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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

3066 - Há 200 anos



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5326 FM                           Data: 31 de agosto de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


CHARLES BAUDELAIRE, O POETA
    

Neste 31 de agosto completam-se 200 anos da morte de um dos maiores poetas franceses e mundialmente aclamado por sua obra, famoso por seus poemas e, sobretudo por sua vida tida como desregrada. Nasceu em Paris em 9 de Abril de 1821. Morreu aos 46 anos de idade. Além de poeta, foi crítico de arte e tradutor, considerado um dos precursores de movimentos estéticos como Simbolismo e Modernismo. Sua obra poética influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX, notadamente  a mais conhecida, traduzida em vários idiomas e sempre estudada e comentada: “As Flores do Mal”, uma coletânea de cem poemas, uma obra que causou grande impacto em Paris. Seus exemplares foram apreendidos sob acusação, pela Justiça francesa, de ultrajante à moral pública. Por isso, Baudelaire foi condenado a pagar 300 francos (a editora, mais 100 francos). A censura foi apenas sobre seis poemas, que foram substituídos por outros, os quais o próprio autor considerou muito melhores do que os censurados.

Baudelaire era tido como boêmio, “dândi”, que se pode traduzir como elegante, e, pelo estilo de vida desregrada que levava,   “flaneur”, que o dicionário traduz como ser vadio. Isso fez com que seu padrasto, um general do exército francês, a quem odiava (o pai morrera quando ele tinha apenas seis anos de idade), preocupado com sua vida sem controle, o mandasse ainda aos 19 anos, para a Índia, onde não chegou, ficando na ilha de Redenção. O desembarque foi comunicado à família, em carta, pelo  comandante do navio. O poeta já causara problemas à família, ao ter sido expulso  do Liceu Louis-le-Grand, ao se negar a entregar um bilhete que recebera de um colega.

Ao retornar a Paris, ao atingir a maioridade, recebe a herança que lhe coubera, com a morte do pai. Com o dinheiro em mãos, passou a viver entre drogas e bebidas, durante dois anos, em companhia da amante, a jovem e bela mulata Jeanne Duval. Pouco tempo depois, apaixona-se por Apolonie Sabatien. Sua mãe entra com ação na Justiça, acusando-o de irresponsável, pedindo que sua fortuna passasse a ser controlada por um tabelião.

Baudelaire tentou ingressar na Academia Francesa, uns dizendo que seria uma tentativa de se reabilitar perante a mãe e, desse modo poder receber o dinheiro da herança, enquanto outros  achavam que era  desejo de se reabilitar com o público, que tinha “maus olhos” para sua obra, tendo em vista as críticas que recebia da  burguesia.
 Além de ser um precursor de todos os grandes poetas simbolistas,  a crítica via sua obra como expressão do sentimento que revelava objetividade. Era um realista que detestava o entorpecimento da reprodução do mundo em poemas e pinturas, e tinha ao mesmo tempo ojeriza pela subjetividade exagerada. Foi um defensor dos costumes, denegria o progresso e desprezava o povo.

Ao viajar para a Bélgica encontra Felicien  Rops, que ilustra “As flores do Mal.” Durante visita à Igreja de St. Loup, de  Nemur, Baudelaire perde a consciência, colapso que é acompanhado por alterações cerebrais. Sofrendo de Sífilis, sem conhecer a fama e sem conseguir reeditar “As flores do mal”, morre em Paris em 1867.

Além de uma vasta obra poética, Baudelaire ficou conhecido por seus aforismos, como este:
“Existem  em todo homem, a todo momento, duas postulações simultâneas – uma a  Deus, outra a Satanás. A invocação a Deus, ou espiritualidade, é um desejo de elevar-se; a Satanás, ou animalidade é uma alegria de precipitar-se no abismo.”
Outro:
 “Quem não sabe povoar uma solidão, também não saberá ficar sozinho em meio a uma multidão.”

No poema “Hino à beleza”, eis o que diz o poeta:
“Vens tu do céu profundo ou sais do precipício,
Beleza? Teu olhar, divino, mas daninho,
Confusamente verte o bem e o malefício,
E pode-se com isso comparar-te ao vinho.”

