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quarta-feira, 31 de maio de 2017

3041 - Amarrado pra não cair



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5291 FF                           Data: 30 de maio de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


A VIDA É UM CADARÇO        

Meu cadarço está invariavelmente desamarrado. Estou sempre abaixando para amarrá-lo e nesse curto intervalo de tempo em que dou o nó penso: minha vida é um cadarço desamarrado.

Por mais que eu tente, capriche, mude as técnicas, a postura, o jeito, ele vai desamarrar. Desamarrado ele me fará tropeçar; E assim caminho e tropeço, abaixo e penso, mas todo dia sei que terei de amarrar meu cadarço.

O cadarço é como a vida. Algumas pessoas, nas quais me incluo, estão sempre tentando dar o nó definitivo. Aquele que não desatará. Que não o fará mais abaixar, repensar e rememorar. 

Outras pessoas caminham longos períodos com os mesmos nós. Suas vidas são sem percalços, uma função linear com poucas curvaturas. Existem ainda as pessoas que nem cadarço tem. Não querem emoções, alegrias ou tristezas. Querem o óbvio. Não querem iguarias, surpresas ou imprevistos. Querem o gosto conhecido. Uma maneira de viver morrendo ou de morrer vivendo.

Olho para meu cadarço com rabo de olho. Feio, lambuzado, com marcas, nós mal dados e pedaços faltando. Estou sempre num abaixar e levantar. Até o dia em que não levantarei mais. Cansarei disso. Deixarei assim, como aquelas doenças que não tratamos. Um dia ela aumenta, evolui e nos mata. Farei assim, não mais o amarrarei. Chega de decepções e de tropeços. Meu nó nunca será perfeito, pois a vida é imperfeita demais. Se eu souber que está desamarrado, tudo será mais fácil. Acabarei com o imprevisível.

É ele que nos mata. Vou para a turma dos sem cadarço. Não mais me curvarei, pois abaixar pressupõe poder levantar.


Tomo essa decisão amarrando meu cadarço. Desvio meu olhar e meus olhos vão ao encontro de uma criança. Reparo em seus pequeninos tênis também desamarrados e no sorriso do seu rosto. Ela tenta amarrar de forma atabalhoada e sorri para mim. Eu retribuo, olho para o cadarço e penso. Ainda posso levantar mais vezes.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

3040 - Matusquelorum, matusquelorae



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5290 SX                           Data: 29 de maio de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO:XXXIV


 O MATUSQUELA UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO

Uso muito o termo “matusquela”. Para adjetivar pessoas com comportamento amalucado, capazes de cometer gestos altamente imprevisíveis, e por aí vai. Confiro o dicionário antes de rabiscar estas linhas e chego à conclusão de que minha definição não está muito errada.

Tenho orgulho da minha coleção de matusquelas. Gente que conheci ao longo da vida. Ou tomei conhecimento de episódios estranhos em que estiveram envolvidos.

Um dos meus favoritos é o Pedro Paulo. Bem nascido, boa pinta, a família decidiu que a quantidade de confusões que vinha aprontando em Belo Horizonte recomendava sua mudança para o Rio de Janeiro. Conseguir uma ocupação em seu novo domicílio não chegou a ser problema. Com apoio de parentes influentes, próximos ao governo Juscelino Kubitschek, virou locutor na Rádio MEC.

Mas nem tudo é perfeito. O expediente do recém chegado na rádio começava exatamente à meia-noite. Atravessava a madrugada agarrado ao microfone, anunciando preciosidades de Beethoven, Mozart, Chopin e que tais. Pedro Paulo ficava desesperado. Tinha coisas muito melhores a fazer nas madrugadas agitadas do Rio de Janeiro nos anos 50.

O desespero favorece a criatividade. Numa madrugada que se afigurava imperdível, o indigitado locutor adentrou o estúdio da MEC carregando dois grandes pacotes. Um imenso toca-discos ocupava o primeiro. O segundo continha um punhado de discos. À meia-noite assumiu o microfone e anunciou: “Ouvintes da Rádio Ministério da Educação e Cultura, passamos a apresentar uma programação muito especial. O ciclo completo das sinfonias de Ludwig van Beethoven!” Dito isso, ajustou na tal vitrola a pilha de discos, pressionou o botão do automático e saiu porta afora. Pelos seus cálculos, as nove sinfonias do mestre de Bonn iriam manter os audiófilos ocupados até quatro horas da madrugada.

