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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

2287 - Imaginot?

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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4087                               Data: 12 de dezembro de 2012
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EM PARIS,  NA SEGUNDA  GUERRA  MUNDIAL

De repente, eu e Elio nos vimos como hóspedes de uma estalagem parisiense nos tumultuados dias que antecederam a Segunda Guerra Mundial.
-Carlos, há muitos comunistas neste lugar.
-Também há anticomunistas, se você procurar bem.
Nossos cochichos foram abafados por Antoine, um impulsivo moço de 25 anos de idade, que gritou em voz alta:
-O camarada Stalin assinou um pacto com Hitler de não agressão.
E concluiu:
-Nosso líder quer preservar o povo soviético da guerra.
Honoré, um anti-Stalin empedernido, de pouco mais de 20 anos, retorquiu com a voz estentórica.
-Os dois fatiaram parte da Europa: A Rússia fica com a Finlândia, a Letônia e a Estônia; e a Alemanha fica com a Lituânia.
Iniciou-se uma discussão em que quase todos os hóspedes se envolveram; muitos defendendo Stalin, outros, atacando-o.
-Elio, como dizia Nélson Rodrigues: “Nada mais cretino do que a paixão política. É a única sem grandeza, a única que é capaz de imbecilizar o homem”.
 Fui, então, para o meu quarto, enquanto o Elio, avesso a discussões, também se retirou, mas para se encontrar com uma costureira que morava  perto da estalagem.
E as notícias e mais notícias dos jornais nos chegavam. A Alemanha entrou na Polônia, logo a França e a Inglaterra, seus aliados, declaram guerra aos nazistas. A Rússia, por sua vez, invadiu a Finlândia, mas encontrou uma resistência heroica.
-Os finlandeses lutam até de esquis e os soldados de Stalin morrem como moscas. - vibrou Honoré.
-Com meia dúzia de combatentes, a Finlândia logo cederá. - desdenhou Antoine com um sorriso na comissura dos lábios.
-Importa aqui a França. Nós temos de pegar em armas para defender o país de Napoleão. - vociferou um senhor, chamado Goriot.
Antoine sussurrou alguma coisa que foi captada pelo Elio.
-O que ele disse? - perguntei.
-Disse que nem francês o Napoleão era.
Surgiu Honoré com um rifle na mão, conclamando a todos o seguirem:
“Allons  énfants de la Patrie, le jour de gloire est arrivé.”
 Ninguém o seguiu, a não ser o senhor que citara Napoleão, e se dizia adepto de De Gaulle.
As notícias assustadoras vinham num crescendo. A força bélica nazista se espalhou pela Dinamarca e, em seguida, pela Noruega. Ingleses e franceses minaram os mares da Noruega para que os alemães  não alcançassem o aço da Suécia e, assim, robustecessem  ainda mais a sua máquina de guerra.
Honoré e o senhor gaullista  retornaram à estalagem. Antoine, vendo-os, ironizou:
-Já acabou a guerra?
-Ainda não chegou a Paris. - replicou o rapaz.
Elio, que saíra mais uma vez para se encontrar com a costureira, apareceu logo depois com uma novidade.
-Carlos, eu vi a Ilsa e o Rick, passando num carro, apaixonadíssimos.
Mas não era hora de romantismo; Hitler penetrara na Bélgica e na Holanda.
-Logo, eles estarão aqui. - alarmou-se a dona da estalagem.
-Temos a Linha Maginot (*) para contê-los. - frisou o senhor gaullista.
Apesar da minha admiração pelo seu patriotismo, tive de tapar a boca para não rir.
Logo Dunquerque, a cidade do norte da França, que serviu de base dos navios aliados, na Primeira Guerra Mundial, sofria um devastador ataque dos “Stukas” alemães.
Antoine lia essa notícia acima e acrescentava:
-Chovem bombas alemãs sobre 270 mil ingleses e 110 mil franceses.
Depois, ele lia sobre a espetacular “Retirada de Dunquerque”, quando navios ingleses conseguiram, com êxito, resgatam os soldados aliados que se encontravam encurralados.
Antoine, que estava presente, se manifestou:
-Não se ganha a guerra com retiradas.
-Citando Churchill?... - ironizou Honoré.
-Deus me livre. A Inglaterra não moveu uma palha para defender os republicanos espanhóis da sanha de Franco na guerra civil. - retrucou Antoine.
-Ora, soldados de Stalin, e mesmo generais, envolveram-se nessa guerra ao lado dos republicanos, você queria que a Inglaterra se aliasse a eles? - argumentou Honoré.
-Vocês verão que logo Franco colocará a Espanha do lado de Hitler e de Mussolini. - previu o stalinista.
-Franco poupará o povo espanhol, que mal saiu de uma guerra fratricida. - mostrou-se melhor profeta Antoine.
-Vocês falam da Espanha, enquanto as tropas nazistas já se encontram praticamente em Paris. - interveio Goriot, veterano da Primeira Guerra.
-Tem razão, vou pegar a minha arma. - ergueu-se, resoluto, Honoré.
-Eu já estou com a minha pronta para ir para as trincheiras.
-Ele não sabe que esta guerra será bem diferente da outra. - sussurrou-me o Elio nos ouvidos.
Os dois, minutos após, saíram, e a dona da estalagem interpelou Antoine:
-E você?... Não vai com eles?...
-Tenho muita leitura para pôr em dia. - justificou-se.
-E tem mesmo, Elio; se ele for ler todos os volumes de “O Capital” mais as interpretações de Lênin e outros intelectuais da esquerda sobre o socialismo, só terminará a leitura em meados de 1945.
-Você, Carlos, se dá bem com um e com o outro, embora eles sejam tão antagônicos.
-Como eu não expresso paixão política, Antoine pensa que simpatizo com o comunismo, e o Honoré, imagina que gosto do liberalismo.
Passaram os dias, não muitos, com todos os que ficaram na estalagem apreensivos, pois a guerra já atingira Paris. Foi quando o Elio surgiu esbaforido no meu quarto, o que me assustou, caindo das minhas mãos um livro de Voltaire.
-Carlos, eu namorava a costureira, quando tiros e mais tiros espocaram. Corri, e só quando cheguei aqui percebi que esquecera a minha namorada.
-Ela aparecerá. - animei-o.
Ela apareceu, jurando que nem sequer um botão da camisa do Elio ela costuraria. Também apareceram Honoré e o velho Goriot, com a expressão desolada.
-Perdemos momentaneamente, mas não daremos o gostinho a Hitler de olhar Paris da Torre Eiffel.
Goriot completou as palavras de Honoré:
-Bravos franceses cortaram todos os cabos da Torre, o assassino não verá Paris do alto.
Os alemães voltaram a sua atenção para a Inglaterra e as incursões da Luftwaffe eram constantes.
-Os ingleses resistiram a Napoleão. - mostrou-se Goriot confiante.
Honoré, enquanto isso, juntava-se à Resistência e vez ou outra aparecia. Antoine se dedicava à leitura.
Quando soubemos que Hitler enviara soldados para combater na Finlândia, que ainda provocava estragos entre os soviéticos, Antoine se manifestou:
-Não estou gostando nada disso.
Antoine apareceu na estalagem, dias depois, com a notícia:
-Hitler invadiu a União Soviética.
Antoine olhou fixamente para Honoré e lhe perguntou:
-Existe arma para eu lutar contra os nazistas?
-Existe.
-Dê-me, então e vamos à luta.

