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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

2532 - O Biscoito do Soldado



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4332                        Data: 20 de dezembro  de 2013
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XI FRASES ORIGINAIS E COMENTÁRIOS

“Uma feijoada só é realmente completa quando tem uma ambulância de plantão.”
Para soltar o seu talento de humorista, Sérgio Porto criou o pseudônimo Stanislaw Ponte Preta, emprestado do Oswald de Andrade do livro “Memórias de Serafim Ponte Grande”. No que ele denominou, parodiando o “Retrato de um artista quando jovem”, nome do primeiro romance de James Joyce,  de  “Auto-retrato do artista não tão jovem”, escreveu no que aludia às suas “qualidades paradoxais”: “Boêmio que adora ficar em casa, irreverente que revê o que escreve, humorista a sério.”
No que diz respeito à feijoada, os mais afoitos afirmam que a feijoada se originou com os escravos no Brasil. Os senhores de café, das minas de ouro e dos engenhos de açúcar jogavam para os escravos os restos dos porcos quando eles eram esfolados.  O cozimento desses restos com feijão e água resultou na feijoada. Porém, os especialistas em história e arte culinária discordam frontalmente dessa versão e asseguram que o padrão alimentar do escravo, do século XVIII para o XIX, não se alterou; continuava tendo como base a farinha de mandioca ou de milho, com água, mais um e outro complemento que, raramente, tinha a ver com o porco,
A feijoada se origina, na verdade, do norte de Portugal, onde se cozinhava feijão branco do Minho ou feijão vermelho de Trás-os-Montes, com tomate, cenoura ou couve, juntamente com a carne de porco ou de vaca, acrescidos de chouriço, morcela ou farinheira. Cá no Brasil, houve algumas alterações, com a inclusão do feijão preto, de outros tipos de carne de porco e de vaca, mais a farofa, a couve refogada, o arroz e a laranja fatiada. Os restaurantes portugueses que servem esse prato o denominam de feijoada à brasileira.
Na literatura, Pedro Nava se refere, na sua obra “Baú de Ossos”, à feijoada completa, afirmando que é um prato tipicamente carioca e narra onde ela surgiu. Vamos, no entanto, ficar por aqui, na frase plena de humor e verdade do Stanislaw Ponte Preta. Nos meus tempos de glutão, o prato que me derrotou foi a feijoada; se ela fosse completa, ou seja, se houvesse uma ambulância na porta do restaurante, talvez eu me arriscasse a engolir até os últimos caroços de feijão.

“Possuía um dom para a infelicidade, mas sempre sofria quando estava de caso com mais de um homem ao mesmo tempo.”
Assim escreveu Roger Vadim sobre aquela que conheceu quando era adolescente ingênua, lançou como atriz de cinema e com quem se casou: Brigitte Bardot.
O franco-argelino Roger Vadim foi cineasta, produtor e roteirista, mas se destacou mesmo como descobridor de talentos e por ter casado com três deusas do cinema: Brigitte Bardot, Catherine Deneuve e Jane Fonda.
Já no ostracismo e – dizem – com pouco dinheiro, resolveu colocar em livro o seu convívio com essas três mulheres que o público não esquece. Razão da frase que destacamos.
 Eis um trecho da sua narrativa sobre o seu relacionamento com a Jane Fonda:
-”Já a tinha despido quase inteiramente e estávamos prontos para fazer amor no sofá quando de repente ela escapou e correu para o banheiro. Voltou um minuto depois, completamente nua e se deitou na cama.  Despi-me e me juntei a ela. Porém algo aconteceu e não consegui fazer amor.'
“Já tinha lido que amor em demasia pode tornar impotente um homem apaixonado, de modo que não me intimidei. Ao fim de uma hora, no entanto, tive que encarar os fatos. Estava bloqueado, humilhado e reduzido à total impotência.”
“Depois do súbito impacto emocional no bar do estúdio e do namoro apaixonado no sofá, senti que a fuga de Jane para o banheiro e a maneira prosaica com que esperava por mim na cama eram, de certa forma, agressivas. O sonho repentinamente se tornou banal. Era como se ela estivesse dizendo: “Está querendo fazer amor? Vá em frente!”
Brigitte Bardot e Catherine Deneuve processaram seu ex-marido por violação de privacidade. E Jane Fonda? Não, ela, que chegou a inibir o seu ex-consorte, não procurou os tribunais.
A publicação do livro foi retardada, mas Roger Vadim ganhou a causa e suas memórias de marido de três ícones da sexualidade alcançaram grande sucesso.
E o caso das biografias aqui no Brasil, que já chegou ao Supremo Tribunal Federal?... É melhor não entrarmos nesse mérito, senão teremos de citar outra frase, essa atribuída a Charles de Gaulle.