Mas tudo deu errado. Um arranhão profundo interrompeu a execução da primeira sinfonia ainda em seus acordes iniciais. A música não ia nem prá frente nem prá trás. Instalado no Beco das Garrafas, em Copacabana, Pedro Paulo não tomou conhecimento dos guinchos que a MEC transmitiu durante toda a madrugada. No dia seguinte foi visto disputando uma concorrida vaga de vendedor na Enciclopédia Britânica.

Geraldinho é outro matusquela que abrilhanta meus arquivos. Sempre às voltas com a falta de dinheiro, dava saltos mortais de costas para manter sua pipa no alto. Dele não se pode dizer que não tinha talento. Era um excelente desenhista e pintor. Sua primeira opção foi a arte moderna. Pintava quadros com um viés geométrico. Propunha-se a ser um inovador, utilizando diversas técnicas e materiais, inclusive tintas  acondicionadas em aerossol.

Em certa ocasião, devidamente instalado em sua quitinete-ateliê da Prado Júnior, nosso herói teve sua inspiração prejudicada por uma lata de Color Gin entupida. Um tom de vermelho que conferia graça especial ao Simca Chambord. Geraldinho não teve dúvida. Acendeu o fogão, providenciou uma panela de bom tamanho e botou o Color Gin para ferver. O propósito era desentupir a válvula do artefato. Toca o telefone. Geraldinho se derrete com uma conquista recente. Cheio de amor prá dar, a conversa se estende por mais de vinte minutos. Uma tremenda explosão acontece. O Color Gin foi promovido a míssil. No pequeno apartamento de Geraldinho, a geladeira agora é vermelha. O teto e o sofá são vermelhos. Até o papel higiênico é vermelho.

Abalado com o acontecido, o artista busca uma maneira de ganhar dinheiro rápido. Seu mercado, agora, é o das falsificações. Instala uma linha de montagem de Inimás, Volpis e Di Cavalcantis. Tudo ia muito bem, até o dia em que a polícia bateu à sua porta. Na assinatura de contrafações de quadros do genial José Pancetti, Geraldinho se atrapalhou com o nome do excepcional artista. Assinou “Pansete”. Ao entrar no camburão, ainda teve tempo de gritar: “Nós, artistas, não nos prendemos a detalhes!”

Meu amigo João Parrudo, da República do Peru, também era um matusquela renomado. Mantinha um romance tórrido com a Eliete. Certa noite, os dois envolvidos em seu ninho de amor, Eliete pediu: “Me bate! Me bate!” Parrudo fingiu que não ouviu. Mas ela insistiu: “Me bate!” Parrudo disfarçou e persistiu nos beijinhos. A última voz de comando de Eliete foi mais incisiva: “Me bate, seu viado!” Aí não teve jeito. Parrudo desferiu-lhe um soco capaz de derrubar Muhammad Ali. Com ajuda do porteiro e do faxineiro do prédio, foi possível retirar Eliete dos escombros do armário que ela destruiu ao ser nocauteada.

Voltemos às maluquices do rádio. Na Mayrink Veiga, havia um locutor de noticiários que deixava todo mundo em pânico. Seu encargo era ler as notícias, de hora em hora. 

Gaspar, esse era o nome da figura, costumava entrar no estúdio segundos antes da vinheta anunciar o “Jornal da Mayrink”. O operador de som estava sempre à beira de um colapso, diante de sua irresponsabilidade. Gaspar não ensaiava nada, lia mal as notícias, fazia a maior confusão com nomes de autoridades, cidades, órgãos governamentais e coisas do gênero.

Um belo dia, o maluco resolveu se superar. Faltavam cinco segundos para o noticiário ir ao ar quando ele entrou no estúdio, em desabalada carreira. Com as mãos abanando! Havia esquecido de pegar o script na redação! Olhou apavorado para o rádio técnico. Este, por sua vez, dava sinais de que ia desmaiar. A musiquinha da vinheta chegou ao final, Gaspar pegou um jornal velho que estava sobre a mesa e, com voz empostada, bradou: “Jornal de Ontem!”

Para finalizar essa amostra da minha coleção de matusquelas, faço uma referência ao Aniceto, outro amigo da República do Peru, em Copacabana. Estamos na década de 70 e ele falava há meses sobre a viagem que faria ao Paraguai. Algo realmente excepcional, porque éramos um bando de duros e o limite do nosso raio de ação era a ilha de Paquetá.

Pois bem. Aniceto viajou e voltou, cheio de marra. Com a mala vazia, mas ostentando no pulso um imenso Rolex, que chamava uma baita atenção. O pessoal da rua desafiava: “ Aniceto, essa merda é falsa! Onde é que você arranjou grana para comprar um Rolex? E logo no Paraguai,,,” Com fleuma insuperável, Aniceto ignorava as provocações. O tempo foi passando e o assunto praticamente morreu.