(*) o Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO, por coincidência, recebeu o seguinte texto sobre a Linha Maginot e decidiu ser apropriado reproduzi-la:



A Linha Maginot (em francês: ligne Maginot) foi uma linha de fortificações e de defesa construída pela França ao longo de suas fronteiras com a Alemanha e a Itália, após a Primeira Guerra Mundial, mais precisamente entre 1930 e 1936.

O complexo de defesa possuía várias vias subterrâneas, obstáculos, baterias blindadas escalonadas em profundidade, postos de observação com abóbadas blindadas e paióis de munições a grande profundidade.

A linha Maginot não evitou a derrota da França no início da Segunda Guerra Mundial, em 1940, na medida em que as divisões alemãs contornaram-na atacando a região de Sedan, além da sua extremidade oeste.

Um erro estratégico
A principal razão para a falha da linha Maginot é o fato de não se estender até ao Mar do Norte. Por diversas razões, entre as quais a falta de tempo e de financiamento, a sua construção foi interrompida a 20 km a leste de Sedan, em Montmédy, fazendo face à fronteira alemã, ao Grão-Ducado de Luxemburgo e a uma parte da fronteira franco-belga. O segmento Longuyon-Lauterbourg era particularmente reforçado, com edificações equipadas de artilharia pesada, enquanto que as defesas do Reno e a oeste de Longuyon eram menos fortes. Certas partes não haviam recebido o equipamento que lhes era destinado no momento da declaração da guerra.

Além disso, a neutralidade da Bélgica confortava os argumentos daqueles que não acreditavam em uma ofensiva inimiga a oeste da linha Maginot.

Foi assim que se desenvolveu um sentimento de segurança com a linha Maginot, onde praticamente cada francês estava convencido de que estava protegido de toda agressão alemã. No entanto, era preciso alguma ingenuidade ou incompetência para imaginar que a linha pudesse resistir suficientemente a um ataque violento e localizado, apoiado pela artilharia pesada e pela aviação moderna. Sem contar com a tática alemã do Blitzkrieg e de contornamento da linha pelas Ardenas. No pior dos casos, a linha poderia conter um ataque surpresa frontal durante o tempo necessário à França para organizar uma mobilização geral.

