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quarta-feira, 15 de maio de 2013

2388 - Dia das Mães 1


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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4188                                  Data:  14 de  Maio de 2013
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RÁDIO MEMÓRIA NO DIA DAS MÃES

Quando o Jonas Vieira anunciou Branca Dieckmann, pensei logo em nepotismo, no Fred sendo o próximo convidado, isso porque esperei o início do programa lendo o noticiário político, mas, às primeiras palavras dela, logo revi o meu pensamento.
-Branca Dieckmann.
-Branca Euler. - corrigiu a Branca.
Tudo bem, o sobrenome alemão permanecia.
Não estavam lá apenas o casal de Santa Teresa, substituindo o Sérgio Fortes; foi convocado também o médico Fernando Borer cujo ânimo era de paciente, ouvidas as suas primeiras palavras. Sofria com uma famigerada dor na coluna, disse, confirmando a informação do titular do programa.
Talvez, penalizado com o seu esforço por ali estar, Jonas Vieira lhe deu a primazia de fazer a primeira escolha. E ele não decepcionou os ouvintes, pedindo “Brejeiro”. Depois, aludiu ao fato de essa composição de Ernesto Nazaré ser de 1890 e a sua primeira gravação só acontecer em 1930.
-Um absurdo que uma obra-prima tenha levado 40 anos para ser gravada. - indignou-se.
Ainda fez considerações sobre o Choro, que teve sua ascendência em 1870 e decadência em 1960, sendo retomado pela pianista paulista Eudóxia de Barros. A gravação que solicitava era com ela e o Conjunto do Evandro.
Enquanto essa criação do Ernesto Nazaré encantava aquela manhã de domingo, eu me reportava à minissérie Chiquinha Gonzaga, que foi ao ar uns 10 anos atrás na TV Globo.  A história, bem fundamentada em dados históricos, mostra Joaquim Calado, compositor e flautista, como o mestre de Chiquinha Gonzaga e de outros músicos, nos poucos anos que viveu, 32 anos (1848 a 1880).
Ricardo Cravo Albim e outros musicólogos consideram Joaquim Calado o pioneiro, aquele que pode ser considerado o criador do Choro ao incorporar a flauta aos violões e cavaquinho. Foi ele o primeiro a gravar a palavra Choro no local destinado ao gênero musical na partitura da sua polca “Flor Amorosa”. Bem entendido que Choro não é um ritmo específico, mas a maneira de se tocar solta e sincopada, com floreios e improvisações. Assim, os tangos brasileiros, além das polcas de Ernesto Nazaré, se tornaram Choro.
Tocada a última nota do “Brejeiro” pela Eudóxia de Barros e o Conjunto do Evandro, Jonas Vieira se penitenciou por não ter concedido a primeira opção à Branca.
-Acontece nas melhores famílias inglesas. - justificou-se.
Como se já tivesse substituído o Sérgio Fortes em férias passadas, Branca se mostrou à vontade e escolheu a gravação que me proporcionou a maior surpresa do Rádio Memória desse domingo, ao escolher uma gravação que eu desconhecia inteiramente, o “Boogie Woogie Bugle Boy”, com “The Andrews Sisters”.
Disse a Branca que as três irmãs gravaram “Boogie Woogie Bugle Boy” em 1941, antes de os Estados Unidos entrarem na Segunda Grande Guerra Mundial. E prosseguiu com essas palavras que julgo ter entesourado na memória:
-Pode-se dizer que é a primeira gravação de “Rock and Roll” vinda do “Rythm and Blues”.
Jonas Vieira acrescentou que o começo foi nos anos 40, como continuação do “Swing”.
Ouviu-se, então, a voz do Dieckmann que falava em “Hot Music” e nos ritmos que foram os precursores do “Rock”.
