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domingo, 21 de maio de 2017

3036 - O jornaleiro do quarteirão



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5286 FF                           Data: 21 de maio de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


87 PASSOS        

Era uma criança solitária. Não fazia amigos. Muito tímido. Não havia tantas alegrias, mas uma supria todas.

Acordava e escovava os dentes correndo, já pensando nos passos. Eram 87, contados todos os dias, até a banca inscrição modelo B, número 45, quarta inspetoria, ou simplesmente a banca do seu Hugo. Um caminho feliz, com cumprimentos aos porteiros e abelhas verdes a minha volta.

Seu Hugo era um senhor baixo e de sorriso largo. Não tirava aquele sorriso do rosto. Sua banca, simples como ele, era o sustento de sua família. Não dava muito dinheiro, imagino, pois ficava numa rua de ricos e ricos não andam a pé. Acho que ricos nem gostam de banca e as assinaturas começavam a crescer.

Eu era rico, mas amava aquela banca. Meu primeiro contato com a leitura, hoje uma obsessão, foi com os quadrinhos. E o seu Hugo, longe de ser um entusiasta, sabia tudo que eu gostava, quais revistas saíram e os lançamentos que poderiam me interessar. Comecei com os quadrinhos chamados infantis. Mônica, Cebolinha, Pato Donald, Tio Patinhas. Cresci e fui para os heróis. Homem Aranha e seus problemas existenciais, Batman, Super Homem e a solidão característica do ser diferente. E havia a conversa com meu amigo. Falávamos muito de futebol e política. Duas paixões em comum, numa época em que o Brasil se abria politicamente e não ganhava uma Copa há tempos. Aquela banca foi meu primeiro emprego também, durava meia hora no máximo, é verdade, mas era eu quem cuidava dela quando seu Hugo ia ao banheiro.

Com o tempo comecei a desviar os olhos dos quadrinhos para as mulheres peladas, mas faltava-me coragem para pedir pelas “revistas proibidas”. Seu Hugo, contudo, não era bobo.

- Coisa boa, né – mostrando a capa da revista.

- Sim – respondi completamente sem graça.
- Pode levar se quiser.

- Tem minha mãe...

- Compra o jornal e faz assim, oh...

Mostrou-me o óbvio. Colocar a Playboy dentro do jornal. E assim o fiz. Levei a Mara Maravilha para casa e me acabei. Ainda posei de garoto intelectualmente precoce, comprando o Jornal do Brasil, um jornal mais intelectual do que O Globo.

E assim os anos passaram. Eu nunca deixei de fazer os 87 passos. A frequência não era mais a mesma, é verdade, a caminhada ao encontro do meu amigo e das minhas fantasias deixou de ser diária, virou semanal, às vezes nem isso. Os estudos aumentaram, fiz amigos, ampliei meu mundo. Os passos aumentaram e começaram a ir para outras direções. O hábito diminuiu, contudo não morreu, até uma manhã de 1994.

Um dia cheguei à banca e ele não estava lá. Sua esposa o substituía, algo que acontecia com alguma frequência, mas acontecia, então não me preocupei. Uma semana depois, ao voltar à banca, a vi fechada. Isso nunca tinha acontecido e me preocupou. Voltei ao passado e o trajeto de novo virou minha rotina diária. Os 87 passos. Dessa vez de forma rápida, preocupada, não para comprar revistas, mas para ter notícias do meu amigo, meu primeiro amigo. Todos os dias esperava ver a banca reaberta e conversar com seu Hugo, como antes, sem pressa. Dar detalhes da minha vida e saber detalhes da dele.

Esse dia nunca chegou. A notícia, que de certa forma esperava, veio. Seu Hugo morreu. Um protagonista da minha vida, um amigo se foi. Nunca me despedi. Nunca disse um tchau. Nunca o agradeci pelas conversas e jamais disse que ele foi importante para mim. Nunca soube da vida dele na verdade, dos sonhos, tristezas e alegrias.
A banca ficou fechada por uns dois meses e reabriu. Com a mesma cara, mas sem aquele sorriso largo. Minhas idas diminuíram cada vez mais. Passei a assinar muita coisa, comecei a trabalhar, namorar e ter amigos. Cresci, casei e mudei. Minha mãe, contudo, nunca saiu da rua dos 87 passos.

Em um desses almoços familiares, resolvi visitar a banca, depois de muitos anos. O trajeto familiar, os porteiros alguns os mesmos, as abelhas verdes não mais. De longe já vejo a mudança. Lataria maior, a inscrição não mais existe, uma propaganda gigante ocupa a parte de trás da banca. Chego e vejo uma variedade de revistas enorme, geladeira, cigarros, balas. Os quadrinhos em um canto, escondidos. Entro constrangido, como que procurando seu Hugo, para uma última conversa. Quero contar a minha vida, quanto as coisas mudaram e como acabamos sempre no mesmo lugar. Como a criança não nos deixa. Pensamentos me dominam e meu olhar perdido dentro da banca talvez incomode o dono. Com um sotaque italiano me pergunta:

- O senhor está procurando alguma coisa?


- Sim, procuro, mas não está mais aqui.

6 comentários:

  1. Também tive a minha Banca e embora nunca tivesse contado os passos, examinava os pombos para certificar-me que o malhadinho e o branco estavam lá. O dono era um rapaz bonito, facilitador da minha grande paixão. a literatura que ali também teve início, nas HQ.
    A criança não nos deixa, é fato. Acredito que quando retornamos a ela estamos, é sim, atrás da nossa inocência, infelizmente, perdida.

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  2. Biscoito,
    Respondi a sua pergunta do dia 13. Desculpe não ter visto antes.
    O site é:
    http://clubedeleituraicarai.blogspot.com.br/
    A resposta está lá no dia 13/05.

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    1. Vou lá ver. A gente aqui se atrapalha às vezes. A ideia era só atrapalhar os leitores.

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  3. Desculpe não ter visto a sua pergunta. Hoje vim refugiar-me aqui e como tenho um hábito, gosto muito de reler os mesmos contos, li o de hoje e voltei até aqui. Vamos a resposta:
    O CLIC é um clube de leitura completamente gratuito que já funciona há bastante tempo, nove ou dez anos e é presencial apenas uma vez por mês se o leitor desejar ir até Icaraí - UFF, para a reunião onde se debate, melhor, onde cada presente fala sobre o livro escolhido para aquele mês. O site você coloca no Google Clube de Leitura de Icaraí e a data e o acesso é imediato.
    Minha neta frequenta e ontem na reunião falou sobre Clarice Lispector, no Varandas da Literatura.
    Eles, sem dúvidas, irão adorar o seu site. De tudo que percorri sobre Literatura na NET foi o mais interesse pela força que dão àqueles que escrevem. Acesse, vc vai gostar.

    (Achei melhor transcrever do dia 13 para cá. Mais fácil.)

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  4. O dia não era 13 e sim, 09/05.
    Leia-se:
    foi o mais interessante pela...

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