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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

2500 - cavalgadas históricas



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4300                                 Data: 26 de outubro de 2013
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NÓS NA REVOLUÇÃO DE 30
PRIMEIRA PARTE

De repente, eu e meu amigo nos vimos no meio de um desfile de corso na Avenida Rio Branco.
-Elio, depois do inferno vermelho que atravessamos na Rússia revolucionária, de pouco marxismo e muito leninismo, fomos afortunados pela máquina do tempo que nos levou ao carnaval do Rio de Janeiro.
-Eu sempre quis brincar no carnaval dos anos em que meus pais nem se conheciam ainda.
-Sim, Elio, mas estamos nos anos 20 do século 20. A Primeira Guerra acabou, até lucramos com ela, pois houve incentivos à industrialização com as demandas dos países estrangeiros de produtos manufaturados, mas, depois, voltamos a depender da agricultura, com o café acima de tudo e de todos.
--Sei, Carlos; veio a “Terça-Feira Negra”, de 29 de outubro de 1929, em Wall Street e o mundo capitalista entrou numa pavorosa depressão.
-Percebo que sua mãe, Dona Sarita, professora de História do Pedro II, lhe ensinou isso.
-Ensinou-me muito mais ainda. Falou-me que o crash da Bolsa foi um abalo sísmico com epicentro em Nova York que sacudiu o mundo inteiro durante anos e anos. Vamos, por isso, aproveitar o carnaval antes que a desgraça chegue.
Mal terminou a sua fala, saiu atrás de uma jovem fantasiada de costureira,
Um grupo de foliões animados passou, nesse momento, por mim, cantando “Seu Julinho vem aí”, um jingle da campanha de Júlio Prestes à Presidência da República, substituindo Washington Luís, que alcançou impressionante sucesso na voz do Francisco Alves.
Elio reapareceu meio desolado com poucos confetes sobre a cabeça e enrolado em serpentinas.
-Não obteve sucesso com a costureira?
-Carlos, encostei-me nela e saí espetado. A costureira espalhou agulhas pontudas nas partes estratégicas do seu corpo.
E acrescentou:
-No próximo carnaval, eu vou me fantasiar de máquina de costura para ficar mais próximo delas.
Que próximo carnaval! Fomos transportados, pela máquina do tempo, para quatro anos antes, precisamente para novembro de 1926, quando Artur Bernardes entregou o cargo máximo da nação ao ex-presidente do Estado de São Paulo, Washington Luís.
-Fui mais Chefe de Polícia do que Presidente da República. - declarou Artur Bernardes.
-Governar é abrir estradas. - declarou Washington Luís.
-Mais uma vez sai Minas e entra São Paulo. - declararam os observadores da política brasileira.
-Como foi impopular o governo do Artur Bernardes! Ele desagradou a gregos e a troianos. - manifestou-se o Elio.
-Artur Bernardes, que já herdara o Estado de Sítio do governo Epitácio Pessoa, em vez de cultivar uma política conciliatória, inflamou ainda mais o tenentismo, chamando o Marechal Hermes da Fonseca de “Sargento sem compostura”.
-Chamou mesmo, Carlos, há muita invencionice espalhada por aí?
-Eu confesso, Elio, que imaginava que o Dudu, da marchinha de carnaval que eu ouvia, garoto, cantada pelo meu pai, fosse o Arthur Bernardes, mas não, Dudu é o Marechal Hermes, o inimigo figadal dele.
-Que marchinha?
E pus-me a trautear os trechos entesourados na memória que eu ouvia do meu pai.
-Ai Filomena, se eu fosse como tu/ tirava a urucubaca da careca do Dudu. / Dudu quando nasceu quase levou a breca/ por causa da urucubaca/que ele tinha na careca. / Dudu saiu a cavalo/o cavalo logo empaca/e só começa a andar/ ao ouvir o Corta-Jaca.
-Há mais versos, mas só me recordo desses.
-Por causa do Artur, você fez confusão com Dudu, mas careca e famoso pela fama de azarado era o Hermes da Fonseca.
-Depois, Elio, fui pesquisar e descobri que o Corta-Jaca é citado, de maneira esdrúxula na marchinha, por causa do sarau, que teve como atração a Chiquinha Gonzaga, promovido pela esposa do Hermes da Fonseca, Nair de Tefé, em 1915, no Palácio do Catete. Ruy Barbosa, senador, na época, subiu à tribuna para vociferar contra “a mais vulgar e grosseira de nossas manifestações musicais” no Palácio Presidencial.
-Ruy Barbosa não suportava as artes populares, não queria sentir o cheiro do povo. Certa vez, ele se indignou porque a seleção brasileira de futebol ia viajar com ele, para Buenos Aires, no mesmo navio do Lloyd Brasileiro. - manifestou-se o Elio.
-Nessa marchinha de carnaval, o povo ironiza a compositora que tanto engrandeceu a cultura do povo e fica do lado da elite arrogante. Bem, José Cândido de Bulhões criou essa musiquinha sacolejante e os foliões se mexeram sem atentar para a letra. - comentei.
-O maior rival político de Ruy Barbosa foi o Senador Pinheiro Machado que, por três vezes, impediu-o de alcançar a Presidência da República. Ele já se relacionava muito bem com os artistas populares, apesar do seu imenso poder de fazedor de presidentes.
-Sei disso, Elio. O senador Pinheiro Machado deu um pandeiro de presente ao João da Baiana, que sofria espancamentos da polícia quando era visto com esse instrumento musical de malandro. Nesse presente, ele escreveu o seu nome, e ninguém se atreveu a hostilizar o João da Baiana.
E retornamos aos fatos que convergiam mais diretamente para a atual política brasileira: a impopularidade do antecessor do presidente Washington Luís.
-Com a eleição do Artur Bernardes, os tenentes rebelados no Rio Grande do Sul se encontraram com os rebelados de São Paulo, na Foz do Iguaçu. Sabe o que resultará desse encontro?
-Elio, não fui aluno da Dona Sarita, mas sei: resultará na Coluna Prestes.
-Espero que a máquina do tempo não faça uma falseta conosco e nos transporte para a Coluna Prestes, pois eu não aguento nem duas horas de caminhada, imagine caminhar por dois anos e meio. - expressou sua apreensão.
-A Coluna Prestes inspirou A grande Marcha de Mao Tse-Tung pela China. - frisei.
-Sim, mas Luís Carlos Prestes não era ainda comunista. - fez o Elio a ressalva.
-Foram 1500 homens que não perderam um só combate contra as forças leais ao governo.
E acrescentei:
-É impressionante.
-Eles já estavam escarmentados por outras batalhas. Os rebeldes do Rio Grande do Sul haviam lutado na guerra civil do Estado: Borges de Medeiros contra os federalistas.
-Sim, Elio; houve o apaziguamento e Borges de Medeiros se tornou o Presidente da Província do Rio Grande do Sul.
E completei:
Com o Getúlio Vargas do lado dele.







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