Neste contexto, os pedidos ansiosos do general De Gaulle e de Paul Reynaud em 1935 em favor do desenvolvimento de divisões blindadas para assegurar a defesa do território não coberto pela linha Maginot faziam sentido, mas não foram ouvidos. O general Maurin, então ministro da Guerra, durante um debate no Parlamento, respondeu a Paul Reynaud : « Como se pode ainda pensar em termos de ofensiva quando gastaram-se milhares de milhões para estabelecer uma fronteira fortificada ? »

No dia seguinte a essa declaração, Hitler rasgava simbolicamente o tratado de Versalhes e instituía a conscrição compulsória para 500000 homens.


quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

2286 - reciclando

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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4086                               Data: 11 de dezembro de 2012
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ASMODEU

Entrei num bar onde todos os presentes rodeavam uma mesa de sinuca, menos uma figura que se sentou a uma mesa com um copo e uma garrafa. Olhei-o fixamente e fui até ele, pois o reconheci,
-Asmodeu.
Ao ouvir a minha voz, fez um gesto de contrariedade.
-Tomei um banho de perfume; coloquei botas para esconder meus pés e, ainda assim, você descobre a minha identidade.
-Li todos os contos do Tchekhov. - exagerei.
-Sente, então, nesta cadeira. - indicou-me um lugar à sua mesa.
E prosseguiu:
-Estive uma boa época no seu país.
-Você aconselhou os dirigentes brasileiros a contrair empréstimos no exterior a juros flutuantes.
-Entre outras coisas. - riu com sadismo.
E foi adiante.
-Tempo, muito tempo atrás, eu pretendia que todo o petróleo brasileiro ficasse à flor da terra, mas perdi a batalha para o Inimigo, que o colocou a mil, a 3 mil, até a 7 mil metros do fundo do mar.
-Você queria que o nosso petróleo fosse retirado por cavalos de pau, como no Texas.
-Sim, vocês teriam exportado a 3 dólares o barril. Lembre-se que só no fim de 1973, o preço do barril saltou para 12 dólares, depois, em 1979, foi a 40. Hoje, passa dos 100 dólares.
-Houve um país, não me lembro agora o nome, que exportou o petróleo que possuía a 3 dólares e, agora, importa a mais de 100.
-Lá, eu fiz um bom trabalho. - esfregou Asmodeu as mãos de contentamento.
-Os Estados Unidos não exportaram o seu petróleo.
-Eles são mais espertos do que vocês. Eles nunca construiriam uma Capital em três anos, apesar de serem bem mais ricos. Os governantes brasileiros, com o petróleo brotando da terra, gastariam o dinheiro desbragadamente.
-Mas você não pode se queixar. O Brasil, em 1982, amortizava a dívida externa com juros de 21% e importava 80% do petróleo que consumia, então, o cofre se esvaziou e o país quebrou.
-Mas fica um consolo para o Brasil: o México quebrou primeiro. - riu cinicamente.
-Quantos cidadãos perderam o emprego e se tornaram camelôs! - lamentei.
-E os que continuaram empregados pouco dinheiro tinham para comprar, ainda mais que deixei a hiperinflação engatilhada.
-Você já engatilhou quando deu aquele conselho de colocar a correção monetária em tudo, não apenas nos títulos públicos.
-Sim, mas houve a construção da cidade de que falei antes.
-E você permaneceu aqui um bom tempo, Asmodeu.
-Dei um pulo à Argentina e aconselhei aos militares de lá a invadir as Malvinas.
-E eles invadiram com o apoio popular. - acrescentei.
Soltou uma gargalhada e concluiu:
-1982 foi um ano glorioso para mim.
-E você não tira férias?
-Não sou como meu Inimigo que descansa aos domingos, eu trabalho todos os dias.
-Você não ficou só no Brasil, é evidente,
-Eu rodo o mundo inteiro. Eu me fixo, muitas vezes, na África.
-No continente onde surgiu o gênero humano, você nunca se decepciona.
-Não, nos séculos passados, os africanos lutavam entre si, prendiam os derrotados e, em seguida, vendiam para os europeus como escravos.
-O último país a apagar essa nódoa foi, infelizmente, o Brasil. - lastimei.
-A classe dominante não podia ser contrariada. - sorriu Asmodeu.
-Mesmo a Catarina da Rússia, com todos os livros de Voltaire e Diderot que leu, foi um grande exemplo de déspota esclarecida, não conseguiu banir a servidão na Rússia.
-Rapaz, você precisava ver a cara do Johann Strauss II, do Danúbio Azul, quando se apresentou na Rússia e de deparou com um servo enforcado pelo senhor da terra.
-Você estava próximo de Strauss naquela época?... Pensei que preferisse Offenbach com o seu “Orfeu no Inferno.”
Asmodeu engoliu meio copo de uísque, criando certa expectativa com essa pausa. Aguardei o que ele tinha a falar.
-Na verdade, a música que me atrai é feita hoje, com ruídos, muitos ruídos... Não quero ouvir nada que siga os padrões do divino Mozart.
A palavra “divino” saiu da sua boca com um esgar pavoroso.
-Admiro muito o funk.
-Eu já suspeitava disso. Você deve pedir aos seus DJs que a toquem, pois me  parece a trilha sonora do inferno.
-É um gênero musical, mas sempre aparece um maldito compositor de talento que consegue criar alguma coisa agradável aos ouvidos. Ordeno, então, que obras assim sejam descartadas do nosso repertório.
Nesse instante, Asmodeu se ergueu e rumou para a mesa de sinuca, juntando-se aos demais frequentadores do bar. Observei-o com atenção. Não me surpreenderia se ele pegasse um dos tacos e encaçapasse todas as bolas arrancando aplausos de admiração.  Nada disso aconteceu: ele olhou por cinco, seis minutos e retornou;
-Estava certo de que você participaria do jogo.
-Pensei em jogar duas partidas, a primeira, mostrando-me um jogador bisonho, com apostas baixas e, na segunda partida, elevando ao máximo o dinheiro disputado, eu mostraria o tamanho real do meu taco.
-Resultaria em briga.
-Por isso eu desisti; teria de recorrer aos meus poderes.
-Que não são poucos.
-Eu não sou tão exibicionista quanto o Goethe me retratou.
-Mas você falava da África.
-Você quer ouvir mais alguma coisa desse continente? - fez um gesto de enfado.
-Não, fale agora da Europa.
-Tenho muitas saudades daqueles quatro: Hitler, Stalin, Mao Tse Tung e Mussolini. Quatro grandes discípulos meus, fizeram um excelente trabalho.
-O Rei Leopoldo, da Bélgica, também fez um estrago enorme no Congo.
-Outro dos meus discípulos que merece ser lembrado. Evito citar meus discípulos mais atuantes porque não quero cometer injustiça esquecendo alguns nomes.
-Mas a Europa se recuperou ainda no século XX, muitos cidadãos passaram a usufruir um bom e até ótimo, padrão de vida. - falei com uma expressão de felicidade na fisionomia para irritá-lo.
-Não tivemos mais líderes políticos lá como na década de 30. - deplorou.
Em seguida, mostrou um pouco de entusiasmo.
-Bem, há uma crise econômica por lá e eu espero que a alegria acabe. Confio nos gregos.
-Mas por que o vejo de volta ao Brasil, Asmodeu?
-Vim me reciclar. Soube que há um partido político aqui, onde desponta um barbudo que é um gênio.
Em seguida, ergueu-se para sair, mas antes repetiu:
-Vim me reciclar.



