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sábado, 27 de maio de 2017

3039 - O nome da rosa



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5289 FM (*)                          Data: 27 de maio de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


DOCES LEMBRANÇAS DA ROSA

Há algum tempo, caminhando à toa num Shopping da cidade, vi que em minha direção duas mulheres se aproximavam, uma já bastante idosa, porém com um certo vigor. 

Quando estavam perto, parei, olhamo-nos e eu arrisquei:
- Rosa?
- Sim!
- Lembra-se de mim?
- Mais ou menos...
- Dos já longínquos tempos, fomos colegas de ginásio. Éramos não mais que pré-adolescentes.
- Ah É verdade, lembro, sim. Às vezes nossos olhares se cruzavam...
- Eu era muito tímido (para os meus botões, falei: e as pernas também).
- Esta é minha filha, Luiza. É advogada. Somos colegas. Eu também fiz direito. Trabalhávamos no nosso escritório, com dois outros colegas. Agora, estou aposentada. Antes, graduei-me em Literatura. Segui o caminho que o nosso professor dizia: para aprender Português, o Latim é essencial. Tenho outro filho, é médico.

Luiza estendeu-me a mão, disse-me muito prazer, e eu: “o prazer é meu, Luiza”.
- Eu também tenho dois. O filho é arquiteto, a filha é engenheira. Tenho quatro netos. Adivinha o nome da minha mulher...
- Rosa?
- Rosa Maria. Talvez, pelo nome dela, eu tenha tido você, quase sempre, nos meus pensamentos. Você e o Latim. Lembro-me, com saudades, do nosso tempo de jovens, quando não pensávamos em futuro.
- Ora, que ideia! Faz tanto tempo! Mas a vida é assim, até as pedras se encontram.
- “No meio do caminho tinha uma pedra...” como dizia o poeta. E foram muitos os caminhos que tivemos de atravessar!
- É verdade.
- Sabe, não é esta a primeira vez que nos encontramos. Há alguns anos, em Nova York, quase arrisquei-me a cumprimentá-la, temi não ser reconhecido.
- Que pena! Eu também o reconheci...
- É isso, coisas do destino. Mas agora estamos nos encontrando, para minha surpresa e meu prazer. Vi você com os dois filhos e um homem, que presumo ser o seu marido.
- Foi. Morreu.
- Sumiu, disse quase ao mesmo tempo a filha.
- Fugiu com uma vizinha, louco de paixão. O marido ficou atônito e eu fiquei perplexa. Foi um choque. Éramos casados há 17 anos.
- E daí?
- Daí é que, depois de alguns anos, ele arrependeu-se, pediu perdão, queria voltar a viver comigo, recusei, ele insistiu, queria pelo menos voltar para o nosso escritório, é também advogado. Disse-lhe que não ia dar certo, o assunto terminou aí. Ele foi cuidar da vida.

Ficamos calados por alguns segundos, que pareceram horas. Não tínhamos mais nada a dizer, e eu:
- Rosa, Rosae, Rosa...Rosarum...Sei lá! Não consigo passar da primeira declinação, esqueci tudo. Rimos os três, despedimo-nos, ela estendeu-me a mão, apertei-a e disse:
- Sabe, foi a primeira vez que toquei em sua mão!
- Estou sensibilizada. Riu, segurou a mão da filha, disse adeus.
- Adeus, respondi, seguimos nossos caminhos.

Essa agradável e inusitada surpresa levou-me de volta ao passado. Não sei bem se o título reflete meu estado de espírito, tomado repentinamente por uma lembrança, nem sei se foi fato ou imaginação de adolescente, que carece ser explicado.

Terá sido não mais do que um desejo íntimo, nada que pudesse provocar um AVC ou coisa grave, é apenas recordação de pequeno detalhe de algo passado há algumas dezenas de anos, no tempo dos bancos escolares, quando nos enveredávamos pelos ablativos ou nominativos da vida, exigidos pelo esforço professoral, e o desleixo dos alunos pouco interessados nas declinações latinas, obrigatórias para que o Português pudesse ser aprendido convenientemente entre as lições da Matemática, do Inglês ou do Francês, tudo necessário para o que viesse a ser necessário para a vida, no futuro.

Pois foi ali, diante do professor, sentado em sua cátedra sobre um tablado de madeira, para lhe dar mais poder sobre os aprendizes, que fui chamado para expor o declinatório latino, que duas reações diversas me assaltaram, a primeira, o medo de errar na sabatina. A segunda, mais profunda, que teria sido vislumbrar, num relance, a rosa da sensível Rosa sentada na primeira fila das carteiras, ao cruzar displicentemente as rosadas pernas e permitido as divagações do talvez ainda inocente bisbilhoteiro que terá visto mais do que o oferecido. Porém, o rápido descuido ocasionou, pelo inaudito, suores e respiração ofegante diante do que provavelmente pudesse ser o vislumbrado. 

Pois a inocente visão imaginada surgiu de repente, como se a própria Rosa estivesse postada agora, na minha presença a perguntar, com voz sensual e ar insolente: “Lembra-se de mim?”

Fiquei sem saber responder, atônito, e logo relembrei aquele olhar de esguelha ( termo machadiano que bem merece ser citado, para reforçar a ideia de antanho), que se completa com o enviesado, veloz e voraz da inquietude adolescente.


Posto o latim em seus devidos termos, o que vem à lembrança é a referência ao desassossego inicial da visão inocente da rosa dos meus primeiros pensamentos deletérios. A Rosa jamais soube, sequer terá admitido o olhar enviesado no oculto objeto que povoou  meus sonhos por algum tempo, pelo menos enquanto durou o estafante porém necessário aprendizado da língua morta. Juntando tudo, não sei se foi tempo perdido o custoso aprendizado nas aulas das declinações ou o bisbilhotar meio despudorado no inocente cruzar das rosáceas pernas da inquietante Rosa.

(*) FM são as iniciais de Fernando Milfont.

Um comentário:

  1. Boa lembrança, Milfont.
    Gilberto Milfont, Rádio Nacional, carnavais, músicas que não se esquecem, jamais.

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