Eis  mais um de seus poemas:
 Remorso Póstumo
“Quando fores dormir, ó bela tenebrosa
Em fundo de uma cripta em mármore lavrada
Quando tiveres só por alcova e morada
O vazio abismal de carneira chuvosa;
Quando a pedra, a oprimir tua fronte medrosa
E teus flancos a arfar de exaustão encantada,
Mudar teu coração numa furna calada
Amarrando-te os pés na rota aventurosa,
A tumba, confidente do sonho infinito
(Pois toda a vida a tumba há de entender o poeta),
Pela noite imortal de que o sono é prescrito,
Te dirá: “De que serve, hetaira incompleta,
Não teres conhecido o que choram os mortos?
E os vermes te roerão assim como os remorsos.”

Eis trecho de um poema em prosa, também de “As flores do mal”:

...”Esses tesouros, esses móveis, esse luxo, essa ordem, esses perfumes, essas flores miraculosas, és tu. És tu, ainda, esses grandes rios, esses canais tranquilos. Esses enormes navios que os singram carregados de riquezas e de onde provêm os cantos monótonos das manobras, são estes meus pensamentos que dormem ou rolam sobre teu seio. Tu os conduzes docemente em direção ao mar que é infinito, a refletir as profundezas do céu e na limpidez de tua alma; e quando, fatigado pelas vagas e saciados dos produtos do Oriente, eles retornam ao ponto natal. São ainda  meus pensamentos enriquecidos que voltam do infinito para ti.”


domingo, 27 de agosto de 2017

3065 - Verdi



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5325 SX                           Data: 27 de agosto de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO XXXIV

                           
SHAKESPEARE NA ÓPERA


O assunto é o final de carreira do extraordinário compositor Giuseppe Verdi.

Depois do êxito alcançado por "Rigoletto", "Il Trovatore" e "La Traviata", consideradas as óperas de sua maturidade, Verdi diminuiu seu ritmo de trabalho. Todos entendiam que ele não tinha mais nada a provar.

Verdi produziu dezoito títulos nos quatorze anos que separam "La Traviata" de sua primeira obra, "Oberto". Depois disso, levou dois anos para terminar "I Vespri Siciliani", mais dois para apresentar "Simon Boccanegra" e, novamente, mais dois anos para concluir "Un Ballo in Maschera".

Depois do "Baile de Máscaras", Verdi chegou a anunciar sua aposentadoria. Não ficara nada satisfeito com alguns dos cantores contratados pelo empresário Jacovacci para estrear a ópera em Roma, em 1859. Além disso, estava cada vez mais envolvido com a política, motivado pela causa da unificação da Itália. Verdi foi eleito para o primeiro Parlamento Italiano, tendo tomado posse em Turim no dia 18 de fevereiro de 1861.

Para voltar a compor, ficava claro que ele precisava encontrar motivações especiais. Esse incentivo veio do soprano Giuseppina Streponi, com quem Verdi se casara secretamente em 1859. Ela fez de tudo para tirar o compositor de sua aparente aposentadoria musical, convencendo-o a aceitar convite para produzir uma nova ópera para o Teatro Imperial de São Petersburgo, na Rússia.

Assim nasceu "A Força do Destino", que estreou em 10 de novembro de 1862. Seu libreto, produzido Francesco Maria Piave, é quase tão confuso quanto aquele que Salvatore Camarano preparou nove anos antes para "Il Trovatore". Verdi não se preocupou com isso. Esse enredo muito estranho propiciou-lhe várias situações dramáticas apropriadas à expressão musical, dele resultando uma partitura vigorosa, brilhante e melodiosa.

Sete anos mais tarde um novo convite, também muito especial, mexeria com os brios do compositor. Ismail Pachá, quediva do Egito, encomendou-lhe uma ópera para comemorar a abertura do Canal de Suez e inaugurar o Teatro Italiano do Cairo.

Por motivos vários, o teatro foi inaugurado em novembro de 1869, mas "Aída" só foi ali encenada em 24 de dezembro de 1871. Na verdade, a partitura já estava concluída um ano antes da estreia. Os cenários e figurinos, confeccionados por artistas franceses, ficaram retidos em Paris quando teve início a guerra franco-prussiana. De qualquer forma, a primeira apresentação da ópera alcançaria sucesso estrondoso. Sucesso que se repetiria no Scala de Milão em 8 de fevereiro de 1872, quando Verdi foi chamado à cena 32 vezes por um público em delírio.

