço às pesadíssimas vigas da Perimetral, desmontada na região portuária do Rio de Janeiro.

Para explicitar melhor nossa proposta, devemos começar reconhecendo que por aqui as coisas desde cedo caminharam muito mal. Pedro Álvares Cabral, o gajo que cá aportou em 1500, seria definido pela minha avó como um "doidivanas". Aqui chegou sem saber onde tinha chegado. Pode ser comparado a um sujeito que viaja do Rio a São Paulo fazendo uma escala em Salvador. Perdeu um monte de navios, boa parte de sua tripulação não chegou ao fim de sua aventura. Pero Vaz de Caminha, o "ghost writer" de Cabral, este sim, foi um precursor importante. Na primeira carta que escreveu ao rei de Portugal, foi logo apresentando um pedido de emprego em benefício de um familiar. Tradição até hoje mantida a ferro e fogo pela classe política brasileira, com destaque para o mensaleiro Roberto Jefferson.

Estabelecido que o país deve mudar de nome, passamos a enfrentar a tarefa de conferir-lhe uma denominação compatível com o que nele se vivencia nos dias de hoje.
Meu voto é "Bundalelê". Ideia que faz parte de um projeto bastante abrangente. Todo país que contar mais de trinta ministérios em sua estrutura de governo passa a se denominar, automaticamente, "Bundalelê". É certo que essa prática vai ser seguida por um bando de idiotas. Estará formada, assim, uma "commonwealth" da mediocridade. A ser liderada pelo país-membro que ostentar a mais bem provida lista de ministros desconhecidos, ineptos e envolvidos com pendências judiciais e falcatruas de toda ordem. Estamos legislando em causa própria, bem se vê.

Ninguém tem dúvidas a respeito do futuro glorioso de "Bundalelê". Preceitos econômicos seguidos pelos países que dão certo serão solenemente ignorados. Orçamentos, equilíbrio fiscal e controle da moeda serão identificados como preocupações de quem odeia pobre. O brilhante economista Milton Friedman, autor da frase definitiva do século XX - Não existe almoço grátis - será, como de hábito, considerado um idiota. Cuba e Venezuela permanecerão como exemplos a serem seguidos. Coréia do Sul? Tem tudo para não dar certo.

"Bundalelê" continuará a desprezar a Educação. A ideia é que ali continue a se estudar muito pouco. Países de ponta impõem jornadas de estudo pesadas. Diplomas em "Bundalelê" podem ser obtidos em casa, através do computador. Algo que ainda vai evoluir. Em pouco tempo eles estarão disponíveis também nas bancas de jornais e nas casas lotéricas.

Falta de moradias também é uma questão relevante que vai passar ao largo de "Bundalelê". Um imenso contingente de pessoas, em sua maioria jovens, está optando por deixar o país. Atraídos por oportunidades de trabalho ou aterrorizados pela falta de segurança que aqui impera. Cresce em progressão geométrica o número de latrocínios, sequestros, balas perdidas e arrastões. Pouca gente vai sobreviver a essa hecatombe. Sobrarão imóveis disponíveis para venda ou aluguel. "Bundalelê" encontrou uma fórmula super criativa de ajustar as demandas habitacionais de sua população.

"Bundalelê" também não vai perder tempo com a cultura. Orquestras sinfônicas continuarão a ser dizimadas, teatros serão fechados, ópera e ballet serão erradicados. A música se resumirá ao lixo propagado pelo Multishow. Nada além de sertanejo, funk e pagode. Crescerá, também, o número de artistas que terão suas carreiras re-lançadas a partir de anúncios bombásticos de suas novas opções sexuais. Sucesso garantido, com estrondosa cobertura da mídia.

Um país provido de tanta modernidade não pode permanecer ostentando um hino nacional quadrado e careta como aquele que foi produzido por Francisco Manuel da Silva e Osório Duque Estrada. "Vai Malandra", do fenômeno musical Anitta, passará a ser tocado em substituição ao "Virudum".


Para finalizar, há que se lamentar o fato desta crônica do "Biscoito Molhado" não poder anunciar de pronto o resultado do concurso promovido para a escolha da bandeira de "Bundalelê". Podemos informar, apenas, que Romero Britto e Beatriz Milhazes são os finalistas desse empolgante concurso. Britto concorre com uma criação em que predominam 49 cores berrantes, obra muito semelhante à que enfeitava o salão de jogos da casa de Sergio Cabral em Mangaratiba. A bandeira proposta por Beatriz Milhazes inclui diversas rodelas, lembrando as Toalhas Linholene que eram anunciadas nos intervalos comerciais da finada TV-Rio. 

sábado, 13 de janeiro de 2018

3086 - Agora vai, com jeito, vai


O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5346 FM                           Data: 13 de janeiro de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXV


O  PODER  DOS  ASTROS


Atentai, irmãos! Atentai, irmãs!

Atentai, crentes e descrentes!

É começo de ano, a Astrologia não mede esforços, os que nela depositam seus fados, estão com o prato cheio, os mapas estão traçados, as linhas descomplicadas traçaram os destinos de todos, os caminhos são vastos. Para uns, turbulentos e ínvios, para outros as esperanças estão logo ali, a não mais do que um palmo diante do nariz. Basta olhar com atenção o Arco-Iris, a mensageira da deusa Juno abrirá as portas de entrada por onde passarão os astros, desde que não estejam distraídos. E eles, os astros, conjuminando-se uns com os outros, entrarão nas casas certas, meio caminho andado para que os dias sejam propícios  à benevolência sideral. 

