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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

2023 - figuras de infância

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3853 Data: 24 de setembro de 2011

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SABADOIDO COM PERI, MAS SEM CECI

Subi no pequeno anteparo em frente ao portão da casa, vislumbrei o vulto da Gina varrendo e ia chamá-la quando, atrás de mim, alguém me aborda:

- Você é o pai do Cláudio?

- Eu, pai do Cláudio?!...

Se o Mano Menezes me convocasse para a seleção brasileira de futebol, eu não ficaria mais surpreso.

- Você é muito parecido com ele.

Com ele quem? O Cláudio ou seu pai?

Não fiz, porém, essa pergunta, pois o atropelo das palavras que saíam daquela boca indicava uma mente confusa.

- Eu sou o Peri.

Em trinta segundos, mais ou menos, ele se identificaria outras três vezes como Peri.

- Você se lembra de mim?

- Claro que me lembro! - disse, porque seu nome de personagem literário já funcionava para mim como uma técnica mnemônica, embora sua fisionomia estivesse completamente deletada da minha memória.

- Qual é sua idade?

Atrapalhado com diálogo tão intempestivo, comi um ano do meu tempo de vida.

-Tenho sessenta e um anos, somos quase da mesma idade.

- Eu sou irmão do Cláudio. - esclareci.

- Você está muito conservado.

E o Cláudio, mais conservado ainda, em barris de carvalho – pensei, sem me manifestar, quando ele voltou à carga:

- Você era gordo.

- No fim da década de setenta, fiquei alguns quilos acima do peso, mas passei a correr em 1983 e não parei mais, a não ser para caminhar.

- Manda um abraço para o Cláudio.

- Para o meu filho? Não esquecerei.

Apertou-me a mão, dizendo que era o Peri, pela quarta vez, e seguiu adiante.

- Vá procurar a Ceci. - resmunguei.

Voltei a subir no anteparo de proteção das águas da chuva e vi a Gina com a chave do portão entre os dedos, às gargalhadas.

- Ele é muito chato... Cismou, então, que você era o pai do Cláudio?!

- Espero que o Cláudio me tome a bênção.

- Ele vai tomar, sogro.

- Este Sabadoido promete. - resmunguei, enquanto me dirigia para a cozinha da casa.

Lá, meu irmão lia as últimas páginas do Globo.

- Encontrei lá fora o maluco do Zé Peri, não o via há uns trinta anos, pelo menos. Não o reconheci, pois não guardo as fisionomias das pessoas.

- De vez em quando, ele para na calçada daqui de casa e fala umas maluquices comigo.

- Perguntou-me se eu era o seu pai.

- Então, ele está melhorando da cabeça. - concluiu meu irmão.

- Daniel, você aniversaria na terça-feira, não é? - perguntei, quando o vi entrar para tomar o café da manhã.

- Certo. - respondeu.

- Então, como presente, vou lhe dar algum dinheiro para você comprar os ingressos para os jogos restantes do Botafogo no campeonato brasileiro.

- Apesar de tricolor, eu aceito.

Dado o presente, continuamos com o futebol.

- E o Flamengo?! Será que chega ao décimo primeiro jogo sem ganhar?!

- Dizem que o único jeito de o dólar cair é atrelá-lo ao Flamengo. – falei em seguida às palavras do meu sobrinho.

- Depois da piada do cachorro flamenguista, surgiu essa... - sorriu o Cláudio.

Nesse instante, a Gina irrompeu pela casa adentro, pois tinha hora marcada com a irmã para ir ao supermercado.

- Ontem, assisti a uma entrevista do Rivelino, na ESPN.

Sem aguardar manifestações, prossegui:

- Quando compararam Messi com Maradona, Rivelino afirmou que o Maradona já antevia a jogada antes de receber a bola, qualidade essa que o Messi não possui. Sobre a comparação do Maradona com o Pelé, ele se viu obrigado a repetir o Ramos Delgado: “Maradona, o “Negón” está num lugar lá em cima...”

