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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4123 Data: 03 de fevereiro
de 2013
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FRASES ORIGINAIS E COMENTÁRIOS IX
Só existe um problema filosófico
realmente sério: o problema do suicídio.
Essa frase foi cunhada por Albert
Camus, conhecido como um dos maiores intelectuais franceses do século XX,
embora fosse argelino e só tenha ido para a França em 1938, quando tinha 28
anos de idade. No seu romance, um dos mais representativos do século, “O
Estrangeiro” e no seu ensaio “O Mito de Sísifo” proclama o absurdo do destino
humano e não foge dessa diretriz na sua vasta obra, considerando o pouco tempo
em que viveu.
O início de “O Estrangeiro” é um dos
mais amargos da literatura universal: o protagonista, cuja mãe acabara de
falecer, mostra-se tão indiferente ao infausto acontecimento, que não sabe
determinar o dia exato da morte.
Camus, apesar da tuberculose e da sua
filosofia, não ficou encapsulado numa sala lendo e escrevendo, ele viveu. Atuou
como goleiro de futebol, na Argélia, e, durante a ocupação nazista na França,
escreveu para um jornal clandestino. A sua vida se foi num estúpido acidente de
automóvel em Villeblevin (*), Yonne, em 1960, três anos depois de ter ganhado o
Nobel de Literatura.
Albert Camus apresentou, nos seus
escritos, as hesitações do homem que, através de seus heróis, adotou uma
atitude de revolta, sem perder, contudo, os mais altos valores espirituais.
Roberto Pompeu de Toledo, cujas
crônicas na VEJA são sempre instigantes, recorreu à frase de Camus para
escrever sobre o suicídio do ator Walmor Chagas. Refere-se no seu texto,
citando a esposa do ator, Cacilda Becker, que foi surpreendida por um letal
derrame no intervalo da peça “Esperando Godot” e finaliza: “Walmor não foi
surpreendido entre o primeiro e o segundo ato porque não havia segundo ato a
representar. A peça já tinha terminado. Ele próprio assim determinara, ao tomar
nas mãos a autoria do desfecho.”
A crua realidade era que Walmor Chagas,
com o avanço do tempo, estava com 82 anos de idade e a sua qualidade de vida se
esvaía, quando a sua visão se deteriorou com a diabetes, tirando-lhe um dos
poucos prazeres que ainda possuía, o de ler. A ideia de suicídio
intensificou-se até o lamentável desfecho.
David Niven escreveu sobre o mundo de Hollywood
em que conviveu como ator. Uma das suas melhores páginas dele é sobre o ator
George Sanders, que possuía uma das melhores locuções do cinema. Conta David
Niven sobre o casamento do amigo com Zsa Zsa Garbor, que o traiu com o playboy
Porfírio Rubirosa, o fragrante de adultério que ele deu na esposa e o término
humorístico que preferiu, em vez do
dramático.
Quando eram dirigidos por John Ford, em
1937, George Sanders, ainda jovem, disse a David Niven que estaria farto da
vida com 65 anos de idade e, então, daria cabo da vida. Ele se matou, de fato,
com essa idade, escreveu David Niven.
Nos dois casos citados, o pessimismo,
em maior ou menor grau, falou mais alto, era como se sentir derrotado depois
das vitórias no passado.
Cito, então, como contraponto, o maior
físico da atualidade Stephen Hawking que, entrevado numa cadeira de rodas, recebeu,
em 1963, o diagnóstico de que viveria por mais dois anos apenas. Há poucos
meses, o físico comemorou 71 anos mais vivo do que nunca. Sem ter conhecido o
lado doce da vida, escarmentado pela doença, Stephen Hawking teve a têmpera
forjada para suportar qualquer revés que lhe aparecesse.
A arte suprema não é ter sucesso, é
saber parar.
