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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

3071 - Fichas emboloradas são melhores



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5331 SX                           Data: 29 de setembro de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV



CONFERINDO AS FICHAS


Nas rádios MEC e Roquete Pinto produzi durante um bom tempo programas voltados para a ópera, grandes cantores e teatro musicado. Com uma lábia irresistível o saudoso Artur da Távola, que tinha argumentos para vender aparelhos de ar condicionado no Polo Sul, me convenceu de que eu era um "radialista nato".
         
Não sou. Radialista nato é, por exemplo, o Nelson Tolipan, que há trinta anos entra no estúdio da MEC, de mãos abanando, para apresentar espetaculares programas de jazz. O mesmo fazia Hugo Paim, com seu delicioso programa das noites de domingo, em que imperava o tango.

Não sendo esse "ás do volante" definido pelo Artur, devo dizer que meus programas davam um trabalho dos diabos. Muita pesquisa, confecção de montanhas de fichas, preparação de verdadeiros "scripts' que eu levava numa pastinha para cumprir meus compromissos na MEC e na Roquete.

Longe de minhas obrigações radiofônicas sou, hoje, o administrador de um formidável arquivo de informações musicais. Que são úteis quando assumo minha mesinha na redação do "Biscoito Molhado". Resgatar esses escritos me dá prazer. Renovar contato com a obra dos grandes gênios confirma certeza irremovível, que alcança dimensão religiosa: a grande música é prova irrefutável da existência de Deus.
Remexo meus arquivos e encontro anotações que podem ser do interesse dos nossos leitores. Pareceu-me boa ideia divulgá-las através das crônicas do "Biscoito". Cartas para a redação!

Vamos começar com o primeiro grande sucesso de Giuseppe Verdi. Naquela noite de 9 de março de 1842 os apreciadores da arte lírica acorreram ao Teatro Scala de Milão para assistir à última ópera da temporada. Não havia grande expectativa em relação a esse trabalho. A ópera sequer havia sido anunciada no "cartellone", um calendário de espetáculos que o teatro divulgava antes do início de suas temporadas.

Esta ópera era "Nabucodonosor", escrita para o Teatro Scala por um jovem compositor que ali apresentara suas duas primeiras obras: "Oberto, Comte di San Bonifacio", que estreara com algum sucesso em 1839, e "Un Giorno di Regno", ópera bufa de 1840, um grande fracasso, que Verdi se viu obrigado a concluir em circunstâncias dramáticas, depois de perder sua mulher, Margherita Barezzi, e os dois filhos do casal, vitimados por uma epidemia que naquele ano se espalhara por boa parte da Itália.

Para surpresa geral, "Nabucodonosor", posteriormente conhecida como "Nabucco", foi o primeiro grande sucesso de Giuseppe Verdi, a ópera que o consagrou como um dos grandes compositores da Itália, identificado publicamente com as aspirações políticas de seu país.

O tema da ópera é o exílio do povo judeu na Babilônia. Uma comparação entre esse contexto e o momento político que a Itália então atravessava, aspirando à unidade de suas províncias e à libertação do domínio austríaco, tornou-se inevitável. O célebre coro "Va pensiero" causou verdadeira comoção no teatro, assumindo, desde então, status de autêntico hino nacional. O fenômeno se repetiria mais de cem anos depois, quando o Teatro Scala foi reaberto com "Nabucco", depois da segunda grande guerra. Uma plateia maltratada, empobrecida e, em muitos casos enlutada, voltou a cantar a plenos pulmões o "Va pensiero", com acompanhamento de lágrimas.

Dou mais uma remexida nos meus escritos e o sorteio, muito honesto, devo enfatizar, aponta para o que andei comentando sobre "My Fair Lady".

Difícil imaginar que essa extraordinária produção de Alan Jay Lerner e Frederick Lowe tenha estreado na metade do século passado! Mas é verdade. Essa première aconteceu no dia 15 de março de 1956, no Mark Hellinger Theater de Nova Iorque. Dois anos depois a peça chegaria a Londres e ganharia versões no mundo todo, do japonês ao hebraico. No Brasil foi interpretada pelos extraordinários Bibi Ferreira, Paulo Autran e Jayme Costa. A brilhante versão cinematográfica contou com os talentos de Audrey Hepburn e Rex Harrison.

