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terça-feira, 8 de outubro de 2013

2484 - Cinema, clube e padaria na poeira do tempo



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4284                  Data:  30  de  setembro de 2013
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O ÚLTIMO SABADOIDO SETEMBRINO

-Claudio, o Osmundo, amigo do Dieckmann, escreveu que você se enganou, “Noviça Rebelde” não estreou no Metro Passeio.
-E eu disse isso?... Eu disse que estreou no Palácio.
-Caramba, quem se enganou, então, fui eu, que atribuí a você a estreia no cinema errado.
-E digo mais: vi “My Fair Lady, no Vitória, na sessão das seis às nove e, em seguida, “A Noviça Rebelde”, no Palácio, das nove à meia-noite, e só não segui para o Odeon, onde estava em cartaz o “Lord Jim”, porque não havia sessão que iniciasse depois da meia-noite. E isso foi no dia 28 de dezembro de 1965, uma quarta-feira.
Sabemos eu e aqueles que convivem com meu irmão que ele possui uma memória privilegiada, mas, naquele instante, fiquei abismado.
-Como você se lembra disso tudo?
-Porque o nosso primo, Dudu, sonhou que morrera atropelado, encontrou-se comigo e fomos ao cinema.
-Desde garoto ele transformava caixas de sapato em fachadas de cinema com filmes em cartaz. Quis ele assistir a todas as fitas antes de morrer? - comentei.
-Muitas vezes, ele saía de um cinema para entrar em outro, e eu, como nessa vez, o acompanhei.
-Veja, Claúdio, havia três grandes obras da cinematografia em cartaz; não se vê mais isso há muito tempo.
-Diga, então, ao Osmundo que não errei.
-Ele, como você, conheceu o Cine Jussara, que o Dieckmann, frequentador da Zona Sul, confessou que desconhecia. (*)
-Jussara era um poeira, Carlinhos.
-Foi o que ele escreveu.
Dizendo isso, saquei da pochete uma folha de papel que trazia o e-mail que o amigo do Dieckmann enviara, e eu imprimi. Entreguei-a a meu irmão que tratou de lê-la.
-Ele fala de um poeira do Méier, em frente à linha do trem que passava grandes reapresentações...
-E concluiu que era o Cine Para Todos.
-O Bruni Méier também ficava junto à linha do trem, mas do outro lado, na Rua Amaro Cavalcanti.
-Mas ele só virou poeira anos depois; passou a ser o cinema de filmes pornôs do bairro.
-Eu me lembro, Claudio, da primeira fita que entrou em cartaz no Bruni Méier: “Hatari”, com John Wayne. Era um sábado e nós, com a turma da Rua Americana, perambulávamos à noite. Só não sei a data.
Enquanto eu falava, prosseguia na leitura.
-Ele acha o Humphrey Bogard travado no “Sabrina”...
-Nessa questão, eu discordo dele, pois o estroina daquela família rica era o personagem do William Holden, o do Humphrey Bogard, não, era o responsável, o sério.
-Sim, as empresas não foram à falência por causa dele. - argumentou meu irmão.
-O Dieckmann me falou que o Osmundo deseja vir ao Sabadoido conversar sobre películas e cinemas do Rio de Janeiro. Sobre cinemas, terei só de ouvir, pois não tenho o conhecimento de vocês.
-O lançamento do “Camelot” foi no Veneza, onde fui, embora fosse contramão para mim. - citou mais.
-Você se lembra do Cine Britânia, Claudio?
-Claro; depois se transformou no Stúdio Tijuca.
-Eu assisti no Cine Britânia “Ato Final”, de Skolimowski. Sérgio Augusto foi o único crítico que escolheu esse filme como o melhor de 1970. - lembrei.
E prossegui com as reminiscências desse filme:
-O Sérgio Augusto, na sua argumentação pela escolha, disse que um filme, para ser bom, tem de ter, pelo menos, uma grande cena, e no “Ato Final” havia pelo menos quatro, segundo ele, uma delas era a procura de um diamante na neve.
