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sábado, 29 de julho de 2017

3057 - Come-se bem na Pauliceia Desvairada


           
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5317 LZ                         Data: 29 de julho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO      ANO XXXIV

A RUA DO CAPETA

Não sei se a rivalidade que sempre existiu entre Rio de Janeiro e São Paulo pode ser comparada com as pendengas que envolvem brasileiros e argentinos. Acho até que a coisa está amainando. Muito por conta da decadência que atinge o Rio de Janeiro. Fica difícil exercitar com competência nossa implicância se nossos filhos estão se mudando para São Paulo, em busca de oportunidades, empregos melhor remunerados e um pouco mais de segurança.

Vinícius definia São Paulo como o túmulo do samba. Não sou tão implicante como o poeta. Mas jamais qualifiquei como “um programaço” visitar a Terra da Garoa. Lá compareço, quando necessário. Foi o que aconteceu na semana passada. Uma visita que eu e minha mulher fizemos a uma amiga adoentada.

Cumprido esse ritual, ocorreu-nos conhecer a famosa Rua 25 de março. Ela equivale à nossa Saara. Para quem não sabe, a sigla significa “Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega”. Foi nessa rua que se implantou um imenso shopping a céu aberto, que acabou por se espalhar pelas ruas próximas, todas fechadas ao tráfego de veículos.

Nada a ver com a tal da 25 de março. Aquela foi, realmente, uma terrível experiência! 

Bairrismo à parte, defino aquilo como uma sucursal do inferno (que me perdoe o Capeta). Uma gritaria enlouquecedora, excesso de gente, preços altos e, como se não bastassem todos esses horrores, a rua é aberta ao trânsito! A todo momento os carros só faltam empurrar as pessoas que lá passeiam, olhando as lojas. Na rua os camelôs trabalham em pé, sem mesinhas, atordoando os passantes com ofertas proferidas aos berros. Marisa e eu fugimos apavorados. Mas sem correr. Quem poderia, naquele Maracanã lotado?

Fomos em direção ao Mercado Municipal, ali perto. Que me perdoem os paulistanos, o tal mercadão só é bonito nos powerpoints bairristas por lá produzidos. Trata-se de outro antro super povoado, barulhento e caro. Pastéis a partir de 20 reais! Conseguimos, apesar do tumulto, uma mesa vazia num bar (tremenda sorte, ela vagou quando estávamos por perto...). Sentamos, chamei uma moça, vestida com o uniforme do estabelecimento. Foi logo informando que ali não se fazia atendimento nas mesas. Era preciso ir ao caixa, pedir o que desejássemos e depois, no balcão, pagar o que havia sido escolhido. Marisa ficou me aguardando enquanto eu saía à cata do caixa, distante do local das mesas. Olhei na direção do guichê e observei uma fila maior que a anaconda do filme. E tão feroz quanto. Voltei e expliquei à minha mulher a inviabilidade do nosso projeto.

Decepcionados, retornamos à estação do metrô, três quarteirões adiante. Tivemos que passar de novo pelo tumulto da já temida 25 de março. Foi quando Marisa proferiu uma verdade absoluta: “No Rio, somos felizes e não sabemos!” Fácil explicar: 13 milhões de habitantes, na nossa região metropolitana, provocam um caos menor do que os 20 milhões que atormentam a Terra da Garoa (os ladrões engravatados do Rio de Janeiro deixam de ser contabilizados no fechamento dessa conta...).

Vamos considerar, também, que nossa Saara é toda destinada aos pedestres. E sempre teremos Copacabana! Eu sabia que um dia, de alguma forma, ainda iria parafrasear Casablanca!

Mas, sendo justos, é preciso fazer alguns comentários favoráveis à São Paulo em relação a fatos que lá observamos. O policiamento é ostensivo e numeroso. Bem diferente do Rio de Janeiro. Duplas de policiais a cada meio quarteirão, não só na 25 de março, como nas transversais e dentro do mercadão. A um deles fomos pedir uma informação que nos foi dada com rapidez, conhecimento e cortesia. Outra coisa importante: como funciona bem o serviço de Uber por lá! Carros novos e limpos, motoristas pontuais e gentilíssimos. Preços, além de muito inferiores ao dos táxis, como também no Rio, sempre arredondados para baixo. Nós sempre os aproximávamos para cima. Afinal, eles mereciam. Outro aspecto importante: como os uberistas pareciam felizes de estar transportando cariocas! Tudo era motivo para elogiar o Rio, nossa descontração e bom humor! Alguns deles conheciam um ou outro ponto do Rio e mencionavam isso com verdadeiro orgulho. Um deles, certamente exagerado, chegou a nos dizer que ganhava o dia quando um carioca entrava no seu carro.