 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

2285 - o biscoito cooperativo

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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4085                               Data: 10 de dezembro de 2012
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CONVERSAS NO TÁXI nº 151

Sempre que saio mais cedo do serviço, pego o táxi do 009. Essa certeza me veio da época do incêndio no prédio do meu trabalho quando, de abril a setembro, eu chegava ao ponto da Domingo de Magalhães.
O Gaguinho, dessa vez, sentado no banco do motorista, dormia a sono solto.
Está tão sossegado com a bolsa de estudos ganhada pelo filho que dorme.  Além disso, trabalha desde cedo para pagar o financiamento deste carro novo, iludido pelos juros baixos, como se não houvesse impostos escorchantes incidindo no valor dos veículos. - pensei.
Parado, ladeando seu táxi, não tive coragem de acordá-lo. Mas a fila anda. Um colega, que estava com o carro logo atrás do seu, não pensou duas vezes, gritou-lhe nos ouvidos:
-O passageiro está esperando.
-Vamos, Vamos. - disse sem gaguejar, franqueando a porta para mim.
-Esses cochilos são reparadores. - manifestei-me.
-Sim.
-Muitas vezes, eu retorno do almoço ao meio dia e meia, aproveito que a sala de trabalho está vazia, me acomodo na cadeira e procuro cochilar.
-O cochilo nos revigora,
-Pena que a minha cadeira não seja tão confortável quanto às dos ministros do Supremo Tribunal Federal.
-Você hoje veio mais cedo.
-Seríamos dispensados, por causada passeata do “Veta, Dilma”, às duas da tarde. Ora, essa é a hora do início  do evento, então, eles anteciparam em uma hora nossa saída.
-Eu imagino o nó que vai dar no trânsito. - disse, alongando vogais por causa da gagueira.
 -Almocei na esquina da Primeiro de Março com a Avenida Antônio Carlos  andando pelo meio da rua da Assembleia. Fui depois, da Rodrigo Silva à estação Carioca do Metrô pela Avenida Rio Branco. Tive a sensação que estava nos carnavais dos anos 50, quando a minha mãe me levava, como meus irmãos, para ver os foliões.
-Fecharam várias ruas e avenidas da cidade desde cedo. - disse ele.
-Eu peguei o metrô, hoje, antes das seis da manhã. A princípio, estranhei, pois estava lotado, depois, eu calculei que a chuva, pois chovia, obriga que muitas pessoas troquem o ônibus pelo metrô.
-O trânsito da Avenida Brasil está também mais carregado.
-Sim; uma colega minha, que mora em Campo grande, chegou duas horas depois do costumeiro. Disse-me que, quando não são os cracudos da Favela Parque União , é a chuva que atravanca o trânsito da Avenida Brasil.
-Eu levei um passageiro para o Centro, mas foi uma corrida tranquila, porque aconteceu bem cedo, no horário em que você desce a Van Gogh. - arriscou ele uma frase mais longa.
-Quem sofreu mais foi a minha colega que vem de Niterói, pois passam por lá os manifestantes dos royalties de São João da Barra, Campos, Macaé...
E acrescentei:
-Todos os cabos eleitorais do Garotinho e da Rosinha devem aparecer. Eles distribuem pão com mortadela e ônibus grátis.
-É uma festa. - comentou.
-Eles ainda verão seus ídolos da TV Globo.
-E você acha que a Dilma vai vetar essa distribuição dos royalties do petróleo para todo o mundo?
-Ela vai vetar, se não, o Brasil vai ficar desmoralizado por não cumprir contratos internacionais.
-Mas o Brasil já não quebrou contratos?...
-Depois que o Fernando Henrique arrumou a nossa economia, não e o Brasil passou a ser visto com outros olhos. - disse, enquanto tirava o dinheiro do bolso da camisa para pagar a corrida.