-Isso é grande cena, Carlinhos?
-Como disse Voltaire, no século XVIII, o estudo da metafísica consiste em procurar, num quarto escuro, um gato preto que não está lá. - recorri ao filósofo iluminista.
-É isso, Carlinhos; não é preto, é branco, não é gato, é diamante, mas no fundo é a mesma coisa. 
-Um clichê que nada tem de grande cena. - atalhei.
-Mas eu gostava do Sérgio Augusto como crítico; dele e do Ely Azeredo. - frisou.
-Todos os sábados, no Caderno B do Jornal do Brasil, uns cinco ou seis críticos julgavam filmes que iam da bola preta a cinco estrelas.
-Sei, Carlinhos, mas eu não perdia meu tempo lendo aquilo, pois todo o mundo dava cinco estrelas para os filmes do Godard.
-Mas o Alex Viany dava sempre bola preta. Uma vez, ele escreveu: se o cinema está morrendo, Godard é o papa-defunto, ou coveiro, não me recordo bem.  Ele só elogiou um filme do Godard, alías, o episódio “A Preguiça”, de “Os Sete Pecados Capitais.”
-Cada diretor dirigiu um pecado?
-Isso; eu assisti a essa fita no “Cinema de Arte”, da TV Excelsior.
-”Cinema de Arte” era o último programa do dia da Excelsior; veio, depois, na TV Globo, a “Sessão das Dez”, com a Célia Biar e o gato Zé Roberto. - acrescentou.
-Voltando àqueles críticos do Jornal do Brasil, o Sérgio Augusto e o Ely Azeredo não babavam como os outros com as obras de Godard, às vezes lhe davam três, quatro estrelas.
-Eu me deslocava do Cachambi ao Jardim Botânico para ver “Honra a um Homem Mau”, no Jussara, mas nunca fui ao Cine Payssandu, o cinema dos metidos a intelectuais.
-De 1965 a 1975, mais ou menos, bastava fazer um filme de esquerda para ser aplaudido. Foi a época em que se dizia: “O filme é uma merda, mas o diretor é um gênio.”
-Ninguém entendia nada. - resumiu.
-O Sérgio Augusto conta que, numa sessão do “Ano Passado em Marienbad”, um sujeito se levantou, no meio da projeção, e bradou: “Não sei se vocês estão entendendo alguma coisa, mas eu não entendo porra nenhuma.” E foi embora, em seguida.
-Pelo menos, ele foi sincero.
-Se a memória não me falha, Claudio, o Sérgio Augusto escreveu que esse cidadão era a única pessoa da plateia sincera.
Minutos depois, chegaram o Luca e o Vagner, e a conversação sobre a sétima arte prosseguiu, pois o Luca, embora não conhecesse muitas obras elaboradas com fotogramas, tinha um invejável conhecimento dos cinemas de outrora do Rio de Janeiro. Assim, foram citados por ele e o Claudio, o Cine São Pedro, na Penha; o Trindade, em Pilares; o Stela Matutina, de Maria da Graça; o Primavera, de Del Castilho; o Baronesa, de Jacarepaguá; o Santo Alice, do Engenho Novo; e muitos outros.
-Em todo bairro, havia, pelo menos, um cinema e um clube. - declarou o Luca. (**)

(*) Curioso, o Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO, perguntou ao Dieckmann por que ele desconhecia o Jussara, se era frequentador da Zona Sul. O Dieckmann, que não tem muita paciência com o redator deste periódico, reuniu fôlego e declarou: “Eu era frequentador das praias (enfático!) da Zona Sul, porque Santa Teresa não tem praia. Mas, cinema e clube, eu ficava no Centro, no Ginástico Português e na Cinelândia. Perdi muita coisa devido a essa preguiça locomotiva”.

(**) Segundo Branca Euler, bairro tem que ter cinema, clube e padaria. Isso pode parecer óbvio, mas Santa Teresa, quando teve padaria, não tinha cinema e hoje tem cinema, mas não tem padaria.

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