Alan Jay Lerner, o famoso libretista de "My Fair Lady", fazia parte de um seleto grupo de compositores e letristas que propiciaram a fase áurea dos musicais da Broadway. Ele estava em excelente companhia: Arthur Schwartz, Howard Dietz, Vincent Youmans, Richard Rodgers, Oscar Hammerstein II, Dorothy Fields, Jerome Kern e Cole Porter. Tinham em comum uma sólida formação universitária, hábitos aristocráticos e refinado gosto literário.

Lerner nasceu em berço de ouro, em 31 de agosto de 1918. Seu pai, Joseph, era proprietário de uma grande cadeia de roupas femininas. Ele estudou em Hampshire, na Inglaterra, e em Choate, no estado de Connecticut, onde editava o jornal da escola em parceria com um amigo também privilegiado chamado John Fitzgerald Kennedy, que posteriormente seria seu colega na Universidade de Harvard. E Presidente dos Estados Unidos.

A inspiração e a formação cultural abrangente de Alan Jay Lerner estão presentes em todos os detalhes do extraordinário musical "My Fair Lady", que ele produziu em dupla com o também genial compositor Frederick Lowe. Este, como veremos, teve uma trajetória completamente diferente.

Ele nasceu em Berlim, no dia 10 de junho de 1901, filho de pais austríacos. Seu pai, Edmond Lowe, era um músico famoso, que excursionava com frequência à América do Norte, do Sul e também por toda a Europa. Frederick cursou o Conservatório de Berlim, sendo contemporâneo do célebre pianista Claudio Arrau. Tanto ele quanto Arrau ganharam a cobiçada medalha Holander, conferida aos melhores alunos do Conservatório.

Em 1925, Edmond recebeu um convite para se apresentar em Nova Iorque. Frederick decidiu acompanhá-lo nessa viagem. Mas quando chegou nos Estados Unidos, separou-se do pai. Disse-lhe que ia fazer sucesso na Broadway. Cedo descobriu que essa não era uma missão das mais fáceis. Fez de tudo para sobreviver na grande cidade. Chegou quase a passar fome e muitas vezes dormiu no Central Park. Aos poucos conseguiu ganhar dinheiro tocando em alguns modestos clubes noturnos e acompanhando ao piano a projeção de filmes mudos. Num dos cinemas em que se apresentava era costume dar início à sessão com a execução do hino nacional norte-americano. Frederick Lowe não conhecia o hino e decidiu por sua conta executar um outro de sua autoria. Donos do cinema e plateia ficaram furiosos.

Com o tempo, sua vida começa a melhorar. Ele passa a frequentar o "The Lambs Club", uma casa noturna onde se reuniam artistas de teatro, estrelas do cinema, produtores e diretores. Uma noite, se encheu de coragem e abordou o famoso Alan Jay Lerner. Disse a ele: "Eu penso que você escreve letras de canções". Lerner respondeu no mesmo tom: "Bem, eu entendo que você compõe música".

Ali começava uma parceria de enorme sucesso. Modesta de início, com a apresentação de "Great Lady" e "The day before spring". O primeiro êxito verdadeiro da dupla foi "Brigadoon", seguido de "Paint your Wagon". "My Fair Lady" foi sua consagração, em 1956.

Nova mexida nas fichas e surge o assunto tango. Tema que, normalmente, dá margem a algumas confusões. Senão vejamos: Carlos Gardel, o maior intérprete do tango, nasceu em Toulouse, na França, em 1890. Alfredo Le Pera, o grande letrista do tango, nasceu em São Paulo, no Brasil, em 1900.

Essas circunstâncias, ao que tudo indica, não afetam o ânimo de nossos "hermanos' platenses. Como sabemos, é quase impossível encontrar um argentino que padeça de complexo de inferioridade.

"La Cumparsita", tango famoso, o mais gravado em todo o mundo, também tem lá os seus problemas. Deveria ser motivo de imenso orgulho para nossos irmãos argentinos. Mas não é bem assim. Para começar, o autor de "La Cumparsita" é uruguaio. E a música, pasmem, não foi composta como tango, mas sim como uma marcha para o carnaval. A história dessa música é incrivelmente conturbada. Vamos resumi-la: o estudante de arquitetura Gerardo Matos Rodriguez compôs "La Cumparsita" em data incerta, fins de 1915 ou início de 1916, para participar de um concurso de carnaval promovido pela Federação de Estudantes do Uruguai. Não se tratava de um tango, mas sim de uma marcha, interpretada em cadência quase militar.

