Total de visualizações de página

188,468

quinta-feira, 3 de maio de 2012

2140 - o escarpim escarlate


------------------------------------------------------------------------------
O BISCOITO MOLHADO
Edição 3940                                            Data: 28 de abril de 2012
---------------------------------------------------------------------------------

DA INDIAZINHA DE ESCARPIM AO IRRITADIÇO 017

Pensava em Orson Welles.  Entrando na casa dos 20 anos, já encenava peças de Shakespeare no Teatro Mercury. Assisti ao filme de 2009, “Eu e Orson Welles”, que se reporta à estreia do “Júlio Cesar de Shakespare, em 1937, que chegou a 157 representações naquele teatro. Apesar de não seu um filme apologético, pelo contrário, mostra-o vingativo e egocêntrico, sobressai a genialidade do artista.  Orson Welles, antenado com a atualidade, transferiu alguns cacoetes da Alemanha nazista  para a obra shakespeariana.
Não sei se antes ou depois dessa encenação, ele colocou em cartaz no Teatro Mercury um Macbeth com atores negros, uma façanha nos anos 30, pois até hoje há casos de brancos que são artificialmente amorenados (vide Gérard Depardieu no papel de Alexandre Dumas no filme “L' Autre Dumas”).
Orson Welles como diretor de teatro era celebrado por um público diminuto  para quem pretendia a fama nacional e, mesmo, internacional. Então, chegou-lhe às mãos o livro de H.G. Wells “A Guerra dos Mundos”. O “menino-prodígio” tinha a função de adaptar radiofonicamente essa história de ficção científica para a CBS.
 A transmissão se deu na noite de 30 de outubro de 1938. Orson Welles pinçou ocorrências do livro, em ordem crescente de dramaticidade e os anunciou como notícias. Em seguida, entrava uma música. Subitamente, o trecho musical era interrompido para que mais informações fossem ao ar em edição extraordinária. Quando um “repórter da CBS” solta um grito de vítima de alienígenas, uma multidão de ouvintes saiu às ruas, em desespero, julgando que os marcianos invadiam à terra. Quem viu “A Era do Rádio”, de Woody Allen, sabe que a tia do ator perdeu mais um namorado, porque ele, que ouvia essa transmissão no rádio do carro, desapareceu de pavor dos marcianos.
Orson Welles foi detido pelas autoridades americanas e com um cinismo deslavado expressou a sua surpresa com a reação provocada, pois se tratava de um clássico da língua inglesa.
Pronto: Orson Welles alcançou fama internacional e Hollywood abriu-lhe os cofres; ele podia realizar o filme que desejasse, porque dinheiro não era problema. Veio, então, à luz aqueles que uma legião de críticos considera o maior filme de todos os tempos, “Cidadão Kane”.
Por que pensei nisso tudo?...Porque entrei num táxi em que o motorista não falou nem o preço da corrida, fiquei, então, com os meus pensamentos.
----------------------------------------------
No dia subsequente, o táxi que me levou da Rua Domingo de Magalhães à Modigliani foi a do 017, chamado por mim, sem que ele saiba, de “Dedão do Arqueiro Inglês”. A corrida parecia plácida como um lago, parecia...
-Rapaz, da última vez, a conversa se tornou tão animada que saltei do seu carro sem pagar.
-Isso acontece. - justificou-me.
-O assunto aposentadoria me fez esquecer o pagamento, talvez porque eu me fixasse no rombo da previdência.
-Hoje, não faz aquele calor. - mudou de assunto.
-Parece que, finalmente, o outono se impõe, pois o sol veio, mas não esquentou.
Enquanto eu falava, vi um carro que vinha na direção contrária, enquanto um caminhão, parado na contramão, estava com as portas abertas. Nosso táxi ficou sem espaço para passar; 017, então, buzinou. O motorista do caminhão, com uma artilharia bélica no olhar, bateu a porta do seu veículo de maneira acintosa.
-Você viu como ele olhou?
-Olhos de cão raivoso.- coloquei lenha na fogueira.
-O filho da puta está errado e ainda olha daquela maneira.- agitou-se ainda mais.
-Encontramos no dia a dia pessoas assim, mas a melhor maneira de lidar com elas é ignorá-las. - contemporizei, pois era hora de pôr  panos quentes.
-Mas como ignorar?.... É muito difícil.
Veio-me à mente um conselho da Tia Carla, uma das minhas professoras do curso de Regulação Econômica, “fazer cara de samambaia para o estresse alheio”, mas ele podia supor que eu o gozava, sem saber que “cara de samambaia” significa “cara de paisagem”.
Assim, ouvi as catilinárias do 017 até o segundo poste da rua Modigliani.
------------------------------------------------
No dia que se seguiu, o ponto da Rua Domingo de Magalhães estava coalhada de táxis, mas me coube o 017 de novo. Ele não falava mais do olhar do motorista do caminhão.
-O passageiro que eu levei, antes do senhor, como reclamou do imposto de renda.
-O leão está abocanhando cada vez mais, nem os da arena do imperador Nero foram mais vorazes. Só resta às vítimas, como eu, reclamar.
-Ele estava nervoso.- declarou o 017 com a calma de quem não fora abocanhado.
-Para você ter uma ideia... - iniciei a minha fala com o tom professoral.
-Para você ter uma ideia, um dos homens mais ricos do mundo, Warren Buffett, declarou que paga apenas 15% de imposto de renda, enquanto o assalariado americano desembolsa 30% do salário nesse tributo. Ele paga 30% porque vive de rendimentos, ou seja dividendos e outros ganhos de capital.
-Mas isso acontece nos Estados Unidos.- retrucou.
-No Brasil, é quase igual: o assalariado paga de 25% a 30% de imposto de renda, enquanto aqueles que não trabalham, que só vivem de rendimentos pagam 15%, ou um percentual próximo. A grande diferença com os Estados Unidos é que lá uma parte do dinheiro do contribuinte não vai para a corrupção, ou, se for, há punição.
-Aqui, os ricos não vão para cadeia. - enfatizou.
-Outra parte do dinheiro dos impostos remunera a turma dos que se aproveitam das altas taxas de juros praticadas no Brasil.
-A turma daquele americano... Como é o nome dele mesmo?
-Warren Buffett. - disse, já na Rua Modigliani.
------------------------------------------------
Quando percebi que,  apesar dos seis ou sete táxis, no ponto, e dos cinco passageiros que se aproximavam com diminuta dianteira de um sobre o outro,  eu rodaria pelo terceiro dia consecutivo no táxi do 017, veio-me à mente a Indiazinha de escarpim. De segunda à sexta-feira, entre 6h 10min e 6h 20 min, no primeiro vagão do metrô, eu me deparei com uma menina de uns dez anos, uniformizada, que viaja com um garoto, também uniformizado, provavelmente seu irmão mais velho. Os dois não trocam uma palavra, apenas se olham no momento de saltar  na estação de São Cristóvão, destino da maioria dos estudantes que viajam de metrô.
No outro dia, quando o vagão estava menos concorrido, notei as feições de índia da menina. No dia seguinte, quando havia menos gente, ainda, percebi que ela calçava escarpim.
Interessante...
-Essas coincidências são raras.- afirmou o 017.


Nenhum comentário:

Postar um comentário