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sábado, 26 de dezembro de 2015

3001 - Uma Odisseia foi pro espaço


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O BISCOITO MOLHADO



Edição 5250EF       Data:  22 de dezembro de 2015

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Com - e sem - Carlos Eduardo Carvalho do Nascimento
Era uma das pessoas mais silenciosas, observadoras e argutas que conheci, em quase quinze anos de convivência, tanto em almoços, quanto por seus textos do Biscoito Molhado.
Ele me honrara em deixar que lhe fizesse as revisões, por alguns anos, até que cansei: ele era muito profícuo, com média de uma crônica por dia útil, a cada semana, todos os meses, há muito tempo.
Tricolor trânsfuga, Carlos se fez botafoguense no final da década de cinquenta, porque o Fogão  ganhou de goleada do Fluzão uma final de campeonato carioca.
Circunspecto, tímido, pouco sorria, apesar do senso de humor de fazer corar fradinho do Henfil.
Metódico ao extremo, tudo com ele tinha hora certa, a cada dia, qual a saudosa Rádio Relógio: correr ou andar, café, metrô, trabalho, almoço, trabalho, metrô, táxi, casa, leituras, escrita, despertar, correr ou andar, café, metrô... rotina da qual não se afastava por quase nada.
De memória prodigiosa e muitas vezes generosa, era capaz de reproduzir diálogos, de modo mais real - e humana - que a própria realidade.
De tanto preservar essa memória, seu ponto alto, no final da vida, foram as crônicas do Rádio Memória.
Admirava a cultura e a inteligência alheias, por isso amava platonicamente Rosa Grieco, e não sabia, porque nasceram em gerações diversas.
Pesquisador inveterado e leitor voraz, ele nos trazia sempre do melhor desta vida, da vida de tantos conhecidos e desconhecidos, quase sempre do Rio de Janeiro, para suas crônicas.
Viajava pelo mundo inteiro, com sua fiel recriação dos grandes eventos históricos, em que me fez várias vezes seu virtual e atemorizado companheiro.
Escritores, músicos e profissionais das artes em geral pululavam e se esvaneciam em sua espartana residência, em Del Castilho.
Patrono dos Sabadoidos, vários de seus míticos personagens, todos em carne e osso, estavam na tarde do sábado retrasado no Caju, à sua volta, menos dois: um, porque se foi antes dele, e outro, porque não foi lá, já que o próprio Carlos lhe ensinara que não se deve sepultar amigos.
Os taxistas de Maria da Graça perderam repentinamente seu cliente mais amigo, mais camarada, e nunca mais terão vozes, em algo tão sublime, como eram as crônicas do Carlos.
Entretanto, surgiram dois belos repentes de alegrias, nos últimos dias, para nós, que choramos o Carlos.
São os bons textos que o Luca e o Daniel, eles mesmos, aqueles dos Sabadoidos, dedicaram ao Carlos Eduardo Carvalho do Nascimento e seu Biscoito Molhado.
Não me engano ao declarar que todos nós, assinantes do Biscoito, pedimos a eles dois que prossigam na necessária e emocionante tarefa de escrever essas crônicas do Carlos.
Mais do que ninguém, eles sabem o que o Carlos nos escreveria, pela vida a fora, diante do cotidiano.








terça-feira, 22 de dezembro de 2015

3000 - Dormir é para os fortes


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O BISCOITO MOLHADO



Edição 5250DN (*)             Data:  22 de dezembro de 2015


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NESSUN DORMA – O último ato (19/12/2015)

                   Pego minha máquina do tempo, acoplada à minha memória, e retorno para alguma manhã de sábado. Não me lembro exatamente qual sábado. Só sei que, naquele sábado, o Sol ainda estava brilhando e o céu, azul.
 - Carlão!? É verdade que o Moacyr Franco plagiou a canção Nessun Dorma?
                - Sim. Ele pegou o refrão e mudou a letra.
                - Eu li que Nessun Dorma é de uma ópera chamada Turandot.
                - Isso mesmo, Daniel. Você sabia que Nessun Dorma foi a última ária composta por Giacomo Puccini?
                - Sabia, Carlão. Vi isso no show do André Rieu.
                - E você sabe o que significa Nessun Dorma?
                - Não faço idéia, Carlão.
                - Significa “NINGUÉM DURMA”.
                Agora, estou de volta ao presente.
                Um sábado tórrido deste dezembro de 2015.
                Ainda sofremos com as marcas deixadas pela tempestade que caíra uma semana antes.
                Mas tentei arrumar forças e fui com tudo, em busca de uma possível última obra do artista.
                O artista que agora está trabalhando em campos mais verdes, onde o céu é mais azul. Mas a suposta última obra não existe. Não há nada de novo pra ser contado. Não há mais nada a ser revelado.
                Após minha busca, voltei para casa e associei essa história com aquela história do grande compositor Giacomo Puccini:

                - Pôxa! Não encontrei a Nessun Dorma do Carlão... - disse a mim mesmo.
                  E um pensamento começou a martelar em minha máquina da mente:
                - Nessun Dorma = Ninguém durma; Nessun Dorma = Ninguém durma.
                  A máquina do tempo me leva de volta a uma noite, há apenas sete dias.
                - Nessun Dorma! Nessun Dorma, Carlão! Não durma! Que ninguém durma! Acorda! Levanta dessa cama! Nessun Dorma! Nessun Dorma, Carlão!
                 Eu, junto a outras pessoas, pessoas da família do artista e amigos do artista, estive presente na última ária do artista.  O Nessun Dorma do Carlão. O fim da ópera.
                 Que ninguém durma!
                 Depois de tudo o que foi visto, era muito natural que ninguém dormisse naquele momento.
                 Todos estavam impossibilitados de dormir, por causa de alguém que insistia em ficar dormindo.
                  E o que fazíamos naquele último ato? Fazíamos tudo, exceto dormir.
                  Ficamos acordados, acordados e esperando.
                  Esperando algum movimento naquilo que estava imóvel.
                  Esperando ouvir alguma voz de onde só vinha silêncio.
                  Esperando apenas uma resposta para milhares ou milhões de perguntas que fazíamos. 
                  Às vezes, penso sobre o ser humano. É engraçado, pois, por mais bela que seja sua história, ou não, ela sempre vai terminar em lágrimas.
                  NESSUN DORMA!!!!

                 Acorde! Sua mãe está esperando você acordar para ela poder dormir. 
                 Acorde! Amanhã é dia de você aparecer lá em casa, estamos te esperando. 
                 Acorde! Seus amigos do trabalho estão ansiosos para te ver na segunda-feira. 
                Acorde! Domingo tem Rádio Memória.
                Acorde! O Luca tá te esperando pra falar sobre o filme do CHIIIIIIIIIIIIIICO.
                Acorde! O Dieckmann quer saber sua opinião sobre os carros.
                Acorde! Suas sobrinhas estão te aguardando para a ceia de Natal.
                Acorde! Há uma carta da Rosa que você ainda não leu.
                Acorde! Todos nós estamos aqui, aguardando que você apareça e nos diga que tudo não passava de uma mentira. 
                - NESSUN DORMA!!!!
                Mas o artista continuou rebelde, insistiu em dormir quando não podia. Era cedo, mas cedo demais para aquele último ato.
                 Deixamos o personagem principal, dormindo em seu leito, na sua oficina de criação.
                Os que não podiam dormir se reuniram na sala.
                 Reuniram-se como políticos, quando o país sofre um ataque terrorista.
                Reuniram-se como dirigentes de uma empresa que faliu.
                Reuniram-se como cartolas de um clube que acabara de ser rebaixado.
                Todos reunidos em uma noite de dezembro, quando o relógio anunciou que era quase meia-noite.
                 Não! Não era réveillon. O ano não iria mudar, o que mudou foi outra coisa. Uma coisa muito mais impactante.
                - NESSUN DORMA!!!!
                A oficina do artista agora estava vazia. Todos se recolheram a suas casas. Não havia mais o que fazer. A ópera terminou.
                "Nessun dorma" para todos nós, ainda hoje.
               Escutamos a voz silenciosa de uma ausência que está presente em nossas vidas, desde aquele último ato.
                Uma voz que não está nos deixando dormir...
                - NESSUN DORMA!!!!                
                "Nessun dorma", tarde da noite, mandando nossas orações para nosso artista.
                 -NESSUN DORMA!!!!
                 Não fiquemos tristes, ele acordou em um lugar melhor.

(*) Daniel Nascimento é sobrinho do Carlos Eduardo, o adormecido redator do seu O BISCOITO MOLHADO. Tão fã dele quanto qualquer um de nós, teve o infindável privilégio de salvar o redator de incontáveis perturbações cibernéticas, sempre eficiente e reservado. Como ele, o redator, pensava e a ninguém dizia: Ah, eu queria ser um tio assim!
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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

2999 - hinos e merendas


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O BISCOITO MOLHADO

 

Edição 5249B                                 Data:  16 de dezembro de 2015

 

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A ESCOLA 5-2 SANTA CATARINA

Eram três as escolas públicas no bairro, geometricamente localizadas como as três pontas de um triângulo: a Santa Catarina, em Paula Mattos, a Julia Lopes de Almeida, perto do Dois Irmãos e a Machado de Assis, no Curvelo.