Convém não perder de vista o que Saturno anda preparando para os desavisados, querendo cobrar nossas alianças  para que aprendamos com quem seja possível nos aliar. É o que dizem os astrólogos, do alto de sua sapiência, pelo traçado nos mapas, advertindo que Saturno vai entrar na casa 7, cobrando, pois Netuno entrou em Peixes em 2012 e revelou a poeira debaixo do tapete. E estando agora em conjunção com o meio do céu e com Plutão (que recobrou sua condição planetária) por volta de 2020, vai estar com o Sol e nos garantirá novas surpresas, eis o que pregam os astrólogos, não adiantando, por conveniência, se serão boas ou más. Pretendemos que sejam das melhores, como compensação pelo que já vivemos, estamos escaldados como gatos, com as maldades aplicadas mundo afora, nos últimos anos piorando a cada dia.

Netuno, dito pelos entendidos, é o planeta da cortesia, da  poesia, da música, da contemplação e, também, das drogas em geral. Portanto, aguentem-se nos calcanhares, estamos todos anestesiados e os astrólogos, sem perder de vista o observado, advertem que ninguém queira culpar os planetas. Convém ir diretamente aos responsáveis,  as distintas autoridades aqui presentes, cobrando-lhes o que prometeram de mãos postas e dedos cruzados, e ainda não cumpriram o prometido. Pecado cabeludo, que lhes pode ser cobrado como consequência, pois os astros não estão fora de órbita, nem encantados pela música ou pelas drogas. Portanto, sabe-se lá o que poderá acontecer! Vindo das alturas celestiais, os estragos poderão desabar sobre nossas cabeças, não sobrando ninguém para contar a história. Culpados e inocentes vão para os confins do beleléu.

Ainda há esperanças. Para quem tem ascendente em Escorpião, oportunidade de ganhos e de lucros é possível, pois Júpiter estará em trânsito na casa 2, expandindo o financeiro. Mas, com o mesmo Júpider em trânsito na casa 6, pode o planeta provocar a expansão de doenças, o que poderá ser evitado, caso os responsáveis tomem tenência  e ajam com o devido empenho,  do cotrário, eles que se entendam com o planeta. 

 Como o Carnaval está chegando, convém ter cuidados redobrados, pois  estão a caminho gás e fogo, além de muita bebida alcoólica, o que pode envolver a ilusão lúdica dos mais afoitos. Especificamente para os da banda de cá, é dito que o Rio tem histórico de violência porque, estando na  sua casa 10, da projeção social, Plutão encontra-se com Sol e Mercúrio, um planeta violento. Mas nem tudo está perdido. A partir de agosto, entretanto, quando o Sol passar em trânsito pela casa 4, trazendo momentos lúdicos, é possível que sopre uma brisa alentadora de boas novas. Há quem mereça.


Se ainda há tempo, eis mais uma advertência de quem elaborou os traçados na carta planetária: convém, segurar as pontas, os temerosos estarão mais fortes, mesmo a barra estando pesada. Isso porque, é bom seguir as recomendações dos astrólogos, e Saturno está atento. Que aproveitem, o samba não vai acabar, a vida continua e pau na lata, que é tempo de curtir adoidado, salve-se quem puder!

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

3085 - Subindo e descendo



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5345 D                           Data: 08 de janeiro de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXV


RODA GIGANTE QUENTE


Adoro cinema. E adoro comédias. Neste particular, agora no fim do ano, fiquei bem feliz de rever o filme de Billy Wilder, Quanto Mais Quente Melhor. Talvez um dos poucos títulos em Português melhor do que o original. Junto a essdiretor,  exportação austríaca dos tempos negros, outro judeu, Woody Allen, que recheou bem o meu apetite por comédias durante muito tempo. Devo ter visto quase todos os seus filmes.

Acabei de ver Roda Gigante, sua última produção. É um drama grego ambientado nos anos 50, quase todo em um parque de diversões, em Coney Island. Não gosto dos dramas de Woody Allen, porque ele sempre quer virar Bergman, mas este filme não só me manteve atento, como apresentou um Jim Belushi, o irmão menor do doidão John Belushi em um papel sério e denso, e transformou a Kate Winslet em uma linda Maureen O’Hara, louca e ruiva, como John Ford e John Wayne nunca viram. Nenhum desses dois caberiam num filme do Bergman e isso já garantiu uma certa originalidade.

Ambos os filmes são retratados em épocas passadas, um no final da Lei Seca e o outro no pós-guerra. Um é em preto e branco, todo o jeito de cinema noir, com fumaças, vapores e contra-luz; o outro é colorido, uma cor das fotos Kodak que não se vêem mais, com vermelho, azul e amarelo nítidos; ou seja, em ambos há um capricho excepcional na fotografia.

Ambos têm um destaque como artista, um feminino Jack Lemmon, tão feminino como poderia ser uma dama, carregando carinhosamente Tony Curtis e Marilyn Monroe e, em Roda Gigante, Kate Winslet em monólogos enlouquecidos de ciúme e carência. Frases que nós todos já ouvimos, de perto, ou não, mas absolutamente cabíveis e geradoras de tensão.