“Nunca espero nada de um soldado que pensa.”
A frase acima, seria desnecessário citar seu autor, pois todos a conhecem,  é de Bernard Shaw.
Um soldado não deve pensar, ou melhor, deve, mas em primeiro lugar deve estar a obediência, a disciplina.
Na Primeira Guerra Mundial, soldados australianos e neozelandeses foram designados pelo comando inglês a tomarem dos turcos a península de Gallipoli.  Um soldado que pensasse julgaria que se tratava de um erro estratégico e até acreditamos que houve soldados que  previram  o malogro dessa missão, mesmo assim seguiram as ordens do alto comando, porque a bravura fala mais alto.  E quase todos foram mortos.
Esse é um dos muitos exemplos de bravura na guerra, mas o que mais me toca é o Desembarque na Normandia no dia 6 de junho de 1944. Nesse fato histórico, todos os soldados aliados estavam conscientes que o risco de serem mortos era alto, mas tomados de extremo heroísmo seguiram em frente.
Recentemente, enfrentei a tempestade que inundou o Rio de Janeiro para chegar ao trabalho. Antes de sair de casa, reportei-me aos soldados da Normandia; se eles enfrentaram uma chuva de balas e bombas, por que eu não vou encarar uma chuva de água?  Por mais esdrúxula que possa parecer minha analogia, foi o que pensei. E sempre tenho de encarar o perigo, busco força na coragem dos soldados.
Assim, considero o mais belo discurso do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, o que ele proferiu no Memorial Day (Dia do Veterano). Nunca é cansativo relembrá-lo:
“... É graças ao soldado e não aos sacerdotes, que podemos ter a religião que desejamos. É graças aos soldados e não aos jornalistas, que temos liberdade de imprensa. É graças aos soldados e não aos poetas, que podemos falar em público. É graças aos soldados e não aos professores que existe liberdade de ensino. É graças aos soldados e não aos advogados, que existe o direito a um julgamento justo. É graças aos soldados e não aos políticos, que podemos votar.”




quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

2534 - Um ano bom



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4334                         Data: 24 de dezembro  de 2013
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RÁDIO MEMÓRIA NATALINO
PARTE II