-Como vai a sardinha?
Essa pergunta do taxista que eu mal conhecia, tanto que lhe disse o meu destino, surpreendeu-me.
-Será que sou peixeiro? - indaguei comigo mesmo.
Notando a minha expressão de mau entendedor, acrescentou:
-A sardinha em lata. O metrô.
-Ah, sim. Tento estar na plataforma, na ida ao trabalho, pelas seis da manhã e, na volta, pelas quatro e quinze da tarde.
-Ainda assim, não escapa da “sardinha”.
-Normalmente, eu escapo sim, de manhã cedo, é evidente que nunca sento, mas de tarde...
-De tarde, é aquela pressão por todos os lados. - interveio com uma risada sádica,
-Não é o período em que você mal respira, isso ocorre pelas seis horas da tarde, no entanto, você tem de encontrar um lugar estratégico, no momento do fluxo e refluxo dos passageiros que se dá na estação da Central do Brasil.
-E esses trens chineses não iriam resolver o problema de lotação?
-Eu viajo umas trinta e quatro vezes por mês de metrô, e só peguei, até hoje, quatro vezes o trem chinês.
-Vieram poucos, então?... Noticiaram outra coisa.
-Sempre que passo pela estação da Cidade Nova, onde há um depósito de trens, vejo um chinês ocioso por lá.
-E olha que chinês trabalha pra burro. Vá ver que o trem é baiano.
E explodiu numa gargalhada, satisfeito com a própria piada.
Já estávamos na Rua Modigliani, paguei a corrida e fui para casa.

Peguei o táxi do 045, no dia subsequente, e, depois das saudações de praxe, perguntei-lhe sobre o tráfego nos dias de semana para a Barra da Tijuca.
-Tem havido engarrafamento a qualquer hora no Rio de Janeiro, porque  há muita gente  colocando seus cacarecos para rodar nas ruas.
-Prometi a um amigo de décadas, que não vejo a alguns anos, visitá-lo em casa, mas adio sempre essa visita por temer a demora no trânsito.
-Certa vez, a minha mulher cismou de ir à Bienal do Livro, no Riocentro,  para pegar um autógrafo do Padre Marcelo no “Ágape”.
-O livro que vendeu mais do que banana na feira-livre?
-Esse mesmo.
E continuou:
-A caminho de lá, enfrentei um engarrafamento dos diabos.
- Um amigo meu, que conhece também o Machado, mostrou-me um artigo do Ruy Castro, da Folha de São Paulo, sobre noites de autógrafos.
-Sim. - mostrou curiosidade.
-Afirma o cronista que o número de autógrafos que anunciam não corresponde a realidade. Falam em 1000 autógrafos, mas ele argumentou com 400, projetando um minuto por autógrafo, o que significaria 400 minutos, ou seja, 6 horas e 40 minutos.  E concluiu que nenhum escritor suporta fisicamente esse tempo todo.
-Mas um minuto é muita coisa para se rabiscar um nome; eu caminho 100 metros por minuto. Quando o escritor vê que a fila é enorme, resolve isso gastando um vinte segundos por pessoa. A fila do “Ágape” era quilométrica, de dar inveja ao Paulo Coelho.
-Mas eu soube que ele teve cãibra nos dedos.
-É verdade. Padre Marcelo pediu, então, a compreensão do pessoal que estava na fila, houve protestos, e ele disse que trocaria o autógrafo pela bênção a cada comprador do “Ágape” .
-E todos acataram?
-Sim.
Só depois de saltar do táxi é que percebi que não lhe perguntara se a sua esposa fora abençoada ou levara para casa o livro autografado.




sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

2284 - o Colégio Militar farináceo


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O BISCOITO MOLHADO
                          Edição 4084                               Data: 09 de dezembro de 2012
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CONVERSAS NO TÁXI nº 150