Outra polêmica diz respeito à orquestra que teria gravado pela primeira vez "La Cumparsita". Esta é uma discussão infindável, envolvendo os conjuntos de Alonso Minotto, Roberto Firpo e Juan Maglio. Consta, inclusive, que os discos da primeira gravação teriam sido prensados em Porto Alegre.

A letra do tango famoso também deu muita confusão. Originalmente, “La Cumparsita” não tinha letra. Em 1924 dois compositores argentinos, Pascual Contursi e Enrique Pedro Maroni, produziram versos para a música, rebatizando-a com o título "Si supieras". Começava aí uma pendência judicial que viria durar um quarto de século, tendo sido dirimida apenas em 1948. O certo é que essa versão, digamos assim, "pirata", foi a que fez imenso sucesso na voz de Carlos Gardel, que a gravou em Buenos Aires em 1924 e, quatro anos mais tarde, em Barcelona. Gerardo Matos Rodriguez chegou a produzir seus próprios versos para o tango e esta foi a versão gravada pelo célebre tenor Titto Schipa, em 1930. Mas os versos de Matos Rodriguez caíram no esquecimento. "La Cumparsita" chegou ao cinema em 1947, num filme dirigido por Antonio Momplet, com Hugo del Carril no papel principal.


Finalmente, uma última confusão envolvendo "La Cumparsita". Nas olimpíadas de Sidney, no ano de 2000, a delegação argentina desfilou na cerimônia de abertura ao som do tango famoso. O governo uruguaio imediatamente protestou, oficialmente.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

3070 - Um desenlace penoso



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5330 FM                           Data: 22 de setembro de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO XXXIV

O GALO

             
Cinco horas da manhã o galo começa a cantar, sem que ninguém peça, à hora mesma em que muita gente começa a dormir (inclusive eu), embalado pela voz desse pavaroti penoso, canto irritante que se prolonga pelo resto do dia, intermitentemente, sem que haja alguém que lhe compreenda o desespero – a necessidade de ter uma franguinha solta pela vizinhança. É uma ajudazinha de nada que possa atender às necessidades prementes que a vida lhe permite usufruir, como qualquer mortal, seja coberto de couro, de escamas, de pele ou de penas - desde que não sejam de urubus ou gaviões, mas de pássaros, pelo lirismo e o encanto do canto. É um canto choroso, lamento desesperado de quem está em solidão de fim de vida, fim de tudo. O infeliz cantante surgiu de repente numa área interna de um dos edifícios de movimentado bairro  cosmopolita, que é Copacabana, por onde desfilam milhares de visitantes extasiados. Um verdadeiro encanto, de dia ou á noite, quando todos os gatos são pardos, quando os cantares são outros, embora os fins sejam os mesmos.
O canto do desespero faz-me lembrar dos meus tempos de ainda sequer ser adolescente, que não tinha noção dos caminhos a percorrer, levava um viver simples, quando nada importava, a não ser a vida. Os sonhos não eram sonhados. Não criava ilusões, meu mundo era o presente, vivido em modesta casa, de quintal pequeno, com uma área destinada a um feudo dominado por exuberante senhor, dono de pouco mais de meia dúzia de galinhas, destinadas a suprir ovos para alguns omeletes e bolos para os humanos e, o melhor, para o deleite do tipo galante  e autoritário galo. O modesto galinheiro era posse do grã-senhor que começava sua faina antes do nascer do Sol, dividindo-se entre as damas galinhas do seu mundo, cada uma que esperasse a sua vez.
Pelo prazer que lhe era proporcionado pela natureza, seu canto era alegre, uma ode à vida. Cada dama penosa que aguardasse a sua vez, e os de casa que esperassem o resultado da  engalanada  folia, um adjutório às refeições diárias pagas em milho pelos favorecidos, agradecidos.
 Ao ouvir o novo canto, vejo-me de volta aos idos tempos nordestinos, sem dar importância ao vizinho triste. Não me lembro se o galo de antanho me irritava com seu canto festivo, isso agora não importa. Hoje, sofrido pelo peso dos anos transcorridos, volto ao tempo que se foi, pedaço da minha vida, revivido agora pelo canto do pobre galo instalado entre quatro paredes de cimento, sem uma mísera franga para saciar-lhe os desejos, refletidos no  lamentoso “blue” que revela uma vida sem sentido.
 Não sei até quando o triste (penso que seja) galo pode resistir  à solidão imposta pelo destino. Imagino que o desespero poderá ser um impulso  para uma tentativa de bater asas em fuga e não conseguir alcançar o Universo, ou, o pior, ser transformado em suculenta “canja de galinha” por seu dono ou por um vizinho irritado com a desafinada e melancólica cantoria.

