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segunda-feira, 3 de julho de 2017

3048 - O cantor


           
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5308 FM                           Data: 03 de julho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


ASSUNTO PESSOAL

Peço licença aos fregueses desta ilustre fábrica de produtos destinados ao prazer do intelecto, como o biscoito molhado, para o qual, modestamente eu também contribuo com algum fermento -  sou o FM, que, com prazer, falo das coisas do Ceará, embora também trate de outros assuntos, uns relevantes, outros que dão ânsia de vômito citá-los, pois tratam daqueles que se aproveitaram para roubar do poder público bilhões, transformados cinicamente em propina ou Caixa 2. Simplesmente revelaram ser uns canalhas sem caráter. São personagens que deveriam ser ilustres, pelos cargos que ocupam, mas são apenas ladrões chinfrins, vergonha da raça humana. Urgh! Estão sendo merecidamente condenados a prisão.

Volto ao propósito inicial: falar de um assunto pessoal, de um parente pelo qual devoto muito afeto, por ser ele meu primo, cunhado (sou casado com uma de suas irmãs), meu irmão e meu amigo, que está gravemente enfermo. Uma pessoa encantadora, amado por quantos o admiram como um dos maiores cantores populares do país: Gilberto Milfont.

Dele falo com orgulho e prazer, pois, ainda na pré-adolescência, nos idos anos de 1935/36, por indicação de um tio, fomos à emissora de rádio de Fortaleza, a única existente, ainda modesta, que estava nos seus começos. Ao se apresentar ao proprietário, bastou que cantasse uma única música, com voz semelhante à da cantora da época, Carmen Miranda. O dono da emissora deu-se por encantado e mandou prepara o estúdio, para uma apresentação especial.

Com isso, começava uma longa e exitosa carreira artística, como abrira as portas para a criação de um programa infantil, que revelou muitos novos artistas, ente os quais os conjuntos “Quatro ases e um coringa” e “Vocalistas tropicais.” Anos depois, o “Trio Nagô” e muitos outros,  quando a emissora já havia sido adquirida pelos Diários Associados, e se transformava em poderosa organização, com a participação de profissionais vindos do Rio de Janeiro e de estados vizinhos. O Menino Prodígio, de nome João, foi rebatizado em 1944/45 pelo produtor Antônio Maria, pernambucano que foi contratado para dirigir a emissora, ou por Dermeval Costa Lima, que o substituiu no cargo.  Já nem me lembro o autor, que considerou “Gilberto” nome mais radiofônico. E, como Gilberto, já com voz possante de rapaz, o rádio brasileiro ganhou um notável artista, que decidiu viajar para o Rio, de “Mala e cuia”, com um só propósito, enfrentar uma verdadeira selva, onde brilhavam os grandes nomes da MPB: Francisco Alves, Orlando Silva, Carlos Galhardo e muitos outros, que formavam o elenco da poderosa Rádio Nacional, que contratou o Gilberto, já iniciado na Rádio  Globo. Logo o cantor cearense estava brilhando ao lado daqueles grandes astros, dos quais era um fervoroso admirador. Seu primeiro disco (78rpm, pois não existia o LP), foi gravado em 1946, com duas belas canções do médico e compositor famoso Joubert de Carvalho:  “Geremoabo” e “Maringá.” Foi uma sucessão de êxitos, mais de 100 músicas gravadas, algumas de grande sucesso, como “Eu não queria de perder”, “Esmagando rosas” e, a mais famosa, “Senhora”, um bolero mexicano de Orestes Santos, versão de Lourival  Faissal. A música dominou as ondas de rádio em todo o Brasil. Ao longo do ano, Gilberto participava da programação da RN cantando músicas românticas, era comumente escolhido para cantar canções de outros repertórios, por solicitação dos grandes maestros da emissora, pois tinha ele imensa facilidade de  decorar as letras para o mais famoso e importante programa  da emissora, “Um milhão de melodias”.

Durante o carnaval, contudo, era o preferido dos principais compositores, que participavam dos concursos para escolha das campeãs.  E Gilberto ganhou pelo menos cinco desses famosos campeonatos carnavalescos nos anos de 1950, a mais famosa, “Pra seu governo”, ainda hoje lembrada nos bailes populares.

Com o advento da TV, o rádio caiu em declínio. Gilberto passou a cantar na TV Record, de São Paulo, para onde ia uma vez por semana. Com a crise política, veio o golpe de 64, o rádio esfacelou-se, a Nacional perdeu seus melhores artistas e alguns, por serem efetivos, foram transferidos para repartições públicas federais. Gilberto foi mandado para a Rádio MEC, onde trabalhou como burocrata de programação, até que se aposentou.  Terá perdido o prazer de cantar, só o fazendo por insistência dos produtores de eventos populares, durante o carnaval.