Até que, num dia de glorioso verão, ele apareceu na praia ostentando o tal Rolex. Sol de rachar, todo mundo se esbaldando de pegar jacaré. Todo mundo, não. Aniceto não fazia menção de entrar na água. Começam as cobranças: “Não vai mergulhar? Será por causa desse relógio fajuto?” A resposta era sempre a mesma: “Você quer saber ou precisa saber? Se precisa saber, não quer saber. Se quer saber, não precisa saber...”

Crescia a rodinha em torno de Aniceto. Gente ia chegando, chegando, até que a sentença de segunda instância foi promulgada. Aniceto foi agarrado pelos braços e pernas e, devidamente enfeitado com seu Rolex, foi atirado ao mar. Aos berros.

A sensação generalizada foi a de que a maré baixou. De tanta água que entrou no “Rolex” de Aniceto. Que já chegou na areia com seus ponteiros boiando dentro do mostrador. No inverno seguinte Aniceto fez as pazes com a turma.

Esses são casos simplórios de matusquelice. Eventos do passado. Hoje, quase todos os brasileiros são matusquelas. Senão vejamos. Seus planos de saúde são reajustados pelo triplo da inflação, Reação? Nenhuma. Inúmeros produtos têm suas embalagens reduzidas em quantidade ou peso. Mas os preços são mantidos. Boicote? Revolta dos consumidores? Nem pensar. No trânsito e nas estradas milhares de multas são aplicadas  por conta de uma sinalização intencionalmente confusa e mal posicionada. Gritaria? Protestos? Também não.

Matusquelas gritam contra o corte de verbas destinadas à “Parada Gay”. Eles adoram diversão. Um milhão deles se reúne no carnaval para seguir o bloco da Preta Gil. Não sabem exatamente o que ela faz, qual é sua “arte”. Será cantora? Promoter? Apresentadora? Algum palpite?

O certo é que estamos falando de uma classe em franca expansão. Recentemente uma matusquela ocupou a Presidência da República. Provocou uma recessão dos diabos, trucidou as contas públicas e gerou índices alarmantes de desemprego. Seu nome foi indicado por outro matusquela. Só que esse mais esperto, dissimulado.

A Presidenta Matusquela foi apeada do poder, o que se tornou inevitável. Substituída pelo Drácula, Irmãos Metralha, Al Capone e pelo Coringa do Batman, a confusão permanece.


Cresce o grito das ruas: “Golpe! Golpe! Queremos nossos matusquelas de volta!

sábado, 27 de maio de 2017

3039 - O nome da rosa



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5289 FM (*)                          Data: 27 de maio de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


DOCES LEMBRANÇAS DA ROSA

Há algum tempo, caminhando à toa num Shopping da cidade, vi que em minha direção duas mulheres se aproximavam, uma já bastante idosa, porém com um certo vigor. 

Quando estavam perto, parei, olhamo-nos e eu arrisquei:
- Rosa?
- Sim!
- Lembra-se de mim?
- Mais ou menos...
- Dos já longínquos tempos, fomos colegas de ginásio. Éramos não mais que pré-adolescentes.
- Ah É verdade, lembro, sim. Às vezes nossos olhares se cruzavam...
- Eu era muito tímido (para os meus botões, falei: e as pernas também).
- Esta é minha filha, Luiza. É advogada. Somos colegas. Eu também fiz direito. Trabalhávamos no nosso escritório, com dois outros colegas. Agora, estou aposentada. Antes, graduei-me em Literatura. Segui o caminho que o nosso professor dizia: para aprender Português, o Latim é essencial. Tenho outro filho, é médico.

