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O BISCOITO
MOLHADO
Edição 4148 Data: 16
de Março de 2013
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MINHA
BIOGRAFIA MUSICAL POPULAR
Dieckmann, depois de
apresentar a sua biografia musical no programa do Jonas Vieira com o Sérgio Fortes, Rádio Memória, domingo, 8h da
manhã, sugeriu, com a cumplicidade do
Elio Fischberg, que eu fizesse o mesmo. Ora, como eu já lhes disse,
minha fala é truncada, minha voz rascante, sou um pouco melhor do que o pai da
Rainha Elizabeth II da Inglaterra antes de encontrar o milagroso fonoaudiólogo.
Porém, eu me expresso não tão mal escrevendo e, por
isso, lanço aqui a minha biografia musical popular nos moldes da que o
Dieckmann apresentou na sua voz de locutor da BBC.
Ela se inicia com o carnaval.
Meus pais sempre me fantasiavam, tenho retratos em que estou vestido de chinês,
de marinheiro, com 4, 5, 6 anos de idade. Minha mãe me levava, pelo menos num
dia de carnaval, para ver os foliões na Avenida Rio Branco. Então, aqui vai a
minha primeira música que representa o que era chamado de “tríduo momesco” As
Pastorinhas de Noel Rosa e João de Barro. Noel Rosa não foi apenas o
filósofo do samba, como o denominou César Ladeira, compôs também inspiradas
músicas. Braguinha, que beirou os 100 anos de vida, morreu com 99, não perdeu a
qualidade nas suas letras, mesmo que a quantidade fosse imensa. E a gravação de
As Pastorinhas é do Orlando Silva que, no seu auge, não devia nada aos
melhores cantores nacionais e internacionais.
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Antes da Bossa Nova surgir
como gênero musical, eu escutava no rádio do apartamento em que eu morava na
rua Cachambi, um cantor sem voz pujante, mas que atraía muito a atenção de
garoto pelas palavras irreverentes e por despertar em mim o interesse pela
política. Trata-se do Juca Chaves. Nos meus nove, dez anos de vida, eu parava para ouvir “Brasil já vai a
guerra”. Soube depois, por uma entrevista do Carlos Lacerda, que o Juscelino
Kubitschek comprou o porta-avião Minas Gerais, para provocar uma briga entre a Marinha e a Aeronáutica
pela posse do mesmo, o que desviou as Forças Armadas da ideia de um golpe para
derrubá-lo do governo.
Peço, então, a música Caixinha,
obrigado, como o menestrel Juca Chaves.
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E veio, na adolescência, a
moda das danças em festinhas nas casas de família. Nos 15 anos da minha irmã e
de muitas debutantes no fim da década de 50 e início da de 60, tocavam-se
muitos discos de Ray Conniff, mas também dos Românticos de Cuba, como de outras
orquestras.
Eu pretendia, então, ouvir, com
Românticos de Cuba, Siboney, de Lecuona. As composições de Ernesto Lecuona estão entre as mais inspiradas da
América Latina. Se surgissem no nosso
continente políticos tão capacitados quanto os músicos, não estaríamos nessa
lastimável pobreza.
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Bem, a canção
romântica nunca saiu de cena. E antes de nomear a gravação que
identifica a sua perenidade, eu quero fazer um breve comentário. Nós,
economistas, e os sociólogos também, tivemos de enfrentar as enfadonhas páginas
de Karl Marx sobre a Teoria da Alienação, que dizem que o operário não
desfrutava dos bens que produz, no capitalismo. Noel Rosa, um marxista
romântico, transformou tudo isso em pura poesia quando fala de uma operária
de fábrica de tecido que, no frio, sem meias vai
para o trabalho, “não faz fé no agasalho”. Bem, Noel Rosa, nos seus 26
anos de vida, elevou o nível das letras do nosso cancioneiro popular a um
patamar que só décadas depois Chico Buarque de Holanda e Caetano Veloso
alcançariam.
Então, pretendo ouvir Três
Apitos na gravação do Caetano Veloso. Ressalto que tanto Chico Buarque,
como Antonio Carlos Jobim, gravaram Três Apitos.
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Falei na Bossa Nova, mas
tenho de me deter no gênero musical mais marcante da nossa cultura musical
porque abrange marcantemente as influências europeias e africanas na nossa
cultura, o Choro – a música de câmera
brasileira, como muitos a denominam. Bem antes do surgimento do Jazz dos
norte-americanos, já se criava, no Brasil,
uma música que requeria muita inspiração e competência.
Para representar essa época, eu gostaria de
ouvir uma obra de um dos maiores compositores do Brasil que, este ano, faz 150
anos, ou seja, nasceu com o Choro. Trata-se de
Apanhei-te Cavaquinho, uma polca de 1914, que os instrumentistas chorões adotaram. Aqui, na gravação de Altamiro Carrilho e
Victor Bandeira. Diz a capa do vinil: “A Flauta de Prata e o Bandolim de Ouro”.
