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O BISCOITO MOLHADO
Edição 3908 Data: 26 de fevereiro de 2012
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A VIAGEM CONTINUA...
Depois da fuga da conflagrada Paris de 1795, quando um jovem general ambicioso ordenou aos seus soldados que acionassem os canhões contra a multidão manobrada pelos monarquistas, eu e Elio conseguimos fugir para o Rio de Janeiro. Não conseguimos, no entanto, alcançar o ano
-Elio, esta penumbra... este cheiro de vela... Não estou gostando deste ambiente.
-Veja, pessoas dormem sentadas nas cadeiras em volta de uma cama; alguém agoniza.
Às palavras do Causídico Verborrágico, esgueirei-me até o leito:
-Elio, é o Barão do Rio Branco.
-Como você sabe?
O ceticismo do meu amigo me irritou:
-Elio, eu vivi a época da hiperinflação e cansei de ver notas de mil cruzeiros (*) com a imagem do Barão. - respondi bruscamente.
-Veja, Carlos, ele abre os olhos.
Aproximamo-nos para que o Barão do Rio Branco nos enxergasse.
-Vou morrer e estragar o carnaval do pessoal. - lamentou.
-Não se preocupe, com a sua morte...
Cutuquei o Elio com alguma rispidez e completei a sua frase.
-Com a sua morte, o governo do Marechal Hermes adiará o carnaval.
-Ainda bem que o povo não perderá os seus três dias de alegria.
Enquanto o moribundo expressava o seu alívio, Elio Fischberg sussurrou nos meus ouvidos.
-Você pensa que eu cometeria a indelicadeza de informar o Barão do Rio Branco que, em 1912, comemorou-se dois carnavais: o que coincidiu com a morte dele e o que foi adiado pelo governo?
Enquanto o Elio falava, vinha da minha memória a marchinha que alcançou grande sucesso naquele ano entre os foliões: “Com a morte do Barão/ tivemos dois carnavá./ Ai que bom, ai que gostoso!/ se morresse o marechá.” O “marechá” era o presidente Hermes da Fonseca.
-De onde vocês vieram?
-Viemos da França que está prestes a ser dominada por Napoleão Bonaparte. - respondi.
-Velho, passei a acreditar em muitas coisas; morrendo, acredito em tudo, inclusive em vocês.
Animou-se, como se fosse possível e prosseguiu:
-Vocês viram Talleyrand?... Ele manca, mas só fisicamente.
-Vimos Napoleão Bonaparte dispondo o exército nas ruas de Paris para conter a multidão.
O entusiasmo do Barão, no entanto, convergia para o diplomata francês.
-Durante quarenta anos, Talleyrand ficou ligado a todos os regimes que estavam no poder: República, Império, Reino. Apoiou a todos, sem nunca abandonar qualquer um. Embora tenha seguido Napoleão, nos seus dias de glória, passou para o lado do Rei e quando os diplomatas redesenharam o mapa da Europa, na Convenção de Viena, tempo em o imperador francês seria definitivamente derrotado, Talleyrand conseguiu o impossível, que a França não saísse vencida das mesas de negociação.
-Sim, Barão, mas Talleyrand, com o seu nariz adunco de farejador infalível da direção do vento, não primava pela ética.
-Carlos tem razão. Passou um rio de dinheiro pelas suas mãos, Barão e mesmo os seus inimigos reconhecem que o senhor nunca cometeu um só deslize. Quanto a Talleyrand...
-Por favor, deixem-me admirar um negociador que só trouxe vantagens para o seu país.
-Esteja à vontade, Barão; nós também o admiramos. - arrependi-me daquela pequena discussão intempestiva.
-Estou na mesma situação do meu pai, em 1880: no leito de morte. Eu estava na Europa, quando recebi a infausta notícia da sua doença, e embarquei imediatamente para o Brasil com o objetivo de vê-lo ainda vivo.
-O Visconde do Rio Branco foi outra grande figura histórica. - exaltou-o o Elio.
-Meu pai morreu de câncer na boca de tanto fumar charutos. Eu, pensando que me precavia, fumei apenas cigarros. Muitas vezes eles se apagavam, porque os intervalos das minhas baforadas eram extremamente longos. As pessoas entravam em pânico quando viam a papelada das minhas mesas, no Itamaraty e, perto, uma pequena vela para acender os meus cigarros apagados.
O riso da recordação o levou a tossir.
-Barão, o senhor se relacionou com a atriz do Alcazar, a Marie Philomène Stevens, que o seu pai fez retornar à Europa. Apesar dessa intervenção paterna, que lembra “A Dama das Camélias” de Alexandre Dumas Filho, o senhor não brigou com ele? - indaguei.
