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sábado, 29 de julho de 2017

3057 - Come-se bem na Pauliceia Desvairada


           
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5317 LZ                         Data: 29 de julho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO      ANO XXXIV

A RUA DO CAPETA

Não sei se a rivalidade que sempre existiu entre Rio de Janeiro e São Paulo pode ser comparada com as pendengas que envolvem brasileiros e argentinos. Acho até que a coisa está amainando. Muito por conta da decadência que atinge o Rio de Janeiro. Fica difícil exercitar com competência nossa implicância se nossos filhos estão se mudando para São Paulo, em busca de oportunidades, empregos melhor remunerados e um pouco mais de segurança.

Vinícius definia São Paulo como o túmulo do samba. Não sou tão implicante como o poeta. Mas jamais qualifiquei como “um programaço” visitar a Terra da Garoa. Lá compareço, quando necessário. Foi o que aconteceu na semana passada. Uma visita que eu e minha mulher fizemos a uma amiga adoentada.

Cumprido esse ritual, ocorreu-nos conhecer a famosa Rua 25 de março. Ela equivale à nossa Saara. Para quem não sabe, a sigla significa “Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega”. Foi nessa rua que se implantou um imenso shopping a céu aberto, que acabou por se espalhar pelas ruas próximas, todas fechadas ao tráfego de veículos.

Nada a ver com a tal da 25 de março. Aquela foi, realmente, uma terrível experiência! 

Bairrismo à parte, defino aquilo como uma sucursal do inferno (que me perdoe o Capeta). Uma gritaria enlouquecedora, excesso de gente, preços altos e, como se não bastassem todos esses horrores, a rua é aberta ao trânsito! A todo momento os carros só faltam empurrar as pessoas que lá passeiam, olhando as lojas. Na rua os camelôs trabalham em pé, sem mesinhas, atordoando os passantes com ofertas proferidas aos berros. Marisa e eu fugimos apavorados. Mas sem correr. Quem poderia, naquele Maracanã lotado?

Fomos em direção ao Mercado Municipal, ali perto. Que me perdoem os paulistanos, o tal mercadão só é bonito nos powerpoints bairristas por lá produzidos. Trata-se de outro antro super povoado, barulhento e caro. Pastéis a partir de 20 reais! Conseguimos, apesar do tumulto, uma mesa vazia num bar (tremenda sorte, ela vagou quando estávamos por perto...). Sentamos, chamei uma moça, vestida com o uniforme do estabelecimento. Foi logo informando que ali não se fazia atendimento nas mesas. Era preciso ir ao caixa, pedir o que desejássemos e depois, no balcão, pagar o que havia sido escolhido. Marisa ficou me aguardando enquanto eu saía à cata do caixa, distante do local das mesas. Olhei na direção do guichê e observei uma fila maior que a anaconda do filme. E tão feroz quanto. Voltei e expliquei à minha mulher a inviabilidade do nosso projeto.

Decepcionados, retornamos à estação do metrô, três quarteirões adiante. Tivemos que passar de novo pelo tumulto da já temida 25 de março. Foi quando Marisa proferiu uma verdade absoluta: “No Rio, somos felizes e não sabemos!” Fácil explicar: 13 milhões de habitantes, na nossa região metropolitana, provocam um caos menor do que os 20 milhões que atormentam a Terra da Garoa (os ladrões engravatados do Rio de Janeiro deixam de ser contabilizados no fechamento dessa conta...).

Vamos considerar, também, que nossa Saara é toda destinada aos pedestres. E sempre teremos Copacabana! Eu sabia que um dia, de alguma forma, ainda iria parafrasear Casablanca!

Mas, sendo justos, é preciso fazer alguns comentários favoráveis à São Paulo em relação a fatos que lá observamos. O policiamento é ostensivo e numeroso. Bem diferente do Rio de Janeiro. Duplas de policiais a cada meio quarteirão, não só na 25 de março, como nas transversais e dentro do mercadão. A um deles fomos pedir uma informação que nos foi dada com rapidez, conhecimento e cortesia. Outra coisa importante: como funciona bem o serviço de Uber por lá! Carros novos e limpos, motoristas pontuais e gentilíssimos. Preços, além de muito inferiores ao dos táxis, como também no Rio, sempre arredondados para baixo. Nós sempre os aproximávamos para cima. Afinal, eles mereciam. Outro aspecto importante: como os uberistas pareciam felizes de estar transportando cariocas! Tudo era motivo para elogiar o Rio, nossa descontração e bom humor! Alguns deles conheciam um ou outro ponto do Rio e mencionavam isso com verdadeiro orgulho. Um deles, certamente exagerado, chegou a nos dizer que ganhava o dia quando um carioca entrava no seu carro.

