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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4153 Data: 21 de
Março de 2013
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84ª VISITA À MINHA CASA
-Hoffmann!... - vibrei.
-Não me diga que você só me conhece por
causa dos “Contos de Hoffman”, ópera de Offenbach.
-Não. Sei que uma novela sua foi usada
por Tchaikovsky no balé “O Quebra-Nozes”, que outra serviu de inspiração do
balé “Coppelia”, de Leo Delibes, que o cavalo de batalha de muitos pianistas, a
“Kreisleriana”, de Schumann, foi baseada no seu personagem Johannes Kreisler...
-Veja a ironia; sendo eu músico, não
transformei em melodias imortais o que criei como escritor.
-Mas a sua aptidão intelectual me lembra
muito a de Goethe; como ele, você foi jurista, pintor, desenhista,
caricaturista, crítico de música, compositor. Se você não se destacou tanto nas
ciências como Goethe, ele também não conhecia tanto a arte musical.
-Fomos contemporâneos.
-Eram alemães.
-Goethe nasceu em Weimar e eu em
Königsberg, no Reino na Prússia.
-Seu
pai era advogado?
-Sim, também era poeta e músico amador:
tocava viola da gamba. Ele se casou com a prima e tiveram três filhos, eu era o
caçula e o segundo filho morreu na infância.
-O casamento não foi feliz?...
-Eles se separaram, em 1778, dois anos
depois do meu nascimento. Meu pai foi de Königsberg para Insterburg, levando o
primogênito. Minha mãe permaneceu na cidade comigo e se ligou ainda mais aos
seus parentes. Fiquei com duas tias, Johanna Sophie Doerffer e Charlotte Wilhelmine
Doerffer, e o irmão delas, Otto Wilhelm Doerffer. Todos solteirões.
-Você, então, foi o filho desses três?
-Um leve sorriso na comissura dos seus
lábios foi a resposta afirmativa.
-Meu tio era o chefe da família. Eu o
retratei numa peça com o nome O Weh.
-Você sentia falta do seu pai?
-Sentia, mas nunca deixei de me recordar
das minhas tias com grande afeição, mormente da Tia Charlotte a que eu chamava
de Tante Füsschen (tia de Pés Pequenos) (*).
-Tia de Pés de Boneca.
-Embora ela tenha morrido muito jovem,
eu a entesourei na minha memória e a fantasiei, como personagem, em algumas das
minhas obras.
-Vários estudiosos acreditaram que essa
sua tia fora fruto da sua imaginação, mas, depois da Segunda Guerra Mundial,
foi comprovada a sua existência.
-Não entendo porque demoraram tanto. -
retorquiu.
-Sua família despertou a sua imaginação
criativa, mas você teve de completar a sua educação num colégio.
-Frequentei uma escola luterana de 1781 a 1792, quando li
vorazmente os clássicos. Aprendi também desenho, e um organista polonês chamado
Podbileski, ensinou-me contraponto.
-Alguma dessas pessoas lhe inspirou
algum personagem de uma obra sua?
-Meu professor de contraponto foi o
modelo do personagem Abraham Liscot em Kater Murr.
-Soube que, enquanto você escrevia e
desenhava, mostrava um grande talento de pianista.
-Sim, mas eu me achava numa província,
longe de onde fervilhavam as ideias revolucionárias das artes alemã e europeia.
-Mas você lia Goethe, Schiller, Rousseau,
Jean Paul, Swift e Sterne, além de escrever Der Geheimnisvolle.
-Sim.
-Não foi a época em que você conheceu o
grande filósofo Immanuel Kant?
-Travei, em 1787, amizade para a vida
inteira com Hippel, que era sobrinho do escritor e amigo do filósofo. Os dois
se chamavam Theodor Gottlieb von Hippel, um era o jovem, o outro, o velho, para
diferenciá-los.
-Você, então, conviveu com o autor de “A
Crítica da Razão Pura”?