Chegamos, então, à penúltima ópera composta por Giuseppe Verdi. "Otello" é, por muitos, considerada a ópera perfeita. Musicólogos, críticos e historiadores costumam situar essa obra no mesmo plano de "Don Giovanni" e "Tristão e Isolda", qualificando-as como as três mais importantes obras do gênero jamais produzidas.

A consagradora estreia de "Otello" aconteceu no Teatro Scala de Milão no dia 5 de fevereiro de 1887. Verdi estava próximo de completar 74 anos de idade. Dezesseis anos haviam transcorrido desde a estreia de "Aída", em 1871. A aparente aposentadoria do compositor perdurava desde 1874, quando o mestre apresentou na Igreja de San Marco, em Milão, o Requiem em homenagem a seu amigo Alessandro Manzoni.

Não é fácil enumerar os motivos que conduziram Verdi a produzir "Otello", depois de um retiro confortavelmente desfrutado na sua propriedade rural de Sant´Agata. O incentivo e a astúcia do editor Giulio Ricordi são frequentemente apontados como muito importantes. Acrescente-se a oportunidade de uma parceria com Arrigo Boito, excepcional libretista, poeta e também compositor. É certo, também, que Verdi viu-se atraído pela ideia de transpor para a música um texto de Shakespeare, alvo de sua grande admiração.

Vinte anos antes, em 1847, o compositor apresentara "Macbeth", com enredo extraído da obra do notável dramaturgo inglês. Essa ópera foi, sempre, uma das favoritas do compositor. Dedicou muito tempo nela procedendo a diversas revisões, e seu relativo insucesso causou-lhe irritação até o final da vida. Após a estreia parisiense de uma versão revisada do "Macbeth", Verdi foi acusado, entre outras coisas, de não conhecer Shakespeare. Enfurecido, escreveu: "Posso não ter transmitido muito bem o espírito de ‘Macbeth’, mas que eu não conheça, que não compreenda Shakespeare, meu Deus! Não e não! Ele é um dos meus poetas preferidos, desde a infância. Tenho seus livros nas mãos e os leio e releio constantemente.”

"Otello" serviu para apagar as más lembranças de "Macbeth". Sua estreia foi uma consagração para Giuseppe Verdi. A encenação foi freneticamente aplaudida ao final do primeiro ato. A cada intervalo o compositor era obrigado a se levantar e saudar a plateia. No final do espetáculo, uma ovação. O público acenava lenços e chapéus, aos gritos de "Viva Verdi!" Uma multidão acompanhou o compositor até seu hotel.

Tudo deu certo na concepção de "Otello". O trabalho do libretista Arrigo Boito foi extraordinário, ao condensar os 3.500 versos da obra de Shakespeare nos 800 que constam da ópera de Verdi. O compositor, por sua vez, foi muito bem sucedido na concepção de uma ópera arrojada, compacta, inovadora, ignorando as convenções que marcaram a cena lírica italiana do século XIX. Com isso, alcançou o inimaginável objetivo de, através da música, tornar ainda mais intensa a força dramática do texto Shakespeareano.

A consagração de "Otello" parecia encerrar com chave de ouro a carreira de Verdi. Aos 74 anos de idade, não tinha mais nada a provar. O que mais lhe poderia ser cobrado?
Arrigo Boito, o genial libretista de "Otello", foi competente, também, para propor ao compositor um novo desafio irrecusável. Disse-lhe: "Só existe um meio de você encerrar sua carreira de maneira ainda mais gloriosa do que com "Otello". Com uma comédia! Com "Falstaff"! Algo novo e desafiante, que vai deixar atônito o público acostumado aos dramas que você produziu ao longo de cinquenta anos!"

Boito tocara o ponto fraco do compositor. Verdi havia produzido uma única comédia, "Un Giorno di Regno", sem sucesso, em 1840. A produção dessa obra coincidiu com um período terrível da vida do compositor. Ele ficou seriamente doente, perdeu seus dois filhos e, dois meses antes da estreia, também morreu Margherita Barezzi, sua primeira mulher. A montagem da ópera revelou-se inadequada e sua acolhida junto ao público foi desastrosa. Para desespero do jovem autor, a encenação foi retirada de cartaz. Verdi nunca perdoou o público milanês pelo que considerou um ato de crueldade, uma reação intempestiva destituída de seriedade.