Por algum motivo o metrô, quando saímos do tumulto da 25, já estava mais cheio do que quando viemos. Foi meio difícil entrar, mas conseguimos. A mim, graças à minha calvície e remanescentes fiapos brancos, gentilmente foi oferecido um assento. Que eu sempre aceito por causa do meu menisco rompido. Voltamos, então, para a estação próxima do hotel. Fica dentro do Shopping Santa Cruz. Em sua praça de alimentação come-se com conforto e preços módicos. Daí, sensatamente, fomos relaxar no excelente quarto do Hotel Planalto, na Rua Afonso Celso, Vila Mariana. Seu dono, Sr. Manoel, merece também um comentário: português dos sapatos aos cabelos pintados de preto, aparentando estar na faixa dos 60, ao lhe escutar o sotaque, perguntei de que região ele era. “Nasci aqui na capital mesmo, fui criança para Portugal e retornei ao Brasil já adulto.” Espantoso! E o homem era de uma simpatia total. Grande empreendedor, é proprietário de três hotéis e de um restaurante. Muito simples, ele rega o jardim do hotel sem tirar o paletó! “Faço isto porque gosto, tenho quem o faça, mas eu faço melhor,” e sorriu.

À noite chamamos um Uber que nos levou a uma “trattoria,” no Bexiga, chamada “Belvedere”. Lá, em ambiente tranquilo e simpático, fomos atendidos por um garçom idem e, com música ao vivo que compreendia Roberto Carlos, além das manjadíssimas, mas sempre agradáveis, “Volare”, “Champagne” e “Roberta”. Pedimos uma massa de que nunca havíamos ouvido falar: “mezzalona”. Muito massuda, mas o molho e o parmesão, a bem da verdade, estavam maravilhosos. Na saída, fui falar com o dono, Signor Sesto, em italiano, naturalmente. Um cidadão idoso e irradiando amabilidade, ele encheu meu ego perguntando se eu era italiano. Respondi que era filho de pai italiano e que falava sua língua desde criança, por isso, sem o sotaque brasileiro. Brincando com ele, disse que só tinha o sotaque de brasileiro quando falava português. Não sei se ele entendeu..
.

Na próxima ida à São Paulo, pretendo mostrar à Marisa a elegância e as delícias da chiquérrima Rua Avanhandava.

(*) Luciano Zanelli estreou hoje no seu O BISCOITO MOLHADO e nos enche de preocupação. Além de perdermos eventuais leitores paulistas, percebemos que dos seis leitores reconhecidos, cinco já são redatores. Só falta a Elvira.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

3056 - Montinhos


           
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5316 SX                           Data: 26 de julho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV

             
VOCÊ COLECIONA DINKY TOYS?   
           
Promessa é dívida. E elas são levadas muito a sério pelos alunos dos colégios jesuítas.

Na minha última crônica para o “Biscoito Molhado”, em que abordei as idiossincrasias dos colecionadores, declarei que meu texto seguinte iria tratar da minha coleção de miniaturas de automóveis.

O título, “Você coleciona Dinky Toys?”, foi escolhido a dedo. Poucas indagações foram tão repetidas quanto essa pelos garotos da minha geração.

Todo mundo colecionava. Na realidade, chamávamos de Dinky Toys qualquer miniatura de automóvel na escala 1/43 que chegasse às nossas mãos. Possivelmente porque a Dinky era o maior fabricante, o mais popular, o que chegou primeiro ao Rio de Janeiro...quem sabe?

O certo é que as miniaturas faziam um enorme sucesso entre a garotada. O preço era alto e somente podiam ser encontradas em um número reduzido de lojas. Uma delas era a Bebê Conforto, na Praça General Osório, em Ipanema. Outra era o Bazar Francês, no Centro. Alguém ainda se lembra da musiquinha? Rua da Carioca, número cinco...É com esse que eu brinco...Definitivamente, estou ficando velho. Havia ainda o Bazar Enigma, na Rua Barão da Torre, a Feira de Leipzig, na Sete de Setembro...Mais tarde os Dinky Toys começaram a ser vendidos na Hobby Center, na galeria do cinema Bruni Copacabana.