Da “Escola Julia Lopes de Almeida”, homenagem à primeira escritora profissionalizada no Brasil, pouco ou nada sei. A localização muito afastada do núcleo que frequentávamos, não. o﷽﷽﷽﷽﷽﷽﷽stimento  primeira escritora profissionalizada no Brasil,endereço acima mencioanado, deixou outra lembrança além do conhecimento de sua existência. Há alguns anos, participando de um movimento dos artistas junto aos “Aprendizes de Santa Teresa”, estive lá. Foi a única vez em que pus meus pés na velha escola, justa homenagem ao perfil educador de Julia de Almeida, precursora da mulher moderna e independente.

Já da “Escola 4-3 Machado de Assis”, lembro de alguma coisa e alguma história, graças aos meus primos Fernando e Carlos, que cursaram  nela até o quarto ano primário. A escola granjeava, na época, de prestígio no tocante ao ensino, o que minimizava o aspecto físico de um projeto pouco feliz. Nada nele inspira o lúdico ou dá espaço à fantasia. O prédio é prismático, paredão pintado de cinza,  janelas só no primeiro andar. O único acesso é através de uma monumental porta em aço; um bloco duro e hermético também cinzento, que veta qualquer tentativa de se perscrutar o que se passa no seu interior. Sempre me sugeriu um reformatório, mas não foi o que meus primos viveram lá, ou a lembrança que de lá trouxeram.

Carlos gostava, sim, da escola, das brincadeiras no vão imenso que compreendia o andar térreo.  À hora da entrada, não sabe o porquê, o hino tecia loas à América.

“Deus salve a América, terra de amor e paz.

Verdes mares, florestas, lindos campos cobertos de flor.

Berço amigo, da bonança, da esperança e do altar.

Deus salve a América, meu céu, meu lar.”

Como era norma na rede pública de ensino, a bandeira era hasteada à entrada do turno e arriada à saída. As cerimônias contavam com alunos perfilados junto ao mastro, dois manejando os cordões do mastro e o outro, como porta bandeira. Carlos teve a honra de participar na condição desse último, cabendo-lhe receber o pavilhão já dobrado e levá-lo até o gabinete da Diretora. Pompa e circunstância.

Nós, moradores de Paula Mattos, estudávamos no final do ramal da mesma linha, poucos metros abaixo do Largo das Neves.

A Escola Pública “5-2 Santa Catarina” foi inaugurada em 1935, como Ginásio Estadual Santa Catarina. Ocupa um terreno de boas dimensões, bem no meio da Rua das Neves (atual Rua Eduardo Santos), ladeira íngreme que descia em direção à Rua Paula Mattos. Podia-se entrar pela Rua das Neves, pela entrada principal, ou pelo portão dos fundos, na Rua Fluminense (atual Rua Pintora Djanira). O prédio deixava uma boa área livre nos fundos, servindo para a recreação das turmas do jardim de infância e outra, duas ou três vezes maior na frente, onde todo o primário brincava. A fachada da escola era virada para essa área maior, de tal forma que, estrategicamente, do gabinete da Diretora, tinha-se boa visão dela. Parte da área de lazer era cimentada, sendo o resto chão de terra batida, local preferido dos meninos. Tínhamos ainda um grande pátio coberto, onde antes do início das aulas, as turmas ficavam em forma para entoar os hinos. O prédio da escola tinha três andares: no andar térreo, a sala da Diretoria, o gabinete dentário, salas de aula, salas dos jardins de infância, banheiros feminino e masculino. Uma escada levava ao segundo andar, ocupado apenas pelas salas de aula e, num último lance, ao refeitório e à cozinha. Quase não subíamos ao refeitório, porque nossa merenda vinha de casa, mas era um espetáculo, a mesa comprida ladeada pelos alunos, regalando-se com mingaus de sagu, canjica, ou tapioca. Sempre me causou espanto o cardápio da merenda e jamais quis ao menos prová-lo. 

A hora da merenda era cercada de rituais: o primeiro, formação de fila para ida aos banheiros, sempre acompanhada pela professora da turma. Com as sacolinhas a tiracolo, personalizadas pelos nomes bordados íamos, de três em três, primeiro aos sanitários, depois às pias para lavar as mãos. Quando no caminho de volta à sala de aula, entoávamos a canção:

“Estamos com as mãos lavadas, com água e sabão.

