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segunda-feira, 24 de julho de 2017

3055 - Montes, ou seja, coleções



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5315 SX                           Data: 24 de julho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


  MALUCOS. OU MELHOR: COLECIONADORES

Li em algum lugar algo que me deixou preocupado. Dizia que colecionar, qualquer objeto que seja, não é coisa de gente boa da cabeça. Por outro lado, quem mantém não uma, mas várias coleções, deve ser mantido acorrentado ao pé da cama.

Estou enquadrado na segunda categoria. Muito preocupado, portanto.

Esse tema ganhou importância quando de minha última mudança, da Anita Garibaldi para a Paula Freitas. As duas ruas ficam em Copacabana. Poderia ser uma operação tranquila. Não foi o que aconteceu, não sou mais um garoto, quase enlouqueci transportando no meu carro, da Anita até a Paula, uma tonelada de equipamentos de som, trens elétricos e miniaturas de automóvel.

Claro que alguém vai indagar: "Cara, você nunca ouviu falar de 'Gato Preto?' Da 'Lusitana?' E de outras dezenas de empresas de mudanças?" A resposta, definitivamente, é "Não me interessa". Colecionadores são ciumentos, desconfiados e neuróticos. Inadmissível confiar a tarefa de transportar suas preciosidades a truculentos e insensíveis funcionários dessas empresas.

Foi o décimo terceiro trabalho de Hércules. Somente minha coleção de canetas, por motivos óbvios, não deu problemas. Duas caixas de sapato são suficientes para acomodar o incrível acervo de canetas Parker que juntei ao longo dos anos. Nos meus tempos de ginásio, ostentar uma "Parker 21," "51" ou "61" conferia ao proprietário status insuperável. Castas inferiores usavam as "Compactor," "Esterbrook" e "Optimat". Seres inferiores, bem se vê. Nunca vou esquecer o dia em que estreei no Santo Inácio minha "Parker 61" azul turquesa, presente de aniversário de meu tio. Algo comparável ao episódio em que os silvícolas saudaram Diogo Álvares Correia aos gritos de "Caramurú! Caramurú"!

Complicado foi transportar meus equipamentos de som. Tenho presente na minha cabeça que a música refinada que aprecio somente pode ser tocada em aparelhos de altíssima qualidade. Receivers Marantz, caixas acústicas JBL e gravadores Nakamichi ou Revox foram acumulados durante anos. Para desespero de minha mulher. O problema é que alguns Marantz e caixas JBL chegam a pesar mais de trinta quilos. Dois anos depois da mudança ainda estou cansado da aventura que foi transportar, num só dia, oito caixas acústicas até a Paula Freitas. Perdi 4cm de altura. Beth teve que refazer a bainha de minhas calças, diante do encurtamento de minhas pernas.

O "carreto" de dezenas de caixas de trens elétricos Lionel também foi uma tarefa olímpica. Minha paixão pelos "Lionel" começou cedo. Paulo Fortes cantou uma "Traviata" no Municipal, recebeu um belo cachê e correu até a Feira de Leipzig, tradicional loja de brinquedos situada na esquina de Sete de Setembro com Rodrigo Silva. Saiu de lá com meu presente de Natal, uma caixa imensa contendo um trem completíssimo, repleto de acessórios. Poucos meses depois, o cachê de um "Trovador" foi transformado em outra caixa gigante. De lá para cá só fiz aumentar meu império ferroviário.

Minha super coleção de miniaturas de automóvel vai ser tratada em minha próxima crônica. Acho que faz sentido, diante da quantidade de histórias envolvidas...

Colecionadores tendem a justificar suas excentricidades apontando exemplos de outros companheiros envolvidos em situações também esdrúxulas.

É o que faço. Tomo como exemplo meu amigo Carlos Alberto Torres, que não é o capitão da Copa de 70. Ele tem uma esplêndida coleção de escudos de automóveis. Daqueles que são afixados nas grades dianteiras dos automóveis antigos. Uma verdadeira maravilha! Mas, para compensar, o Carlos Alberto também coleciona manteigueiras. Imagino que esteja com o colesterol nas alturas.

Roberto Dieckmann, o Editor do "Biscoito Molhado", é um grande ajuntador de barbeadores elétricos. Quando soube de sua mania, fiquei impressionado. Aquilo não me parecia, de modo algum, algo colecionável. Até que tive acesso ao acervo do meu amigo. A evolução tecnológica daqueles artefatos e, especialmente, do seu design, estavam ali presentes a justificar a mania do nosso Editor.