Por algum motivo o metrô, quando saímos do tumulto da 25, já estava mais cheio do que quando viemos. Foi meio difícil entrar, mas conseguimos. A mim, graças à minha calvície e remanescentes fiapos brancos, gentilmente foi oferecido um assento. Que eu sempre aceito por causa do meu menisco rompido. Voltamos, então, para a estação próxima do hotel. Fica dentro do Shopping Santa Cruz. Em sua praça de alimentação come-se com conforto e preços módicos. Daí, sensatamente, fomos relaxar no excelente quarto do Hotel Planalto, na Rua Afonso Celso, Vila Mariana. Seu dono, Sr. Manoel, merece também um comentário: português dos sapatos aos cabelos pintados de preto, aparentando estar na faixa dos 60, ao lhe escutar o sotaque, perguntei de que região ele era. “Nasci aqui na capital mesmo, fui criança para Portugal e retornei ao Brasil já adulto.” Espantoso! E o homem era de uma simpatia total. Grande empreendedor, é proprietário de três hotéis e de um restaurante. Muito simples, ele rega o jardim do hotel sem tirar o paletó! “Faço isto porque gosto, tenho quem o faça, mas eu faço melhor,” e sorriu.

À noite chamamos um Uber que nos levou a uma “trattoria,” no Bexiga, chamada “Belvedere”. Lá, em ambiente tranquilo e simpático, fomos atendidos por um garçom idem e, com música ao vivo que compreendia Roberto Carlos, além das manjadíssimas, mas sempre agradáveis, “Volare”, “Champagne” e “Roberta”. Pedimos uma massa de que nunca havíamos ouvido falar: “mezzalona”. Muito massuda, mas o molho e o parmesão, a bem da verdade, estavam maravilhosos. Na saída, fui falar com o dono, Signor Sesto, em italiano, naturalmente. Um cidadão idoso e irradiando amabilidade, ele encheu meu ego perguntando se eu era italiano. Respondi que era filho de pai italiano e que falava sua língua desde criança, por isso, sem o sotaque brasileiro. Brincando com ele, disse que só tinha o sotaque de brasileiro quando falava português. Não sei se ele entendeu..
.

Na próxima ida à São Paulo, pretendo mostrar à Marisa a elegância e as delícias da chiquérrima Rua Avanhandava.

(*) Luciano Zanelli estreou hoje no seu O BISCOITO MOLHADO e nos enche de preocupação. Além de perdermos eventuais leitores paulistas, percebemos que dos seis leitores reconhecidos, cinco já são redatores. Só falta a Elvira.

7 comentários:

  1. Ontem escrevi pensamentos poéticos (não gosto de chamar de poesia) que mandei para minha neta justamente sobre o escrever. O nome que dei, Palavras, fala justamente da vergonha pela palavra exposta. Termina assim:
    .....
    "velhas, enegrecidas,
    Por tantos anos acanhadas,
    escondidas,
    Pobres coitadas,
    Mas...
    Nunca esquecidas.

    Diz o ditado "pretensão e água benta cada um pega a que quer."
    Lembra da crônica sobre coleções? Nela comentei que meu coração dançava um samba puladinho cada vez que eu tentava me desfazer da "bagunça". São os meus escritos. Jamais mostrados a qualquer pessoa. Apenas para aliviar meu coração, sem qualquer pretensão.
    A senhora Pardal continua aqui apenas para apreciar o cantar mavioso de tão gentis Canários.

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  2. Parabéns, Luciano. Bela estréia!

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  3. Competente "inauguração" dos escritos do Luciano Zanelli. Mas é preciso tomar cuidado com ele. Essa conversa de mezzalona me deu uma fome danada. Não resisti e devorei uma massa pronta da Sadia. Que estava ruim prá danar...

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  4. Não resisti a dar uma receita de massa pronta Sadia. A única que compro é a pizza de quatro queijos. Faço assim:
    Com uma faca bem afiada abro a borda. Faço uma "limpeza" na geladeira catando eventuais restinhos. Sobras de queijo, requeijão, salame, tomate seco e até de ensopadinho de vagem. Espalhe sobre a massa.
    Feche como uma calzone. Aproveite as bordas abertas, umedeça e use um garfo como no pastel para fechá-las. Pincele com molho de tomate, Pomarola ou qualquer um do seu gosto. Cubra ou não com queijo ralado, orégano ou manjericão. Faça pequenos furinhos para saída do ar.
    Fica mais nutritiva e melhora bastante o sabor.
    Viu? Isso é o que dá dar confiança para uma "mama" atrevida!

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  5. Em tempo: O Biscoito pode ficar tranquilo, minhas receitas não abalam o maravilhoso site.

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  6. Anotado!
    Elvira acaba de inaugurar o " Biscoito Culinário " ! Lá vou eu de novo para o micro - ondas...

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  7. Huuuuuummmmm!!! Micro-ondas? Não!!! Odeio! Forninho elétrico ou a gás. Precisa coser e tostar. Descongele antes, aí sim, pode ser no micro.
    Mil perdões, desculpa, lamento, espero não ter ficado "ruim prá danar"! rs

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