Além de excelente intérprete, Gilberto Milfont se tornou um notável e inspirado compositor, tendo produzido umas duas dezenas de músicas, entre as quais “Reverso”, gravada por Silvio Caldas, Lúcio Alves, Elizeth Cardoso e Tito Madi, e “Esquece”, gravado (entre outros) por Dick Farney. Músicas modernas, estilizando a nascente Bossa Nova.

Um pequeno detalhe de sua adorável companhia, ocorreu em Porto Alegre, logo no início de sua carreira. Acabara de cantar na emissora local. Já no hotel, foi procurado por um modesto cidadão, que disse ser compositor, pedindo para apresentar algumas de suas “musiquinhas”.

Gilberto concordou, ouviu, prometeu gravá-las, com as quais fez grande sucesso em todo o Brasil: “Castigo”, “Remorso” e “As aparências enganam” foram algumas. Seu autor, fã e amigo do cantor: Lupicínio Rodrigues.


Eis um pequeno perfil de uma pessoa generosa, que só fez amigos ao longo de sua carreira artística de grande sucesso. Agora vivendo momentos de grande padecer, gravemente enfermo, internado em hospital, esperando, quem sabe, ainda poder atravessar uma longa e difícil estrada, de curvas perigosas. Enternecido e comungando de seu padecer, peço a Deus que ilumine o seu caminho e lhe proporcione mais tempo para ainda poder usufruir alguns momentos de vida. Ele está com 94 anos.

9 comentários:

  1. Mamãe cantava suas músicas e meu primo português chegou da Santa Terrinha no auge do sucesso de Prá seu governo, aprendeu a cantar e nunca mais parou. Desde que vi seu nome pensei nele e fiquei inquieta mas com muita vergonha de perguntar.
    Feliz por ter tomado conhecimento de sua vida, emocionada e solidária, junto aos meus os seus pedidos.

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  2. Desculpe,
    ... junto aos seus os meus pedidos.
    Um abraço fraterno.

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  3. Belíssima homenagem do Fernando Milfont. No país em que prevalece de forma avassaladora uma trágica inversão de valores nossos jovens tendem a acreditar que as porcarias com que somos bombardeados diariamente pelo Multishow tem alguma coisa a ver com a música popular brasileira. Viva Gilberto Milfont ! Viva Chico Alves ! Orlando Silva ! Jorge Goulart ! Elizeth Cardoso ! Angela Maria !
    Obrigado, Fernando Milfont!!!

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  4. Nossa música estava para o nosso povo como estava a ópera para os
    italianos. Todos a cantavam! Não havia cantor preferido. Amávamos a todos. Não havia música de gente velha, rica ou pobre. Mal sabíamos a região de origem de cada um. Aprendida a letra, jamais a esqueceríamos como tb junto à lembrança nos chegam as vozes e a alegria com que eram cantadas pela família, amigos e até empregados.
    Ontem lendo uma crônica (...) senti na pele o que é a injustiça neste país, parece que para o autor só existe um cantor em uma terra que é celeiro de grandes artistas, vozes, interpretações e dos mais diversos estilos.
    Além do endeusamento em detrimento de tantos outros o mesmo parece ter sido alçado a Deus, um Salvador da Terra, pois o lançamento do seu disco se "assemelha a um Natal, um Ano Novo, um Carnaval, um dia da Independência".
    O mais triste de tudo é ver nosso povo separado por sotaques, regionalismos, cores, estilos, propriedades culturais e uma dezena de coisas mais.
    Para minha mãe, que amava esta terra e sua cultura, o Brasil de hoje e suas gentes seria motivo de grande tristeza e estranhamento.
    Viva Gilberto Milfont!
    Viva Carlos Galhardo!, Viva Silvio Caldas!, Viva Dalva! Viva Ellen de Lima!, Viva Dolores Duran!, Viva Maísa!, nossos trios Nagô e Irakitan e nossos maravilhosos Cantores de Ébano!

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  5. Mas sua filha gosta. Cacá Diegues
    Folha 15, jornal O Globo, Domingo - 02.07.2017.

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  6. Bom dia,
    Gostaria de saber notícias. Fico triste com o silêncio da mídia.
    Um abraço.

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  7. CARA ELVIRA, OBRIGADO PELO COMENTÁRIO SOBRE O GILBERTO MILFONT, MEU QUERIDO PRIMO, CUNHADO, IRMÃO E AMIGO. FM

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  8. O GILBERTO CONTINUA HOSPITALIZAD.O ESTADO AINDA INSPIRA CUIDADOS FM

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  9. Muito obrigada pela resposta. Impossível esquecer pessoas que fizeram nosso passado melhor e que ainda hoje, ao recordar por meio de sua música a minha família já falecida há mais de 50 anos encheram meu coração de ternura.
    Muito grata.

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