-Aprendi tudo com meu pai. Papai foi para Assunção negociar o fim da Guerra do Paraguai e me levou com ele. Acompanhei-o, como seu secretário, na missão encarregada de elaborar o Tratado de Paz entre o Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Paraguai, depois.
-E Marie Philomène Stevens?
-Ela estava em Paris, quando nasceu o nosso primeiro filho. Em seguida, retornou ao Brasil, e moramos durante um tempo na Praia do Cajueiro. Três anos depois, fui nomeado cônsul
-Vamos falar de coisas boas. - interveio o Elio que, sem tomar fôlego, perguntou:
-E o dinheiro que você ganhou na loteria?
-Foram 12 contos. Eu tinha 22 anos de idade, embarquei sem perda de tempo para a Europa.
-E a política interna, Barão?
-Agora, você não está falando de coisas boas; nunca me interessou essa política a varejo.
-Coisa pequena para quem pensava grande como o Barão do Rio Branco. - interrompi.
-Barão, os estudiosos afirmam que o senhor tornou normal o hábito de passear em carros descobertos pelo Rio de Janeiro?
-É verdade; antes de mim, só as mulheres de vida galante passeavam em carros sem teto. Eu trouxe automóveis Protos para o Brasil, uma marca alemã de destaque por causa do desempenho na corrida New York-Paris.
-Sabemos disso; o nosso amigo Dieckmann pretendeu exibi-los no primeiro evento do ano 2000, que até mereceu uma reportagem do Globo de página inteira.
-Agora, eu deliro mesmo. - balbuciou, quando ouviu o ano 2000.
E se voltou de novo para nós:
-Na Inglaterra, até 1896, vigorava a Red Flag Act, uma lei que obrigava um homem ir à frente do carro, com uma bandeira, para alertar os pedestres. (**)
-Os carros também foram sua paixão?- quis o Elio saber.
-Gostei muito deles, mas meus dois péché mignon foram o cigarro, como já disse e a glutoneria.
No fim da frase, atentou para a expressão francesa.
-Vocês, do anos 2000, ainda falam francês? - preocupou-se.
-Eu leio as cartas da Rosa Grieco no original e sei que péché mignon significa pequeno pecado.
-Eu tinha um apetite de Pantagruel; esvaziei muitos pratos. Adorava bacalhoada. Já lhes contei sobre o Conde de Selir, representante de Portugal no Brasil?... Ele afirmou, num banquete em que serviram bacalhau, que o prato não era diplomático por causa do cheiro obsceno.
Depois dos risos e das tosses, lembrou o trocadilho que fizeram com o Conde Selir.
-”Le Comte que sait lire; mais que ne sait pas écrire.” (O conde que sabe ler, mas que não sabe escrever).
-Com minha mulher morta, meus filhos encaminhadas, eu pensava somente no meu trabalho. - falou com a voz cada vez mais fraca.
-Barão, dizem que as suas mesas, no Itamaraty, eram tão bagunçadas porque o senhor, em vez de arrumá-las, mudava-se para outra mesa. - lembrou o Elio.
-Só de relógios, vão encontrar doze, quando mexerem nessas mesas após a sua morte.
Não havia necessidade de eu murmurar as palavras acima, pois o Barão do Rio Branco já não nos ouvia.
(*) Redator bem de vida é assim. O Distribuidor assustou-se por que sempre atrelou o Barão à nota de 5 cruzeiros. Pesquisou e encontrou o Barão também nas notas de mil cruzeiros, reservada anteriormente ao Cabral, na memória distributiva. Nada a estranhar, a bagunça monetária brasileira permitiu desvalorizar várias e ilustres figuras da História do Brasil.
A gíria carioca praticamente imortalizou o Cabral como mil cruzeiros, pois se falava tantos cabrais para fazer um preço.
(**) A lei é essa mesmo. O Distribuidor aumentou a pesquisa porque sempre foi um entusiasta da London-Brighton Run, uma corrida feita para celebrar a extinção da Bandeira Vermelha e que aconteceu em 14 de novembro de 1896. Essa corrida teve continuidade, embora não mais para Brighton, até 1927, quando foi reorganizada para o trajeto original e com a obrigatoriedade de limitar a participação de automóveis de até 25 anos de idade.
Em 1929 – possivelmente porque começou a ter carros demais – a organização congelou o ano de 1904 como o último ano de automóveis elegíveis para a London-Brighton. É realizada até hoje no primeiro sábado de novembro.
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