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terça-feira, 31 de março de 2015

2823 - Encostado Dicionário Biográfico


 

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5073                              Data:  26 de março de 2015

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MINIDICIONÁRIO AUTOBIOGRÁFICO

PARTE XXIII

 

TREM – Acostumei-me a andar nos trilhos; deslocava-me sempre de bonde. Eu, na adolescência, só percorria, praticamente, três caminhos:  Méier, onde ficava a escola; Centro,  para o tratamento dos dentes e compra de livros -  o ônibus ficava, então, esquecido por mim - e quanto ao terceiro, que era São Cristóvão, não havia jeito, eu tinha de pegar o ônibus, comumente o 292, pois seria alongar acentuadamente as distâncias se eu optasse pelo bonde.

Assim, quando o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, acabou com os bondes em 1965 (*), foi um baque para mim.

-Voltei aos trilhos com o trem, uma década depois.

Eu tinha encerrado as provas do segundo grau do artigo 99, quando acompanhei um colega e vizinho até o trabalho dele no escritório do tio que ficava na Central do Brasil, fomos de trem. Perguntei-lhe se havia uma faculdade por perto (o vestibular para as escolas do governo já havia passado, e eu não queria perder tempo). Damião apontou o dedo para os lados da Praça da República:

-Lá tem o “Siri Cozido”.

O Google só apareceria décadas depois, por isso tive de consultar diversos conhecidos para saber o porquê daquele cognome depreciativo. A maioria dos consultados disse que os alunos do Colégio Pedro II criaram esse apelido porque as alunas da escola técnica em contabilidade usavam vestidos rubros e blusas encarnadas. Mas ali não era uma faculdade em que se andava à paisana? - intriguei-me. Soube, então, que lá não só havia uma faculdade de direito, uma de economia, como esse colégio do 2º grau e que o apelido se estendeu até os cursos superiores. Quando o meu médico, Dr. Jerônymo, relembrando os seus velhos tempos, me contou que estudava Medicina na Praia Vermelha, mas se desviava, às vezes, do caminho, para namorar as meninas uniformizadas do “Siri Cozido”, não tive mais dúvidas: as faculdades nada tinham a ver com isso.

Ainda assim, a fama de boate de tudo aquilo, abrangido no acrônimo S.U.E.S.C., me desanimava.

-Rapaz, foi lá que o Mário Henrique Simonsen se formou. - incentivavam-me.

Na verdade, aquele que, para mim, era o maior economista do Brasil, dava aulas de economia na Fundação Getúlio Vargas e já assessorara o ministro do Planejamento, Roberto Campos, na área da economia, com o diploma de engenheiro, apenas. Necessitava do diploma de economista, assim, matriculou-se lá, no “Siri Cozido”, onde aparecia apenas nos dias das provas, haja vista que os seus conhecimentos excediam em muito os dos professores. Em 1968, conseguiu o seu diploma, que era apenas um papel para aquele que tinha como discípulos economistas com doutorados em universidades dos Estados Unidos e da Europa.

-O que faz o aluno não é o colégio, é ele próprio. - garantiram-me, quando eu me mostrei dubitativo.

Acredito que o maior motivo para eu iniciar meus estudos na área econômica, na Praça da República, foi o trem. Eu pegava o ônibus Méier-Maria da Graça na porta da minha casa, saltava perto da estação do Méier, pegava o trem até Central do Brasil de onde rumava para a faculdade.

As primeiras aulas se iniciavam às 7 horas da manhã, então, uma hora antes lá estava eu espremido nos vagões pelos trabalhadores em sua grande maioria. Eu me sentia confortável em estar misturado entre aquele pessoal que falava baboseiras em alto volume e gargalhavam com piadinhas idiotas comportando-se mal educadamente? Evidentemente que não. Muitos eram trabalhadores, repito, contribuíam para levar o Brasil para frente, enquanto alguns milionários o levavam para trás, mas eu não me sentia bem entre eles. Não me recordo quem disse que não era uma pessoa do povo e sim uma pessoa que pensa para o povo, que luta para que as pessoas tenham acesso pleno à cultura e educação, e saiam da situação em que se encontram, subentenda-se que, assim, melhorariam o seu comportamento.