Jonas Vieira, logo depois que a Rita deixou de ser tocada, desejou um Feliz Natal para o Biscoito Molhado, sendo, em seguida, acompanhado pelo seu parceiro e convidado. A redação, em festa, agradece penhoradamente e retribui sem esquecer o operador de áudio Peter e o locutor José Maurício, que já trabalhou sob a chefia do Humberto Reis e também participou, neste ano, de um programa sobre a história da Rádio Tamoio com o Dieckmann. Vale registrar que uma hora antes, José Maurício contou a sua própria história na radiofonia brasileira no programa Almanaque, quando soubemos da sua passagem pela Rádio Relógio. Você sabia?... Falta agora a história do Jonas Vieira, vamos aguardá-la.
-O Biscoito Molhado funciona como o nosso superego. - observou o doutor Fernando Borer freudianamente.
Então, o titular do Rádio Memória anunciou a “Pausa para Meditação”, crônica do Fernando Milfond sobre a festa de 25 de dezembro.
-Uma festa que, hoje em dia, é comercial. - comentou o Jonas Vieira logo em seguida.
E pensar que, há pouco mais de cem anos, Machado de Assis já perguntava se mudou ele ou o Natal. Seus versos merecem ser relembrados nessa época em que o comércio transformou o Papai Noel em protagonista e o menino Jesus em coadjuvante.
-”Um homem, - era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, -
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... a folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?”
Mas estamos narrando o Rádio Memória, onde a poesia só entra se estiver acompanhada pela música, lá existe essa exigência que não houve na mitologia grega, pois Apolo era, ao mesmo tempo, deus da música e da poesia, além de deus de outras coisas, pois ele acumulava cargos. Assim, passemos para a próxima atração musical.
Como o que é bom não satura, Jonas Vieira insistiu no compositor e arranjador Oliver Nelson e na orquestra de Countie Basie. Agora, com a faixa do disco que juntou os dois artistas em “Kilimanjaro”.
Essa gravação foi muito tocada na Rádio Jornal do Brasil. - aludiu à refinada emissora do tempo da atuação do Simon Khoury.
A palavra voltou para o Fernando Borer que, dessa vez, não optou pela música popular brasileira.
“Stranger on the Shore.” - “Estranho na Praia” – peça para clarinete composta por Acker Bilk que a dedicou à sua filha Jenny. A gravação é de 1962, e vocês vão se lembrar.
Lembramos, até mesmo eu, que musicalmente falando, vivia mais colado na Rádio Ministério da Educação, tão logo soaram as primeiras notas do clarinete.
Acionado o Departamento de Pesquisas do Biscoito Molhado, ficamos sabendo que a criação de Acker Bilk e Robert Merlin se chamou, inicialmente, “Jenny”, depois, passou a ser o tema musical de um seriado televisivo da BBC, de Londres, intitulado “Stranger on the Shore.”, e, assim, a filha do compositor foi destituída. Esperamos que ela não tenha ficado traumatizada.
No Brasil, “Estranho na Praia”, no início da década de 60, obteve um grande êxito na voz de Roberto Audi e o disco deve ter sido muito tocado no “Peça Bis pelo Telefone”, da Rádio Mayrink Veiga, programa esse que me assombrava pelo número de telefonemas – superior aos de Nova York e Londres somados.