Já podemos merendar, preparemo-nos  então.

Merenda bem sadia e muito gostosinha; -Quem foi que preparou?

Foi a nossa mamãezinha.”

Assim merendados, corríamos ao pátio e às brincadeiras. O terreno parecia do tamanho do mundo e aquele mundo, muito divertido.

Aliás, no segmento musical, a escola fornecia cantos e hinos da melhor qualidade, inesquecíveis para os alunos que por lá passaram. Sob a supervisão da inspetora, os uniformes avaliados e aprovados, ou não, seguíamos para o pátio coberto, turma por turma, enfileiradas, perfilando-nos para o início do canto do Hino Nacional. Os hinos variavam, mas sempre exaltando o patriotismo e celebrando os feitos históricos da História do Brasil. Com o mesmo espírito e fervor solenes, soltávamos a voz louvando, ora a Bandeira, ora a Independência, ora a Proclamação da República.  Depois do hino, já nos preparando para deixar o pátio, era a vez de exaltar o estudo, razão maior de estarmos ali. Então o saudávamos com afã, entoando a singela melodia:

“Cantemos felizes, a canção do dia.

Hoje é terça feira (4ª,5ª,6ª...) dia de alegria.

A escola nos ensina que devemos estudar.

O estudo é nossa vida;  estudemos a cantar...”

Nossas professoras eram rigorosamente preparadas  para o ofício e a maioria, realizada e feliz com ele. Algumas mais severas, mais exigentes, mas sobretudo muito amigas e empenhadas no sucesso de seus alunos. A Diretora, a despeito do cargo ocupado, jamais se valia da posição para intimidar quem quer que fosse pela arrogância. Seu gabinete era mais frequentado em busca de suporte financeiro do que em razão de séria repreensão, embora essa também se desse na medida justa e quando necessária.  Mas, assim que Dona Odette assomava na entrada da sala de aula, levantávamos ligeiramente apreensivos...

Dona Carlinda usava uns óculos que não disfarçavam seu tique nervoso: piscava em série, franzindo os olhos; Dona Isabel era uma figurinha miúda, feições delicadas, cabelos curtos e escuros sempre impecáveis; Dona Carmem fazia jus ao nome emblemático: exuberante, vaidosa, cabelos louros, batom e unhas vermelhas, sapatos de saltos bem altos.  Estas, entre outras, foram professoras que nos ensinaram muito além do que exigia o currículo escolar. 

Especial era a “Caixa Escolar”, instituto que consistia em cobrar uma taxa mensal dos alunos, criando um fundo para socorrer os mais necessitados. A cobrança era arbitrada pelos próprios pais ou responsáveis pelos alunos, assumindo mensalmente o valor da contribuição. Nenhuma discriminação. Filhos das famílias tradicionais, dos comerciantes, dos prestadores de serviços, dos domésticos, enfim, éramos todos iguais perante o corpo docente e perante nós mesmos. Outros personagens que povoam as memórias escolares são os serventes. Infelizmente não gravei seus nomes, com exceção do seu Celestino, mas as imagens permanecem nítidas. Ao final do turno, suspendiam as cadeiras, varriam o chão das salas e corredores, limpavam os banheiros, levavam o lixo, guardavam o que os alunos esqueciam sobre as carteiras. Na única ocasião em que me vi “sem saída”, a presença de uma servente foi meu consolo no desamparo da escola vazia e observar o seu trabalho, meu único derivativo. A visão da sua figura e o barulho familiar de uma faxina foram minha sobrevivência ao castigo e lamento não ter tido a oportunidade de jamais lhe ter agradecido.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

2998 L - o fim segundo Luca


 

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5248L   (*)                              Data:  14 de dezembro de 2015

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Parte final: O Redator Chefe desconectou-se

 

Nesta segunda-feira, 14/12/2015, os taxistas do metrô Maria da Graça não terão mais aquele passageiro com quem gostavam de conversar e não pararão mais no segundo poste à direita, na Rua Modigliani, em Del Castilho.

Rosa Grieco vai ter de inibir sua erudição: seu melhor tradutor se encontra em patamares do inconcebível.

O Partido dos Trabalhadores (PT) ganha uma trégua - seu ferrenho e implacável crítico não resistiu a tantos desmandos.

O Botafogo subiu para a primeira divisão, porém perdeu um torcedor de primeira linha. Lamentável!