Se a composição de "Otello" foi cercada de mistério, muito mais secreto foi o processo de criação do "Falstaff". O libreto que Boito lhe propôs, baseado no texto de Shakespeare "As Alegres Comadres de Windsor", há muito atraía o compositor. Mas a resposta de Verdi tardou um pouco. No verão de 1889, ele cedeu à insistência de Boito: "Que assim seja. Vamos fazer esse "Falstaff".

Mas ninguém foi avisado desse projeto. Até o fim, Verdi sustentava que compunha uma nova ópera apenas para seu próprio prazer, sem intenção de apresentá-la ao público. De sua disposição de enfrentar essa nova empreitada, o mundo só tomou conhecimento em novembro de 1890. Num jantar na casa do editor Giulio Ricordi, que reunia Verdi, Boito e alguns amigos próximos. A horas tantas, Boito propôs um brinde ao personagem de enorme pança. Todos se entreolharam. Todos eram magros. Ricordi matou a charada, com um grito: "É Falstaff !"


Muito provavelmente o compositor deve ter finalizado sua derradeira criação num clima de tristeza. Sabia que ali encerrava sua carreira. Não comporia mais nenhuma ópera. Somente suas "Quattro Pezzi Sacri" ainda dariam um testemunho final de sua extraordinária energia criadora.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

3064 - Uma sombra esquecida



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5324 FM                           Data: 24 de agosto de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV

A HISTÓRIA DE UM SONETO

  Eis uma história, de certo modo curiosa, de mais de cem anos, que despertou especulações, debates populares, polêmicas, opiniões de intelectuais, algo inusitado, que ultrapassou as fronteiras  da França. Trata-se de um (único) poema que tornou seu autor conhecido mundialmente, inspirou dezenas de traduções e até livros inteiramente dedicados a desvendar o que seria um verdadeiro mistério, embora seu autor tivesse nome e sobrenome: Alexis Félix Arvers, nascido em Paris a 23 de julho de 1806.Viveu apenas 44 anos, foi poeta, dramaturgo, escrevente em tabelionato, renunciou à carreira, de onde poderia ter tirado o sustento de sua vida, mesmo de modesta renda, porém com mais segurança, para se dedicar ao incerto mundo literário. Tornou-se conhecido graças a um soneto  que mereceu destaque na época, ao ser usado como motivo de peça teatral. Logo depois, como título de um álbum de Marie Mennessier-Nodier, filha do escritor Charles Nodier. E isso causou grande polêmica, com repercussão em todo o mundo literário, motivando imensa curiosidade sobre a musa que teria inspirado o autor. Posteriormente, o soneto, já caminhando entre alguns percalços pela estrada da fama, foi incluído no livro de poesias “Minhas horas perdidas”, lançado em 1833.

Apesar de nem sempre a crítica estar em concordância com a celebridade do autor, sua obra permaneceu muito tempo entre as preferências do público, até mesmo mais de 100 anos depois. De acordo com pesquisa de opinião lançada pelo rádio e TV na França, entre mais de quatro mil respostas de preferência popular, o soneto obteve 1686.

Sua tradução ultrapassou, em muito, o interesse de poetas e especialistas no assunto, em diversos idiomas – do inglês Longfellow ao Esperanto, na Inglaterra e em outros países. No Brasil, mais de dez consagrados poetas ocuparam-se do soneto, que, em traduções, mesmo  em sátiras e tendo havido um livro escrito contendo não só diversas traduções como análises sobre a obra, obteve sucesso. Do mesmo modo em Portugal, quando, nos primeiros anos do século passado, foram representadas diversas peças teatrais, embora nenhuma delas tenha permanecido muito tempo em evidência. Após a morte do autor, foi relançado, em 1900, seu livro “Minhas horas perdidas”, com o soneto e acrescido de poemas inéditos.
                                                                                                                                                                                                                                                                    

“ SONNET  D´ARVERS”

“Mon âme a son secret, ma vie a son mystère,         
Un amour eternel en un moment conçu;
Le mal est sans espoir, aussi j’ai dû le taire,
Et celle qui l’a fait n’en a jamais rien su.

Hélas! j’aurai passé près d’elle inaperçu
Toujours à ses côtés et pourtant solitaire;
Et j’aurai jusqu’au bout fait mon temps sur la terre
N’osant rien demander, et n’ayant rien reçu.