Voltando à gravação que o Peter colocou no ar, “Stranger on the Shore.”, ela é, a nosso ver, bem superior ao “Strangers in The Night”, que desagradava Frank Sinatra; talvez por causa do “du bi du bi du”, que ele inseriu no seu final, o que levou os gozadores a dizerem que ele se referia ao cachorro de desenho animado Scooby Doo.
Enquanto eu me reportava à Mayrink Veiga, Borer citava a Rádio Tamoio como a emissora que divulgou muito a música que escolhera, na versão instrumental, naturalmente.
Notei, nesse momento, que o Sérgio Fortes não agiu como o homem-calendário. Para preencher essa lacuna, acessamos o Google e soubemos que 22 de dezembro é o Dia da Consciência Ecológica, tributo ao seringueiro Chico Mendes que foi assassinado no Acre.
Rádio Roquette Pinto,  94.1. Programa Rádio Memória.
E o titular do programa surpreendeu a todos, principalmente aos que o ladeavam, com uma pergunta que nada tinha a ver com melodia, harmonia, ritmo e vozes canoras.
-Borer, qual a sua grande lembrança deste ano?
Borer titubeou, talvez porque esperasse essa pergunta no dia  29 de dezembro de 2013, a data do último Rádio Memória do ano, mas se refez e respondeu:
-A vinda do papa ao Brasil. Representou muito para mim a presença do Papa Francisco entre nós.
Sérgio Fortes, que posou de Papa Sérgio I, na semana passada e até hoje não sabemos se se despiu das vestes papais, concordou. Pesa também o fato de ele ter sido aluno do Colégio Santo Inácio como o saudoso Mário Henrique Simonsen, que, por sinal, tinha uma gula de abade.
Julguei que o Jonas Vieira desse uma resposta não muito católica para a sua pergunta e citasse a prisão dos mensaleiros (o primeiro acontecimento de 2013 que me ocorreu), mas me enganei.
-O que mais me marcou este ano foram os amigos que perdi: Luiz Paulo Horta, Maurício Azedo, Luiz Claudio, mais recentemente. No mais, o ano foi bom.
-Sim, foi um bom ano. - disseram os três.
Mas o tempo urgia, e o Sérgio Fortes foi apressado a revelar a próxima atração musical, e pôs as mãos à obra.
  -Quando Jerome Kern morreu, Irving Berlin foi convocado a compor um musical. Ele relutou alegando que não entendia disso.
-Imagine se entendesse. - interveio o Jonas Vieira.
Depois desse breve aparte, Sérgio Forte prosseguiu:
-E Irving Berlin escreveu “Annie Get Your Gun”, de onde destacamos o dueto “An Old Fashioned Wedding”, com Kim Criswell e o barítono Thomas Hampson.
Existiu de fato Annie Oakley, uma cowgirl (cowboy é que não era), cuja serelepe vida, pensou-se na Broadway, poderia ser transformada em musical. Jerome Kern, encarregado em musicar a letra de Dorothy Fields faleceu e a tarefa foi passada para Irving Berlin, que fez tudo sozinho: letra e música, não precisava de parceiros, como Cole Porter, tão criativo que era. Só na Broadway, houve 1147apresentações seguidas.
Jonas Vieira voltou com Oliver Nelson e Countie Basie, agora na faixa que também primou pela qualidade, “Afrique”.
Fernando Borer, que estava bem nacionalista, nesse domingo, pediu “Os Quindins de Iaiá”, gravação de 1954, com Emilinha Borba e César de Alencar, Jonas Vieira fez considerações sobre César de Alencar, desviando-se da mancha que há em sua biografia. O arranjo de Radamés Gnatalli transformou a iaiá em rainha.
Coube ao Sérgio Fortes o encerramento musical e ele escolheu uma gravação de 1935, do filme Picolino, com Fred Astaire cantando e dançando: “Top Hat, White Tie And Tails.”
O demorado abraço do Jonas Vieira fechou o Rádio Memória.