O Dieckmann não será mais provocado e nem terá seus carros comparados a veículos sem nenhuma importância. Deixará também de ser lembrado como aluno aplicado do Colégio Militar e da turma do Fischberg. E agora seus asteriscos serão colocados em outros periódicos. (**)

O Elio não tem mais aquela carona que o levava a passear pelos melhores lugares e fatos do passado, em meio a guerras e revoluções, conseguindo passar por tudo incólume! Agora, se quiser saber disso ou daquilo, daqueles tempos, terá de recorrer à Dona Sarita, mãe e mestra.

O Claudio, a Gina e o Daniel ficarão sem a visita pontual do irmão, cunhado, tio, compadre, padrinho e, acima de tudo, amigo.

Não saberemos mais se o jornal do Claudio atrasou, se é seleta ou lima a laranja que ele degusta pela manhã ou se é possível que se ouça o Daniel em seu teclado.

O Sabadoido acabou – lamentou o Claudio.

Daniel – o Golden Boy preferido do Carlão - não terá mais suas imitações reproduzidas e o reconhecimento de que, em tudo que fazia, esbanjava competência.

Os grandes poetas, escritores, filósofos, atores e diretores de cinema e teatro, ou qualquer um que fosse virtuoso, não virão mais visitá-lo. Irão se encontrar lá por cima, onde nós perderemos esses papos tão inteligentes...

E eu, como fico? Fico mal. Recebi a notícia à queima roupa: o Carlos entregou os pontos! Fui correndo à sua casa, na esperança de poder levá-lo a um pronto socorro. Depois, viria uma rápida convalescência e o teríamos de novo conosco. Mas não. Não teve mais jeito. O cenário era o mais triste imaginável.

Tenho muita dificuldade em entender a morte e uma profunda implicância com ela. Só consigo vê-la como uma desmancha-prazeres.

O Carlos e eu tínhamos em comum não sepultar amigos.

Por isso, não fui visto no sepultamento de meu amigo Carlinhos.

E ainda desolados pelos acontecimentos que não têm revogação, eu e Gloria fomos assistir ao filme “Chico, artista brasileiro”.

Porém, as lembranças do Carlos embaralhavam minha atenção, até que Carminho, uma cantora portuguesa, interpretasse, de forma visceral, a irretocável “Sabiá”, obra prima de Tom e Chico.

 E me veio à lembrança que esta era a canção da dupla preferida do Carlos – Tom Jobim e Chico Buarque de Holanda.

No momento em que a música fluía, senti um leve conforto, como uma homenagem, e uma forte emoção...

E pude concluir que o amigo se exilava de vez, pois, ao contrário do que diz a música, Carlos não voltará para colher nem plantar seus “BMs”.

Está difícil.

A saudade já está se instalando e, a partir de agora, quem perder o programa “Rádio Memória”, aos domingos, não terá mais a reprise feita pelo BM.

(*) Os amigos do seu O BISCOITO MOLHADO irão manter o periódico vivo, por implicância. Ao lado de cada número da edição, será colocada a inicial de cada amigo, L no caso do Luca, E para o Elio, D para o Dieckmann e SX, para o Sérgio, uma personalidade demasiado complexa para ser chamado por apenas uma letra. Qualquer amigo poderá escrever, inclusive a Rosa ®, cujas colaborações ensejarão a formação de uma banca consultiva para realizar a tradução.

(**) O Luca se enganou quanto aos asteriscos, que estarão mais ativos do que nunca. E extremamente ácidos, críticos, ou seja, o que de pior poderá se esperar de um asterisco.

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

2997 - só lembrei duas horas depois...


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5247                                 Data:  08  de dezembro de 2015

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214ª CONVERSA COM OS TAXISTAS

 

Desci a primeira rampa de acesso da estação do metrô de Del Castilho e havia apenas um táxi no ponto da Rua Domingo de Magalhães. Perdi a esperança, até eu chegar lá, ele parte com uma chamada pelo rádio ou, então, por um aplicativo do celular. Desci a segunda e a terceira rampas, lá estava ele. Será que chego a tempo?... Ameaçava chuva e aquele banco de espera não nos abriga de todos os pingos d' água. Apressei as passadas. Na quarta rampa, eu fiquei quase certo de que iria para casa naquele táxi. Mas a Lei de Murphy se impôs, mal piso a calçada, ele parte. Cacete!

No entanto, atravessando a rua, vejo o Machado me chamando com um molho de chaves na mão, enquanto apontava para uns carros estacionados na esquina da Rua Conde de Azambuja.

-Vamos lá que o nosso caminho é o mesmo. - disse-me.

E eu o segui.

-É este aqui. - falou enquanto abria a porta de um carro cuja cor nem de longe parecia com o amarelo.

-Você é motorista da Uber, agora?