-Quantas conversas realizadas com os taxistas da Metrô Táxi eu reproduzi nos BMs? Vejamos, primeiramente, a partir de quando eu passei a vir de Maria da Graça para casa de táxi.  Isso aconteceu assim que furtaram o meu carro. Em que ano ele foi roubado? Lembro-me do dia: São Cosme e Damião; a garotada corria  atrás de doce. Mas o ano?...  Sim, 2008; um ano antes de o chefe da milícia de Del Castilho, provável mandante do furto, receber duas azeitonas na cabeça.
 Fiz umas 600 viagens e devo ter gasto uns 4 mil e 800 reais. O leitor deve estranhar esse cálculo, mas eu me explico: neste período sempre paguei 8 reais por corrida; desde que o taxímetro marcava pouco mais de 6 reais até hoje, que marca 7,75 reais. Eu entrego uma nota de dez e recebo uma de dois. Bob Esponja já saca os dois reais antes de eu lhe pagar. Outros taxistas, como o 081, nem acionam o taxímetro quando sabem que eu sou o passageiro.
Calculo que de quatro em quatro viagens eu tinha material para confeccionar uma edição do Biscoito Molhado, assim, este vai com o número 150, porque não tenho mais ideias para criar títulos.
Isso posto, sigamos adiante.
Percebi a poucos metros do ponto da Domingo de Magalhães que o táxi que me levaria até a Rua Modigliani era o 009, do Gaguinho. Na última vez que me levou, há uns dez dias, informou-me que o filho seria submetido ao teste de jogador de handball do Colégio Castelo Branco em que estava em jogo uma bolsa de estudo que adiantaria em muito a vida de pai e filho. E se o garoto não passou?... Seria, nesse caso, uma indelicadeza da minha parte tocar no assunto, por isso, entrei no seu táxi falando do calor senegalesco que nos castigava, Ele não quis saber da quentura.
-Sabe que o meu filho foi selecionado pelo técnico de handball?
-Que bom.
A emoção acentuava ainda mais a sua gagueira, parecia, guardadas as devidas proporções, o pai da Rainha Elizabeth II falando da guerra contra Hitler antes de passar pelo tratamento de um milagroso fonoaudiólogo.
-Ele e um monte de garotos passaram pelo teste e, depois do jogo, o técnico selecionou os doze melhores e, entre eles estava meu filho.
-Então, ele está aprovado. - expus o meu otimismo.
-O técnico não assegurou nada, mas eu acredito que uma parte dessa bolsa de estudos na Universidade Castelo Branco está praticamente certa.
-Isso será ótimo.
-Claro.- apenas nesse momento ele não enfrentou uma frase longa.
Eu olhava para o seu carro novo e percebia que ele, como tantos outros taxistas, entrara num financiamento a juros atraentes, esquecendo-se que os impostos praticados no Brasil jogam os preços na estratosfera, Não teria, provavelmente, folga no orçamento caso tivesse de pagar uma mensalidade cara do colégio do filho.
-Você não pressionou o garoto para conseguir essa bolsa de estudos?
-Não, isso eu não faço.
-A minha sobrinha-neta, Ana Clara, estuda num colégio onde o relacionamento social entre alunos e professores é ótimo, mas o estudo, não, Assim, a sua mãe resolveu colocá-la num colégio mais puxado em que, naturalmente, a mensalidade é mais cara. Antes da matrícula, ela se submeteria a uma prova onde poderia obter uma bolsa de 40%.
-Uma ótima bolsa de estudos. - manifestou-se.
-Sim, mas não se esqueça que ela não vinha com uma boa bagagem para essa prova. Então, falei com a mãe dela: “Nada de pressioná-la, se não conseguir, paciência, porque terá tempo de sobra para se recuperar”.
-E eles têm mesmo. - concordou.
-Contei um caso que sofri na pele. Saí da Escola Manoel Bomfim e fui enfrentar uma prova de admissão ao Colégio Militar do Rio de Janeiro. Deparei-me com sujeitos, predicado e outras questões que eu nunca tinha visto na vida. Ainda me apareceu um aumentativo de incêndio, e, para mim, até aquele concurso, bastava acrescentar um “ão”...
-Você respondeu “incendião”.
-No meio da minha ignorância, percebi que não cabia um “âo”, e inventei “incendiadez”.
-Qual era a resposta certa? - mostrou curiosidade.
-Incêndio grande. Era uma forma de aumentativo que não me foi ensinada no meu curso primário.
-E qual foi a reação dos seus pais?
-Minha mãe não disse nada, apesar do grande sonho dela, alimentada pela minha avó, que tinha pais e irmãos oficiais do Exército, de me ver no Colégio Militar. Quanto a meu pai... Bem, eu já me deitara para dormir, quando ele chegou do jornal em que trabalhava. Minha mãe lhe deu a notícia do meu fracasso e ele se alterou. Disse que não tinha dinheiro para pagar escola, que eu deveria ter estudado mais...
-E você?
-Fingi que dormia. A criança é muito vulnerável; eu fiquei com um sentimento de culpa profundo, como se tivesse cometido um crime. Aquelas palavras me feriram mais do que qualquer surra que ele tenha me dado.
-E seu pai lhe bateu muito?
-Ele nunca me bateu, mas aquelas palavras valeram por mil surras.
-E você se recuperou?
Meu pai, na realidade, agia por impulso. Desembolsou 500 cruzeiros mensalmente para eu e minha irmã estudarmos num explicador da Rua Rocha Pita, que dava aulas de matemática no Colégio Pedro II. Gastava, no total, mil cruzeiros. No segundo semestre daquele ano, fez-me estudar de manhã e de tarde, assim, a minha mensalidade dobrou.
-A sua irmã passou também para o horário integral?
-Em 1960, a sociedade era muito mais machista do que hoje, quase todas as fichas foram apostadas em mim, não na minha irmã, que prosseguia nos estudos só pela tarde.
-Você estava, agora, pronto para enfrentar os sujeitos e predicados do Colégio Militar?...
-Além do aumentativo de incêndio. - acrescentei.
-E como se saiu?
-Rapaz, o primeiro colégio a chamar para as provas de admissão foi o Colégio Visconde de Cairu. E lá fui eu, com minha mãe, ser inscrito. Tomei um susto quando li a placa, sobre um balcão, com as palavras 70 vagas, pois se falava em milhares de candidatos.
-A relação era uns 300 candidados por vaga... - calculou de cabeça.
Na época, o Carlos Lacerda se tornou governador do Estado da Guanabara e abriu a porteira; as vagas subiram para 400, por aí.
-E você passou.
-Passei; o Colégio Visconde de Cairu gozava da fama de ser o melhor colégio estadual. Como os mestres tinham, na época, matrículas do governo federal e estadual, os meus professores também davam aulas no Pedro II.
-E depois, você tentou o Colégio Militar?
-Que nada! Minha mãe já pretendia me levar à escola e trazer, e, percebendo que o Maracanã ficava longe do Cachambi, deu-se por satisfeita com o Visconde de Cairu do Méier. Meu pai aprovou.
Antes de saltar do seu táxi, desejei sorte ao filho do Gaguinho na obtenção da bolsa de estudos através do esporte e me dirigi para casa.