2533 - Pra que discutir com Madame?

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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4333                         Data: 23 de dezembro  de 2013
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RÁDIO MEMÓRIA NATALINO

-Muitíssimo bom-dia.
Estava dado o pontapé inicial do programa natalino.
-Conosco mais uma vez o Fernando Borer.
-Rouco de tanto cantar o “Jingle Bell.” - acrescentou o Sérgio Fortes.
Após os cumprimentos de praxe, foi dado ao convidado o direito de fazer a primeira escolha musical do dia.
-”O Bonde São Januário”, de Wilson Batista e Ataulfo Alves.
  Com o pontapé inicial dado, falou-se, inevitavelmente, de futebol.
-Era o bonde que ia até o estádio do Vasco da Gama que, naquela época era poderoso, era quem mandava os outros para a segunda divisão.
-O pranteado Vasco da Gama.- lamentou ou regozijou-se o Fernando Borer, pela entonação da voz não dava para perceber, enquanto o Sérgio Fortes aludia à queda do clube para a segunda divisão.
-A gravação de Ciro Monteiro é de 1940 e a original de  Ataulfo Alves.-  frisou o convidado.
Jonas Vieira, mesmo dizendo-se admirador de Wilson Batista, foi fiel à história e afirmou que ele exaltou o trabalho, mas foi um dos maiores vagabundos que existiu.
“O Bonde São Januário” foi grande sucesso do carnaval de 1941, quando vigia no Brasil a ditadura do Getúlio Vargas.
Eis alguma coisa que soubemos sobre esse samba.
A letra original “O Bonde de São Januário/leva mais um sócio otário/só eu vou trabalhar.”  O DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda – determinou que a letra fosse modificada, e ficou: “O Bonde são Januário” leva mais um operário/ sou eu que vou trabalhar.”
A concretização do Estado Novo não via com bons olhos a exaltação da boemia, da vagabundagem, defendia a formação de um homem novo, lutador, trabalhador. A censura do samba foi provocada por isso e não pelo fato de o Vasco da Gama ter sido  ironizado, aliás, nem vascaíno o Getúlio Vargas era.
Sérgio Fortes conduziu a parte musical de São Cristóvão para a Broadway, anunciando a cantora Kim Criswell na música “He's a Right Guy”, de Cole Porter. Trata-se da ária do primeiro ato  do musical “Something For The Boys”, que abriu a temporada da Broadway de 1943, mas foi lançado antes, em Boston, Massachusetts, precisamente no dia 18 de dezembro de 1942, no Schubert Theatre.
-Cole Porter.- ciciou o Jonas Vieira embevecido.
Quando a bola passou para ele enalteceu os músicos dos Estados Unidos, fixando-se em Oliver Nelson, eminente compositor e arranjador. A orquestra que iria executar a sua composição e do Quincy Jones era do não menos talentoso Countie Basie.  E o operador de áudio, Peter, pôs a música para tocar. Era um caleidoscópio de timbres, com a gaita se destacando até soarem as primeiras notas do piano de Countie Basie.
Os elogios à gaita levaram o Jonas Vieira a citar, com muitos elogios, Maurício Einhorn, com a concordância de todos.  Nós, aqui do Biscoito Molhado, aproveitamos também a oportunidade para falar do Rildo Hora e do José Staneck, este, integrante da família de uma amiga de algumas décadas, a quem vi tocando, num casamento, uma das três Gymnopédies compostas por Eric Satie para o piano que ele, José Staneck, transpôs brilhantemente para gaita.
Com o doutor Fernando Borer, retornamos à música popular brasileira.
-A próxima apresentação é uma obra-prima de Janet de Almeida e Haroldo Barbosa, “Pra que Discutir com Madame”.
Depois das referências à aptidão do Haroldo Barbosa  em vários campos e ao fato de Janet de Almeida ser irmão do cantor e compositor Joel de Almeida, e também à versão bossa-novista do João Gilberto, chegaram à pernóstica madame. Magdala da Gama Oliveira, que escrevia sob o pseudônimo de Mag, no Diário de Notícias, que, nos seus textos, desdenhava o samba.
Guardadas as devidas proporções, havia uma semelhança com Ruy Barbosa que, senador da República, proferiu um furioso discurso contra o governo Hermes da Fonseca porque promoveu, em 1914, um sarau no Palácio do Catete com músicas da Chiquinha Gonzaga. Sinhô, cinco anos depois, ironizaria o pedantismo do verborrágico tribuno baiano  com a marchinha de carnaval “Fala, Meu Louro.”
Quando Mag, a madame, escrevia no Diário de Notícias, o meu pai trabalhava na revisão desse jornal fundado por Orlando Dantas e, segundo ele, afundado pela viúva.
Recordo-me das críticas que meu pai fazia à Mag e à Eneida, mãe do jogador do Botafogo, Otávio de Moraes, que, por sua vez, enaltecia o samba na sua coluna. Meu pai admirava o Nestor de Holanda e nutria simpatia pelo Ibrahim Sued, amigo de longa data do meu avô. Contou-me, certa vez, quando o Ibrahim Sued se desentendeu com o Roberto Marinho, no governo do “Seu Arthur”, o Marechal Costa e Silva, e foi escrever sua coluna no Diário de Notícias, que ele, num dia, procurou os revisores e pediu que não corrigissem seus erros de português, pois aquilo era o seu estilo.
-Acatamos o seu pedido, mas sal com “c”  e cedilha nós iríamos corrigir. - disse-me meu pai em tom de blague.
“Pra que Discutir com Madame” foi composto em 1941, mas Fernando Borer optou pela gravação de 1945, cantado por Janet de Almeida com o conjunto do flautista e parceiro de Pixinguinha, Benedito Lacerda.
E, para agradar a todos, principalmente ao Luca, fã do Chico Buarque de Holanda, e a si próprio, como veremos em seguida, Sérgio Fortes pediu  “A Rita”.
-Trata-se de uma gravação com Mauro Senise no sax alto (sax soprano) e maravilhosos músicos da Orquestra Sinfônica Brasileira. Deixa-me puxar a brasa para a minha sardinha...
E pôs-se a nomear os músicos da OSB que participaram do disco:
-Ana de Oliveira, violinista que foi spalla da orquestra; Ubiratan Rodrigues, violinista; Nairan Peçanha, violista; David Chew, violoncelo; e o trombone excepcional de Vittor Santos.
E se detiveram na violinista:
-Ela não está mais na orquestra, mas já foi spalla.
-Encontrei-me com Ana de Oliveira, informou-me que ia à Àfrica.
-Fazer o quê?
-Tocar.
-Ela, na verdade, rumava para a Ilha da Madeira, que fica a caminho da África. - emendou a sua informação o Jonas Vieira.
A leitura jazzística desses notáveis músicos enriqueceram  tanto “A Rita” do Chico Buarque que ela se multiplicou  em  várias mulheres: Marta. Margarida, Laura, Teresa, etc.
 Sérgio Fortes fez uma escolha que conseguiu a unanimidade de todos, dentro ou fora da Rádio Roquette Pinto.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