PS: O galo parou de cantar, esperei dois dias, banquei o Sherlock, fui em busca da verdade (substantivo tão banalizado ultimamente). Sondei nas redondezas, não encontrei vestígios de tentativa de fuga, acidente ou retirada violenta, ou terem levado o infeliz para outras paragens. Conclui, pelo óbvio, que o das penas havia sido transformado, pelo seu desumano dono, em  mísera sopa, o destino inexorável de espécimens dessa natureza. Para ter certeza, a confirmação seria ir à procura dos resquícios finais do triste cantor, vasculhar latas de lixos nas imediações, arriscando-me a adquirir uma infecção. Preferi ficar na dúvida. E padecer, enlutado, pelo infausto desenlace. 


sábado, 16 de setembro de 2017

3069 - Halley foi para os fracos


           
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5329 SX                           Data: 16.09.2017

FUNDADOR CARLOS NASCIMENTO  -  ANO  XXXIV


O COMETA PAULO FORTES


Sempre é tempo de homenagear grandes artistas. Meu pai, o barítono Paulo Fortes, foi um grande artista.

Seu palco principal foi o Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Ali cantou 57 óperas diferentes, em 330 apresentações. Marca insuperável na história do teatro.

Essa carreira se estendeu de 1945 a 1996. Mas podemos dizer que começou em 1943. Com uma viagem de bonde ao Jardim Botânico. Um dos passageiros é o Maestro José Torre, preparador e regente do Teatro Municipal. Outro é um rapaz de dezoito anos, que tinha pretensões de cantar ópera. Poucos meses antes o maestro havia assistido a uma encenação da “Viúva Alegre”, promovida pelo Teatro Universitário, de Gerusa Camões. Ficara impressionado com a desenvoltura e com a voz daquele menino.

Os dois saltam em frente ao suntuoso palacete de Dona Gabriella Besanzoni, hoje conhecido como Parque Lage. Gabriella Besanzoni foi uma lenda da arte lírica do século XX. Dividiu o palco com Enrico Caruso e Tita Ruffo. Cantou inúmeras vezes no Brasil e se casou com Henrique Lage, o mais poderoso empresário brasileiro da época. Quando Henrique Lage faleceu, em 1941, ela aqui permaneceu, incentivando a ópera, promovendo espetáculos e, sobretudo, transmitindo seus conhecimentos a jovens cantores que viriam a se destacar na cena lírica de nosso país.

Dona Gabriella ouviu o rapaz cantar a “Canção do Aventureiro”, do “Guarany”, de Carlos Gomes, e a “Cavatina” do “Barbeiro de Sevilha”, de Rossini. Aprovado com louvor, Paulo Fortes dava início, naquele momento, a um ciclo exaustivo de estudos de canto.

Dois anos mais tarde, a direção do Teatro Municipal, impossibilitada de contar com a presença do célebre barítono norte-americano Leonard Warren, procurava um substituto para cantar a parte do velho Germont na “Traviata”. Consultada, Dona Gabriella assegura que seu jovem aluno conhece o papel “de trás pr'a frente”. Pura esperteza. Em doze dias mestra e aluno ensaiam a parte com afinco.

Foi assim que chegamos ao dia 5 de outubro de 1945. A temporada de óperas do Municipal alcança o sucesso habitual. O teatro, a exemplo do Colon, de Buenos Aires, está integrado ao circuito internacional da ópera. Por conta disso, aqui se apresentam, com regularidade, as maiores expressões da cena lírica mundial: Tita Ruffo, Beniamino Gigli, Renata Tebaldi, Maria Callas, Mario Del Monaco, Giuseppe Di Stefano, Zinka Milanov...Impossível enumerar tantos astros de primeira grandeza.

A atração da noite é “La Traviata”, conhecidíssima ópera de Giuseppe Verdi. A estreia se reveste do brilho habitual. A iluminação da Cinelândia destaca os contornos do belo teatro, cópia em escala menor da Ópera de Paris. Os convidados começam a chegar. Imponentes automóveis, fabricados ainda na década de trinta e cuidadosamente conservados durante os anos da guerra, quando sua produção foi suspensa, estacionam à frente do Municipal, para onde se dirige a nata da sociedade carioca e as autoridades mais importantes da então capital da república.