O jeito era economizar a semanada até juntar o dinheiro suficiente para visitar um desses endereços e comprar o carrinho desejado. Foi assim que compareci um sem número de vezes à Bebê Conforto acompanhado de minha mãe, para adquirir miniaturas francesas da Solido. Como o nome indica, a Bebê Conforto era uma loja especializada em roupas e apetrechos para bebês. Nos sábados pela manhã, quando eu lá aparecia, enfrentava um grande congestionamento de grávidas antes de chegar até a vitrine onde ficavam expostos os Solido, uma especialidade da casa. Na época, impaciente e ansioso, eu achava que aquela profusão de futuras mamães circulando no local tinha como único objetivo atrapalhar minhas compras.

Mas, no final, tudo dava certo. Um de cada vez, meu precioso acervo foi crescendo: Jaguar Tipo “D”, Porsche 1.500 R.S., Maserati 250 F, Renault Floride, Simca Oceane, Mercedes 190 SL, Cabriolet Peugeot 403, D.B. Panhard, Ford Thunderbird, Rolls Royce Silver Cloud...estes dois últimos incluídos até hoje entre os meus favoritos. O catálogo declarava, solenemente: “ La précision et la qualité des fabrications Solido vous permettent de constituer la plus homogène et la plus vivante des collections de miniatures”.

Na época, eu e meus amigos não pensávamos em coleção. Nossos carrinhos não ficavam em cima de cavaletes. Rodavam à bessa. Na mureta que cercava a piscina do Santo Inácio, minha Ferrari Testa Rossa deve ter “andado” mais de cem mil quilômetros...

Admito minha preferência pelas miniaturas Solido. Principalmente aquelas fabricadas entre 1959 e 1965, a chamada “Nouvelle Serie”. Isso aprendi mais tarde, consultando a literatura especializada.

Descobri, também posteriormente, que o número de fabricantes de miniaturas na escala 1/43 já era grande, naquela época. Poucas marcas, no entanto, chegavam às lojas especializadas. Elas eram cinco, basicamente: Dinky Toys, Solido, Corgi Toys, Tekno ( maravilhosas miniaturas procedentes da Dinamarca ) e Marklin ( tradicionalíssimas, um pouco rústicas, mas altamente colecionáveis ).

Alguns lançamentos causavam furor. Em comparação com a concorrência, a Corgi Toys era um fabricante relativamente novo, tendo lançado seus primeiros produtos na British Industries Fair de 1956. No entanto, já na metade dos anos 60 a Corgi batia records sucessivos de produção, ao lançar com extraordinário sucesso o Batmóvel, o Oldsmobile do Agente da U.N.C.L.E. ( alguém ainda se lembra da dupla Napoleon Solo e Illya Kuryakin? ) e, finalmente, o Aston Martin DB 5 de James Bond, com direito a metralhadoras, chapa de proteção contra balas na traseira, assento ejetor de bandidos e tudo o mais. Milhões de miniaturas do Aston Martin foram vendidas em todo o mundo, ganhando o carrinho, no ano de seu lançamento, em 1965, todos os prêmios possíveis e imagináveis de “Toy of the Year”, “Best Boys Toy for 1965”, etc.

No meu grupo era imperdoável não possuir o carro do James Bond. A falha transformava o sujeitinho em cidadão de segunda classe. Perder o boneco que fazia o papel de bandido, isso sim, não chegava a ser um pecado mortal. O sumiço acontecia com frequência nas operações em que Bond acionava o assento ejetor do Aston Martin. No meu caso, acredito que o desafiante do famoso agente secreto repouse até hoje no fundo da piscina da casa de minha tia, em Petrópolis.

Acabei falando pouco dos Dinky Toys propriamente ditos, justamente a mais tradicional das miniaturas. Que isso não seja interpretado de forma alguma como desprezo pela marca. Na realidade, os Dinky merecem um artigo dedicado somente a eles, o que este escriba promete para um próximo número do “Biscoito Molhado”.


