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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4163 Data: 03 de
Abril de 2013
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SABADOIDO DE ALELUIA
-Fernandinho está na Índia. Trabalha lá.
-Ele na Índia. - fiquei estupefato,
coisa que não fico há muito tempo. Estarrecido, acachapado, como o radialista
Jonas Vieira, já fiquei, mas não estupefato...
Gina, devido à minha reação, repetiu o
que dissera.
-Parece que foi ontem que a família do
Fernandinho e do Eduardo (seu irmão) só os deixava saírem para brincar, aos
sábados, no conjunto do IAPC, sob a minha supervisão.
-Lembro-me disso.
Depois do breve aparte da minha cunhada,
prossegui:
-Ainda assim, a avó deles, de 94 anos,
Dona Giacotemi, apareceu na janela e me deu um esporro, porque ela cismou que
eu não olhava as crianças.
-Não é Dona Giacometi, Carlinhos.
Com um leve sorriso, a Gina disse o nome
verdadeiro da velhinha, mas a minha memória não aceitou outro nome que não
fosse Giacometi.
-Fernandinho na Índia...
Veio-me à mente o passeio da turma
escolar dele e do Daniel, num sítio um pouco distante e a Denise, mãe do
garoto, juntamente com a Gina, foi, no volante do seu carro, atrás do ônibus, as
duas não queriam deixar os filhotes longe das suas asas. No entanto, não
transformei essa reminiscência em palavras.
-Para mim, Fernandinho ficaria sempre
perto dos pais. - foi o que eu disse para a Gina.
-Conversei com o pai dele, o Rogério,
que me disse que o filho reclama da sujeira da Índia; é cocô de vaca por todo
lado.
-Lá, a vaca tem trânsito livre; entra
pelas casas, e, como não tem noção de higiene, faz o que quer- comentei.
-Disse ao Rogério que o Fernandinho, sem
comer bife, deve estar mais magro ainda.
-Não se é, forçosamente, vegetariano na
Índia, Gina. (*)
-Sim, o Rogério me disse que ele come
muito frango por lá.
Daniel, que saíra para caminhar, pois
pretendia perder alguns quilos, não pôde, assim, comentar a atual fase do seu
amigo de infância.
-Hoje vem para cá todo o mundo. -
anunciou o Claudio, que estava tranquilo porque o jornal tinha sido entregue uma hora antes.
-Todo o mundo, não, pois o Lopo (nosso
irmão mais novo) já partiu para Mangaratiba. - fiz a ressalva.
-Deve passar a Páscoa na mansão do
Sérgio Cabral. - pilheriou a Gina.
-Lá tem coelhos e outros bichos. -
acrescentou o Claudio.
Depois de uma ausência de três
Sabadoidos, o Vagner reapareceu. Luca, que não estivera presente na última
sessão, também veio. Quando me reuni a eles, falavam da Chaves Pinheiro do
tempo em que a casa do Seu Moura era Tiro de Guerra. E, nessa toada, moradores
da pré-história da rua eram citados. Eu tinha deixado incompleto um trabalho no
computador do Daniel e, por isso, voltei a ele.
De volta à sessão do Sabadoido,
conversava-se agora sobre um vídeo da internet em que Clara Nunes e
Paulinho da Viola cantavam um potpourri de sambas.
-Claudiomiro, você precisa assistir... A
Clara Nunes samba da cintura para cima. É impressionante. - entusiasmou-se o
Luca.
-Paulinho da Viola era novinho. -
observei.
-Carlinhos, você enviou esse vídeo para
a Gina.
-Luca, ela não tem acessado os e-mails.
- justifiquei-me.
-Enviarei para ela, e pede para ver,
Claudiomiro.
-Paulinho da Viola sempre foi bom. -
disse o Vagner.
-Para mim a Clara Nunes está acima de
todas as cantoras. - exagerou meu irmão.
-Ela estava de saia até os tornozelos.