Algumas horas antes, cinco para ser preciso, um jovem mal saído do Colégio São Bento para cursar a Faculdade de Direito também chegara ao Municipal, acompanhado de alguns familiares. Ele se apresenta na entrada dos fundos do teatro e tem dificuldades para convencer o porteiro de que é um dos integrantes do elenco da Traviata. Explica o que já sabemos: seu nome é Paulo Fortes, aluno de Dona Gabriella Besanzoni, escolhido para substituir o consagrado Leonard Warren, que não poderia atuar naquela noite por conta de um acidente sofrido recentemente em Nova Iorque.

O porteiro se convenceu. Talvez nem estivesse preocupado com tantos detalhes fornecidos pelo jovem cantor, mas principalmente espantado com o fato, inédito, de um artista chegar ao teatro às 16 horas para se apresentar num espetáculo que só teria início às 21 horas. Três gerações de porteiros do Municipal tiveram que se acostumar com esse ritual, ao longo dos cinquenta e um anos de carreira que o tal garoto viria a desenvolver no mais importante teatro do país.

Já no seu camarim, e agora sozinho, o estreante assumiu sua comovente inexperiência diante da dimensão da tarefa que se propunha realizar. Seu currículo não se estendia por mais do que dois parágrafos. Alguns espetáculos encenados pelo Teatro do Estudante, ao lado de Mario Brasini, Alberto Perez, Nathalia Thimberg, Wanda Lacerda, Milton Carneiro...e um concerto da Mestra Gabriella Besanzoni, na Rádio Gazeta de São Paulo, quando o maior contralto do século, ao se despedir de sua legião de admiradores, apresentou ao público paulistano o aluno que reunia, a seu juízo, melhores atributos para manter viva a chama de sua arte.

Envolvido por esses pensamentos, eis que alguém bate à porta do estreante. Ele se vê diante de um senhor de meia idade, que não perde tempo em declarar: “Garoto, eu acho que você precisa de minha ajuda”. Juntando o que lhe restava de petulância, o jovem indaga: “É? Por quê ?” Candidamente, o senhor pergunta: “Você sabe se maquiar?” O jovem se rende. Com habilidade, Amadeu Celestino, irmão do célebre Vicente Celestino, e também ele cantor, se entrega à tarefa de conferir àquele rosto quase adolescente a fisionomia madura de Giorgio Germont, pai de Alfredo Germont, como reza o libreto da Traviata, extraído de “A Dama das Camélias”, de Alexandre Dumas.

O gesto carinhoso de Amadeu Celestino foi lembrado durante toda uma vida. Recolhido, já idoso, ao Retiro dos Artistas, foi ele, sempre, o interlocutor das demandas daquela casa junto a meu pai. “Ô Paulo! Tudo bem? O pessoal aqui está muito precisado de uma geladeira... Você pode ajudar a arrumar?" Paulo sempre ajudou.

A estreia do jovem barítono alcançou sucesso extraordinário. Marco inicial de uma brilhante carreira que se estenderia, como já foi dito, por cinquenta e um anos, nos palcos dos teatros de ópera da Europa e da América do Sul, no cinema, no rádio, na televisão e no teatro musicado.

No dia 9 de janeiro de 1997, quando esse cometa chamado Paulo Fortes encerrou repentinamente sua trajetória, recebi imediatamente de Roberto Dieckmann, Presidente do nosso clube de carros antigos, a incumbência de registrar o fato nas páginas da revista de nossa agremiação. Pareceu-me, inicialmente, algo pouco apropriado. Fugia ao espírito gozador da nossa revista. Aos poucos, no entanto, mudei de ideia. Me dei conta de que personagens como ele de alguma forma simbolizavam o apreço que nossa comunidade devotava à nossa cidade, às nossas tradições, a tudo que possui, verdadeiramente, valor histórico, artístico ou estético.

Para concluir, uma história rápida que resume a personalidade alegre, aguda e, sobretudo, carioca de meu pai. Ele foi um dos primeiros cantores de ópera a conseguir se aposentar, no Brasil, na condição de artista lírico. Tinha sua carreira incrivelmente bem documentada e por isso não foi difícil comprovar seus muitos anos de presença em nossa cena lírica. Transformou-se, a partir daí, em autoridade na matéria, sempre consultado por seus colegas interessados em obter também a sua aposentadoria.