E você, coleciona Dinky Toys?

segunda-feira, 24 de julho de 2017

3055 - Montes, ou seja, coleções



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5315 SX                           Data: 24 de julho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


  MALUCOS. OU MELHOR: COLECIONADORES

Li em algum lugar algo que me deixou preocupado. Dizia que colecionar, qualquer objeto que seja, não é coisa de gente boa da cabeça. Por outro lado, quem mantém não uma, mas várias coleções, deve ser mantido acorrentado ao pé da cama.

Estou enquadrado na segunda categoria. Muito preocupado, portanto.

Esse tema ganhou importância quando de minha última mudança, da Anita Garibaldi para a Paula Freitas. As duas ruas ficam em Copacabana. Poderia ser uma operação tranquila. Não foi o que aconteceu, não sou mais um garoto, quase enlouqueci transportando no meu carro, da Anita até a Paula, uma tonelada de equipamentos de som, trens elétricos e miniaturas de automóvel.

Claro que alguém vai indagar: "Cara, você nunca ouviu falar de 'Gato Preto?' Da 'Lusitana?' E de outras dezenas de empresas de mudanças?" A resposta, definitivamente, é "Não me interessa". Colecionadores são ciumentos, desconfiados e neuróticos. Inadmissível confiar a tarefa de transportar suas preciosidades a truculentos e insensíveis funcionários dessas empresas.

Foi o décimo terceiro trabalho de Hércules. Somente minha coleção de canetas, por motivos óbvios, não deu problemas. Duas caixas de sapato são suficientes para acomodar o incrível acervo de canetas Parker que juntei ao longo dos anos. Nos meus tempos de ginásio, ostentar uma "Parker 21," "51" ou "61" conferia ao proprietário status insuperável. Castas inferiores usavam as "Compactor," "Esterbrook" e "Optimat". Seres inferiores, bem se vê. Nunca vou esquecer o dia em que estreei no Santo Inácio minha "Parker 61" azul turquesa, presente de aniversário de meu tio. Algo comparável ao episódio em que os silvícolas saudaram Diogo Álvares Correia aos gritos de "Caramurú! Caramurú"!

Complicado foi transportar meus equipamentos de som. Tenho presente na minha cabeça que a música refinada que aprecio somente pode ser tocada em aparelhos de altíssima qualidade. Receivers Marantz, caixas acústicas JBL e gravadores Nakamichi ou Revox foram acumulados durante anos. Para desespero de minha mulher. O problema é que alguns Marantz e caixas JBL chegam a pesar mais de trinta quilos. Dois anos depois da mudança ainda estou cansado da aventura que foi transportar, num só dia, oito caixas acústicas até a Paula Freitas. Perdi 4cm de altura. Beth teve que refazer a bainha de minhas calças, diante do encurtamento de minhas pernas.

O "carreto" de dezenas de caixas de trens elétricos Lionel também foi uma tarefa olímpica. Minha paixão pelos "Lionel" começou cedo. Paulo Fortes cantou uma "Traviata" no Municipal, recebeu um belo cachê e correu até a Feira de Leipzig, tradicional loja de brinquedos situada na esquina de Sete de Setembro com Rodrigo Silva. Saiu de lá com meu presente de Natal, uma caixa imensa contendo um trem completíssimo, repleto de acessórios. Poucos meses depois, o cachê de um "Trovador" foi transformado em outra caixa gigante. De lá para cá só fiz aumentar meu império ferroviário.

Minha super coleção de miniaturas de automóvel vai ser tratada em minha próxima crônica. Acho que faz sentido, diante da quantidade de histórias envolvidas...

Colecionadores tendem a justificar suas excentricidades apontando exemplos de outros companheiros envolvidos em situações também esdrúxulas.

É o que faço. Tomo como exemplo meu amigo Carlos Alberto Torres, que não é o capitão da Copa de 70. Ele tem uma esplêndida coleção de escudos de automóveis. Daqueles que são afixados nas grades dianteiras dos automóveis antigos. Uma verdadeira maravilha! Mas, para compensar, o Carlos Alberto também coleciona manteigueiras. Imagino que esteja com o colesterol nas alturas.

