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sábado, 13 de maio de 2017

3033 - O profissional



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5282 SX                           Data: 13 de maio de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXX   

APRENDENDO COM QUEM SABE

Eu transbordava de orgulho. O convite do Roberto Machado era a prova inconteste de que eu havia sido incorporado à comunidade dos colecionadores de automóveis antigos do Rio de Janeiro.

Roberto, um importante “cardeal” do Veteran Car Clube, me chamara a participar de um evento muito especial: aguardar, na oficina do saudoso Luisinho Pestana, em São Cristóvão, o Chevrolet 1937 do Rubem Lima, que ali chegaria rebocado para completar mais uma etapa de meticulosa restauração.

A deferência de participar desse importante acontecimento eu devia creditar à aquisição do Chevrolet 47, do Fernando Carneiro Leão. Aos poucos me aproximara da comunidade veterana. As reuniões do Clube do Trem, tradicional reduto de colecionadores de trens elétricos, que eu promovia em meu apartamento, nas noites de segunda-feira, haviam sido invadidas pelos colecionadores de carros antigos, trazidos pelo Skipper, amigo de longa data.

Combinei com o Roberto Machado que ele iria me pegar às 8:00 horas. Disciplinado, desde 7:45 eu já estava a postos na portaria de granito vermelho do meu prédio na Avenida Rui Barbosa.

Chega o Roberto em sua Belina reluzente. Dando início ao papo, meu anfitrião mais uma vez ressaltou a dimensão do evento que iríamos testemunhar. Dele participariam, além do Luisinho e do próprio Rubem, também o Armandinho Maia, o José Maria Velho da Silva e o Dario Mesquita.

Ao longo do trajeto, Roberto Machado brindou-me com uma longa digressão sobre os mistérios e as peculiaridades da nova atividade que eu estava abraçando. Extasiado, eu sorvia com avidez informações sobre mecânica, lanternagem, estofamento e parte elétrica de automóveis antigos. Um mundo à parte, Roberto não parava de ressaltar. Mecânico de carro antigo não tem nada a ver com trocador de peça de oficina autorizada, alertou. A mesma coisa se aplica a eletricistas e capoteiros. Lanterneiro, então, nem se fala...

Chegamos ao nosso destino, sendo recebidos com festa pelos demais colecionadores. Sentia-me em casa. Meus novos amigos continuavam a me brindar com vastos conhecimentos sobre o automóvel antigo, novo alvo da minha paixão.

Feitas as contas sobre o horário provável da chegada do Chevrolet, decidimos todos aguardar do lado de fora da oficina a conclusão da empreitada.

Ali fiquei sabendo que rebocar um carro antigo também não era coisa para qualquer um. A tarefa demandava reboques especiais e, sobretudo, reboquistas extraordinariamente capacitados, com larga experiência na função. E esse, sem dúvida, era o caso do “Seu Genésio”, profissional contratado pelo Rubem para transportar o precioso Chevrolet.

Fui devidamente alertado para a dimensão e encantamento do espetáculo que estava prestes a assistir. “Uma folha seca de Didi”. Comparou Armandinho Maia. “Uma pirueta de Nijinsky”, lembrou José Maria Velho. Esses eram os parâmetros citados pelos meus amigos para asseverar a proficiência das exóticas manobras que seriam dali a pouco executadas pelo intrépido reboquista, ao se desincumbir da tarefa de encaixar o automóvel do Rubem Lima no estreito portão da oficina do Luisinho.

Pouco depois o inexcedível reboque adentrou a Rua Antunes Maciel. Encarei “Seu Genésio” com obsequioso respeito. Rugas e cabelos brancos, que traduziam indiscutível traquejo, em contraste com a vivacidade do olhar de submarinista alemão, estavam ali para confirmar a competência assinalada pelos veteranos presentes.

“Seu Genésio” saltou do reboque e encarou com firmeza o portão da Oficina Humaitá. Fixou o olhar no Chevrolet e voltou mais uma vez sua atenção para o portão. Ergueu em seguida a mão e, com um dedo apontado para o céu, parecia estar calculando alguma coisa. Ou sentindo a direção do vento, até hoje não sei bem. Finalmente, entrou no reboque e acelerou, dando início à intrincada manobra. Para a frente e para trás, em alta velocidade. A tudo assistíamos, eletrizados. Finalmente, no sexto ou sétimo “vai e vem”, o Chevrolet pareceu estar devidamente apontado na direção do portão. Genésio confirmou a mira e pisou fundo no acelerador, cravando o Chevrolet no muro da oficina. Uma porrada monumental. A rua chegou a tremer. Perdi a cerimônia e me aproximei da traseira do automóvel para conferir os estragos, sob uma montoeira de reboco, tijolos e poeira.

Voltei o olhar para meus companheiros, a tempo de conferir seis expressões de absoluta perplexidade. Que não durou muito. Segundos depois, todos participavam de uma animada reunião, discutindo com o reboquista os aspectos técnicos do incrível atentado perpetrado contra o muro do Luisinho.

Espantado, atônito, só eu. Um novato, bem se vê. Minutos depois já ocupávamos uma farta mesa no bar da esquina. Cerveja, bolinhos de bacalhau e gargalhadas à vontade. Nem menção ao retorcido Chevrolet do Rubem.

Naquele momento, definitivamente, eu ingressava no mundo maravilhoso do automóvel antigo.

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