Pour elle, quoique Dieu l’ait faite douce et tendre,
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d’amour élevé sous ses pas;

À l’austère devoir pieusement fidèle,
Elle dira, lisant ces vers tout remplis d’elle,
"Quelle est donc cette femme?" et ne comprendra pas".


“O SONETO DE ARVERS

“Tenho um mistério na alma e um segredo na vida:
Eterno amor que, num momento, apareceu.
Mal sem remédio, é dor que conservo escondida
E aquela que o inspirou nem sabe quem sou eu.
  
A seu lado serei sempre a sombra esquecida
De um pobre homem de quem ninguém se apercebeu.
E hei de esse amor levar ao fim da humana lida,
Certo de que dei tudo e ele nada me deu.
  
E ela que Deus formou terna, pura e distante,
Passa sem perceber o murmúrio constante
Do amor que, a acompanhar-lhe os passos, seguirá.
  
 Fiel ao dever que a fez tão fria quanto bela,
 Perguntará, lendo estes versos cheios dela:
"Que mulher será esta?" E não compreenderá.”


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

3063 - O aparelho do Cachambi



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5323 SX                           Data: 21 de agosto de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV

  MEU PRIMO, QUEM DIRIA...

Sou avesso a inovações. Mas sempre acabo por incorporar algumas delas, com defasagem de tempo razoável. Entrei para a comunidade do email alguns anos depois que a ferramenta estava amplamente difundida. Acho que para isso contribuiu a implicância do meu amigo Artur da Távola. Ele detestava a denominação email. Só usava "correio eletrônico". Em diversas ocasiões flagrei o Artur fazendo referência ao "correio eletrônico", deixando seus interlocutores com uma expressão levemente apalermada.

O tal do "WhatsApp" é uma conquista recente. Operações bancárias através do computador, nem pensar. Quando muito, tomo conhecimento do saldo de minha conta corrente pelo telefone. Mas não me acostumo. Quando a moça do Itaú fornece a cifra com voz maviosa e precisão cirúrgica, não há quem me convença de que aquilo não é coisa do diabo (*).

Recentemente dei outro passo gigantesco em termos de conquista tecnológica. Recorri ao tal do "Uber". Dois motivos me conduziram a esse destemor. Em primeiro lugar, meu destino, a Rua Vlaminck, no Cachambi. Não tinha a menor ideia de como chegar lá. A considerar, também, a tensão que envolvia a tarefa inesperada que me estava reservada.

Tudo começou com uma comunicação que recebi do Poder Judiciário, atestando que eu era o único herdeiro de Carlos Afonso Fraga de Castro, um primo distante que não encontrava há pelo menos cinquenta anos. Os Fraga de Castro são originários de Campanha, Minas Gerais. A família produziu uma penca de magistrados, desembargadores e, consta, até mesmo um Ministro do Supremo Tribunal Federal. Carlos Afonso, alto, bonitão, elegantíssimo, fugiu à regra, enveredando pela carreira diplomática. Pelas informações de minha avó paterna, de quem era próximo, ocupou postos importantes na Europa, sem jamais chegar a Embaixador, topo da carreira.

Desconfiado, pedi a meu advogado que me confirmasse os termos do tal comunicado da justiça. Estava tudo certo. Carlos Afonso deixara um testamento em que me destinava todos os seus bens. O que significava uma casa gigantesca no Cachambi. Com tudo que se encontrava lá dentro.

A vida inteira Carlos Afonso morou nessa casa. O que não totalizava muito tempo, porque passou boa parte de sua vida servindo no exterior. Eu era muito garoto quando lá estive, uma única vez, acompanhando minha avó, em visita ao primo distante. Devia ter dez ou doze anos de idade. Fiquei impressionado com o incrível tamanho da casa, a profusão de quartos, o terreno gigantesco que ocupava. Tinha mais jeito de sítio, de casa de campo. Toda minha família morava na zona sul do Rio de Janeiro. Copacabana, Ipanema e Leblon. Aquela visita ficou gravada na minha memória como uma grande aventura.

Aventura que quase terminou em desastre. Na ocasião, Carlos Afonso, depois de um dia repleto de conversas e novidades, fez questão de conduzir avó e neto de volta ao Leblon. Tirou da garagem seu carro novíssimo, que acabara de comprar. Um Kaiser Manhattan, que identifiquei muitos anos depois por conta de seu pára-brisas que lembrava o formato de um coração. Nunca esqueci esse detalhe. O conforto extraordinário do automóvel também ficou gravado em minha memória. Parecia um tapete voador.