Contudo, não desisti do trem; durante todo o meu primeiro ano na Faculdade de Economia.

Havia, nos vagões, umas argolas para os passageiros se segurarem, que eram chamadas de chupetas. Só vim a revê-las agora nos trens chineses do metrô. Ao procurá-las, atualmente, reporto-me aos trens da Central do Brasil, quando, ao apoiar-me nelas, eu enfiava a mão espalmada com os cinco dedos unidos na chupeta para abri-los, em seguida, quando ela envolvesse o meu pulso. Certa vez – retorno aos anos passados - um sujeito de maus bofes agarrou a chupeta de tal maneira que impedia a retirada da minha mão. Notei que seu gesto foi proposital, que era uma provocação. Tudo bem, eu não vou saltar antes da última parada e deu para ignorar o ignorante e evitar um aborrecimento naquela hora da manhã.

Quem saltou antes do tempo foi uma senhora; a leva que saiu na estação de São Cristóvão foi de uma intensidade de correnteza de rio que eu só ouvia os seus gritos desesperados: “Eu não vou saltar aqui... Eu não vou saltar aqui...”. A coitada teve de esperar o trem seguinte.

Lugar vago no banco era impensável quando eu me enfiava nos trens a partir da estação do Méier; eram tantos os passageiros que mal se via os bancos, o que dizer em se sentar num deles. O problema maior dessas aventuras, para mim, de me deixar agoniado, era evitar que os meus órgãos genitais se encostassem em alguém e vice-versa, principalmente, o vice-versa. Um dia, encontrei-me na estação do Méier com o Cosme, irmão gêmeo do Damião, e nos metemos juntos num daqueles vagões. Em determinado ponto da viagem, um senhor reclamou que ele o assediava sexualmente (na década de 70, não se dizia assédio sexual, e sim “você está encostando em mim”.

-”Você precisa sentir o que está atrás de mim”. - respondeu o meu amigo, encerrando o assunto.

Na volta da Central do Brasil para o Méier, havia o problema do “mudou a seta”. Lá, toda a atenção era pouca para saber em que plataforma sairia o trem para o nosso destino. A seta indicava que o trem parador de Deodoro sairia de tal plataforma, mas gritavam, muitas vezes “mudou a seta”, e uma pequena multidão se deslocava para outra plataforma.

A vantagem do trem era a rapidez, mas o problema estava nos sábados, quando eu assistia a duas aulas no horário da tarde. Nesse dia e nessa hora, eu conseguia sentir o banco sob o meu traseiro, isso seria uma vantagem não fosse a espera. Se eu tivesse ido de ônibus, estaria a essa altura em São Cristóvão – imaginei muitas vezes, enquanto sofria no Méier com a demora junto com umas poucas pessoas. Num desses sábados, o trem não veio e satisfação alguma foi dada.

Depois de um ano, desisti desse meio de transporte. Quase duas décadas depois, voltei a ele, mas só por uma vez. Foi no governo do Itamar Franco, quando entramos em greve, e uma assembleia foi marcada para a tarde de sexta-feira. Eu soube que um dos meus colegas voltaria para casa de trem e me ofereci para acompanhá-lo.

-Vamos ver como estão os trens. - disse-lhe.

Constatei que estavam a mesma coisa de antes.

 

(*) O fim dos bondes no Rio de Janeiro ocorreu em tempos variados. Na Zona Sul, em 63 e na Zona Norte, onde residia o redator do seu O BISCOITO MOLHADO, em 65. No Alto da Boa Vista, só acabou em 67 e em Santa Teresa, como o bonde é do povo, deverão circular em breve. Quem quiser saber mais sobre bondes deve entrar em:

http://www.bondesrio.com/paginas/basicas/frame_home_novo.html

 

 

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