Jack Lemmon é um capítulo à parte, parece uma tia solteirona e esbanja expressões, corporais, faciais, de todo o tipo.

Ambos os filmes rondam o crime, os mafiosos, mas um descamba para a comédia e o outro para o drama conjugal, familiar. Aliás, botar um garoto incendiário infernizando as boas almas foi uma pitada de ótimo tempero. Do mesmo jeito, quem temperaria melhor uma queima de arquivos, fazendo os herois entrarem numa orquestra feminina para fugir da situação? E quem botaria George Raft ironizando um aprendiz de gangster, que jogava moeda para o alto, um clichê repetitivo, logo ele, gangster histórico?

Em ambos, a falta de dinheiro é um fator determinante na vida dos personagens. Em ambos, pequenos roubos são realizados e encarados normalmente. Em ambos, há um sonho por uma vida longe dos problemas, em um a vida resolve; no outro, o problema ganha.

Olhando a produção dos diretores, Billy Wilder fez 27 filmes e Woody Allen, 54 até agora. Dois filmes de Woody Allen merecem destaque, por marcarem muito bem a transição entre filme e fantasia dentro do filme: A Rosa Púrpura do Cairo e Meia–Noite em Paris. Vi ambos apenas uma vez e não me parece que os veria novamente. Já o Escorpião de Jade e Os Trapaceiros, o filme da loja de rosquinhas vizinha ao banco, vi algumas.

Seria covardia comparar que diretor eu vi repetidas vezes. Só Quanto Mais Quente Melhor, umas 20. Testemunha de Acusação,10, Amor na Tarde, Sabrina, Stalag 17, Sunset Boulevard, Billy Wilder ganha disparado. Aliás, já que mencionei os filmes diferentes do outro, que tal lembrar que Sunset Boulevard começa com o narrador do filme falando já morto na piscina? Ou que os suprimentos do Afrika Korps (Cinco Covas no Egito) estavam enterrados embaixo de cada letra de EGYPT em um mapa? Quem enterraria suprimentos na areia do deserto? Só inteligências inferiores e assim Billy Wilder deu um tapa nos nazistas que o fizeram emigrar a tempo.


Tantas coincidências depois, que roda gigante é essa que me fez juntar dois filmes tão diferentes?

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

3084 - Biografia



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5343 FM                           Data: 05 de janeiro de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXV


BEETHOVEN, O GÊNIO
  
Ludwig van Beethoven era tido como um poeta-músico, o primeiro romântico apaixonado pelo lirismo dramático e pela liberdade de expressão, admirado por ter sido uma pessoa que primava pelo equilíbrio, pelo amor à natureza e pelos grandes ideais humanitários. Era um compositor que escrevia música para si, sem estar ligado a um príncipe ou a potentados. Os críticos consideravam-no o maior compositor do século XIX, um dos poucos homens a merecer a adjetivação de gênio.
Sua obra foi vastíssima. Sua mais importante composição transcende todas as emoções, todas as comparações e constitui a confirmação de haver sido um real merecedor de ser aclamado como um gênio: foi a sua Sinfonia nº 9 em Ré Menor, em que, pela primeira vez, foram inseridas vozes com um coral e solistas, pois pretendia o compositor realizar uma exaltação dionisíaca da fraternidade universal com apelo à aliança entre as artes irmãs: a poesia e a música. É uma obra-prima inconteste, baseada no poema de seu amigo Friedrich Schiller “Ode à Alegria”, a que o próprio compositor fez a adaptação:
       “Alegria bebem todos os seres
         No seio da natureza:
        Todos os bons, todos os maus,
         Seguem seu rastro de rosas.
         Ela nos deu beijos e vinhos
         E um amigo leal até à morte;
         Deu força para a vida aos mais humildes
         E ao querubim que se segue diante de Deus.”
Beethoven começou a compor música aos 11 anos de idade, como nunca antes se houvera ouvido. A partir desse momento, a música jamais foi a mesma. Suas composições eram criadas sem preocupação, embora tenha ele vivido grandes momentos de crises relacionadas com a família (decepção com os irmãos e frustrado com o comportamento do sobrinho que adotara para criar), amores, desilusões e dificuldades financeiras. Entretanto, seus progressos foram notáveis, de tal forma que, em 1784, já era organista-assistente da Capela Eleitoral e, em pouco tempo, passa a ser violoncelista da Orquestra da Corte e professor, quando assume a chefia da família, devido à doença do pai, cantor e músico da Corte, que morre em consequência de alcoolismo. Ao verificar que o filho, já aos cinco anos, tinha tendência para a música, tentou fazê-lo “menino-prodígio”, obrigando-o a estudar longas horas por dia. A despeito dessa atitude paterna, reagiu, para escapar do papel, por ter forte personalidade. Sua vida artística pode ser dividida em três fases: Aos 21 anos, mudou-se para Viena, onde passou o resto de sua vida. Foi mandado estudar com Joseph Haydn, pelo Conde Waldstein, a quem dedicou algumas de suas obras, por ser seu protetor e grande amigo. O Arquiduque Maximiliano, da Áustria, subsidiou seus estudos. Em pouco tempo teve de retornar à Alemanha, para acompanhar os últimos momentos de vida de sua mãe, que morreu de tuberculose. Em Viena alcançou a fama e o brilho de grande improvisador ao piano; foi também onde teve seus primeiros contatos com os ideais da Revolução Francesa, com o Iluminismo e com movimentos literários românticos. Por volta de 1794, inicia-se a redução de sua capacidade auditiva, fato que o leva a pensar em suicídio. E, a última fase, os últimos dez anos de vida, quando passou a escrever obras de caráter mais abstrato.
Em 1801, o compositor afirma não estar satisfeito com o que produzira, pretendendo tomar “novos caminhos”, o que ocorre dois anos depois, quando surge a Sinfonia nº 3 em Mi Bemol Maior, denominada Eróica. A obra foi dedicada a Napoleão Bonaparte, que perdeu a homenagem, ao autoproclamar-se Imperador. A obra  passou a ser dedicada  ”À memória de um grande homem.” Foi considerada como o início do seu período Romântico, quando criou grande número de peças geniais, em que se incluem a mais conhecida, famosa e popular Sinfonia nº5 em Dó Menor e o Concerto nº 5, denominado Imperador.
Beethoven teve sete irmãos (três homens sobreviveram), um dos quais do primeiro casamento de sua mãe, morreu ainda criança, como suas três irmãs, do segundo casamento. Sua mãe era filha do Chefe de Cozinha do Príncipe Keverich da România. Foi um compositor do período de transição entre o Classicismo (século XVIII) e o Romantismo (século XIX). É considerado como um dos pilares da música Ocidental. Um dos seus biógrafos declarou, com profundo senso realista, não considerar heróis os que triunfam pelo pensamento ou pela força, mas exclusivamente os que são grandes pelo coração. E cita Beethoven como exemplo. E ele próprio, Beethoven, afirmara que, "A despeito de todos os obstáculos da Natureza, fizera o possível para se tornar um homem digno desse nome.” Transformou-se, com muito esforço, num dos maiores compositores eruditos. 
Beethoven nasceu em Bonn, Alemanha, a 16  de dezembro de 1770. Morreu  a 26 de março de 1827, em Viena, onde viveu grande parte de sua vida. Seu funeral foi acompanhado por uma multidão calculada em mais de 20 mil pessoas, entre as quais personalidades do mais elevado nível social e cultural. Entre estes, conduzindo uma tocha, o compositor Franz Schubert, que morreu no ano seguinte. O corpo foi sepultado ao lado do túmulo do seu amigo. Há controvérsias sobre a causa da morte de Beethoven, citando-se cirrose alcoólica, sífilis, hepatite e até envenenamento devido a excessivas doses de chumbo prescritas pelos médicos.



sábado, 30 de dezembro de 2017

3083 - aberturas e fechaduras



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5343 SX                           Data: 30 de dezembro de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXV


SANTO INÁCIO


Sou uma anta no campo das ciências exatas. Fiz o Clássico, não estudei física, química ou descritiva. Costumo dizer que o meu limite tecnológico é o liquidificador Walita de três velocidades. Mas sei o suficiente para ter certeza de que os relógios, a partir de uma certa etapa de nossas vidas, passam a caminhar mais rápido.

Não posso acreditar que já faz dez anos que escrevi a página de abertura do Anuário que editamos para comemorar quarenta anos de formatura no Santo Inácio. Mas acabo de repetir a proeza, produzindo o texto que abriu nosso livro dos cinquenta anos. Prevenido que sou, e ciente da rapidez dos acontecimentos, estou escrevendo os textos que vão comemorar nossos sessenta, setenta, oitenta, noventa e cem anos de formados.
A turma de 1967, a que pertenço, inaugurou o primário do colégio, em 1956. Doze anos depois, não mais do que vinte alunos alcançaram a proeza de ter estudado no Santo Inácio do primeiro ano primário até o terceiro ano do colegial.

Não tive esse privilégio. A escolha do colégio em que eu deveria estudar colocou minha mãe e meu pai em campos opostos. A bem da verdade, até se separarem, eles sempre estiveram em campos opostos. Todos os varões da família de Paulo Fortes estudaram no Colégio São Bento. Desde Cândido Barata Ribeiro, médico que foi o primeiro prefeito do Distrito Federal. Me ver com o terninho cinza do Santo Inácio era o sonho de consumo de minha mãe, sonho que somente se concretizou em 1958, no terceiro ano primário. Um ano antes eu fizera uma prova para ingressar no colégio. Estava bem preparado. Concorreram noventa meninos, eu fiquei em sexto lugar. As vagas eram apenas quatro...

No seu intento de me tornar um jesuíta, minha mãe contou com a ajuda de Oscar Gabriel, amigo de meu pai, dono das Óticas Brasil. Oscarzinho, seu filho, era aluno do Santo Inácio. Oscar era muito amigo do Padre Barreto. Mas seu empenho não foi suficiente. Fui chamado quase ao final de 1958. Imagino que duas vagas tenham surgido ao longo do ano. Sei que minha trajetória Inaciana começou no dia 28 de outubro de 1958. Meu primeiro dia de aula, na classe de Dona Lilian. Tenso, em trajes civis, eu tentava me enturmar com um bando de meninos que ostentavam seu garboso paletó cinza. Foi quando um colega, vindo não sei de onde, irrompeu na sala anunciando : "Viva o novo Papa ! Viva João XXIII ! ". O Google confirma a data : 28 de outubro de 1958.

