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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

2078 - estudar mais

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3878 Data: 08 de janeiro de 2012

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DEPOIS DA BANDEIRA 2

Peguei o táxi do Gaguinho.

-Com as férias escolares, as ruas ficam mais tranquilas neste horário, pelo menos.

-E os colégios mais calmos ainda. - acrescentei.

-Essa garotada já estuda pouco e ainda tem férias no meio e no fim do ano. -observou.

-Li uma reportagem sobre os estudos na China. - dei início à minha garrulice.

-O ENEM deles é o Gao Kao, o exame nacional de admissão universitária. Essa reportagem versa sobre um chinês de 16 anos que pretende cursar uma universidade de primeira linha. Para isso, estuda das 8 da manhã ao meio dia...

-Como aqui. - interrompeu-me.

-Espera. Ele para ao meio dia para almoçar no refeitório da escola. Retorna à sala de aula uma hora e quinze depois, e assiste às aulas da tarde até 5 horas. Onde mora, depois do descanso do jantar, faz os deveres de casa que exigem mais umas três horas de livros e cadernos na cara, ou seja, ele só para de estudar lá pelas 10h 30min da noite. E não tem folga aos sábados. Quando se aproximam os exames do Gao Kao, os jovens chineses também estudam aos domingos.

-Eu não queria isso para o meu filho. - protestou o Gaguinho.

-As autoridades chinesas estão retirando das pessoas o lazer, que é um direito do ser humano. Vamos estudar mais, porém sem exageros. - manifestei-me.

-Você se lembra do Thierry Henry na semana da final da Copa do Mundo de 1998 entre Brasil e França?- perguntou-me com dificuldade por causa da gagueira.

-Você se refere àquela provocação: o jogador brasileiro leva vantagem porque desde cedo tem mais tempo para jogar bola, enquanto o menino europeu passa as manhãs e as tardes nos colégios?

-Isso mesmo.

-Essa vantagem, entre aspas, se encerrou, não porque aumentaram as horas de aula, no Brasil, mas porque construíram prédios nos campos de futebol. - falei.

-Eu queria que o meu filho ficasse mais tempo no colégio, não como um chinês é claro. - disse, enquanto parava o seu táxi na Rua Modigliani.

No dia subsequente, a corrida se deu no carro do Botafoguense.

-O nosso clube?... Contrata para 2012 o Andrezinho... - expressou a sua desolação, quando eu ainda encaixava o cinto de segurança na parte do carro entre mim e ele.

-Eu só tenho lido o noticiário esportivo de 50 anos atrás do Globo.

-Naquela época, sem contar o Santos do Pelé, o Botafogo não tinha adversários. - vibrou.

Olhei para ele, admirado com a sua semelhança física com o jazzista Primo de Rivera, e fui adiante pelo passado.

-O Botafogo estava prestes a se tornar campeão invicto de 1961. O nosso goleiro Manga estava há não sei quantos jogos sem levar gol, então, no finalzinho da partida, há uma falta a favor do América. O ponta-esquerda Nilo bateu e acabou com a nossa invencibilidade. Como o meu pai me gozou!... “Manga caiu do galho... Manga caiu do galho...”

-Eu também era garoto nesse tempo. - frisou.

-Campeão, o Botafogo jogou contra o Santos do Pelé, que havia levantado o título de São Paulo e ganhamos de 3 a 0. No ano seguinte, com cinco jogadores do Botafogo na seleção titular, Nilton Santos, Garrincha, Didi, Amarildo e Zagalo, conquistamos a Copa do Mundo, no Chile, Qual o clube brasileiro que conseguiu essa proeza?

-É por isso que eu digo que o Botafogo foi o único clube que se comparou ao Barcelona de hoje, que conquista todos os títulos e, com o time desfalcado, ganhou a Copa do Mundo de 2010. - declarou o Botafoguense,

-Nesse ponto, eu discordo. A qualidade do Barcelona é a posse de bola que redunda em gols de vários jogadores decisivos, ou matadores. No Brasil, o toque de bola, proveniente do excesso de treinamento de dois toques, era chamado de “tico-tico no fubá” porque, poucas vezes, redundava em gol. Era a troca de passes improdutiva, Garrincha e Pelé eram os jogadores que, de fato, decidiam as grandes partidas.

-Eram gênios da bola. - disse.

-Você assistiu à decisão Flamengo e Botafogo, de 1962? - perguntei.

E prossegui depois da resposta negativa.

-Eu estava no Maracanã, naquele sábado. Acredito que o Flamengo teve 70% de posse de bola naquela partida. Com poucos minutos de jogo, o Garrincha driblou o Gérson, que o Flávio Costa colocou como esquerda para lhe dar o primeiro combate, e, em seguida, driblou o Jordan. Saiu o gol do Botafogo, e começou o “tico-tico no fubá” do Flamengo, com Carlinhos, Nelsinho, Gérson, Dida, etc, trocando passes. Didi enfiou, então, uma bola para o Garrincha que deixa a defesa rubro-negra tão doida, que o beque deles fez um gol contra, creio que de barriga. Com 2 a 0 adversos no primeiro tempo, o Flamengo trocou mais passes ainda, porque o Botafogo se retraiu. No segundo tempo, o Garrincha resolveu meter mais um gol e o Botafogo foi campeão com 3 a 0.

-Aquele Botafogo me traz saudades. - suspirou.

-O Barcelona, com o sentido de conjunto que possui, os onze participando eficazmente do jogo, se fica com 70% da posse de bola, a história é outra.

-Modigliani. - informou.

Na quarta-feira, fui de Maria da Graça para casa no táxi do Paizão.

-Muita chuva. - respirou fundo.

-Tenho uma amiga, no trabalho, que se diz preocupada, juntamente com a mãe e o irmão, porque tem uma prima e um tio praticamente ilhados na cidade de Pádua.

-Há locais de Minas que, quando recebe muita chuva, inunda o rio que transborda e mexe com essas cidades do norte e noroeste Fluminense. (*)

-O senhor conhece Pádua?

-Claro; o rio de lá é o Pombas.

-O Altamiro Carrilho é originário de lá. Nasceu em 1924, tem 87 anos.

-Eu tenho 77.

Admirei-me da jovialidade do Paizão.

-O senhor não parece... Não deve parar com o trabalho, pois a mente deve estar sempre em atividade.

-Eu trabalho sem estresse.

Reportei-me, então, ao 081, que, apesar de possuir mais de vinte imóveis, continua na praça.

-O 081 deve ter de idade o número dele no táxi.

-Por aí...

E sem uma pausa, disse:

-Você sabe que o 081 é quem mais pega corridas pelo rádio? Existe uma estatística na cooperativa, e ele está entre os primeiros.

-Certa vez, caminhando na pracinha às cinco horas da manhã, ele passou de táxi e acenou para mim.

-Conversei com o irmão dele, dia desses, que me disse que ele e o Antônio...

-Antônio é o 081?- aparteei.

-Sim; o irmão do Antônio me disse que os dois tiveram uma vida muito difícil, desde pequenos, em Portugal, por isso tinham de se mexer muito. Ele disse que tanto ele como o irmão se param, morrem.

-Parou, vem a ferrugem.- manifestei-me.

-Rua Modigliani. - informou.

(*) ler como quando há muita chuva, os rios transbordam e mexem com essas cidades do norte e noroeste Fluminense. Se o taxista tivesse estudado um pouco mais, sem maiores erudições, escreveria mais ou menos assim. O Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO raramente interfere nos textos atribuídos aos interlocutores do redator, porém sente-se na obrigação de oferecer uma tradução ao (à) Prezado (a) Leitor (a).

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