Roberto Dieckmann, o Editor do "Biscoito Molhado", é um grande ajuntador de barbeadores elétricos. Quando soube de sua mania, fiquei impressionado. Aquilo não me parecia, de modo algum, algo colecionável. Até que tive acesso ao acervo do meu amigo. A evolução tecnológica daqueles artefatos e, especialmente, do seu design, estavam ali presentes a justificar a mania do nosso Editor.

Meu amigo Chicô Gouveia, o famoso decorador, coleciona tudo que diz respeito a "Tintin," personagem famoso de Hergé, o grande desenhista nascido na Bélgica. O médico Henri Braunstein coleciona bicicletas. Não são muitas. Quarenta, talvez. Nada comparável à coleção de latas de cerveja do Ronaldinho. São mais de dez mil. Todas vazias. O conteúdo, ele bebeu faz tempo.

Além desses, costumo relatar mais dois casos com o intuito de provar que não sou tão maluco quanto alguns pretendem insinuar. Em certa ocasião, frequentador da loja Hobby Center na galeria do Cine Bruni Copacabana, conheci um sujeito que disse colecionar "kits" da Revell. Alguém se lembra deles? Eram aviões, automóveis e navios acondicionados em lindas caixas, repletas de partes plásticas que, montadas por pessoas habilidosas, resultavam em verdadeiras obras de arte. Nunca fui um especialista no assunto. Mas a conversa fluiu, até o momento em que não pude disfarçar um certo espanto quando o cidadão me disse que era o feliz possuidor de dez kits do turbo-hélice "Electra," da Varig, há tempos lançado pela Revell. Mesmo inapetente em relação à matéria, eu sabia que aquele era um item raríssimo, disputado a golpes de sabre pelos especialistas. Devo ter feito uma senhora cara de espanto. O certo é que fui prontamente desafiado pelo meu oponente: "Quer ver? Moro aqui mesmo nesse prédio, no quinto andar".

Não tinha nada a perder, aceitei o desafio. Pude constatar que a informação do sujeito não estava completamente certa. Impossível alguém "morar" no tal apartamento. Ele estava abarrotado de kits da Revell. Quantos? Dez mil? Quinze mil? Não sei precisar. Sei que não se podia andar ali dentro. Havia caixas do chão até o teto. Não se via janelas, paredes ou portas. Caminhar entre os cômodos? Chance zero. Dez kits do Electra da Varig? Bobagem... Eu estava diante de um maluco recatado. Devia ter muito mais que isso.

Falta um detalhe para finalizar esse capítulo da crônica. Pois lá vai: todas as caixas dos Revell daquele alucinado estavam ainda envoltas em papel celofane. Jamais haviam sido abertas! O cara nunca havia montado um avião, um navio ou um automóvel! Esse sujeito sim, devia ser acorrentado ao pé da cama...

Outra visita, bem mais recente, também veio atestar minha sanidade mental. Fui convidado a conhecer um gigantesco apartamento em Copacabana, de um senhor interessado, como eu, em miniaturas de automóveis e trens elétricos Lionel. Milhares de trens e carrinhos, amontoados sem o menor critério. A título de brinde, havia, também, uma montanha de equipamentos de som. De altíssima qualidade, notadamente dezenas de gravadores Revox, sonho de consumo dos audiófilos. Completamente destruídos pela maresia. Além disso, o sujeito também mantinha prateleiras e mais prateleiras cheias de aparelhos destinados a testar válvulas. Qual o sentido de colecionar isso? Essa, sinceramente, eu não entendi. Para fechar o capítulo, vale mais um registro. Esse cidadão devia ter, na minha estimativa, uns 90 anos de idade. Ele revelou a necessidade de comprar mais um apartamento, para acomodar suas futuras aquisições.


Sou, portanto, um cara normal. Ou quase...

terça-feira, 18 de julho de 2017

3054 - Em terra de cego, apanha-se muito.


                                                                                                                        
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5314 SX                           Data: 18 de julho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV
  
                                

ANDRÉ, O PRECURSOR

Sou doido por automóveis. Trata-se de mania muito antiga. Entendo que começou com a paixão que eu devotava ao Ford 1948 conversível do meu avô paterno. Passou pelas várias Cadillac Coupé de Ville que meu tio avô José Gomes de Paiva importou nos anos 50. Pelo Belair 56 do Dr. Rafael Xavier, meu avô materno. E, morador da Paula Freitas nos anos 60, não posso deixar de registrar os fantásticos automóveis que de tempos em tempos eram “inaugurados” pelo corretor Marcelo Leite Barbosa, morador do “Jabaquara”, prédio vizinho aquele em que morava o Dr. Rafael.