Luiza estendeu-me a mão, disse-me muito prazer, e eu: “o prazer é meu, Luiza”.
- Eu também tenho dois. O filho é arquiteto, a filha é engenheira. Tenho quatro netos. Adivinha o nome da minha mulher...
- Rosa?
- Rosa Maria. Talvez, pelo nome dela, eu tenha tido você, quase sempre, nos meus pensamentos. Você e o Latim. Lembro-me, com saudades, do nosso tempo de jovens, quando não pensávamos em futuro.
- Ora, que ideia! Faz tanto tempo! Mas a vida é assim, até as pedras se encontram.
- “No meio do caminho tinha uma pedra...” como dizia o poeta. E foram muitos os caminhos que tivemos de atravessar!
- É verdade.
- Sabe, não é esta a primeira vez que nos encontramos. Há alguns anos, em Nova York, quase arrisquei-me a cumprimentá-la, temi não ser reconhecido.
- Que pena! Eu também o reconheci...
- É isso, coisas do destino. Mas agora estamos nos encontrando, para minha surpresa e meu prazer. Vi você com os dois filhos e um homem, que presumo ser o seu marido.
- Foi. Morreu.
- Sumiu, disse quase ao mesmo tempo a filha.
- Fugiu com uma vizinha, louco de paixão. O marido ficou atônito e eu fiquei perplexa. Foi um choque. Éramos casados há 17 anos.
- E daí?
- Daí é que, depois de alguns anos, ele arrependeu-se, pediu perdão, queria voltar a viver comigo, recusei, ele insistiu, queria pelo menos voltar para o nosso escritório, é também advogado. Disse-lhe que não ia dar certo, o assunto terminou aí. Ele foi cuidar da vida.

Ficamos calados por alguns segundos, que pareceram horas. Não tínhamos mais nada a dizer, e eu:
- Rosa, Rosae, Rosa...Rosarum...Sei lá! Não consigo passar da primeira declinação, esqueci tudo. Rimos os três, despedimo-nos, ela estendeu-me a mão, apertei-a e disse:
- Sabe, foi a primeira vez que toquei em sua mão!
- Estou sensibilizada. Riu, segurou a mão da filha, disse adeus.
- Adeus, respondi, seguimos nossos caminhos.

Essa agradável e inusitada surpresa levou-me de volta ao passado. Não sei bem se o título reflete meu estado de espírito, tomado repentinamente por uma lembrança, nem sei se foi fato ou imaginação de adolescente, que carece ser explicado.

Terá sido não mais do que um desejo íntimo, nada que pudesse provocar um AVC ou coisa grave, é apenas recordação de pequeno detalhe de algo passado há algumas dezenas de anos, no tempo dos bancos escolares, quando nos enveredávamos pelos ablativos ou nominativos da vida, exigidos pelo esforço professoral, e o desleixo dos alunos pouco interessados nas declinações latinas, obrigatórias para que o Português pudesse ser aprendido convenientemente entre as lições da Matemática, do Inglês ou do Francês, tudo necessário para o que viesse a ser necessário para a vida, no futuro.

Pois foi ali, diante do professor, sentado em sua cátedra sobre um tablado de madeira, para lhe dar mais poder sobre os aprendizes, que fui chamado para expor o declinatório latino, que duas reações diversas me assaltaram, a primeira, o medo de errar na sabatina. A segunda, mais profunda, que teria sido vislumbrar, num relance, a rosa da sensível Rosa sentada na primeira fila das carteiras, ao cruzar displicentemente as rosadas pernas e permitido as divagações do talvez ainda inocente bisbilhoteiro que terá visto mais do que o oferecido. Porém, o rápido descuido ocasionou, pelo inaudito, suores e respiração ofegante diante do que provavelmente pudesse ser o vislumbrado. 

Pois a inocente visão imaginada surgiu de repente, como se a própria Rosa estivesse postada agora, na minha presença a perguntar, com voz sensual e ar insolente: “Lembra-se de mim?”

Fiquei sem saber responder, atônito, e logo relembrei aquele olhar de esguelha ( termo machadiano que bem merece ser citado, para reforçar a ideia de antanho), que se completa com o enviesado, veloz e voraz da inquietude adolescente.


Posto o latim em seus devidos termos, o que vem à lembrança é a referência ao desassossego inicial da visão inocente da rosa dos meus primeiros pensamentos deletérios. A Rosa jamais soube, sequer terá admitido o olhar enviesado no oculto objeto que povoou  meus sonhos por algum tempo, pelo menos enquanto durou o estafante porém necessário aprendizado da língua morta. Juntando tudo, não sei se foi tempo perdido o custoso aprendizado nas aulas das declinações ou o bisbilhotar meio despudorado no inocente cruzar das rosáceas pernas da inquietante Rosa.

(*) FM são as iniciais de Fernando Milfont.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

3038 - O homem elétrico



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5288 SX                           Data: 24 de maio de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


DE VOLTA À PAULA FREITAS

Meus pais se separaram em 1958. Enfrentei muitos problemas em função desse infausto acontecimento. Mudei-me do Leblon para Copacabana. Fiquei longe dos meus amigos e da minha avó paterna, que eu adorava. Para um menino com nove anos de idade, a distância que separava os dois bairros equivalia a uma viagem interestadual.