-Nada disso; assisti, com Hippel, às
conferências dadas por Kant na Universidade de Köningsberg. Apesar da diferença
de classe social, Hippel sempre me considerou seu grande amigo.
-Houve, certamente, uma enorme afinidade
intelectual entre vocês.
Depois de uma pausa, perguntei-lhe:
-E a sua imaginação amorosa?
-Em 1794, com 18 anos de idade,
apaixonei-me por Dora Hatt, uma mulher casada que tomava lições musicais
comigo. Ela era dez anos mais velha do que eu e tinha uma filharada, cinco. A
família dela protestou e um dos meus tios conseguiu um emprego para mim na
cidade de Glogau, na Silésia.
-E qual era o emprego?
-Eu trabalhei como escrevente do meu tio
Johann Ludwig Doerffer, que vivia em Glogau com a filha Mina. Foi quando passei
por Dresden e visitei a galeria de pinturas. Fiquei embevecido com os quadros
de Correggio e Rafael.
-Isso foi em 1796?
-Sim. No verão de 1798, meu tio foi
transferido para a Corte de Berlim, uma promoção e fomos os três para lá.
-Você não se enamorou da sua jovem
prima? - mostrei-me indiscreto.
-Nada a sério. - sorriu.
-Você estava, agora, na grande cidade da
Prússia.
-Entusiasmado, compus a opereta Die
Maske e enviei uma cópia para a Rainha Luise. A resposta dos seus
conselheiros foi um conselho: escrever para o diretor da Ópera Real de nome
Iffland.
-Uma maneira nobre de recusar a sua
opereta.
-Fui para Posen, no sul da Prússia, com
meu amigo Hippel, antes, parei em Dresden para rever as obras-primas da galeria.
-Você não havia encontrado ainda uma
diretriz na vida?
-Meus tios, diretores de escola, párocos
diziam que eu levava uma vida dissoluta. E eu, de 1800 a 1803, trabalhei na
Grande Polônia e Masovia, províncias da Prússia. Pela primeira vez, eu me
livrava da supervisão dos meus parentes.
E prosseguiu animadamente:
-Em Posen, caricaturei vários oficiais
militares e as minhas caricaturas fizeram grande sucesso num baile de carnaval.
-Já imagino a confusão que arrumou.
-Houve denúncias contra mim às autoridades
de Berlim e eu fui transferido para Plock, na Nova Prússia Oriental, cidade que
foi capital da Polônia, de 1079
a 1138.
-Visitei
a cidade em busca de uma pousada para me alojar, mas, antes, casei-me, em
Posen, com “Mischa”, Marianna Tekla Michalina Rorer. Fomos, em seguida, para a
antiga capital da Polônia.
-A sua lua de mel foi em Plock.
-Lá, na verdade, foi meu exílio.
Desenhei autorretratos na lama, andrajoso e com ratos ao redor.
-Era uma maneira de sublimar o seu
desespero.
-O isolamento deu-me, no entanto,
condições para escrever e compor. Iniciei um diário, redigi um ensaio teatral
que foi publicado no periódico Die Freimüthige, e participei de uma
competição com a peça Der Preis.
-Venceu?
-Selecionaram a minha peça, mas não
deram para ninguém o prêmio. Foi um período triste da minha vida; morreram meu
tio Hoffmann, em Berlim, a minha tia Sophie e
a minha amada Dora Hatt, em Köningsberg.
-E quando você foi trabalhar em Warsaw?
-Logo depois; passei por Königsberg,
encontrei-me com as filhas de Dora Hatt e nunca mais revi a minha cidade natal.
(*) O redator
do seu O BISCOITO MOLHADO escreveu Fübchen. Esse b aí é um beta na verdade e o
som é de SS. Daí, o Distribuidor fez a substituição e pronto. Os alemães escrevem
FüBchen, usando o B maiúsculo para simular o beta, mas nós não entendemos tal
sutileza.
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