- Quem é Ramos Delgado?- quis saber o Daniel.

- Foi um beque argentino de categoria. - respondi.

- O entrevistador perguntou ao Rivelino por que não aparecem mais craques como ele, Gérson, Tostão, Zico e Didi. Rivelino respondeu que o talento já é podado nas divisões de base, porque os técnicos exigem que a garotada marque, dê carrinho, corra atrás dos defensores adversários...

- É verdade. - interrompeu-me o Cláudio.

- O grande jogador, na visão do Rivelino, é meio preguiçoso, precisa que alguém faça o trabalho duro por ele e lhe entregue a bola. No Palmeiras, o Dudu fazia isso para o Ademir da Guia, na seleção, o Clodoaldo, para o Gérson e para ele. Hoje, o preguiçoso é o Ganso, do Santos, que tem de receber a bola limpa para criar.

- Estou indo ao supermercado. - disse a Gina, que atravessava de novo a cozinha, agora na direção contrária.

- De repente, uma sinfonia de canto de curiós quase abafou o áudio da entrevista. - reatei a conversa.

- O Rivelino é colecionador de curiós.

- Eu sei, Cláudio. Quando ele jogou no Fluminense, o Carlinhos Chamicha, que representava o Clube do Curió, presenteou-o com umas aves canoras.

- O Rivelino veio aqui, no Cachambi, receber os curiós. - informou meu irmão.

A vinda dele ao Cachambi, eu desconhecia. - confessei minha ignorância.

- Ele não falou do Neymar?

- Sim, Daniel. Disse que está amadurecendo como profissional, soltando a bola no momento exato, mas que, ainda assim, é alvo de muitas pancadas nas partidas.

- Os filmes do Carlitos, que o Telecine Cult está levando, eu tenho visto e o Daniel também. - mudou o Cláudio de assunto.

- O Daniel já assistia àquelas gravações em VHS. - lembrei.

- Eu só não consegui gravar, naquele tempo, “O Garoto”.

- Eu estou aproveitando esta oportunidade chapliniana e gravo tudo em DVD, Cláudio.

Daniel, comendo um pedaço de pão, nos ouvia em silêncio.

- Lembro-me de ter visto “O Grande Ditador”, no Cinema Cachambi. A mamãe me levou quando eu tinha uns dez anos. Assisti a “Tempos Modernos”, na década de oitenta, não me recordo em que cinema. Vi “Luzes da Cidade”, no Bruni Méier, não me esqueço do cinema porque nossa irmã ria tanto na cena da luta de boxe que uma besta, na plateia, soltava uns grunhidos de contrariedade.

- A mãe disse, ontem, que viu o DVD com a gravação que você fez de “Luzes da Cidade”.

- Orson Welles estava certo: “Luzes da Cidade” é um dos dez maiores filmes de todos os tempos. Charles Chaplin estava inspiradíssimo, saía de uma ideia genial para outra. - entusiasmei-me.

- É nesse filme, que ele usa a batida da porta do carro para que a florista cega julgue que ele fosse rico.

- Sei dessa cena... – Daniel interrompeu as palavras do pai.

- Charles Chaplin repetiu trezentas vezes a cena em que a cega, já enxergando, reconhece no vagabundo, ao segurar sua mão, aquele que tudo fez para ajudá-la.

E meu irmão concluiu:

- Muitos dizem que é a cena mais bonita da história do cinema. (*)

- Charles Chaplin, na divulgação do filme, assistiu-o ao lado de Albert Einstein, uma vez, e de Bernard Shaw, outra vez.

- Era só genialidade, Carlinhos! - disse meu irmão.

(*) Chaplin é gênio, isso é indiscutível, mas sua obra tem ora humor e ora drama pungente, às raias da pieguice. A memória do distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO não é capaz de revelar quantas vezes levaram-no ainda pequeno para chorar, 2 horas de cada vez, nos dramas do Carlitos. Esse passado não o permite chegar perto dos revivals do cineasta.

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