O problema é que era noite e Carlos Afonso não enxergava muito bem. A horas tantas pediu a minha avó a gentileza de lhe passar seus óculos, que estavam guardados numa bolsa colocada sobre o banco traseiro do belo automóvel. Havia mais de uma caixa de óculos. Minha avó fez um sorteio e entregou ao primo o estojo que lhe pareceu mais conveniente. Daí para frente, a viagem ficou realmente emocionante. Os óculos escolhidos eram da marca Ray-Ban, que escureceram ainda mais a noite de Carlos Afonso. Somente no Leblon o problema foi detectado. Rimos muito. De alívio, certamente.

Naquela excursão ao Cachambi o que mais me impressionou foi o Nélio, o empregado faz-tudo de Carlos Afonso, responsável pela casa durante as ausências prolongadas do patrão. Acostumado com as empregadas de minhas avós, geralmente iletradas, tomei naquela ocasião um susto com o Nélio. O sujeito era um poço de cultura! Discutia qualquer assunto e dava-se ao desplante de falar inglês e francês. Ficou empolgadíssimo quando  soube que eu estudava piano e era aluno do Instituto Nacional de Música. Falou mais de uma hora sobre os pianistas de sua predileção: Rubinstein, Horovitz, Brailowsky... Nélio anotou meu endereço no Leblon e durante alguns anos trocamos correspondências. Que certamente cessaram por minha culpa.

Meu "Uber" chegou na Rua Vlaminck e me deixou na porta de minha nova propriedade. Pensava no destino que poderia dar àquela casa e àquele terreno. Diferentemente do que conheci nos anos 50, ela agora estava cercada de prédios residenciais e de uma profusão de estabelecimentos comerciais.

O portão estava aberto. Atravessei um jardim mal cuidado, onde predominavam plantas e árvores praticamente mortas. Cheguei à varanda da casa, sendo recebido por um velhinho empenado, cabeça branca, nenhuma dificuldade para falar e concatenar suas ideias. Era o Nélio.

Fiz alguns cálculos apressados. O Kaiser de Carlos Afonso era novo em folha no ano de 1952. Ou 1953. Quando morreu, meu primo estava à beira de completar cem anos de idade. Faço contas. Nélio devia estar próximo dos noventa.

Ficou feliz ao me ver. Vangloriou-se de ser o responsável pela minha herança, tendo chamado a atenção do patrão, desprovido de parentes, para a minha existência. Falou pelos cotovelos sobre música, exatamente como havia acontecido décadas atrás. Finalmente, concluiu que era hora de mostrar minha herança. Parei de contar o número de quartos quando a conta chegou a oito. Todos mobiliados à moda antiga. Dezenas de porta-retratos, estatuetas, bibelôs. Banheiros, um monte deles. Cozinha, absolutamente decrépita. Destaque apenas para o quarto de Carlos Afonso, cheio de imensos armários que abrigavam elegantíssimas casacas, cartolas e ternos impecáveis, um testemunho de sua agitada carreira diplomática.

A essa altura do "tour" eu já estava certo de que havia me metido numa encrenca. Que destino dar àquela "tralha"? Em que despesas iria incorrer na minha nova condição de latifundiário do Cachambi?

Nélio interrompeu minhas reflexões dizendo que era hora de conhecer o que realmente interessava. Conduziu-me ao também gigantesco porão da casa. Descemos uma pequena escada e adentramos um recinto comparável à caverna de Ali Babá. Uma bagunça infernal. Móveis quebrados e uma inacreditável quantidade de caixas absurdamente empoeiradas. Chamou minha atenção um grande armário, semi-aberto, abarrotado de revólveres e pistolas. Nélio ignorou completamente minha expressão de espanto. Acelerou o passo para me apresentar o que definiu como o que de mais importante havia no porão. Uma área cuidadosamente limpa, onde estavam expostos seis quadros lindíssimos. Obras de arte de tirar o fôlego. Busquei identificar os pintores que haviam produzido aquelas maravilhas. À beira de um colapso, encontrei as assinaturas conhecidas de Matisse, Gustav Klimt, Lucas Cranach e Johannes Veermer. Com ajuda do Nélio, inspecionei a parte de trás dos quadros, encontrando os títulos de algumas obras. Fiz um esforço para guardar essa informação. Reproduções? Trabalho de um competentíssimo falsário? Com o coração saindo pela boca, conclui que precisava fazer uma pausa naquele festival de emoções. Disse ao Nélio que tinha um compromisso inadiável, propondo-me a retornar no dia seguinte para completar minha visita.