Contaminado pelo vírus da ferrugem, acabei comprando alguns carros antigos. Tive o bom senso de não ultrapassar os limites que a prudência recomenda. Pelo menos, é o que penso. Minha mulher, claro, não concorda. Mas o certo é que nunca cheguei perto dos acervos ciclópicos que alguns queridos amigos amealharam. Posso também dizer, em meu favor, que meu quarto não cheira a borracha. Não tenho o hábito, disseminado entre muitos companheiros, de armazenar pneus de banda branca embaixo da cama do casal.

Puxo pela memória para lembrar que o primeiro antigomobilista que conheci se chamava André. Também morava na Paula Freitas, bem próximo ao prédio do meu avô. Era um cara bem nascido. No seu edifício, colado ao então recém-inaugurado Hotel Trocadero, morava o poeta Augusto Frederico Schmidt, em grande evidência na época, por conta de sua atividade literária, empresarial e, também, da estreita amizade que mantinha com o Presidente Juscelino Kubitschek.

A notoriedade do poeta fazia com que a Paula Freitas fosse invadida com frequência pelos gigantescos caminhões que eram então utilizados nas transmissões externas de televisão. TV Tupi, TV Rio, TV Continental...todas interessadas em ouvir o que Schmidt tinha a declarar sobre os mais variados assuntos, colhendo, ainda, imagens de um gigantesco papagaio branco que habitava o jardim de inverno do poeta.

Nunca entrei no tal prédio mas sabia, de boa fonte, que seus apartamentos eram descomunais, imponentes.

Na época, início dos anos 60, eu tinha doze, treze anos. O André, nosso personagem, portador de carteira de motorista, teria pelo menos dezoito. Nunca lhe dirigi a palavra. Naquele tempo, essa diferença de idades configurava obstáculo intransponível.

A fama do André teve início no dia em que ele invadiu a Paula Freitas com um enorme Hudson, cinzento e enferrujado, do final dos anos quarenta. O carro chegou resmungando até a frente do imponente prédio e lá ficou meses, imóvel como o Cristo Redentor. Capot sempre aberto, ali nosso herói permanecia mergulhado durante horas, num monta e desmonta sem fim, executando tarefas que em nada contribuíam para que o Hudson voltasse a rodar.

Com o passar do tempo, esses saraus mecânicos tornaram-se alvo dos comentários da vizinhança. Diziam os porteiros que o pai do rapaz não se conformava com a mania do filho. E, sobretudo, não entendia como ele havia encarado com tamanha indiferença a sugestão de abandonar a Hudson em troca da permissão para utilizar, sem restrições, a maravilhosa Cadillac Fleetwood que habitava a garagem da família.

O pior é que a coisa havia mal começado. Logo a Hudson ganhou a companhia de um Chevrolet Coupé 1941 amarelo, também em estado terminal. Em seguida a dupla virou trio, com a chegada de uma Pontiac 1947 caindo aos pedaços. Lembro de minha avó dizendo: “Não fica bem. Esse rapaz devia ser internado”.

Essa última aquisição precipitou o Waterloo do André. Três carros caindo aos pedaços, enfileirados numa rua classuda como a Paula Freitas dos anos 60...

A antipatia dos vizinhos aumentava a cada dia, inconformados com aquelas ruínas estacionadas em tão nobre recanto.

Nosso precursor cedeu, finalmente, às inúmeras pressões recebidas. Optou por racionalizar a coleção. A providência adotada foi dar um sumiço no Hudson, no Chevrolet e na Pontiac, substituindo-os por um Packard 1940, em estado bem razoável de conservação. O importante é que o Packard andava! Ou melhor, andava e parava. Nas minhas caminhadas por Copacabana, acostumei-me a detectar com razoável frequência a presença do André, enguiçado com o Packard. Os sintomas eram sempre os mesmos: um ajuntamento de gente, o teto do automóvel preto se sobressaindo em meio à multidão e fumaça por todo lado, anunciando o super-aquecimento do bicho.