Claro que se tratava de um chiste, ou de uma “boutade”, como diria a Rosa Grieco, pois o Machado trajava uma bermuda e uma camisa de havaiano.

Já citei o nome do Machado duas vezes, aqui, mas confesso que, na hora, o seu nome se apagou da minha mente. Quatro meses ou mais sem vê-lo, foi tempo suficiente para me causar esse lapso de memória. Impus-me a obrigação de lembrar o seu nome no caminho da Domingo de Magalhães à Modigliani. Eu parecia o personagem do filme argentino “Nove Rainhas”, que tenta, durante toda a fita, se lembrar de uma música da Rita Pavone.

-Eu com Uber?... Nada. Quero descansar.

-E o seu táxi?

-Vendi para ajudar a minha filha a comprar uma casa por aqui no bairro.

-Você me dizia, quando eu pegava o seu táxi, vindo do trabalho,  uma vez por semana em média, que essa viagem que era a boa, pois era a última do seu dia e não o desviava do caminho para a Pavuna. Não mora mais lá?

-Não, moro aqui com a minha filha.

E este carro, que era um seminovo de um valor financeiro razoável?... Como ele o comprou se vendeu o táxi para a compra do apartamento da filha? Será que ele deu uma “pedalada”?... Fiz estas perguntas a mim mesmo, pois não queria me mostrar inconveniente.

Falávamos enquanto eu vagava nos “becos escuros da memória, velha cidade de traições”, como escreveu Machado de Assis, em busca do seu nome. Como ele se chama mesmo?

-Tenho visto muito o seu amigo lá no Méier?

-O Luca?

-Ele mesmo. Uma vez, quando eu trabalhava no Procardil, eu o levei de ambulância, com um rapaz, até a região dos lagos, onde um parente deles se acidentou.

-Você guiava a ambulância que socorreu o meu pai quando ele passou mal na época em que morávamos na Avenida Suburbana perto da barbearia do Fonseca.

-Claro que eu me lembro. Eu estava lá com o Salvador, que era meu compadre.

Não sei como funcionam os mecanismos mnemônicos, mas ele, quando citou o Salvador, eu tive certeza que não me lembraria tão cedo do seu nome. Salvador era o enfermeiro da ambulância, um negão que cresceu muito para cima e para os lados. O meu pai, quando voltou a si, fora de si, como se isso fosse possível, deu-lhe um soco na barriga que a gordura absorveu tranquilamente.

Para que o nosso diálogo não desgarrasse para a tristeza, pois o padrinho da filha dele se foi, pouco tempo depois desse socorro, com uma doença pulmonar, mudei de assunto.

-E o jogo do bicho?

-Tenho feito minha fezinha.

-Você joga lá no Méier e também aqui, em Maria da Graça?

-Jogo lá, apanho o resultado aqui. De qualquer maneira, tenho amigos nos dois bairros.

Amigos que, caso não haja táxis dos pontos da cooperativa, ele recolhe, o que deixa o Bob Esponja, o de número 184, fulo da vida, como me demonstrou algumas vezes. “Saiu da cooperativa? Some daqui!”

-Se ele saiu da nossa cooperativa, por que fica aqui? Só para tirar os nossos passageiros.

-O jogo do bicho é um esporte. - repetiu o que me dissera numa daquelas corridas em que ele dava o seu dia de trabalho como encerrado, deixando-me na Modigliani para rumar para a Pavuna.

De noite, quando me preparava para dormir, lembrei-me, finalmente, do seu nome.

No dia subsequente, entrei no táxi do 017. Inusitadamente, ele não seguiu pela Domingo de Magalhães, dobrou à esquerda e entrou na Fernando Esquerdo, rua evitada pelos taxistas por causa dos sinais de trânsito.

-É melhor irmos por aqui, para evitar esses favelados da Bandeira 2.

E prosseguiu na sua justificativa:

-Ontem, mataram dois PM no Jacarezinho, e a Bandeira 2  é quase a mesma favela.

-Eu evito, agora, na minha ida ao trabalho, o caminho para a estação do metrô de Del Castilho. Era uma boa caminhada, mas aqueles pedintes de dinheiro de lá pareciam mais assaltantes do que outra coisa.

-Levaram o carro do 108 na Domingo de Magalhães.

-Assaltaram?... Que coisa! Não conheço o 108.

-Ele não trabalha no horário em que você aparece. - disse-me.

-Eu, agora, pego um ônibus, por volta das 5h 30min da manhã, salto na Suburbana e vou para a estação do metrô de Maria da Graça. Vejo, no máximo, três pessoas dormindo debaixo das marquises.