Adaptado, fui atraído pela tradição futebolística do Santo Inácio. Colégio de grandes craques, com destaque para os expoentes Raphael de Almeida Magalhães, Gugu e Mosquito, os dois últimos estrelas do futebol de praia do Lagoa e do Juventus, respectivamente. Fui sempre um ponto fora dessa curva. Mas participava, animadíssimo, de um esporte que chamávamos de futebol, mas se assemelhava à movimentação das tropas que invadiram a Normandia. Tudo sob o olhar atento da Diretora Dona Gilda e da Maria, sua auxiliar, encarregada da tarefa superior de abrir nossas garrafas de Coca-Cola.

De repente nos vimos homens. Tempo de Admissão, de professores engravatados e disciplina rígida. Homenzinhos frequentam bares. E desde cedo começam a beber coisas que não fazem bem. No bar do recreio vendia-se uma tal de Ginja-Cola, capaz de enfrentar desafios de uma pia entupida.

Algumas tradições ficaram pelo caminho: a missa dominical, a folga nas quartas-feiras, o uniforme de gala... Mas não faltavam novidades: as campanhas missionárias, os retiros na Fazenda Santa Bárbara, o cinema à noite no colégio...

Em seguida, quatro anos de ginásio, com uma rotina pouco alterada. Disciplina rígida, que não nos impediu de acumular "causos" que até hoje animam nossas mesas de conversas. Chegávamos, também, à época de definições importantes. Clássico ou Científico ? Enfrentar o rigor Inaciano tornava-se cada vez mais complicado. A cada ano perdíamos bons amigos, que não conseguiam acompanhar o ritmo de um colégio campeão nos vestibulares.

Em seguida vieram as festas, os primeiros namoros. As desilusões com um país que nossa geração acreditava poder melhorar. Afinal, éramos tão preparados, tão aguerridos... Uma avaliação errada que fizemos.

Noventa e três colegas compareceram ao almoço que promovemos no Clube Paissandú, comemorando os cinquenta anos de nossa formatura no Santo Inácio. Lembramos a bela solenidade que aconteceu no final de 1967, no esplêndido teatro do colégio que, lamentavelmente, não existe mais. Lembramos do auditório repleto, ocupado por nossos pais. Orgulhosos e emocionados, imbuídos de um sentimento de missão cumprida, eles dividiam com nossos avós, irmãos e amigos aquele momento inesquecível de nossas vidas.


Cinquenta anos depois acontece nossa confraternização no Paissandú. Oportunidade em que refletimos sobre a dedicação e a excelência dos nossos professores e dos padres jesuítas que nos propiciaram uma excepcional formação. Em que reafirmamos nosso orgulho de ter sido alunos do Santo Inácio, nossa certeza de que mais Inacianos à frente do pais teriam edificado algo muito melhor do que aquilo que nos é dado conhecer nos dias de hoje. E, o mais importante, em que choramos a ausência de muitos colegas queridos, que não estão mais entre nós para participar de nossa grande festa.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

3082 - Animal Planet



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5342 SX                           Data: 11 de dezembro de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXV


RICARDO ZANELLI


Acontece com alguma frequência. Convivemos com pessoas que julgamos conhecer bem e, de repente, não mais que de repente, somos surpreendidos com informações sobre sua trajetória de vida, sua biografia, para nós inteiramente desconhecidas, dignas de espanto.

Nesse quesito Paulo Fortes, meu pai, era campeão. Em certa ocasião, na década de 50, foi apresentado a um cidadão alto, muito elegante, super educado, que participava da organização da temporada lírica do Teatro Municipal de São Paulo. Ficaram muito amigos. Tempo suficiente para o barítono descobrir que Oscar Nascimento, o promotor de óperas, fora goleiro e ídolo do Palmeiras e do Fluminense nos anos 30 e 40, chegando a defender a meta da seleção brasileira. Seu filho integrou a seleção nacional de basquetebol. Sua filha, a equipe brasileira de voleibol. Que família, não é mesmo?

Ainda falando de Paulo Fortes. Tinha como colega, no Municipal do Rio, um tenor que cantava pequenos papéis. Seu nome era Nino Crimi. Foi, durante três décadas, o tenor comprimário mais atuante no Municipal do Rio. Não se aventurava a cantar primeiros papéis. Um dia a revelação bombástica chegou ao conhecimento de meu pai: Nino Crimi era filho de Giulio Crimi, um dos mais importantes tenores da cena lírica mundial, rival de Enrico Caruso, também ele uma grande estrela do Metropolitan Opera House de Nova Iorque. Nunca me ocorreu indagar de meu pai as circunstâncias, certamente bastante especiais, que conduziram o obscuro Nino Crimi a se radicar no Rio de Janeiro.

Como não gosto de ficar para trás, também tenho algo no gênero a contar. Durante meu curso na Faculdade Nacional de Economia desenvolvi uma boa amizade com Edgar da Silva Ramos, sujeito muito educado e classudo, excelente conversa. Levei algum tempo para descobrir que seu pai era o piloto Hermano da Silva Ramos, o "Nanô", um dos primeiros brasileiros a ingressar no restrito mundo da Fórmula 1.