Tento não ser maldoso, mas era evidente que, em seus enguiços, o Packard revelava uma atração fatal pelos recantos boêmios do bairro. O Le Rond Point, na esquina de Fernando Mendes com Avenida Copacabana, onde Antonio Maria curtia sua tristeza depois de brigar com Dolores Duran, era um must para o Packard. Ali suas panes criavam grande confusão, sendo a Fernando Mendes uma rua muito estreita. Mais tranquilos eram os enguiços em frente ao Bolero, na Avenida Atlântica, ou próximos ao Beco da Fome, no Lido. Civilizadas eram as panes que ocorriam no Posto Esso que ficava embaixo da Boîte Fred´s, na esquina de Atlântica com Princesa Isabel. Onde hoje se localiza o Hotel Meridien. Lá o Packard enguiçava e passava verdadeiras temporadas, até que o André conseguisse convencê-lo a retornar à Paula Freitas.

Enguiços do Packard eram, assim, triviais. Passavam desapercebidos.

Um deles, no entanto, ficou registrado em minha memória. Numa tarde de sábado, disputava-se no Posto 3 uma acirradíssima partida de futebol de praia. E os dois times envolvidos, por conta de arruaças e brigas promovidas em outros jogos do campeonato, haviam perdido o mando de campo, sendo obrigados a jogar as partidas remanescentes do torneio sempre em campo neutro. Jogavam desta feita em frente à Paula Freitas. Calçada apinhada de torcedores, berrando e xingando o tempo todo. Conhecido, só o juiz. Era o Ceguinho, vendedor da loja das Persianas Colúmbia, na Avenida Copacabana. Enxergando muito mal, como o próprio apelido atestava, Ceguinho, goleiro, fora barrado do time de futebol de praia da Paula Freitas. Imprudente, tornou-se juiz, devidamente oficializado pela Federação. No tal jogo, Ceguinho tantas fez, tantos erros cometeu, que levou uma corrida das duas torcidas. Desesperado, fugiu em direção à Avenida Atlântica, no momento exato em que passava seu amigo André com o Packard.

Num filme de final feliz, o André teria salvo o Ceguinho. No filme que eu assisti, o Packard enguiçou cinquenta metros adiante. Os três apanharam muito, nessa ordem: Ceguinho, André e o Packard.

Essas são as lembranças que tenho do André e de seus automóveis, placidamente parados na Paula Freitas, onde uma vaga, atualmente, é disputada a tiro de revólver.


Concluí que aquela figura, que nunca mais encontrei, foi um precursor do hobby de colecionar carros antigos, um visionário, naquele momento em que maravilhosos automóveis dos anos 40 e 50 eram avidamente trocados por fusquinhas e DKWs ou, pior ainda, conduzidos sem cerimonia ao ferro-velho.

domingo, 16 de julho de 2017

3053 - Bastou uma bala...


           
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5313 FM                           Data: 16 de julho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


