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sábado, 6 de maio de 2017

3031 - O canto do cisne. Drama.



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5280 SX                           Data: 06 de maio de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV

  AS  AGRURAS  DE  ANACLETO

Na mitologia grega, Caronte, o barqueiro, carrega as almas dos mortos recentes sobre as águas do Estige e do Aqueronte, rios que dividem o mundo dos vivos do mundo dos mortos.
Anacleto, alvo de nossa reportagem, passava boa parte do tempo na ante-sala próxima ao quarto de sua mulher, Dorotea. Na expectativa da chegada de Caronte.
Dizendo-se apaixonado, com ela se casou já na idade madura. Achou que isso poderia ser a solução de seus problemas. Dorotea era rica. Feia de doer. Isso não lhe causava problemas. Até porque não olhava para ela. Incômodo? Só um. Os amigos que lhe deram o apelido de São Jorge. Aquele que sabe lidar com o dragão.
A doença grave de Dorotea deixara Anacleto animado. Ela não saía mais da cama, perdia peso a olhos vistos e a cor de sua pele assumia tonalidades dignas de um pintor renascentista deprimido.
Mas se recusava a morrer. O marido mantinha as aparências. Especial-mente diante do cunhado, que ele odiava. Este administrava com mãos de ferro a fortuna da família. Anacleto tinha certeza de que o sogro, já falecido, fazia dele péssimo juízo. Certamente teria instruído o filho a vigiá-lo de perto.
Diante dessas evidências, nosso herói ficava na torcida para que Dorotea partisse dessa para a melhor antes que Ribamar, o cunhado, armasse algum estratagema para afastá-lo da dinheirama da família.
Representava bem seu papel. No que contava com a cumplicidade do porteiro do prédio. Este sempre o alertava sobre a chegada do cunhado. A tempo de Anacleto se colocar na cabeceira da mulher, solidário e carinhoso. A cena era sempre a mesma. Segurava com carinho a mão de Dorotea. Sem que se percebesse que aquele era o momento em que a doente encontrava forças para tentar quebrar os ossos da mão do marido que, ela sabia, tantas vezes a enganara.
Os dias assim se passavam. Na ante-sala, à espera de Caronte, Anacleto pensava nas peripécias que haviam marcado sua trajetória no Rio de Janeiro, desde que chegara da Paraíba, em 1952. Fora importado por seu tio, o Deputado Federal Renan Nonato. Sua mãe, viúva, passava por dificuldades. O irmão lhe acenara com a possibilidade de empregar Anacleto na Câmara dos Deputados. O que foi feito. Emprego mixuruca, já que os melhores cargos do gabinete estavam ocupados por mulheres que não iriam certamente alcançar o reino dos céus. Na avaliação do Deputado, um emprego na dimensão certa para formar o caráter e reforçar a têmpera do sobrinho. 
Foi curta a trajetória de Anacleto sob o amparo do tio Renan. A tragédia aconteceu no momento em que as coisas começavam a melhorar. Acreditava o sobrinho que muito cedo viria até mesmo a participar das estripulias patrocinadas pelo tio deputado.
O ano de 1958 chegava à metade quando Renan Nonato resolveu visitar suas bases eleitorais na Paraíba. Queria participar das eleições municipais que lá iriam transcorrer. Incorrigível, envolveu-se com a filha de um inimigo político, que jurou-o de morte. Dito e feito, em meio ao café da manhã servido num hotel do interior, foi surpreendido pelos capangas de seu desafeto. Prevalecem, até hoje, duas versões para sua morte. Segundo alguns, teria sido decorrência de violentos golpes de melancia que levou na cabeça. Outros afiançam que teria sobrevivido a essa agressão, com o que seus algozes decidiram asfixiá-lo enfiando-lhe uma jaca pela cabeça, até a altura do colarinho. Por uma questão de compostura, parentes e aliados políticos providenciaram um atestado de óbito que atribuiu o desenlace a um ataque cardíaco sofrido no exato momento em que o rádio bradou o solitário gol de Pelé contra o País de Gales, na Copa de 1958.
Desde então a vida de Anacleto desandou. Lembrava-se de vários episódios perturbadores, alguns dos quais noticiados com destaque nos jornais. Entre esses a ocasião em que perdeu os freios de seu velho Chevrolet, herança do deputado, no cruzamento da Avenida Copacabana com Figueiredo Magalhães. Foi obrigado a avançar o sinal e, para não atropelar uma velhinha que brandia um guarda chuva em sua direção, invadiu a Casa Gaio Marti, sendo soterrado por toneladas de latas de goiabada e extrato de tomate. Trabalhou três anos para pagar o prejuízo.
Outros episódios trágicos acorriam à sua mente. Entre eles o incêndio que consumiu seu automóvel no estacionamento da boite Fred´s... A batida na Cadillac de Tenório Cavalcanti, que rendeu-lhe oito meses de hospital... O dia em que quase foi linchado quando, bêbado, atravessou a Galeria Menescal a sessenta quilômetros por hora, certo de que trafegava na Rua Santa Clara.
Tudo ia de mal a pior, até acontecer o casamento com Dorotea. Ela ficou doente, e ele muito animado. Bastava-lhe aguardar a chegada do tal Caronte. Que não aparecia nunca. Possivelmente engarrafado na Linha Vermelha. Ou, quem sabe, retido em alguma blitz da Lei Seca.
Sua paciência foi se esgotando. Resolveu dar uma ajudinha para acelerar o processo. Instalou um sistema de som no quarto de Dorotea. Escolheu uma programação musical que privilegiava a música sertaneja. Programas de televisão também foram escolhidos a dedo. Ivete Sangalo, Claudia Leite, Daniela Mercury...Insuportáveis programas humorísticos do Multi Show também ganharam espaço especial na TV de Dorotea. Filmes iranianos...Séries culinárias...Carnaval baiano...a tudo ela resistia.
Anacleto resolveu radicalizar. Providenciou vídeos com as novelas bíblicas da TV Record. Concursos de canto envolvendo crianças e o programa da Bela Gil também não foram esquecidos. Nada dava certo. Dorotea até mudava de cor. Mas resistia bravamente.
Numa atitude extremada, providenciou uma fita com várias horas de pronunciamentos da “Presidenta” Dilma Rousseff . Inadvertidamente, assistiu parte deles. Quando o cunhado Ribamar chegou para a visita de praxe, encontrou Anacleto e Dorotea em paz. Calmos e, como sempre, de mãos dadas.

Estavam mortos.

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