Foi assim que um dia compareceu a uma audiência acompanhando o meio-soprano Gloria Queiroz,  para testemunhar a longevidade da carreira de sua colega. Estava acostumado a transformar esses compromissos em verdadeiras festas. Esperava ser recebido pelo Juiz, como de hábito, com um “E aí, Paulo! Tudo bem?” Naquela ocasião nada disso aconteceu. O tal Juiz era um osso duro de roer. Tudo questionava. Qualquer assertiva ou documento assumia diante de seus olhos a dimensão de fraude inquestionável. Paulo Fortes, também conhecido por seu pavio extraordinariamente curto, pediu permissão ao magistrado para acrescentar um dado a mais que talvez pudesse ajudar a comprovar os longos anos de carreira da amiga, desenvolvida quase sempre em sua companhia. “Meritíssimo, por gentileza, Vossa Excelência poderia me dizer quem rezou a primeira missa no Brasil?”

Atônito, respondeu o Juiz: “ Pois não. Frei Henrique de Coimbra, não é verdade?” Ao que Paulo Fortes, apontando para sua colega e para si mesmo, acrescentou: “ E nós, Meritíssimo, e nós. Ele no altar e nós no coro”.



terça-feira, 12 de setembro de 2017

3068 - o destino do amor argentino



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5328 FM                           Data: 12 de setembro de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO XXXIV


                              DE AMOR


Por onde anda o amor, perguntam os desamados, sofridos, oprimidos, de olhar perdido, sem saber que pode estar no Universo, solto como astro refletido no chão,  pisado e distraído, como disse o poeta Orestes, ao lhe dar um rumo em versos luminosos. Ou transformado em poeira de estrelas,  como quis Hoagy, o Carmichael, que fala também de corpo e alma, tirando com seus dedos  mágicos notas encantadoras de um piano. Amor, onde andarás, clamam os desiludidos, e a voz do Destino responde, solene com inicial maiúscula que lhe traduz o poder supremo de decisão sobre todos os seres viventes e todas as coisas. Senhor universal, substantivo nem próprio nem comum. Incomum, talvez, formado por substâncias etéreas, nem sólidas nem líquidas, saídas de laboratório misterioso, oculto, impenetrável. Simplesmente Destino, o  orientador! O comandante de todos os seres ou não seres vivos, pois os mortos já terão ido.

Destino. O que ele diz está dito, determinado, incontestado. São os “Caprichos do Destino”, como disse o poeta das valsas, pela voz enternecedora e bela do seresteiro. O Destino manda, os seres incautos obedecem, à espera que passem as tempestades arrasadoras, os raios sejam cortados ao meio e provoquem trovões  aterradores, que as estradas bloqueadas por pedras possam ser alcançadas, que  rios e lagos posam ser atravessados pela Arca.

Quem do Destino sabe? Eu, do alto de minha sapiência inconteste, filosófica, teológica, semiológica, telúrica e teleológica, jamais doutrinária, que transcende o Bem e o  Mal,  respondo: “Não sei!”

Talvez, quem sabe? O sábio da bola de cristal, com a cabeça pensante envolta em turbante de seda, de onde desvenda as manchas reveladoras, possa responder, e responde: “A caminho!”

Consulte-se, então, o Tarô, de figuras  misteriosas. Consulte-se o baralho, onde o sete e o treze, que a Matemática diz que são primos entre si e não divisíveis, possam ter uma resposta que dê alento aos desalentados. Procure-se nas manchas solares, a resposta vem iluminada: “Na Esperança!”

 Enfim, uma solução para o Destino. Esperança, encontrada na Caixa de Pandora, de onde foram libertados todos os males do mundo. Esperança de apenas  dar um tempo,  a última que morre. Aleluia!

Eis, então, uma estrada aberta no Universo por onde andou o Destino, entre a poeira das estrelas, e os astros distraídos, superando tempestades e raios, guiado pela luz que revelará o caminho. Se demorar, é seguir o dizer do poeta: “Só resta tocar um  tango argentino!”


terça-feira, 5 de setembro de 2017

3067 - Alhos e bugalhos, juntos e misturados



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5327 SX                           Data: 5 de setembro de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO XXXIV


MÉDICO GENIAL


Concursos de talentos infantis eram comuns nos anos 30 e 40 do século passado. Emissoras de rádio faziam sucesso apresentando programas voltados para a premiação de meninos cantores, locutores, declamadores, e por aí vai.