2531 - Durma-se com um barulho desses



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4331                        Data: 19 de dezembro  de 2013
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PERGUNTAS AOS LEITORES FIÉIS E BISSEXTOS (*)

AO DIECKMANN (**)

-”Minha vida como parlamentar, em Brasília, ensinou-me que, na capital do país, cada indivíduo é um crachá falante, classificado de acordo com sua categoria funcional. Não é uma sociedade de classes. É uma sociedade de crachás. Quem perdeu o crachá, perdeu a alma.”
“De há muito, também, me foi pendurado um crachá – o de direitista – com a definição implícita de conservador antropofágico, advogado da cristalização das injustiças sociais do chamado capitalismo selvagem. Sofri um longo processo de condenação ideológica, com escasso direito de defesa”.
Dieckmann, lembrei-me imediatamente de você quando li esses dois parágrafos acima de um artigo do Roberto Campos, publicado em 12  de fevereiro de 1992. Isso porque você vivia se queixando do crachá que a Petrobras o obrigava a pendurar no pescoço; até pensou num jornalzinho de sátiras que chamaria de CRACHATO.  Infelizmente o pasquim não apareceu até hoje, como a autonomia do Brasil em petróleo, tão alardeada pelo então Presidente Lula.
Pergunto: você já se acostumou ao crachá da Petrobras?

AO JONAS VIEIRA (***)

Jonas Vieira, mais de uma vez, expressou, no seu programa dominical da Rádio Roquette Pinto, a sua insatisfação com o erro que cometemos, numa edição pretérita do Biscoito Molhado, trocando o seu nome pelo do pastor Jonas Rezende. Confesso que, caso o meu nome fosse trocado pelo de  um pastor, eu também ficaria furioso, a não ser que esse pastor fosse o Rin Tin Tin.
Agora, Jonas Vieira, que você chamou o Sérgio Fortes de Sérgio Mandela, deve entender mais ainda que o meu equívoco não teve intenções sarcásticas, que isso acontece nas melhores famílias.
Isso posto, eu lhe pergunto: você já me desculpou pelo lamentável engano?

AO SIMON KHOURY (4*)

Em recente crônica, o Arnaldo Jabor escreveu que a Ava Gardner quebrou os móveis e utensílios do quarto em que se hospedara, no Hotel Glória, porque o sujeito que ela levou para a cama, um famoso cantor, broxou. O escritor e cineasta não citou o nome do santo, impotente, diga-se de passagem. Simon, como você conhece como ninguém os bastidores do teatro, rádio e televisão, pergunto: quem foi?

AO RATINHO (5*)

Num programa Rádio Memória, em que estiveram o Jonas Vieira, o Sérgio Fortes e o Dieckmann, esses dois últimos se referiram ao seu colega, desde a época infanto-juvenil, Ratinho, que o Dieckmann também chama carinhosamente de Rato Feroz.  Foi dito que ele conhece como ninguém a vida e as composições de Noel Rosa, o que convenceu o Jonas Vieira a abrir as portas para ele, Ratinho ou Rato Feroz, participar de um programa apenas sobre o filósofo do samba.
Posteriormente, numa troca de mensagens eletrônicas com seus colegas, Rato Feroz aludiu ao antológico samba de Noel Rosa, em que o jogador Russinho, que brilhou no Vasco de 1924 a 1934, é mencionado. E, assim, fiquei sabendo pelo Sérgio Fortes que o craque dos campos de futebol é pai da soprano de legendárias temporadas líricas no Teatro Municipal, Glória Queiroz.
Voltando ao Ratinho, pergunto: quando você irá brindar os ouvintes do Rádio Memória com Noel Rosa?