A frase acima foi escrita pelo
intelectual francês, ministro da Cultura do governo De Gaulle, André Maurois,
quando se deteve na biografia de Napoleão Bonaparte, aos 78 anos de idade,
depois de redigir resenhas, ou mesmo biografar Benjamin Disraeli, Ivan
Turgueniev, Voltaire, Proust, Balzac, Dumas, Chateaubriand e Victor Hugo.
O fim do império napoleônico se
encerrou quando o seu criador invadiu a Rússia, em 1812. E se ele tivesse
parado antes?... Se as ferozes batalhas contra os russos e o interminável
sofrimento com o inverno daquele país não tivessem acontecido?... A França
continuaria, por mais tempo, sendo o país mais respeitado do mundo, a maior
potência bélica, com os parentes do imperador ocupando os tronos de reinos
espalhados pela Europa.
Referimo-nos há pouco tempo à frase da
mãe de Napoleão quando viu a sua filharada no topo do mundo: “Contanto que isso
dure”.
Não durou mais porque o imperador não
soube parar a tempo, encontrava-se cego pelo sucesso.
André Maurois ainda reproduz, na sua
biografia, uma carta de Napoleão Bonaparte endereçada ao irmão Joseph: “Preciso
de solidão e isolamento, a grandeza me aborrece, as emoções secaram, a glória é
insípida, aos 29 anos estou saciado.”
Não estava saciado, sem o saber, mentia
para si mesmo, o que lhe seria fatal.
Mudando as épocas, as personalidades e
os mundos, mas dentro desse tema, reportamo-nos ao pugilista Cassius Clay, no
Quênia. Lá, ele obteve a maior vitória da sua carreira quando ganhou pela
segunda vez o título mundial dos pesos-pesados, derrotando o jovem e temível
George Foreman. Já veterano, o campeão deveria fazer mais uma ou duas lutas e
encerrar a sua gloriosa trajetória, mas não: lutou várias vezes ainda, sofrendo
duras derrotas (foi praticamente massacrado pelo seu sparring da luta,
no Quênia, Larry Holmes).
Depois de largar o boxe, passou a
sofrer do Mal de Parkinson que, acreditamos, foi decorrência de tantas pancadas
que recebeu, mormente no fim da sua carreira.
Um jornalista americano evocou uma
frase de Nietzsche para definir todo esse drama, aquela que dizia que se você
não destruir aquilo que ama, aquilo que ama o destruirá.
Napoleão Bonaparte amava as batalhas.
Não há consolo mais refinado na
velhice do que a sensação de ter concentrado toda a força da juventude em obras
que jamais envelhecerão.
Assim escreveu Schopenhauer, cujo
pessimismo da sua filosofia foi tão absorvido pelo compositor Richard Wagner,
que ele o transformou em música na sua obra magna, Tristão e Isolda.
Por outro lado, Fausto, do celebrado
romance de Goethe, já velho, lamenta tanto ter perdido a sua juventude com
estudos, que vende a alma a Mefistófeles em troca do gozo de ser jovem.
Arrepende-se no final.
Saindo da ficção para a realidade,
Voltaire declarou que Beaumarchais nunca se tornaria um autor de teatro do
estofo de Molière porque amava a vida demasiadamente. Beaumarchais, de fato,
viveu rocambolescamente, mas escreveu peças de teatro que foram musicadas por
Mozart, Paiselo e Rossini; e ainda editou toda a profícua obra de Voltaire, que
se encontrava dispersada pela Europa.
Quanto a Shakespeare, trabalhou duro,
escrevendo mais de vinte peças e atuando no palco, até 51 anos de idade.
Quando parou, morreu.
(*) Camus
iria viajar de trem, mas foi convidado e convencido a viajar com o amigo Michel
Gallimard no seu possante Facel-Véga. Camus morreu na hora do acidente e
Gallimard 5 dias depois. Era mesmo possante o FV, mas a árvore era mais. Nas
revistas francesas dos anos 50, impressiona o número de acidentes rodoviários
contra árvores que margeavam quase todas as estradas da época. Guard-rail é
invenção recente.
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