-Drogados, certamente, Aqui, os drogados são aos montes.

Eu não me manifestei, e ele prosseguiu com a sua costumeira irritabilidade:

-Esses traficantes têm condições de trazer armas alemãs para cá?

-Há uma logística... - comecei a responder.

-Eles são analfabetos, ou quase isso. Quem traz é gente rica, que não vive em favelas. Um traficante tem possibilidades de trazer do exterior, armas, drogas? Isso é gente que vive em belos apartamentos na zona sul, na Barra da Tijuca.

-Uma boa parte do mundo artístico, para ficarmos nesse segmento da sociedade, consome cocaína; depois, ela, com a cara mais deslavada, ataca a criminalidade. – manifestei-me.

-Você viu o filme “Tropa de Elite”?  Eles consomem drogas e, depois, saem em passeatas contra a violência policial. - bradou.

E investindo contra aqueles que são a razão da existência dos traficantes e seus danos perversos à sociedade, chegamos ao nosso destino.

 

 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

2996 - joelho de padaria


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5246                                 Data:  06 de dezembro de 2015

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ACONTECEU NO DIA 06 DE DEZEMBRO

 

Mais um domingo sem o Sérgio Fortes no Rádio Memória. Diria alguém, de humor cortante, recorrendo a uma expressão do mundo futebolístico, que ele é da turma do chinelinho. Maldade, pura maldade, apesar de a justificativa do Sérgio Fortes para a sua ausência fosse problemas no joelho; contusão que, contada por ele, tomou as proporções da ruptura do tendão patelar que quase tirou o Ronaldo Fenômeno da Copa do Mundo de 2002. Aqui, faz-se necessário um adendo: a nossa comparação com um jogador de futebol não quer dizer de modo algum que também achamos que o parceiro do Jonas Vieira seja da turma do chinelinho.

Assim, parecia que o Rádio Memória desse 6 de dezembro seria editado sem o calendário. Jonas Vieira abriu os trabalhos anunciando a presença de um convidado ilustre, o ator, dentista biógrafo, autor do livro “Dez Vidas – Meu Olhar Sobre Elas”, Lino Corrêa, e mais Simon Khoury, sumido há uns dois meses. Nós, ouvintes do programa, já estávamos com saudades da versão brasileira da dupla Jack Lemmon e Walter Matthau, os dois vizinhos que passaram a vida brigando.

Como três das dez mulheres reverenciadas no livro são cantoras – Carmela Alves, Ademilde Fonseca e Wanderléia - nada mais cerimonioso que delas ele escolhesse a programação musical, mas o Simon Khoury passou por cima da etiqueta e pediu uma gravação do Henry Mancini.

-Simon Khoury e Henry Mancini foram amantes na outra encarnação. – garantiu o Jonas Vieira.

-Fomos – admitiu o Simon Khoury – mas eu por cima.

Quando o Rádio Memória chegava a nel mezzo del  camin, Jonas Vieira nos surpreende com a notícia de que teríamos o calendário logo após os anúncios da emissora.

Sérgio Fortes, ao telefone, antes de passar para as datas, referiu-se ao seu problema no joelho e citou o Fred do Fluminense. Logo o Fred, Sérgio, o líder da turma do chinelinho?... Assim, toda a defesa que fizemos, no início deste texto, foi por água abaixo.

-Sérgio, vamos ao calendário? – apressou-o o Jonas Vieira.

-Aqui vai uma data que achei interessante: em 6 de dezembro de 1768 é publicada a primeira edição da Enciclopédia Britânica. Jonas, daqui a pouco ninguém saberá o que representou a Enciclopédia Britânica. As coisas somem na poeira do tempo.

-Sérgio, o Artur Xexéo escreveu, nesta semana, sobre várias coisas tão presentes, no passado, de que não se fala mais.

-Existia até a profissão de vendedor da Enciclopédia Britânica, da Enciclopédia Barsa.

Após essa lembrança, o Homem-Calendário prosseguiu:

-Em 1868, ocorre a Batalha de Itororó, na Guerra do Paraguai, entre cinco mil paraguaios e treze mil brasileiros comandados pelo então Marquês de Caxias. Jonas, a proporção é desigual, mais de dois por um.

Naquela época, era quase fatal para os sedentos confundir Tororó com Itororó.

-Aquelas fotografias dos soldados paraguaios andrajosos, Jonas: horríveis.

-Em 1880, Buenos Aires é declarada capital da República Argentina.

Jonas Vieira exultou tanto que, por pouco, não cantou o tango de Gardel “Mi Buenos Aires Querido”, provavelmente as presenças do Simon Khoury e do Lino Corrêa o detiveram.