Imagino que não tenha sido diferente com Ricardo Zanelli o personagem da nossa crônica de hoje. Certamente devia chamar a atenção aquele cidadão que circulava por Ipanema com uma ave, um corrupião, no bolso. "Chico", o corrupião, não tinha as asas cortadas. Dava longos passeios, sempre retornando ao bolso de Zanelli. De vez em quando botava a cabeça para fora do bolso, possivelmente para conferir se o percurso cumprido por seu dono era o habitual. Tremenda atração, como se vê.

Zanelli também causava espanto nos hospitais, clínicas e consultórios que visitava na sua condição de propagandista-médico. Trabalhou por muitos anos no Laboratório Merck. Onde quer que fosse, juntava gente, médicos, enfermeiras e pacientes para discorrer, sobre os produtos que divulgava, nos oito idiomas que falava fluentemente. Todos percebiam que não estavam diante de um cidadão comum. Ele tinha muitas histórias para contar. É o que vamos tentar fazer a partir de agora.

Nosso personagem nasceu em Draguccio, no Friuli, nordeste da Italia, em 26 de março de 1903. O Friuli então pertencia ao Império Austro-Húngaro. Suas escolas ensinavam, além do italiano, também o alemão e o húngaro. Sua mãe era croata. Por conta disso, aos dez anos de idade, falava indistintamente os quatro idiomas. Em função de sua trajetória de vida bastante agitada, esse acervo ainda viria a crescer mais tarde.

Era um verdadeiro atleta. Excepcional nadador e corredor. Cedo percebeu que Draguccio era muito pequena para comportar suas ambições. Foi para Roma em busca de uma vaga no Corpo de Carabineiros Reais. Foi aprovado em dificílimas provas físicas, culturais e psicotécnicas. Aos 24 anos alcançou o posto de Tenente.

À época, a Itália vivia uma fase de transição de poder entre o Rei Vittorio Emmanuele e uma liderança que havia despontado trazendo uma Nova Ordem, o Fascismo. Seu ideal era representado por um feixe (fascio, em italiano) de varetas amarradas em volta de um machado, significando que, todas elas juntas, superavam o poder do machado. Individualmente, o machado as cortaria, uma a uma, sem dificuldades. Resumindo, "A união faz a força."

Benito Mussolini, "Il Duce" (o que conduz), manobrava a situação, fazendo do Rei uma figura decorativa. A Itália estava sendo dirigida com mãos de ferro. Havia alcançado algumas conquistas em termos de organização, mas a liberdade de expressão e de ir-e-vir estava drasticamente comprometida. Crescia a olhos vistos o culto à personalidade de Benito Mussolini.

No Corpo de Carabineiros Reais, fiéis ao monarca, esses acontecimentos não repercutiam de maneira satisfatória. Os oficiais superiores iniciaram um movimento com o intuito de derrubar a liderança fascista e restabelecer o poder real. Foram denunciados e presos, juntamente com os simpatizantes de sua iniciativa. Entre eles, Ricardo Zanelli.

Tentando adiar uma decisão definitiva por parte das autoridades, o pai do Tenente contratou um advogado que, através de hábeis argumentos legais, conseguiu autorização para que o réu fosse visitar sua família, no Friuli. Lá chegando, ele driblou a escolta militar e escapou pela fronteira com a então Iugoslávia. Começava aí uma saga que só terminaria 53 anos mais tarde, no Rio de Janeiro.

Solto no mundo, sem documentos, dinheiro ou bagagem, nosso herói encontrou uma maneira de fazer prevalecer sua condição atlética invejável. Depois de um razoável período de treinamento, foi admitido num circo iugoslavo como trapezista e contorcionista. A experiência, no entanto, não durou muito. Algumas cidades visitadas pelo circo definitivamente não atraiam nosso personagem.

Sem destino certo, o Tenente chegou à Grécia. No porto de Pireus, conseguiu emprego num navio cargueiro que se dirigia à Turquia. Não sabia que o navio levava armamento clandestino para ajudar rebeldes que estavam em luta contra o governo turco. Foi preso, junto com os demais tripulantes. Permaneceu seis meses na prisão, sendo libertado quando as autoridades chegaram à conclusão de que ele havia embarcado sem conhecimento dos propósitos do navio. Solto, recebeu uma passagem para Constantinopla, onde chegou ao anoitecer, sem conhecer ninguém e sem ter onde dormir.

Não morreu de fome graças a um cachorro. Não era um cachorro comum. Tinha enorme talento para roubar linguiças que permaneciam expostas nas quitandas da cidade. Ricardo seguia o cachorro. Este comia até se satisfazer. O que sobrava era mais do que suficiente para aplacar a fome do Tenente.

Andando, sem destino, um belo dia ele chegou à frente de um bordel, em que foi admitido como faxineiro. Em troca dos seus serviços, teria casa e comida. A sorte lhe sorriu quando um sujeito embriagado se meteu numa briga tremenda, apanhou muito e foi jogado numa poça de lama. Foi socorrido por Ricardo. Era um empresário búlgaro muito rico. Possuía plantações de rosas e visitava com frequência a Turquia para negociar com fabricantes de perfumes. Indagou de Ricardo: "Você está disposto a trabalhar para mim? Despeça-se do seu patrão e venha comigo." Saíram à rua, foram a uma loja onde o búlgaro o presenteou com roupas, sapatos e uma mala de viagem.