Essa febre chegou a uma importante empresa que atuava no Rio de Janeiro. Alguém teve a ideia de promover um concurso que contaria com a participação de filhos de funcionários da Light. À medida que o certame alcançava suas etapas finais, ficava claro que havia dois favoritos destacados. Um menino-cantor, que na avaliação de todos tinha voz de homem, ganhara recentemente um concurso promovido no intervalo de uma peça de teatro que ostentava o estranho título "Por Causa do Baiacu", estrelada por Alda Garrido. O garoto cantou "Chão de Estrelas" e levou a plateia ao delírio. Foi imediatamente contratado pela Rádio Guanabara. O pai do jovem artista era engenheiro da Light.

Seu adversário era filho de um desenhista lotado, também, no departamento de engenharia da empresa. Viciado em concursos, ganhador de diversas promoções, brilhava tanto como cantor quanto locutor.  Era conhecido como "Gargantinha de Veludo", atração de vários programas da Rádio Sociedade.

O concurso foi vencido pelo segundo candidato. Seu nome era Max Newton Figueiredo Pereira Nunes. O candidato derrotado se chamava Paulo Gomes de Paiva Fortes.

Ali começava uma amizade que durou mais de sessenta anos. Sempre que se encontravam, Max Nunes fazia questão de "consolar" o amigo Paulo Fortes: "Não liga não, Paulo. Naquele tempo já havia marmelada!..."

Paulo Fortes cursou a Faculdade de Direito. Jamais exerceu a profissão de advogado e durante cinquenta anos atuou como mais importante barítono do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Max Nunes estudou medicina e foi um brilhante cardiologista, tendo ocupado o cargo de Diretor do Instituto Brasileiro de Cardiologia. Ao longo de toda sua vida, Paulo Fortes compareceu com absoluta regularidade ao consultório do Doutor Max Nunes. Dizia o médico que essas visitas não encontravam paralelo na história da medicina. Duravam cerca de três horas. Na primeira hora, médico e paciente se dedicavam a contar piadas. Na segunda, o assunto era o América Futebol Clube, paixão a que os dois amigos se dedicavam com angústia e sofreguidão. A terceira hora, finalmente, era dedicada à saúde do paciente. Doutor Max manifestava sua apreensão diante da pressão arterial e das taxas apresentadas pelo amigo. Prescrevia remédios que serviriam para atenuar esses problemas. Remédios que o barítono comprava, mas não tomava, supondo que poderiam ser prejudiciais à sua voz.

Max Nunes nasceu em Vila Isabel. Era vizinho de Noel Rosa e sua casa era frequentada por muitos artistas. Lauro Nunes, seu pai, era o que podemos definir como talento multifacetado. Além de trabalhar na Light, era jornalista, tradutor, humorista e roteirista de programas da Rádio Mayrink Veiga. Com o pseudônimo "Terra de Sena" assinava boa parte de sua produção.

Max Nunes herdou e potencializou as aptidões do pai. Depois de um breve período na Rádio Tupi, ingressou na Rádio Nacional. Começou como roteirista do "Barbosadas", programa muito popular apresentado por Barbosa Junior. "E o Mundo se Diverte", filme de Watson Macedo lançado nessa mesma época, também contou com um roteiro de Max Nunes.

Reconhecendo o talento do jovem produtor, a direção da Nacional convocou-o para dinamizar o "Programa Manoel Barcelos", uma das principais atrações da emissora, que tinha como grande estrela a cantora Marlene.

O "pulo do gato" de Max Nunes na Rádio Nacional aconteceu em circunstâncias muito especiais. O "PRK-30", possivelmente a maior atração da emissora, era apresentado por Lauro Borges e Castro Barbosa no horário das 20:30 horas das sextas-feiras. Eis que a dupla, sem qualquer aviso prévio, aceitou um convite para se transferir para a Rádio Tupi, fazendo jus a um mega contrato bancado pela Companhia Cervejaria Brahma. A direção da Nacional entrou em parafuso. Esse horário das sextas-feiras era tradicionalmente destinado a um programa de humor. Antes do "PRK-30" o espaço era ocupado por Jararaca e Ratinho, também com grande sucesso.