A Branca retomou a palavra para dizer que as irmãs obtiveram grande sucesso, trabalhando com Benny Goodman e Tommy Dorsey e, como curiosidade, uma delas, Patrícia, morreu  agora, em 2013, com 95 anos de idade.
-Abrimos o obituário. - não perde o Dieckmann a piada, mesmo que seja humor negro.
Ouvi “Boogie Woogie Bugle Boy” e fiquei tão entusiasmado que tratei de pesquisar. O trio “The Andrews Sisters” era formado pelas irmãs La Verne, Maxena e Patty.  As três se completavam, pois cada uma tinha um registro vocal da voz feminina: soprano, meio-soprano e contralto. Segundo o Wikipedia, venderam mais de 75 milhões de discos.
Quando chegou a vez do Dieckmann, ele foi tão enfático que julguei que pediria Maria Callas, mas se tratava Madeleine Peyroux.
-Eu julgava que Madeleine Peyroux fosse francesa, mas ela é americana.
Seguiu adiante:
-Eu quero ouvir a gravação dela de um grande sucesso de Ray Charles, “I can't stop loving you”.
E reportou-se aos tempos de garoto.
-Lá por 1961, 1962, os vizinhos de cima chegaram dos Estados Unidos com o compacto dessa música com Ray Charles, que eu ouvi à exaustão.
Quanto a mim, não tinha, nessa época, vizinhos que viajavam aos Estados Unidos, creio que, na Rua Cachambi, ninguém ia além de Nova Iguaçu, mas também ouvi o Ray Charles até ficar rouco, cantando “I can't stop loving you”, porque era o grande sucesso do programa “Peça bis pelo telefone”, da saudosa (antes de o Brizola comprá-la) Rádio Mayrink Veiga.
E os comentários continuaram depois de emitida a última nota.
-Eu só fui entender as palavras do “I can't stop loving you” com a Madeleine Peyroux, porque com o Ray Charles era impossível.
-Jonas Vieira, com a sua bagagem de professor de inglês, concordou com o Dieckmann.
Fernando Borer interveio citando Frank Sinatra e Nat King Cole como cantores de dicção irrepreensível, o que é uma unanimidade.
Jonas Vieira lembrou que os negros, como Ray Charles são enfáticos, quando cantam. Branca acrescentou que o negro valoriza mais a interpretação, expõe mais a emoção.  Recordei-me de uma edição pretérita do seu O BISCOITO MOLHADO em que, baseado em alguns adeptos da música popular, como Arthur da Távola, escrevi que Elvis Presley tinha a voz de negro. Elio Fischberg concordou, mas o Dieckmann investiu contra diferenças raciais na voz.
Mas voltemos ao presente, pois chegou a vez do segundo pedido do Fernando Borer. A cantora da música que pediu era negra, mas de uma dicção perfeita, Elizeth Cardoso, aquela que recebeu o título dado por Sérgio Porto de “Divina”.
A gravação era “Tudo é magnífico”, de Luís Reis e Haroldo Barbosa.
Todos aprovaram a sua escolha, mas ele confessou que não sabia quem era o pianista dessa gravação.
-Luís Reis. - aparteou o titular do Rádio Memória.
Fernando Borer disse que assim supôs, mas que não tinha certeza de quem tocaria o piano. Em seguida, enalteceu Haroldo Barbosa, uma escola do rádio brasileiro, de onde vieram artistas como Chico Anísio.
Haroldo Barbosa e Max Nunes, pensei. Também me veio à mente, a coluna do Globo “Pangaré gostou”, “Pangaré não gostou”, que o Haroldo Barbosa escrevia, aliás, Luís Reis era outro turfista.
Enquanto soava a belíssima voz da Elizeth Cardoso, recordei-me de um sorteio que o Dieckmann promovera há uns dez anos, quando trabalhava na ANTAQ.  Sorteou a sua coleção de Elizeth Cardoso e a felizarda foi a nossa colega Amelinha. Por coincidência, ela era muito amiga de um tal de Haroldo, que, vim a saber, era filho do Haroldo Barbosa.
-Essa gravação da Elizeth Cardoso é definitiva. - afirmou o Fernando Borer com o entusiasmo de quem não sentia mais dores na coluna.
 





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