AO SÉRGIO FORTES (6*)

Quando você foi ao Rio Grande do Sul em busca de uma cerveja que o Dieckmann lhe indicou (segundo ele), foi lida pelo José Maurício, no programa em que você participa, a crônica do Fernando Milfond sobre a Teoria da Relatividade. Era inevitável que se fizesse referência à equação de Einstein que redundou no surgimento da bomba atômica: energia é igual à massa multiplicada pela velocidade da luz elevada ao quadrado.
Logo que a crônica foi encerrada, Dieckmann declarou ao público ouvinte que o Sérgio Fortes conhecia uma excelente piada sobre a bomba atômica, mas que só ele sabe contá-la.
Isso posto, pergunto: Sérgio, quando você matará a nossa curiosidade contando essa piada da bomba atômica?

À ROSA GRIECO (7*)

Rosa, você é afeita à leitura desde os quatro anos de idade e subia no abieiro do quintal da sua casa-biblioteca, na Rua Aristides Caire 86, hoje uma padaria, quando o seu pai pretendia exibir os seus dotes de leitora aos seus pares do mundo literário.
Passados quase setenta e oito anos, eu lhe pergunto: você já ficou, nesse longo tempo, pelo menos um dia sem ler menos de dez páginas de um livro?

AO ELIO (8*)
Elio, você tem viajado pelo tempo com o redator do Biscoito Molhado fazendo a reportagem de acontecimentos históricos. Assim, você já esteve no grande incêndio de Londres, em 1666; na vinda da corte portuguesa para o Brasil com a chegada da tropa napoleônica; no último baile na Ilha Fiscal, na Revolta da Vacina, na Revolta do Vintém, na Revolução dos Bolcheviques; etc, etc.
Como são incontáveis os acontecimentos digno de registro na história da humanidade, eu lhe pergunto, Elio: qual deles você gostaria de ir para mais uma reportagem?

AO FERNANDO HENRIQUE CARDOSO (9*)
Presidente, apesar de eu achar que o Roberto Campo sempre esteve certo quando vocês dois, senadores, polemizavam, tornei-me seu admirador depois que, Ministro da Fazenda e chefe da nação, você juntou uma equipe de notáveis (Pérsio Arida, André Lara Rezende, Pedro Malan, Armínio Fraga, e outros) e conseguiu dar um fim à hiperinflação e preparar o país para crescer.
Na presidência da República, você confessou que era “amarrete”, explicando que era uma palavra que aprendeu no Chile, no seu autoexílio, que significa sovina, avarento, pão duro.
Recentemente, desenterraram o presidente João Goulart, sob a alegação que fora envenenado, com uma pompa e circunstância, em Brasília, que uniu todos os que presidiram o Brasil junto à Dilma. Você não foi e eu aplaudi.
Pouco depois, são convocados de novo, pela Dilma ,todos os ex-presidentes para o funeral do Nélson Mandela na África do Sul. Na França, o presidente François Hollande  chamou o seu antecessor Nicolas Sarkozy, para o mesmo evento, no avião presidencial, mas ele declinou o convite e preferiu viajar para a África do Sul num avião comercial.
Fernando Henrique Cardoso, eu lhe pergunto: você foi ao funeral do Mandela no avião da Dilma, com ela, Sarney e Collor, por que é “amarrete”?

AO TINOCO (10*)
Tinoco, você continua sendo o fã nº 1 do playboy Porfírio Rubirosa?