 

 

 

 

-Em 1901, o presidente dos Estados Unidos William McKinley é baleado por um anarquista. Jonas, aqui no papel (um impresso internético) está que ele iria falecer em 14 de setembro. Eu estranho, porque é muito tempo, são nove meses depois.

-Muita coisa, Sérgio.

Eis a falta que a Enciclopédia Britânica faz, ela restabelece a verdade dos fatos; pois nela se leria que o atentado contra a vida do presidente McKinley se deu em 6 de setembro, e a sua morte no dia 16 desse mesmo mês. A internet, que vem tornando obsoleta a Enciclopédia Britânica, estendeu dez dias de agonia para nove meses, uma gestação. O presidente americano, que fez um bom governo, segundo os historiadores, não merecia tanto “sofrimento”.

-Em 1951, Getúlio Vargas envia ao Congresso o projeto que cria a Petrobras.

-Hoje, a Petrobras... cortou o Jonas Vieira o seu comentário.

-Getúlio não sabia que, em 2014, 2015, o projeto a ser enviado ao Congresso seria sobre o fim da Petrobras, Jonas.

Conseguiram acabar com a maior empresa do país.

Um quase imperceptível gemido foi ouvido: talvez uma fisgada no joelho, talvez a dor pela queda dos preços das ações, talvez um mera estática de transmissão radiofônica, não se sabe bem.

Os corruptos levaram 103 anos para exterminar com o Lloyd Brasileiro (1894/1997), os corruptos de hoje, bem mais vorazes, precisaram de pouco tempo para arrasar a Petrobras, embora ela fosse muito maior que a empresa de navegação.

-Jonas, uma data terrível: o ex-tenente coronel Hugo Chávez é eleito presidente da Venezuela.

-Os venezuelanos não mereciam isso. – lastimou o Jonas Vieira.

Por coincidência, nesse mesmo dia, os venezuelanos votariam, era uma oportunidade de eles darem o primeiro passo para se livrarem do governo narco-bolivariano que gangrena o país.

-Nascimentos- impostou a voz o Sérgio Fortes.

-Jonas, você se lembra de Arnaud Rodrigues?

-É claro que me lembro.

-Ator, cantor, compositor e humorista, nasceu em 1942.

-Em 1946, nascia o último grande cantor que vimos cantar: Emílio Santiago.

-Jonas Vieira concordou, mas não se estendeu sobre a penúria de grandes vozes masculinas no cenário artístico brasileiro.

-Em 1949, nasciam dois irmãos geniais: os cartunistas Chico e Paulo Caruso.

Jonas Vieira concordou plenamente.

-Como diz um amigo meu: uma dupla de dois. - completou o Sérgio Fortes.

Ao contrário de Caim e Abel, Esaú e Jacó, Pedro e Fernando Collor de Mello, Pedro e Paulo de Machado de Assis, os irmãos cartunistas se dão maravilhosamente.

-Em 1961, nascia Antonio Calloni, excelente ator brasileiro.

-Falecimentos. - voltou a impostar a voz.

-Jonas, eu vou registrar apenas uma morte: em 1976, João Goulart.

-Convivi com ele, Sérgio.

-Sim, Jonas, você, como repórter de jornal, esteve, certamente, muitas vezes com ele.

-Sim.

-Jonas, hoje é Dia do santo padroeiro do Simon Khoury: São Nicolau, que vem a ser o Papai Noel.

-É por isso, Sérgio, que o Simon vive agarrado nele com uma listinha de presentes.

-Eu estou de saco cheio. - quebrou o Simon Khoury o seu silêncio.

Sérgio Fortes não prolongou o calendário (*), porque o convidado, Nino Corrêa, ainda não falara da metade das mulheres do seu livro; e desligou o telefone. Então, deu-se o inusitado: Jonas Vieira se colocou no papel de Homem-Calendário para enaltecer D. Pedro II que, em 49 anos de império, respeitou o dinheiro público e quando o usou foi para custear o aprendizado de Carlos Gomes e Pedro Américo. D. Pedro II nasceu, há 190 anos, em 2 de dezembro de 1825 e morreu, no exílio, em 5 de dezembro de 1891.

Muito bem, Jonas Vieira: essas datas têm de ser lembradas pelos brasileiros.

(*) E não contou que o barítono Paulo Fortes comemorou com efusivas loas líricas, seja lá o que isto queira significar, o nascimento de seu primeiro filho, Sergio, não acentuado, o mesmo que, 67 anos depois, frequenta ortopedistas de renome discutível, em busca da cura do joelho doído.