A HISTÓRIA DE UMA BELA E FASCINANTE MULHER

Eis a história de Mata Hari, uma personalidade famosa, que muita gente desconhece e, de minha parte, confesso saber que havia sido espiã, durante a Primeira Guerra Mundial. É muito pouco. Assim, de curioso que sou, fui às naturais pesquisas.
Mulher de beleza exótica e estonteante, pseudônimo de Margaretha Gertruide Zelle, nascida em Leewarden, na Holanda, a 7 de agosto de 1876, morreu em outubro de 1917, acusada de espionagem. Foi fuzilada em Paris. Aos 25 anos tentou, sem êxito, ser professora. Depois de um longo tempo, em diferentes ocasiões, sua vida tornou-se alvo da curiosidade de biógrafos, romancistas e cineastas, o que a teria transformado  em uma espécie de símbolo da ousadia feminina. Morreu aos 41 anos, em 1917.
Era filha do empresário indonésio Adan Zelle, e mãe holandesa. Tinha 14 anos quando a mãe morreu, o pai casou-se novamente. Mandou a filha e três filhos para viverem com familiares. Quando tinha 16 anos, envolveu-se com um dos diretores do colégio onde estudava, foi expulsa, decidiu fugir de casa, indo morar em Haia, com um tio. Aos 19 anos, anos, casou-se em 1895 com Rudolf John Mac Leod, de 39 anos, um  capitão do exército das Índias Orientais Holandesas, então colônia dos Países Baixos, desde o século XVII até o começo do século XX (hoje, Indonésia). Fora atraída pelo anúncio amoroso publicado em jornal. Divorciou-se sete anos depois, acusando o marido de infidelidade conjugal e maus tratos. A separação oficial somente se deu com a morte do militar, dois anos depois. Tiveram dois filhos, Norman-John e Jeanne-Louise, que adoeceram, o menino morreu aos dois anos, de sífilis, doença congênita  dos pais. Na época, os pais disseram que os filhos haviam sido envenenados por inimigos do militar. Com a separação, Margaretha perdeu a guarda da filha. Sem meios  financeiros para lutar nos tribunais indonésios, mudou-se para a França, em 1903. 
No início, viveu com grandes dificuldades financeiras, tendo conseguido trabalho como modelo, posando para artistas, nua, até se prostituido.  Conseguiu emprego em um circo, onde começou sua carreira de dançarina burlesca, com o nome de Mata Hari  (significa Sol,  literalmente “Olho do dia”, em malaio e indonésio)), que passou a usar quando foi morar em Java, a maior ilha do arquipélago indonésio. Rapidamente tornou-se famosa nos palcos de toda a Europa. Dizia ser princesa hindu, filha de um rajá. O sucesso ocorreu somente depois de se apresentar no Musée Guinet, em Paris, dedicado à cultura asiática. Um jornalista a descreveu como “felina, extremamente feminina, majestosamente trágica.”  Outro a viu como “magra, alta, com a graça flexível de um animal selvagem, e cabelos negro-azulados.”
Em 1912, depois da fama, sua carreira começou a entrar em declínio. No início da guerra passou a circular entre políticos importantes, militares e homens influentes em vários países. Mudou-se para a capital alemã, depois para Amsterdã, fez diversas viagens a Londres, surgindo daí as especulações de que seria espiã, trabalhando para a França e a Alemanha. Circulava com habilidade entre oficiais franceses e alemães, dormindo com uns e com outros como uma cortesã usando seu poder de sedução, tornando-se “um peão  da intriga internacional”, quando teria passado  a atuar na perigosa atividade da espionagem - pelo menos para os historiadores que se ocuparam de sua vida, embora não se tenha afirmado, com exatidão,  ser espiã. Afirmava-se que quebrara o código secreto alemão, o que permitiu aos franceses encontrar  documento que comprovava ser ela uma agente alemã infiltrada entre os franceses. 
Em janeiro de 1917, os franceses interceptaram  mensagem de um oficial  alemão, sediado na Espanha, em que fazia referências a atividades  de um espião identificado como H-21, atribuindo-se essa identificação a Mata Hari. Acredita-se que a mensagem teria sido uma armação alemã contra ela, que havia sido dispensada de seus serviços, considerados ineficientes. Foi quando ocorreu a prisão. A acusação era de que Mata Hari revelara aos alemães detalhes sobre a nova arma dos Aliados – um tanque de guerra, o que teria resultado na morte de dezenas de milhares de soldados. Além disso, os franceses teriam encontrado tinta invisível em seu poder, com que escrevia mensagens aos inimigos. Mata Hari disse que a tinta era para maquiagem artística. Outra acusação, que negou, foi a de haver recebido dinheiro de um cônsul alemão, para atividade secreta. O dinheiro, disse, teria sido usado para pagar casacos de pele e roupas, confiscados numa de suas viagens.
Sobre sua execução, em Paris, surgiram várias especulações, uma das mais fantasiosas, foi sobre a vedação dos olhos, que recusou, diante do pelotão de fuzilamento. Também se disse que que a dançarina havia atirado beijos para os soldados, encantados com o seu chame. Outro detalhe, o mais excitante, diz que a dançarina tirara suas vestes, com a ordem de “fogo.
Embora a acusação de mulher fatal sedutora e perigosa, Mata Hari foi apenas uma vítima das circunstâncias. Na realidade, não houve provas que a comprometessem e a levassem a ser fuzilada. Tudo a seu tempo, os documentos sobre o julgamento da famosa dançarina exótica, que se desnudava nos palcos, serão revelados pelo governo francês ainda este ano de 2017. Será a verdade sobre uma fascinante e bela mulher.