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segunda-feira, 30 de março de 2015

2822 - dormindo com cobras e lagartos


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5072                              Data:  25 de março de 2015

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CONVERSAS DO METRÔ

 

Anos atrás, este periódico reproduzia as conversas que eram testemunhadas no metrô. Dia desses, pediram que elas voltassem às nossas páginas. Eis um pedido muito difícil de atender, porque as pessoas, ultimamente, fixam as vistas nos seus celulares, tabletes ou outro desses objetos modernos e ficam alheias a tudo que se encontra em volta. Se vivesse nos dias de hoje, Nélson Rodrigues atualizaria a sua frase “mais só do que Robinson Crusoe sem radinho de pilha” para “mais só do que Robinson Crusoe sem celular”. Ainda há aqueles que, conseguindo sentar, dormem. Se for, então, um invasor dos bancos de cor laranja destinados aos idosos, aos portadores de deficiência física, às grávidas e às pessoas com criança de colo, ele dormirá mais profundamente do que a Bela Adormecida depois da picada e antes do beijo do príncipe.

Assim, ninguém proseia mais no metrô, acredito que nas outras modalidades de transportes coletivos também. No entanto, numa sexta-feira, quando retornei do trabalho para casa, por volta das 16h, houve uma exceção. Vamos a ela.

Entrei no trem, que estava mais ou menos lotado e procurei o balaústre junto aos bancos de cor laranja para me segurar, evitando a dormência nos braços que as barras elevadas provocam. Bem sucedido, deparei-me com duas senhoras que conversavam animadamente. Falavam sobre animais. Uma delas, quando me viu, levantou-se e me ofereceu o seu lugar. Ela, mesmo com a cabeleira tingida da cor da asa da graúna, aparentava, pelas rugas e bolsas ao redor dos olhos, uns 70 anos; eu, se aceitasse o seu oferecimento, admitiria estar com uns 75 anos no mínimo. Não aceitei, evidentemente, mas não adiantou; ela tomou a resolução de ficar de pé e, com aquele banco vazio, vi-me obrigado a sentar antes que um aventureiro lançasse bunda naquele lugar.

Mesmo com essa mudança de posição, o fluxo da conversa prosseguiu; é verdade que a mais tagarela era aquela que se achava acomodada no banco. Referia-se aos seus cachorros, que dormiam na cama entre ela e o marido.

-Meu marido é doido por bicho.

-O meu também – disse a outra – mas ele não admite os cães em cima da cama, reclama dos pelos que eles soltam.

-Que importam os pelos?... Só o carinho que eles nos transmitem compensa tudo.

-Meu marido não pensa assim.

Intuí que ela também não pensava assim, mas, para não ir de encontro ao gosto da sua interlocutora, jogou todo o problema para o marido.

Sem inibição alguma, identificou a parte do seu corpo em que os cachorros dorminhocos mais gostavam de apoiar a cabeça: a bunda.

-Essa bunda-travesseiro deve dar para uns cinco cachorros apoiarem a cabeça. - tive de imaginar, pois, como foi dito, a mulher dos cachorros estava sentada.

-O bassê gosta, o vira-latas, o poodle... eles roçam pelos meus braços e param na minha bunda.

-Porque tem mais carne. - pensaram, talvez, uns dez passageiros em volta, pois ela falava alto, mas sem incomodar nossos tímpanos.

Quantos cachorros moram com ela? - perguntei-me. Não precisou o número, mas os de gato, sim.

-Tenho três gatos.

-Todos convivem bem? - quis saber a senhora de pé.

-Convivem sim, mas se brigarem, eu não bato.  Aliás, eu não consigo mais matar nem barata.

-Nem barata? - abismou-se ela como todos os que a ouviam.

-Eu penso que é uma vida, que eu vou tirar uma vida... Não consigo mais matar uma barata.

Voltou aos seus animais de estimação.

-Eu compro ração para os gatos e para os cachorros...

Um rapaz de uns 30 anos de idade, que se segurava numa daquelas barras altas, entrou na conversa.

-Eles comem a ração normalmente?

-Sim, comem, mas misturo também a ração com um pouco da comida da gente. Às vezes, os cachorros comem a ração dos gatos, até uma certa idade, não há problemas.

-Eu não sabia. - confessou ele.

-São tanto os bichos que passaram pela minha vida que já os conheço bem.

-Eu ainda tenho muito a aprender. - revelou a senhora de pé.

-Depois de tantos cachorros, tantos gatos que tive, eu já os conheço como a palma da minha mão.

Sem tomar fôlego, acrescentou:

-Gosto de todos os animais, até de cobras.

-Cobras? - abismou-se a sua interlocutora de novo.

-Por que não? Deixo que elas passeiem pelo meu corpo como aquela artista, como é o nome dela mesmo?...

Puxou pela memória por poucos segundos:

-Luz Del Fuego, a diferença é que eu não fico nua.

-Não há perigo?

-É claro que não pego cobras peçonhentas, mas não tenho nada contra elas. Deus as fez assim e teve as suas razões, não serei eu que vou criticar.

E passou a descrever o passeio das cobras pelo seu braço, pescoço, os cafunés que faz nelas.

-As cobras veem a senhora e sobem pelo seu corpo? - indagou o rapaz.

-Todas as cobras são cegas – explicou – elas se guiam pela língua.

Notei um esgar no rosto da sua interlocutora, talvez a imaginasse sendo lambida por esses répteis.

-Como a senhora consegue tempo para cuidar de tantos animais em casa? - demonstrou o rapaz curiosidade.

-É difícil, muito difícil, mas consigo, mesmo sendo casada.

-Eu, que sou solteiro, encontro dificuldades para cuidar de um cachorro.

-Mas o solteiro tem uma vida muito boa, sem hora certa para chegar em casa, sem a obrigação de fazer comida; se for o caso, vai a um restaurante ou lanchonete e resolve o problema da fome.

-Tem suas vantagens. - admitiu ele.

Com esse novo rumo da conversação, os animais passaram para o segundo plano.

-Eu trabalho e ainda faço um curso, chego, muitas vezes, às 10h da noite em casa.

E continuou a senhora dos gatos, cachorros e cobras:

-Minha filha chega pelas 9h da noite e meu marido já está em casa há mais tempo, aprontando-se desde  cedo para assistir aos jogos do Flamengo. Cheguei uma vez, no meu horário e eles me perguntaram o que iríamos jantar. “Eu é que quero saber o que vocês fizeram para a janta, ou vocês pensam que eu trabalho, estudo, e ainda vou cozinhar?... Vocês já chegaram há muito tempo. O que fizeram para o jantar?”

Apesar da sua reação bem a propósito, ficamos, pelo menos eu fiquei, com o sentimento de que, no fim, ela acabou indo para o fogão.

O trem já estava a poucos metros da estação de Maria da Graça, quando a sua interlocutora lhe pediu a bolsa, que ela segurara quando se pôs de pé, pois ia saltar. Era a minha estação de destino também. Levantei-me do banco e saí do vagão, animado por ter ouvido, enfim, passageiros conversando no metrô.

 

 

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