Esse poderia ter sido o início de uma história feliz. Tudo que o cidadão búlgaro declarou era verdade. Ricardo viu-se diante de imensas plantações de rosas. Rosas a perder de vista, que exalavam um aroma fortíssimo. Com três meses de trabalho Ricardo foi vencido pelo enjoo causado pelo perfume.

Pediu demissão. Foi para a Romênia, trabalhar numa região petrolífera que já abrigava muitos italianos. Ali permaneceu alguns meses. Irrequieto, resolveu conhecer a Transilvânia, onde foi trabalhar no castelo de um conde. A nova ocupação também não durou muito. O motivo? Problemas com a mulher do conde, que o assediava de todas as maneiras. Ele resistia de todo jeito. Mas o próprio conde, que conhecia bem sua cara metade, deu-lhe uma boa quantia em dinheiro, pedindo-lhe que fosse para bem longe de sua mulher. Dela ele tinha muito ciúme, e sabia que era louca por homens jovens e bonitos.

Ricardo seguiu, então, em direção à Polônia, atravessando a Hungria e, naquele tempo, a Checoslováquia. Numa cidadezinha fronteiriça com a Rússia saiu a passear, chegando a uma praça onde um lutador de luta-livre se exibia desafiando os homens da plateia. Aquele que resistisse mais tempo ganharia um prêmio. Um a um, os que aceitavam o desafio, iam caindo. Até que Ricardo resolveu subir ao ringue. Já foi dito que ele era muito forte. Resultado: Zanelli derrubou o lutador profissional! A plateia, julgando que aquilo havia sido combinado, aplicou uma surra nos dois. A solução foi sair correndo. A partir daí, os dois contendores ficaram amigos.

Sem esquecer os problemas sérios que havia enfrentado num regime de direita, o fascismo italiano, nosso herói imaginou que a Rússia comunista poderia ser um contraponto ideal. Informou-se sobre a localização da fronteira da Polônia com a Rússia e para lá caminhou durante muitas horas, em meio a um tremendo temporal. Pois foi esse temporal que lhe permitiu atravessar a fronteira, repleta de fossos de lama, arame farpado e sentinelas em guaritas a intervalos regulares. O vento sacudia as cercas, o que provocava fortes faíscas elétricas. Os guardas, temendo um problema maior, desligaram a corrente. Com isso Ricardo conseguiu se esgueirar por baixo da cerca e alcançar o lado soviético.

Andou por toda a noite até perceber que estava acompanhando uma linha de trem. Depois de uma boa caminhada, alguns casebres apareceram. Numa estação próxima um trem estava sendo carregado com toras de madeira. Seu destino era Moscou. Escondeu-se por entre as toras. Viajou por um dia e uma noite, até chegar à capital russa. Logo foi descoberto e era isso o que ele queria.

Foi levado à presença de um oficial do Exército Vermelho que falava italiano e o interrogou longamente. Contou-lhe sobre sua fuga da Itália, sobre tudo o que passara e sobre o seu desejo de trabalhar na Rússia, onde sabia que tinha vários compatriotas. O oficial mostrou-se muito amistoso e o aconselhou a não comentar ter sido oficial militar na Itália, para evitar desconfianças. Disse que se chamava Rupert Bielov. Por que falava tão bem italiano? O motivo era simples: ele era italiano! Casado com uma russa, tinha filhos russos. Seu verdadeiro nome, Roberto Bianco, fora devidamente traduzido para Rupert Bielov.

Ricardo foi destacado para trabalhar numa fábrica de guarda-chuvas. Trabalhou durante meses, cumprindo uma rotina imutável. Novidades só quando, em direção ao trabalho, passava ao lado de um muro muito alto, ouvindo, por vezes, o sinistro barulho dos tiros de uma metralhadora. De seus companheiros de trabalho escutava sempre a recomendação : "Você não ouviu nada!"

A conclusão de que precisava dar por encerrada aquela jornada aconteceu no dia em que ele e seus colegas foram convocados a assistir à execução de um funcionário búlgaro, acusado de traição. Bielov, o "chefe”, já havia chegado à conclusão de que era impossível "doutrinar" Ricardo Zanelli. Um dia chamou-o para comunicar que estava incluído num grupo de operários que fariam uma excursão-prêmio a Leningrado. Disse: "Sei que se você tiver oportunidade de fugir você o fará. Mas lembre-se de que, se for apanhado, e insinuar que eu lhe dei a ideia, naturalmente negarei tudo e sua palavra nada valerá contra a minha. Em voz baixa, acrescentou : "De certo modo, chego a invejar você." Desejou felicidades e apertaram-se as mãos em despedida.

Durou dois dias a viagem de trem para a atual São Petersburgo. Ali visitaram os vários palácios transformados em museus após a revolução bolchevique de 1917. Visitados todos os pontos programados, o capataz que acompanhava o grupo informou: "Ainda temos dois dias à nossa disposição. Foi-nos oferecida uma visita a Helsinki, na Finlândia. "Querem ir?" Todos aceitaram.