-Sim, Carlinhos, ela sempre se
apresentava vestida assim.
-Pois é Luca; falam que eram tantas as
varizes que ela cobria as pernas. - comentei.
-Quando ela operou as varizes, os
médicos fizeram lambança e ela morreu estupidamente. - lamentou meu irmão.
O momento não era para tristeza.
-Eu admiro muito a vivacidade do Sílvio
Santos aos 82 anos de idade, mas ele, às vezes, é de uma burrice...
Com a frase acima, prendi a atenção de
todos e aproveitei:
-No programa dele da “Forca”, três
duplas tinham de acertar três músicas. A primeira era “Minha Namorada”, a
segunda, “Bandeira Branca” e a terceira, eu não me recordo. Quando as letras ditas pelas duplas já
indicavam o nome da primeira música, o Sílvio Santos disse que era do Roberto
Carlos. Depois que as duplas acertaram tudo, ele pediu que a produção tocasse
“Minha Namorada”. Quando se ouviu o canto sussurrante da Bossa Nova, ele disse:
“Mas como a voz do Roberto Carlos está diferente!...”
Depois que todos riram com o que poderia
ser burrice ou gozação do apresentador e dono do SBT, prossegui:
-Então, ele pediu à produção que tocasse
“Bandeira Branca”. Que voz!... Não foi à toa que Villa Lobos afirmou que a
Dalva de Oliveira era a melhor cantora popular do Brasil.
-Ela era ótima. - adicionou o Vagner.
E a conversa derivou para os confrontos
de pingue-pongue entre o Luca e o gordo.
-Você continua esquartejando o gordo?
-Continuo Carlinhos, mas quero dizer,
antes de tudo, que ele joga mais do que eu.
Vagner se espantou com a modéstia do
amigo de tantos anos e sócio por um tempo, quis, então, que ele repetisse o que
falara:
-O gordo joga mais do que eu.
-Vou chamar o Valber. - aludiu meu irmão
a um antigo morador da rua Chaves Pinheiro que joga sofrivelmente o esporte que
Mao-Tse-Tung difundiu na China, embora a origem seja a Inglaterra vitoriana.
Nesse instante, ouviram-se ruídos do
portão e todos ficaram em suspense.
-É o Daniel chegando. - disse o Claudio.
-Ele vai chutar a porta. - previu o
Luca, levantando-se da cadeira, e encolhendo-se entre a folha de flandres da
porta e a parede.
Daniel entrou tranquilamente e, ao
perceber que deixara o Luca em guarda, gozou-o.
-Você se cuida, garoto.
-Já sei que você estava endiabraaaaado e
derrotou o gordo. - brincou, antes de
sair de perto de nós para tirar o suor do corpo debaixo do chuveiro.
O assunto agora era literatura e cinema.
-Fizeram mais um filme sobre Anna
Karenina.
-E essa versão vem sendo muito elogiada.
- aparteou o Claudio.
-O início desse romance do Tolstoi é
antológico. - frisei.
-Não fale que eu vou dizer. - agitou-se
o Luca.
E disse:
-As famílias felizes são todas iguais,
mas cada família infeliz o é `a sua maneira.
Depois de uma pausa, expressou a sua
dúvida.
-É Leon ou
Lev Tolstoi?
-O alfabeto cirílico é diferente do
nosso, por isso existem essas coisas.
Apesar de o Luca afirmar que sabia
disso, citei também o mandarim que, por ter um alfabeto diverso das línguas
originárias do latim, faz que uns digam Pequim e outros, Beijing.
E com os copos vazios até a metade, que
o Claudio trouxe, o Sabadoido de Aleluia prosseguiu.
(*) Há uma
propaganda clássica, de uma companhia aérea, com uma foto de um belo tigre
dentro da ruína de um templo, em plena selva. Embaixo, algumas letras
recomendavam: “Não acredite se alguém quiser lhe convencer que todos são
vegetarianos na Índia”.
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