A solução adotada por Victor Costa, o "chefão' da Nacional, foi convocar o jovem cardiologista para idealizar algo inteiramente novo, o que foi feito no prazo recorde de uma semana. O "Balança mas não cai' revolucionou a radiofonia brasileira. E enlouqueceu o público ouvinte do Rio de Janeiro. Todos passavam o fim de semana comentando as desavenças entre o primo rico e o primo pobre, brilhantemente interpretados por Paulo Gracindo e Brandão Filho. Morriam de rir, também, com dois índios que comentavam o panorama político do país, um destacando aspectos positivos, o outro, em contrapartida, denunciando acontecimentos negativos que afligiam a população. "Pezinho prá frente, Pezinho prá trás" era um festival de risadas promovido pelos índios Orlando Drumond e Hamilton Ferreira.

Esse sucesso extraordinário resultou em sobrecarga de trabalho para o jovem produtor que, em determinado momento, chegou a produzir seis programas semanais para a Rádio Nacional. Tomou, então, a decisão de retornar à Rádio Tupi, em 1952, para escrever apenas um programa por semana. "Uma Pulga na Camisola", desnecessário dizer, também fez imenso sucesso.

Essa diminuição do ritmo de trabalho em rádio foi compensada por Max Nunes com brilhantes incursões no teatro de revista, resultando em 36 produções que alcançaram enorme êxito. Além disso, passou a assinar festejadas colunas na "Tribuna da Imprensa" e no "Diário da Noite".

O previsível aconteceu com a chegada do talento de Max Nunes à televisão. Depois de algumas participações esporádicas em programas da TV Tupi, na década de 50, ele assinou, em 1962, contrato com a TV Excelsior para produzir "My Fair Show" e "Times Square". Em parceria com Haroldo Barbosa, outro gênio inesgotável a serviço do rádio, da televisão, da música e do jornalismo em nosso país.

A trajetória de Max Nunes na TV Globo, onde ingressou em 1964, é mais recente, e bastante conhecida. Começou com "Bairro Feliz", passou por "Riso Sinal Aberto", "TV Zero - TV 1", "Satiricon", "Faça Humor Não Faça a Guerra", "Viva o Gordo" e mais uma dezena de realizações que marcaram definitivamente a televisão brasileira.

Em 1970, em parceria com Laercio Alves, Max Nunes ainda encontrou tempo para criar "Bandeira Branca", preciosa página da música popular brasileira, interpretada por Dalva de Oliveira.

Em 2014, no dia 11 de junho, aos 92 anos de idade, depois de muito tempo de colaboração com seu afilhado Jô Soares, Max Nunes deu por encerrada sua passagem pelo planeta. Achou que era hora de reencontrar Lamartine Babo, Belfort Duarte, Danilo Alvim, Orígenes Lessa, João Cabral de Melo Neto, Fernando Ojeda, Paulo Fortes, Carola e Oswaldinho para, como sempre, tecer loas ao querido América Futebol Clube.

Vamos finalizar esse texto com uma seleção de frases e pensamentos antológicos de Max Nunes. Eles atestam a falta que faz esse gênio brasileiro.

"Paraquedas é o único meio de transporte que, quando enguiça, você chega mais depressa."

"Há casais que se detestam tanto que não se separam só para um não dar esse prazer ao outro."

"Não era uma mulher. Era uma guilhotina. Cinco homens perderam a cabeça por sua causa."

"Desfalcada a seleção da Grécia. Acertaram o calcanhar de Aquiles."

"Por que não cruzar um pombo correio com um papagaio? Assim, em vez de levar o bilhete, ele dava logo o recado."

"Filho único é tão chato que não há no mundo quem tenha dois."

"Se acupuntura resolvesse porco espinho não ficava doente."

"Conheço um sujeito tão imoral, mas tão imoral, que a leitura de sua mão é proibida para ciganas com menos de dezoito anos."

"Era tão azarado que, se quisesse achar uma agulha num palheiro, era só sentar-se nele."

"O grande mal do divórcio é que permite ao homem casar-se uma segunda vez."

"A prova de que o balé dá sono na plateia é que os artistas entram sempre na ponta dos pés."

"Tempos de fartura eram os de antigamente. Até os três mosqueteiros eram quatro."

"O difícil de confundir alhos com bugalhos é que ninguém sabe o que são bugalhos."