A Flauta de Prata?!... Como disse Gilberto Gil, quando Altamiro Carrilho se
foi: “Perdemos a nossa flauta mágica.”
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Tem-se obrigatoriamente de se citar
Pixinguinha quando se fala em Choro. Dono de um talento extraordinário,
Pixinguinha foi mestre como compositor, como instrumentista e como arranjador.
Para muitos estudiosos, ele formatou a música popular brasileira. O grande
Radamés Gnatalli, com os seus milhares de arranjos, recorreu muito aos
instrumentos de corda devido `a sua formação musical europeia, Pixinguinha, por
outro lado, usou os instrumentos de sopro, reportou-se à época em que as bandas
tiveram grande participação no início da identidade musical brasileira.
Assim sendo, gostaria de
ouvir Urubatan de Pixinguinha e Benedito Lacerda. O nome de Benedito
Lacerda aparece junto com o do Pixinguinha em algumas composições, mas há
controvérsias sobre essa parceria. O exato é que ele foi um grande flautista,
modelo do Altamiro Carrinho, nos primeiros anos deste na flauta. A gravação com
os autores é a que eu prefiro.
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Eu também era frequentador
assíduo do cinema, e não pude ficar indiferente aos filmes musicais. “Cantando
na Chuva”, “Guardas-Chuva do Amor”, My Fair Lady”, “O Violinista no Telhado”...
Posso citar vários filmes que, se não vi, escutei as gravações em LPs de vinil que um dos meus irmãos colocava
quase que obsessivamente para tocar. Desses filmes, eu destaco “West Side
Story”, de Leonard Bernstein e Stephen Sondheim , cuja única deficiência, a meu
ver, é o final melodramático com a Natalie Wood. Quanto a Leonard Bernstein,
mostrou-se grande artista tanto na música erudita, como maestro e compositor,
quanto na música popular. Não foi à toa que Jacqueline Kennedy o chamava à Casa
Branca para dar um toque refinado ao governo do seu marido, que estava bem mais
interessado nas mulheres do que nas melodias.
Mesmo sabendo que nomes
consagrados, como Kiri Te Kanawa e José Carreras gravaram West Side Story, eu gostaria de ouvir Tonight como está no filme.
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Então, vieram os chamados
anos de chumbo, mas a riqueza do cancioneiro popular deste país não arrefeceu,
pelo contrário. Surgiu a febre dos festivais e, com eles, aflorou para o imenso
público uma plêiade impressionante de artistas: Edu Lobo, Caetano Veloso, Chico
Buarque de Holanda, Gilberto Gil. Milton Nascimento, Aldir Blanc, João Bosco,
Elis Regina, entre muitos.
Dos festivais, eu escolho uma
das canções mais bonitas e também das mais vaiadas, porque era uma época de
ânimos acirrados e paixões cegas: Sabiá de Tom Jobim e Chico Buarque,
nas vozes de Cynara e Cybele. Procuro também fazer justiça ao Tom Jobim, o
melhor compositor brasileiro dos últimos 50 anos.
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Bem, eu não fiquei
indiferente ao Jazz, e aqueles que levaram a Bossa Nova para os Estados Unidos
e, depois, para outros países, muito menos; estes foram influenciados. Cito o Swing, no bom sentido, o Be
Bop, o Coool Jazz, e aqueles que exploraram as vertentes deste
gênero musical que Strawinsky disse ser a música clássica do século XX: Louis
Armstrong, Duke Ellington, Charlie Parker, Miles Davis.
A música que eu gostaria de
ouvir não é Jazz, mas quem vai cantá-la
é, talvez, o seu nome máximo: Louis Armstrong. E a música é What a wonderfull
world, de George David Weiss, George Douglas e Bob Thiele.
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Encerro ainda com o Jazz.
Quando Paul Whiteman e, principalmente, o admirável George Gershwin enveredaram
por esse gênero musical, muitos negros reclamaram contra o embranquecimento do
Jazz, pois as orquestras sinfônicas passaram a tocá-lo. Os mais radicais até
pediram a Duke Ellington que criasse uma composição de fôlego para superar a
ópera de negros “Porgy and Bess”, de George Gershwin. Uma bobagem, que Duke Ellington logo
percebeu. Era preconceito de negro contra judeu e vice-versa, o que lembra
o filme “Conduzindo Miss Daisy”.
Então, eu peço para
ouvir Summertime de George e Ira Gershwin na voz de cristal da
Kiri Te Kanawa.
É isso.
(*) Óbvio, contactamos o Dieckmann que sugeriu de
batepronto: que o Sergio Fortes coloque na pauta do programa a seleção do
redator do seu O BISCOITO MOLHADO, em ausência, devido às explicações
debulhadas em tom lamentoso, bem à moda do Nelson Gonçalves.
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