Novo "Uber", agora em direção ao Leblon. Não me contive e pedi ao motorista para correr. Em casa, acordei o computador de mesa, à custa de alguns safanões. Busquei no Google referências sobre os quadros expostos no porão. Minhas desconfianças estavam confirmadas. Todos eram roubados. Da Tate Gallery, de Londres, do Museu de Arte Moderna de Estocolmo, da National Gallery e do Museu Poznam, da Polônia. Localidades, todas elas, em que Carlos Afonso havia servido como diplomata. Roubos jamais esclarecidos, mistérios fartamente mencionados no mercado de arte.

Impossível dormir à noite. Pior ainda aguardar, no dia seguinte, a hora de partir rumo ao Cachambi, como combinado com o Nélio. Ele me aguardava, segurando um envelope pardo. Fui logo dizendo:
- Nélio, aqueles quadros do porão...são roubados!
- É claro que sim!
- E quem é o responsável pelo roubo, Nélio?
- Ora, quem mais poderia ser? Carlos Afonso, o patrão!

Sentei-me, não conseguia mais permanecer em pé. Também sentado, numa poltrona que caía aos pedaços, Nélio levou um bom tempo contando-me uma história louca, mas certamente verdadeira. Carlos Afonso, ele explicou, era uma peça importante na estrutura do Partido Comunista do Brasil. Sempre dedicado ao sonho de implantar esse regime em nosso país. O ápice de sua trajetória teria sido o Levante Antifascista da Aliança Nacional Libertadora, em 1935. Percebendo minha expressão de dúvida, esclareceu que essa era a denominação correta do movimento que ficou conhecido como "Intentona Comunista", proposto pela facção legalista com o propósito de ridicularizar os esforços daqueles que lutavam para tirar Getúlio Vargas do poder. 

Ainda medindo as palavras, Nélio, também ele envolvido nessa refrega, comentou que seu patrão havia "expropriado" obras de arte com a finalidade de financiar aquele projeto, certo de que o mesmo seria vitorioso. Carlos Afonso, completou, era muito ligado a Harry Berger, o agente do Comintern que, pressionado, apontou o local onde Luiz Carlos Prestes e Olga Benário permaneceram abrigados ao final da Intentona, a cem metros dali, na Rua Honório.

Não resisti e perguntei:
- E aquele monte de armas guardadas no porão?

Também eram destinadas ao movimento. Fomos esmagados pelas forças do governo e o armamento está ali, sem uso, há mais de cinquenta anos. O mesmo aconteceu com os quadros. O patrão chegou a cogitar destruí-los. Mas era um homem culto, sensível. Não teve coragem para fazer isso.

Nélio não largava o envelope pardo. A horas tantas, recomendou: "É importante você ler com atenção o que está aqui dentro". Ao tempo em que me entregava o envelope, tirou do bolso um pequeno vidro. Remédios certamente, pensei. Com rapidez que não pude prever, ingeriu seu conteúdo. Estava morto, em questão de segundos.

Permaneci sentado, estarrecido, durante um bom tempo. Finalmente, tomei coragem e abri o envelope. O conteúdo, uma carta, assinada por Carlos Afonso. Falava de sua intenção de me poupar de explicações, certo de que eu não entenderia suas motivações. Dizia gostar de mim e adorar minha avó. Pedia desculpas por se ver forçado a me envolver em seus problemas. O último parágrafo continha uma orientação sobre a maneira de me livrar da enrascada em que estava metido. Em todos os aposentos da casa havia reservatórios de gasolina estrategicamente dispostos. Um incêndio naquele madeirame velho, carcomido, faria tudo desaparecer em questão de minutos. Esta seria, segundo ele, uma solução "inteligente".


Dois quarteirões adiante peguei o "Uber", na Rua Itamaracá. Olhei para trás. na direção da casa. As chamas já estavam altas.

(*) Soube-se mais tarde que o problema com o Itaú fora causado pela cifra muito baixa e não pelo Diabo. Problema que será contornado com a publicação do livro "O amigo capitalista do Fraga". Em breve, aqui.
O Editor