terça-feira, 18 de dezembro de 2012

2283 - o duque

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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4082                               Data: 07 de dezembro de 2012
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74ª VISITA A MINHA CASA

Digamos que eu me encontrava na fase intermediária entre a vigília e o sono, no devaneio, quando ouvi notas de um piano que acompanhava uma música bem ritmada que uma banda de jazz executava. Abri os olhos.
-Duke Ellington. - encantei-me ao vê-lo diante de mim.
-Como vai?
-Desde que eu vi o filme “Anatomia de um crime”, com James Stewart, que me senti atraído por aquela música que me soava nova aos ouvidos. Até então, eu só ouvia óperas italianas, alguns concertos sinfônicos e a música popular do Brasil e outras nações.
-Eu compus a música para “Anatomia de um crime”, em 1959; dois anos depois, fiz o mesmo para Paris Blues (Paris vive á noite), com Paul Newman e Sidney Poitier.  Mas antes, bem antes, em 1929, eu coloquei a música no Black and Tan Fantasy.
-Duke Ellington, há mil testemunhas que comprovam que você compunha com uma facilidade espantosa. Enquanto você aguardava um jantar, você compunha uma obra-prima. Na banheira, durante o banho, as notas musicais de novo sucesso lhe vinham à mente e você logo as colocava no pentagrama.
-Eu tinha uma orquestra de jazz, tinha de conciliar os temperamentos difíceis dos meus talentosos músicos e, por isso, só havia esses momentos para criar. Além, é claro, de adaptar as minhas criações à capacidade profunda dos componentes da minha orquestra. Fiz, muitas vezes, mais de um arranjo para várias músicas.
-E assim brotaram mais de mil composições.
-Não parei para contar, não tive tempo. - manifestou-se sem falsa modéstia.
-O apresentador do programa de jazz da Rádio MEC, Nélson Tolipan, reportou-se, mais de uma vez, à sua apresentação com seus músicos no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Conta ele que ao chegar no seu camarim, para entrevistá-lo, você pediu que ele aguardasse um pouco porque estava compondo.
-É verdade.
-Você sempre atendia às musas inspiradoras que chegavam a todo momento.
-Nem sempre as atendi... Quando a minha mãe faleceu...
Nesse instante, cortei, intempestivamente, a fala do visitante com a minha tagarelice.
-Assisti, ano retrasado e depois revi, um documentário sobre a história do jazz em vinte capítulos de uma hora. Você e Louis Armstrong foram os jazzistas mais citados. Num desses capítulos, há uma referencia à morte de sua mãe, que o abalou profundamente.
-Fiquei deprimido durante dias, não tinha ânimo para nada; quando escrevi uma composição, depois outra e mais outra, constatei que vencera a depressão.
-Nesse mesmo documentário, Duke, Dave Brubeck contou chorando que, numa turnê que vocês faziam na Europa, você bateu na porta do hotel em que se hospedaram para felicitá-lo, com uma revista Times na mão, porque ele era a capa.
-David Brubeck era muito emotivo. - comentou.
-Ele chorava, como revelou, porque a capa do Times era para ter a sua imagem e não a dele. O racismo nos Estados Unidos o entristecia muito.
-Muitos negros se enfureciam, mas eu era um homem do piano, não do revólver. Meu temperamento era de um conciliador.
-Seu nome de batismo é Edward Kennedy Ellington.
-Sim, chamam-me de “Duke” (Duque), por causa do meu jeito um tanto nobre.
-Seu pai foi mordomo na Casa Branca?
-Papai trabalhava como desenhista da Marinha, como o dinheiro era escasso, ele se tornou, também, mordomo da Casa Branca. Talvez eu tenha absorvido os modos aristocráticos dele.
-Você logo se sentiu atraído pelo piano?
-Que nada!... Eu gostava mesmo era de beisebol; para ver os meus ídolos de perto, eu arrumei um emprego de vendedor de amendoim. Não foi um tempo perdido na minha vida porque eu tinha de gritar para conseguir vender alguma coisa e, assim, perdi a timidez.
-E o chamado da música?
-Tanto o meu pai como a minha mãe sabiam tocar piano e passaram o seu conhecimento para mim. Com 17 anos de idade, eu toquei profissionalmente, mas não parava de estudar música. Nos meus tempos de ociosidade, eu procurava ouvir os pianistas de ragtime e de abordar os mestres, como Harvey Brooks, na Filadélfia, que me mostrou algumas sutilezas.