Os prejuízos também foram sérios no quesito futebol de praia. No Leblon, eu era um torcedor fanático do Grêmio, um time quase imbatível. Em Copacabana, passei a torcer pelo Dumans. O técnico era o famoso Neném Prancha. Mas o time era horroroso. Para se ter uma ideia de seus problemas, basta dizer que seu goleiro era o “Ceguinho”, que trabalhava na loja das Persianas Colúmbia. Durou pouco na função. Virou árbitro no futebol de praia. Outra tragédia, por motivos óbvios.

Na praia, meu parceiro de pelada era o “Seu” Fred. Devia ter quase oitenta anos e era meu vizinho de porta no apartamento que alugamos na Paula Freitas. Ele também me ajudava a destrinchar os enigmas propostos pelos professores de matemática do Santo Inácio. Lembro que em certa ocasião comentei com meu pai o quanto “Seu” Fred era ruim de bola. Sem levar em conta, é claro, a idade avançada do meu parceiro futebolístico. “Seu” Fred pedia sempre para “ser lançado”. Gritava sem parar: “Passa! Passa! Já fui bom nisso! Já fui bom nisso!...Meu irmão foi melhor! Muito melhor!...”

Papai morria de rir, até o dia em que acrescentei uma informação aos meus comentários: “A filha do “Seu” Fred também é artista. Uma tal de Rosamaria Murtinho...”. Fui então bombardeado com um monte de informações futebolísticas: “Fique sabendo, rapazinho, que o seu amigo Fred jogava realmente muita bola. Não teve uma carreira fulgurante porque fez opção pela engenharia e muito cedo foi trabalhar no Pará. Já o irmão...Ele tem toda a razão! O irmão, Nilo Murtinho Braga, foi um cracaço! Um dos maiores artilheiros da história do Botafogo! Autor do primeiro gol de uma seleção brasileira em Copas do Mundo!

Diante desses ensinamentos, passei a ver com outros olhos o desempenho de “Seu” Fred no futebol de praia. Claro que ele ainda tropeçava na bola com frequência assustadora. Mas sempre demonstrando grande categoria. Quando algumas quedas terríveis se consumavam, passei a perceber as manhas de um grande atleta. Concluí que permanecer em pé, no futebol, é algo reservado aos medíocres.

Na Paula Freitas, eu morava no 44. Minha mãe comentava que o apartamento pertencia a um oficial da aeronáutica, piloto do então Vice-Presidente João Goulart. No 26 da mesma rua moravam meus avós maternos.

Aos poucos fui me adaptando à vida copacabanense. Sábado era dia da Cruzada Eucarística, no Santo Inácio. Tinha a carona do meu avô, em seu Chevrolet Bel-Air de quatro portas, conduzido pelo Batista, elegantíssimo motorista que durante muitos anos prestou-lhe bons serviços. Paula Freitas, Tonelero, Siqueira Campos, Túnel Velho...Trânsito? Nenhum. Apenas o prazer do passeio, embalado pelo noticiário da Rádio Jornal do Brasil, anunciando as providências voltadas para a construção de Brasília, futura capital do país.
A programação do Santo Inácio era inesquecível. Os mais jovens, como eu, pertenciam à Cruzada Eucarística. Os mais velhos integravam a Congregação Mariana. No momento, influenciado pelos acontecimentos da Lava-Jato, estou inclinado a aceitar um discreto suborno. Mediante uma módica quantia em dinheiro vivo, admito mostrar minhas fotografias participando dessas reuniões, com fita amarela ao peito e tudo mais, disputando espaço para adentrar o reino dos céus.

A agenda da Cruzada começava com uma reunião de meia hora com o Padre Gil, envolvendo muitos conselhos e alguma cantoria. Desse “hit-parade” eu cantava empolgadíssimo, a plenos pulmões:

“Ó São Luiz Patrono,
Da nossa juventude...
Modelo de virtude...
Flor do Jardim Celeste...”

Encerrada a parada de sucessos, a escala seguinte era o campo de futebol, onde eram disputados frenéticos torneios que se estendiam até a hora do almoço. Da pregação do Padre Gil às botinadas do velho e violento esporte bretão. Do céu ao inferno, sem baldeações.

Cheguei ao ginásio e, por algum motivo que jamais consegui entender, o movimento de translação da Terra começou a se processar de forma mais rápida. Ainda me lembro dos comícios do Jânio Quadros nas praças Saens Pena e Serzedelo Correa, da Gina MacPherson ganhando o concurso de Miss Brasil, do América campeão carioca e do Escorial ganhando o Grande Premio Brasil, montado por Francisco Irigoyen.