Em Helsinki, aconteceu a fuga de Ricardo. Numa noite muito fria, o grupo decidiu entrar num café para gastar os poucos rublos que tinham em mãos. Ele observou uma porta, nos fundos, que dava para a rua. Pediu licença para ir ao banheiro e saiu sorrateiramente pela tal porta, ganhando a rua e a liberdade. Na noite seguinte certificou-se de que seu grupo já havia partido de volta a Leningrado sem que ninguém reclamasse sua falta. Com a ajuda de um policial finlandês, embarcou num navio que se destinava a Hamburgo. Dominava o alemão e tinha esperança de lá conseguir emprego.

No porto de Hamburgo, mudou seus planos. Lá estava atracado o navio brasileiro "Almirante Alexandrino" que partiria no dia seguinte para o Brasil. Ricardo planejou entrar às escondidas no navio e vir para o Brasil, onde já vivia seu irmão mais velho. Foi o que fez. No dia seguinte, ainda escuro, gelado, subiu pela corda de amarração, entrou no navio e se escondeu num escaler. Logo em seguida o "Alexandrino" emitiu seus últimos apitos e zarpou.

Dentro do bote havia água e biscoitos, mas insuficientes para aguentar tantos dias de viagem. Além disso, havia a posição incômoda e o frio terrível. Aos poucos foi perdendo as forças e desmaiou. Quando recobrou os sentidos estava na enfermaria do navio. Fora considerado morto, mas conseguiram reanimá-lo. Revelou sua intenção de vir para o Brasil mas a Lei pensa diferente. No primeiro porto da escala, Lisboa, foi entregue à polícia marítima de Portugal. Ali ficou determinado que ele deveria ser reconduzido a Hamburgo, seu porto de origem. Bordeaux, na França, foi a primeira escala do navio em que viajou preso, severamente vigiado. Ainda assim conseguiu empreender uma nova fuga, tomando um trem em direção a Paris.

Na capital francesa foi ajudado pela sorte. Um taxista italiano o conduziu até a Associação dos Refugiados Políticos Italianos, onde foi devidamente amparado. Até mesmo um bom emprego lhe foi providenciado, no setor de caldeiras de uma grande fábrica. Serviço árduo e muito perigoso.

Passaram-se os anos, Ricardo reorganizou sua vida, conheceu uma moça com quem iniciou um romance, passou a viver como um parisiense. Dessa época uma lembrança que o marcou profundamente foi a primeira apresentação do "Bolero", sob a regência de seu autor, Maurice Ravel, que ele teve a especial oportunidade de assistir.

Tudo parecia correr bem, até que um fato novo aconteceu. Ricardo passara a comprador da fábrica e o governo francês, tomando conhecimento do alto salário que ele recebia, decidiu que aquele cargo somente poderia ser ocupado por cidadão francês ou estrangeiro naturalizado. Ricardo admitiu a segunda hipótese, mas na embaixada italiana defrontou-se com a antipatia do embaixador italiano, fascista, que sugeriu seu retorno à Itália para reassumir seu posto de Tenente Carabineiro. Tal providência, Ricardo sabia, implicaria em retaliações e até mesmo tortura. Recusou essa orientação, evidentemente. Sem alternativa, o patrão francês de Ricardo indenizou-o generosamente. Abraçaram-se e se despediram.

Com dinheiro no bolso, mas desempregado, restava a Ricardo empreender nova tentativa de vinda para o Brasil. Com esse intento tomou um navio em direção a Lisboa. Também conheceu o Porto. Nas duas cidades assistiu a jogos do Vasco da Gama, que estava em excursão pela Europa. O Vasco venceu seus jogos, sob aplausos dos portugueses. O ano era 1933, Foi quando Ricardo Zanelli se tornou vascaíno.

O navio que conduziu nosso herói ao Brasil aportou na Praça Mauá em novembro de 1933. Seu irmão Vittorio o esperava no cais. Foram para a Tijuca, onde ele morava, com a esposa e um casal de filhos. Ricardo resolveu aprender português por conta própria. Comprou dois livros importantes da nossa literatura: "Os Sertões" e "Casa Grande e Senzala". Leu os dois livros munido de um dicionário. Saía sozinho, para fazer longas caminhadas. Chegou a ir a pé da Tijuca ao Leblon, passando pelo centro da cidade. Conhecia gente, fazia amizades, ia à praia, aos cinemas, aos bares, conversava com desconhecidos. Em menos de um ano falava perfeitamente nosso idioma.

Por influência de seu irmão, químico industrial na Bayer, foi admitido na Companhia Química Merck Brasil S. A. Começou no almoxarifado, mas logo passou a trabalhar como propagandista-vendedor. Sua carreira na Merck se estendeu por 26 anos, sendo desenvolvida em São Paulo, Bahia, Sergipe, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Ricardo Zanelli morreu no dia 10 de maio de 1980, aos 77 anos. Um estrangeiro que amou profundamente o Brasil. Que chorou copiosamente na final da Copa do Mundo de 1950. Motivo de permanente orgulho e saudade para seu filho Luciano Zanelli, meu querido amigo, que me repassou todas essas informações. Elas enriquecem, tenho certeza, o nosso "O Biscoito Molhado".