-Você era de Washington?
-Mas segui a minha carreira por alguns estados americanos, onde eu tocava em cafés e mesmo em casas de prostituição.
-E como foi em Nova York?
-Conheci um dos meus ídolos, Fats Walter, mestre no piano; ele foi fundamental nos primeiros anos da minha carreira, incentivando-me.  Em Nova York, conheci um ragtime mais evoluído do que eu ouvia em Washington. Fui apresentado aos pianistas do Harlem e, o principal de tudo, deparei-me com o som melodioso e o ritmo swingado do Louis Armstrong e Sidney Bechet.
-Em 1917, com 18 anos de idade, você formou a banda de jazz “The Duke´s Serenaders”.
-Sim, como o nome era pretensioso de mais para um garoto de 18 anos, mudei para “The Washingtonians”.
-Em 1923, “The Washingtonians” se apresentou em Nova York?
-Tocamos em vários clubes da Big Apple e passamos pela Nova Inglaterra como uma banda de música para se dançar.
-Então, em 1927, surgiu a sua grande oportunidade.
-Sim. Joe “King” Oliver exigiu muito dinheiro para renovar seu contrato com o Cotton Club, então, o lugar vago foi oferecido a mim com meus rapazes, e, assim, nos apresentamos como “Duke Ellington and his Jungle Band.”
-Eu assisti ao filme Cotton Club, de Francis Ford Coppola, que faz referência às suas apresentações, mas se detém mesmo é na máfia.
-Era a máfia de um lado e eu do outro. O Cotton Club, para mim, era um clube do Harlem, que se tornou conhecido na esfera nacional graças as transmissões de rádio que se faziam de lá, com isso, nós nos tornamos conhecidos em todo os Estados Unidos da América,
-Afirmaram os estudiosos que o seu instrumento não era mais o piano, mas toda a orquestra de jazz, que você fez experiências com a tonalidade, usando novos efeitos com os trompetes e saxofones.
-Nessa época, elaborei composições em vários estilos.
-Quando você deixou o Cotton Club, em 1931, já era uma das maiores estrelas do país, e gravava regularmente para várias companhias discográficas.
-Algumas das suas criações foram feitas com Billy Strayhorn, um homossexual de extraordinário talento, que nem sempre recebeu os créditos devidos.
Nesse instante, uma névoa passou pelos olhos de Duke Ellington.
-Billy Strayhorn foi o meu alter ego, algumas vezes, eu parava no meio de uma composição com dúvida de que nota deveria escrever no pentagrama; consultava Billy Strayhorn, e quase sempre chegávamos a mesma conclusão.
-Duke, você, sempre que podia, enveredava pela música experimental; que, nos anos 40, você alcançou o cume criativo quando compôs para orquestra e vozes.
-Na minha orquestra havia músicos fabulosos como Jimmy Blanton, que também me ajudou a mudar o jazz.
-Sim, mas você perdeu músicos, o swing já não era tão popular com a chegada de novos ritmos, você se deparou, então, com novos desafios.
-Bem, as músicas de três, quatro minutos, não me satisfaziam mais. Eu tinha fôlego criativo para compor músicas de trinta minutos, quarenta minutos de duração.
-Mas as plateias da música popular não gostam de música tão longa, que exija muita atenção e ouvidos bem apurados. - manifestei-me.
-Diziam que as minhas criações eram similares à música clássica, que eu venderia menos discos, mas segui a minha natureza.
-A sua música desse período ainda é analisada, mas todos concordam quanto a sua incrível criatividade até a morte chegar, em 1974.
-Eu poderia compor por mais alguns anos, digo, viver.
-Duke Ellington, uma coisa que li e gostaria de lhe falar. Muitos negros não se conformavam com o fato de a maior ópera realizada sobre negros, unicamente, Porgy and Bess, com música jazzística, seja da autoria de um judeu, George Gershwin e lhe pediram uma ópera que a superasse.
-Era um pedido preconceituoso. Por que não podia ser judeu?... Eu agasalhava outras ideias na cabeça, que não era a ópera.
-Bem Ellington, você foi distinguido com a Presidential Medal of Freedom, a maior condecoração que um civil pode receber nos Estados Unidos, e foi reconhecido como o compositor que levou o jazz à sua altura mais elevada.
-Sim, mas eu morri, por isso, vou-me.
E se foi para outras paragens.