Nessa época lamentei a venda do Chevrolet 56 do meu avô Rafael. A exemplo do que muita gente fez, ele resolveu prestigiar a indústria automobilística nacional, que ainda engatinhava. De início comprou um DKW Vemag, cadeira elétrica a que não resistiu por muito tempo. Em seguida veio uma Rural Willys. Nela fiz a pior viagem de minha vida, à Nova Friburgo, onde sempre passava um mês das minhas férias de verão.

Meu avô tentou se redimir comprando um JK. Se bem me lembro, não merecia a alcunha de “carro nacional”. Seu estofamento tinha sido projetado para o frio dos Alpes Suíços. O painel estava todo escrito em italiano, assim como o Manual do Proprietário. No JK do Dr. Rafael, apenas o ar que enchia os pneus era “Made in Brazil”.

Mas eu não estava mais preocupado com os carros do meu avô. Na volta do Santo Inácio para casa, minha opção passara a ser um ônibus elétrico, o Largo do Machado - Ipanema. Dava uma volta imensa pela Lagoa, até chegar em Copacabana. Mas estava sempre repleto de meninas do Jacobina.


segunda-feira, 22 de maio de 2017



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5287 SX                          Data: 22 de maio de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV

                                               
BIZET ESTAVA ERRADO

Dia 3 de junho de 1875. Um público reduzido assiste à encenação da ópera “Carmen”, de Georges Bizet. A estreia acontecera três meses antes, no dia 3 de março. No decorrer de trinta récitas, a reação da plateia evoluiu do escândalo da primeira apresentação à absoluta frieza.

Terceiro ato da ópera. A cena das cartas. As ciganas Carmen, Frasquita e Mercedes dispõem um baralho sobre a mesa, buscando conhecer o que lhes reserva o futuro. Frasquita e Mercedes tomam conhecimento de conquistas amorosas. Um jovem belo e sedutor...Um homem maduro, muito rico...Para Carmen, as cartas acenam com a morte. Ela repete o ritual e as cartas confirmam: para ela, está reservada a morte.

Galli-Marié, a intempestiva mezzo-soprano que primeiro protagonizou a “Carmen”, disse ter sentido um forte calafrio quando interpretou, naquela noite, a cena das cartas. Conferidos os horários, constatou-se que, no momento em que ela cantava, Georges Bizet falecia em casa, vítima de angina e de um ataque cardíaco.

Bizet morreu absolutamente convencido de que havia produzido um irremediável fracasso. Seria mais uma derrota a acrescentar à atribulada trajetória do compositor.

Menino prodígio, filho de um professor de canto e de uma excelente pianista, ele ingressou no Conservatório de Paris com inacreditáveis nove anos de idade. Ganhou muito cedo o importantíssimo Prix de Rome, que lhe assegurou o direito de estudar três anos na Itália. Quando retornou a Paris, depois de acumular muitos prêmios e um curriculum invejável, poderia fazer praticamente o que quisesse. Era certo obter um posto de mestre no Conservatório, o que ele recusou. Poderia ter seguido uma consistente carreira de concertista ao piano, instrumento em que era um expoente reconhecido até mesmo por Franz Liszt, o maior pianista de todos os tempos. Essa alternativa também foi rejeitada.

Dizia que sua arte estava ligada ao teatro. Com dezessete anos escreveu sua primeira obra lírica, a opereta “La Maison du Docteur”. Com vinte e cinco compôs “Os Pescadores de Pérolas”, ópera de maior fôlego. O público e a crítica não reconheciam seu talento. Sua produção não tinha acesso ao Opéra e ao Opéra Comique, os dois mais importantes teatros da capital francesa. Durante muitos anos sobreviveu como professor, ou fazendo transcrições de óperas famosas para o piano. Numa carta, ele se queixou amargamente: “Para ter sucesso, é necessário estar morto ou ser alemão”.

Inseguro, muito exigente consigo mesmo, deixou dezenas de obras inacabadas. Cerca de quarenta óperas que cogitou produzir não passaram de um simples esboço.
Diante desses fatos, é certo que a encomenda de uma ópera para ser apresentada no Opéra Comique causou surpresa a Bizet. Esse convite aconteceu em 1872. O compositor escolheu como tema de sua nova produção uma novela de Prosper Merimée, escritor francês que sentia uma atração especial pela Espanha.

Começaram então os problemas. O Opéra Comique preservava a fama de apresentar uma programação sempre lúdica e agradável, o paradigma do recato e do decoro da sociedade francesa. Adolphe Leuven, um de seus diretores, costumava dizer que o Opéra Comique “era o teatro das famílias, o teatro onde são ajustados os casamentos”.