Meu amigo Chicô Gouveia, o famoso decorador, coleciona tudo que diz respeito a "Tintin," personagem famoso de Hergé, o grande desenhista nascido na Bélgica. O médico Henri Braunstein coleciona bicicletas. Não são muitas. Quarenta, talvez. Nada comparável à coleção de latas de cerveja do Ronaldinho. São mais de dez mil. Todas vazias. O conteúdo, ele bebeu faz tempo.

Além desses, costumo relatar mais dois casos com o intuito de provar que não sou tão maluco quanto alguns pretendem insinuar. Em certa ocasião, frequentador da loja Hobby Center na galeria do Cine Bruni Copacabana, conheci um sujeito que disse colecionar "kits" da Revell. Alguém se lembra deles? Eram aviões, automóveis e navios acondicionados em lindas caixas, repletas de partes plásticas que, montadas por pessoas habilidosas, resultavam em verdadeiras obras de arte. Nunca fui um especialista no assunto. Mas a conversa fluiu, até o momento em que não pude disfarçar um certo espanto quando o cidadão me disse que era o feliz possuidor de dez kits do turbo-hélice "Electra," da Varig, há tempos lançado pela Revell. Mesmo inapetente em relação à matéria, eu sabia que aquele era um item raríssimo, disputado a golpes de sabre pelos especialistas. Devo ter feito uma senhora cara de espanto. O certo é que fui prontamente desafiado pelo meu oponente: "Quer ver? Moro aqui mesmo nesse prédio, no quinto andar".

Não tinha nada a perder, aceitei o desafio. Pude constatar que a informação do sujeito não estava completamente certa. Impossível alguém "morar" no tal apartamento. Ele estava abarrotado de kits da Revell. Quantos? Dez mil? Quinze mil? Não sei precisar. Sei que não se podia andar ali dentro. Havia caixas do chão até o teto. Não se via janelas, paredes ou portas. Caminhar entre os cômodos? Chance zero. Dez kits do Electra da Varig? Bobagem... Eu estava diante de um maluco recatado. Devia ter muito mais que isso.

Falta um detalhe para finalizar esse capítulo da crônica. Pois lá vai: todas as caixas dos Revell daquele alucinado estavam ainda envoltas em papel celofane. Jamais haviam sido abertas! O cara nunca havia montado um avião, um navio ou um automóvel! Esse sujeito sim, devia ser acorrentado ao pé da cama...

Outra visita, bem mais recente, também veio atestar minha sanidade mental. Fui convidado a conhecer um gigantesco apartamento em Copacabana, de um senhor interessado, como eu, em miniaturas de automóveis e trens elétricos Lionel. Milhares de trens e carrinhos, amontoados sem o menor critério. A título de brinde, havia, também, uma montanha de equipamentos de som. De altíssima qualidade, notadamente dezenas de gravadores Revox, sonho de consumo dos audiófilos. Completamente destruídos pela maresia. Além disso, o sujeito também mantinha prateleiras e mais prateleiras cheias de aparelhos destinados a testar válvulas. Qual o sentido de colecionar isso? Essa, sinceramente, eu não entendi. Para fechar o capítulo, vale mais um registro. Esse cidadão devia ter, na minha estimativa, uns 90 anos de idade. Ele revelou a necessidade de comprar mais um apartamento, para acomodar suas futuras aquisições.


Sou, portanto, um cara normal. Ou quase...

2 comentários:

  1. Bom dia,
    Lindo texto!
    Nem tudo na vida precisa ter sentido. Costumamos valorizar o consciente e o fazemos durante toda a vida. Um tempero do lúdico faz muita falta. O sentido deve ser o prazer que dá.
    Jamais joguei uma doce palavra escrita no lixo. As amargas também não. Um cartão, um agradecimento, um caderno de meus filhos. Imagine o tamanho da "bagunça". Preciso me desfazer dela. Em cada tentativa meu coração começa a dançar um samba puladinho e fica cada vez mais difícil.
    Benditos sótãos e porões que guardavam a história de uma família!

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  2. Assino o que Elvira escreveu. Faço promessas de me livrar de um monte
    de tralhas e, definitivamente, não consigo cumprir. Pelo contrário, o
    "acervo" só aumenta. Vamos pensar positivamente: talvez seja essa a causa de ter tanta história para contar...

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