(*) O Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO acionou todos os perguntados e divulga aqui a resposta de cada um:

(**) Dieckmann: o crachá surgiu na Petrobras, nos anos 80. Antes, qualquer cidadão podia entrar e sair das dependências da empresa, o que, sem dúvida, dava margem a hordas de vendedores pululando pelos andares do prédio da Avenida Chile, como faziam, também, em tudo quanto é prédio da cidade. Como era o tempo dos militares, eles baixaram o AI 5 na Petrobras e impuseram o crachá, obrigando a pessoa ser entrevistada por um centro de triagem, na recepção. Isso, obviamente, é uma agressão à livre circulação das pessoas e, como é comum no Brasil, muitos pagam pelo abuso de uns poucos. Claro que seria possível imaginar uma solução mais civilizada; no Uruguay (com y) qualquer pessoa entra em qualquer lugar, basta perguntar onde é a sala. Bom, o Uruguay é civilizado.

(***) Prezado Farináceo (foi o Dieckmann que me avisou que você gosta desse vocativo):
Eu já ia me desculpando (fora do ar) com o Sérgio Franco, mas ele me impediu, já que o Mandela teve uma vida sexual exemplar e que ele, Sergio Godinho, quer dizer, gordinho, tudo faria para imitá-lo. Foi uma troca bem avaliada.

(4*) Nem que a vaca tossisse eu revelaria que quem protagonizou a tocante cena não foi cantor coisa nenhuma e sim, o tradutor dela, cujo nome não me lembro, mas sei que tem um programa de rádio aos domingos na Roquette Pinto.

(5*) Biscoito, já marquei a passagem para o próximo inverno aqui de Porto Alegre. Como muitos sabem, eu sofro horrores com frio dos pampas, que só é agradável para aqueles machos gaúchos. Vou para o Rio e me hospedarei durante todo o inverno na casa do Comendattore Elio – nem pensar em passar na porta da Triumpho 30, onde mora aquele troglodita, aliás, ô Farinha, tu sabes que o apelido do Dieckmann é Troglô? e onde faz tanto frio quanto no Rio Grande, pois seria trocar 6 por meia dúzia. Ou seria o contrário?

(6*) Claro que conto, Biscoito; isso remonta aos tempos de faculdade, quando um colega nosso, pouco conhecido pelos dotes de coragem, respondeu que eu só poderei contar a piada na próxima edição do Radio Memória, o que farei com prazer.

(7*) Jamais pensei em participar de uma enquete em que a insolência prevalecesse sobre a diplomacia, afinal iniciar uma pergunta revelando as décadas passadas por uma interlocutora é crime de lesa-amizade eterna. Ademais, ler, ou não ler 10 páginas é uma informação tão irrelevante, que seus leitores com certeza prejulgar-me-ão tão provecta e presunçosa quanto a Revista do Radio. Por favor, outra pergunta.

(8*) Fácil, colega de voo, eu gostaria de estar na pele de Adão com um tacape na mão, no momento em que a Eva fosse pegar a maçã. Isso sim, seria uma pequena tacapada e um grande passo para a Humanidade, mais importante que andar na Lua.

(9*) Meu amigo das bolachas, eu o chamo assim, porque recebi a sua pergunta das mãos da Carolina Dieckmann, aquela deusa que é vizinha de meu filho, em São Conrado. Só isso já me faria eterno devedor de seu importante pasquim, que passarei a seguir pelo blog implantado pelo Sr. Divulgador, que é como se proclama o progenitor da Carolina; diga-se, de passagem, a Carolina é meu único elo de concordância com o Jorge Moreno, do Nhém-nhén-nhén e isso nos traz momentos de muita alegria. Quanto à sua pergunta, meu caro jornalista, eu digo que os acontecimentos é que merecem a minha presença e não os circunvizinhantes. Nada tenho contra as pessoas que presidiram o Brasil, antes ou depois de mim, apenas não quis compartilhar do antifuneral do Jango, que, não foi envenenado com pompa e circunstância, aliás, nem foi envenenado. Tratava-se da exploração política de um fato talvez policial e eu achei que não deveria emprestar qualquer simpatia a esse episódio. Continue perguntando, caro amigo, o prazer é meu em desfrutar da companhia de seus leitores.

(10*) Claro, tento me comparar a ele sempre, embora no espelho eu verifique que jamais chegarei a tanto.