“Carmen” não era nada disso. Era a história de uma cigana sensual, destituída de qualidades morais. Sua filosofia de vida era a liberdade ilimitada. Nada a ver com a praxe daquele teatro, onde as encenações tinham um final exemplar, moralista, em que a virtude e o bem venciam sempre o mal e o vício.

Quando o diretor Leuven tomou conhecimento da ação que se desenrolaria na ópera encaminhada a Bizet ele, apavorado, optou por se demitir, antes que a obra fosse encenada.

O libreto da “Carmen” foi encomendado a uma dupla de escritores parisienses, Ludovic Halévy e Henri Meilhac. Meilhac era o mais experiente, tendo colaborado com Jacques Offenbach na elaboração do libreto da ópera “Orfeu no Inferno”, em 1858.

Problemas aconteceram na escolha da protagonista da ópera. A favorita dos libretistas era Zulma Bouffar, que já havia atuado em várias operetas de Jacques Offenbach. Bizet não concordou. A segunda opção foi Marie Roze. Que recusou o papel quando soube que a heroína, ao final da ópera, morreria em pleno palco. Quem aceitou foi a temperamental e agitadíssima Celestine Galli-Marié que, dizem as más línguas, e as boas também, mantinha um tórrido romance com o compositor.

Bizet completou a partitura em 1874, tendo preparado a orquestração da ópera nos dois meses que antecederam sua estreia. Os ensaios começaram no mês de outubro. Inúmeros problemas aconteceram. Músicos e cantores protestaram asperamente diante da modernidade da obra. Wagneriana, segundo alguns. Impossível de tocar ou cantar, segundo outros. A reclamação das coristas era ainda mais complicada: seriam obrigadas a fumar no palco! Isso, evidentemente, lhes traria prejuízos sérios à saúde...

Como já foi dito, a trajetória da “Carmen” na sua première parisiense oscilou do escândalo à indiferença. Mas a morte prematura de Georges Bizet trouxe algumas sinalizações importantes. O enterro do compositor foi um acontecimento, envolvendo muita pompa e mais de quatro mil pessoas.

Além disso, em contraposição aos críticos que, de um modo geral, revelaram incompreensão em relação à obra, o fato é que muitas figuras exponenciais conseguiram antever o lugar de absoluto destaque que estava reservado para a ópera de Bizet na cena lírica mundial. Brahms assistiu vinte encenações seguidas da “Carmen”. Wagner, depois de ouvi-la pela primeira vez, exclamou:”Grato, Senhor Deus! Eis enfim alguém que tem ideias na cabeça!”. Tchaikovsky, Nietzche e o Chanceler alemão Otto von Bismark também se renderam à evidência de que estavam diante de uma obra prima.

Três meses depois da morte de Georges Bizet “Carmen” alcançaria extraordinário sucesso na Ópera da Corte de Viena. Em seguida teria igual consagração em Bruxelas, Antuérpia, Budapeste, São Petersburgo e Estocolmo. A primeira encenação no Metropolitan de Nova Iorque aconteceu em janeiro de 1884. Enrico Caruso encarnou pela primeira vez o “Don José”, principal papel masculino da ópera, em fevereiro de 1906. Cantou a parte até 1919. No ano de 2011 “Carmen” foi encenada no grande palco nova-iorquino pela milésima vez.

A genial criação de Georges Bizet chegou ao Rio de Janeiro em 1881, sendo apresentada no Teatro D. Pedro II pela Companhia Francesa de Maurice Grau. A estrela do espetáculo foi Paola Marié, irmã de Galli-Marié. No Teatro Municipal do Rio de Janeiro a obra foi encenada cem vezes, desde 6 de setembro de 1913.

No Opéra Comique, onde “Carmen” foi tão maltratada quando de sua estreia, ela já foi encenada 2.500 vezes. Chegou ao cinema e à Broadway. Consagrou dezenas de cantores, maestros e encenadores.


Quem diria, não é mesmo, Bizet?

domingo, 21 de maio de 2017

3036 - O jornaleiro do quarteirão



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5286 FF                           Data: 21 de maio de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


87 PASSOS        

Era uma criança solitária. Não fazia amigos. Muito tímido. Não havia tantas alegrias, mas uma supria todas.

Acordava e escovava os dentes correndo, já pensando nos passos. Eram 87, contados todos os dias, até a banca inscrição modelo B, número 45, quarta inspetoria, ou simplesmente a banca do seu Hugo. Um caminho feliz, com cumprimentos aos porteiros e abelhas verdes a minha volta.

Seu Hugo era um senhor baixo e de sorriso largo. Não tirava aquele sorriso do rosto. Sua banca, simples como ele, era o sustento de sua família. Não dava muito dinheiro, imagino, pois ficava numa rua de ricos e ricos não andam a pé. Acho que ricos nem gostam de banca e as assinaturas começavam a crescer.

Eu era rico, mas amava aquela banca. Meu primeiro contato com a leitura, hoje uma obsessão, foi com os quadrinhos. E o seu Hugo, longe de ser um entusiasta, sabia tudo que eu gostava, quais revistas saíram e os lançamentos que poderiam me interessar. Comecei com os quadrinhos chamados infantis. Mônica, Cebolinha, Pato Donald, Tio Patinhas. Cresci e fui para os heróis. Homem Aranha e seus problemas existenciais, Batman, Super Homem e a solidão característica do ser diferente. E havia a conversa com meu amigo. Falávamos muito de futebol e política. Duas paixões em comum, numa época em que o Brasil se abria politicamente e não ganhava uma Copa há tempos. Aquela banca foi meu primeiro emprego também, durava meia hora no máximo, é verdade, mas era eu quem cuidava dela quando seu Hugo ia ao banheiro.

Com o tempo comecei a desviar os olhos dos quadrinhos para as mulheres peladas, mas faltava-me coragem para pedir pelas “revistas proibidas”. Seu Hugo, contudo, não era bobo.

- Coisa boa, né – mostrando a capa da revista.

- Sim – respondi completamente sem graça.
- Pode levar se quiser.

- Tem minha mãe...

- Compra o jornal e faz assim, oh...

Mostrou-me o óbvio. Colocar a Playboy dentro do jornal. E assim o fiz. Levei a Mara Maravilha para casa e me acabei. Ainda posei de garoto intelectualmente precoce, comprando o Jornal do Brasil, um jornal mais intelectual do que O Globo.

E assim os anos passaram. Eu nunca deixei de fazer os 87 passos. A frequência não era mais a mesma, é verdade, a caminhada ao encontro do meu amigo e das minhas fantasias deixou de ser diária, virou semanal, às vezes nem isso. Os estudos aumentaram, fiz amigos, ampliei meu mundo. Os passos aumentaram e começaram a ir para outras direções. O hábito diminuiu, contudo não morreu, até uma manhã de 1994.

Um dia cheguei à banca e ele não estava lá. Sua esposa o substituía, algo que acontecia com alguma frequência, mas acontecia, então não me preocupei. Uma semana depois, ao voltar à banca, a vi fechada. Isso nunca tinha acontecido e me preocupou. Voltei ao passado e o trajeto de novo virou minha rotina diária. Os 87 passos. Dessa vez de forma rápida, preocupada, não para comprar revistas, mas para ter notícias do meu amigo, meu primeiro amigo. Todos os dias esperava ver a banca reaberta e conversar com seu Hugo, como antes, sem pressa. Dar detalhes da minha vida e saber detalhes da dele.

Esse dia nunca chegou. A notícia, que de certa forma esperava, veio. Seu Hugo morreu. Um protagonista da minha vida, um amigo se foi. Nunca me despedi. Nunca disse um tchau. Nunca o agradeci pelas conversas e jamais disse que ele foi importante para mim. Nunca soube da vida dele na verdade, dos sonhos, tristezas e alegrias.
A banca ficou fechada por uns dois meses e reabriu. Com a mesma cara, mas sem aquele sorriso largo. Minhas idas diminuíram cada vez mais. Passei a assinar muita coisa, comecei a trabalhar, namorar e ter amigos. Cresci, casei e mudei. Minha mãe, contudo, nunca saiu da rua dos 87 passos.

Em um desses almoços familiares, resolvi visitar a banca, depois de muitos anos. O trajeto familiar, os porteiros alguns os mesmos, as abelhas verdes não mais. De longe já vejo a mudança. Lataria maior, a inscrição não mais existe, uma propaganda gigante ocupa a parte de trás da banca. Chego e vejo uma variedade de revistas enorme, geladeira, cigarros, balas. Os quadrinhos em um canto, escondidos. Entro constrangido, como que procurando seu Hugo, para uma última conversa. Quero contar a minha vida, quanto as coisas mudaram e como acabamos sempre no mesmo lugar. Como a criança não nos deixa. Pensamentos me dominam e meu olhar perdido dentro da banca talvez incomode o dono. Com um sotaque italiano me pergunta:

- O senhor está procurando alguma coisa?


- Sim, procuro, mas não está mais aqui.