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sábado, 20 de maio de 2017

3035 - O pátio cinza



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5285 D                           Data: 20 de maio de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXX   


O SÍMBOLO

Os alunos do Colégio Militar do Rio de Janeiro sempre formaram um grupo a parte. Sofriam bullying como cachorrinhos matriculados e outros apelidos, usavam quepe e batiam continência, andavam de cabelo de recruta no tempo dos Beatles e enfrentavam batalhas campais contra os alunos, ora do Pedro II, ora da Escola Técnica. Aliás, como aluno, nunca ouvi falar de uma briga do Pedro II com a Escola Técnica. Nós, do CMRJ, é que estávamos sempre incluídos. Particularmente, nunca participei de nada parecido, mas um pátio dentro do Colégio, que era batizado com o nome do aluno Horacio Lucas, fatalmente atingido em uma dessas contendas, lembrava-nos desse passado nada glorioso.

Juntando-se todas estas particularidades, podia-se dizer que era muito fácil entrar numa briga, ou ficar sem fim de semana, mas era muito difícil arrumar uma namorada.

Apesar de tudo, sobrevivíamos com revistas diárias, de corte de cabelo, botinas brilhando e fivela do cinto resplandecente, sempre um ponto acima do brilho do sapato.

Tratava-se de uma tortura diária e cada milímetro ganho no cabelo poderia significar uma detenção ou até punição maior, em caso de reincidência. Mas, como a tudo que é diário você se acostuma, havia a troca de informações do tipo de como envernizar a fivela para mantê-la limpa por uma semana, ou se Brasso era melhor do que Kaol.

Em 1966, a minha turma incluiu nas atividades escolares o CFR, Curso de Formação de Reservistas, onde adentrávamos um pouco mais na vida militar, fosse marchando 16 quilômetros pelo Alto da Boa Vista, fosse desmontando e montando o famoso Mosquetão 1908.

As turmas de alunos foram divididas entre as 3 armas principais do Exército: a Cavalaria, a Infantaria e a Artilharia. Como só a Artilharia possuía veículos a motor, a minha escolha foi natural, pois eu já dirigia e, se era para participar do desfile militar obrigatório para o alunos no CFR, que fosse sentado. A velha predileção pela Lei do Menor Esforço mais uma vez se apresentava e, mais uma vez, viria a me pregar peças.

A rotina na Bateria de Artilharia era supervisionada por um tenente exigente, o Divanir, ou nome parecido, mas que, de divã, ou conforto, nada tinha. Caísse um aluno na preferência dele e a medida do corte de cabelo era aumentada em um dedo. Eu caí.

Nunca fui indisciplinado total, mas também nunca primei pelo uniforme bonitinho. O Divanir sempre me achava nos dias piores e, embora leves, minhas punições se acumulavam. O resultado disso foi que minha avaliação não era nada boa e quando chegou a época de escolher quem iria nos caminhões, eu sobrei.

Sobrar para o quê, ou para onde? Logo saberia.

“- Os alunos que não estão relacionados nos veículos motorizados, Bateria, formar!”

Como suprema ironia, Divanir me tirou do grupo, me nomeou chefe da bateria e deu a ordem para eu conduzir a bateria até a Infantaria, onde nos incorporaríamos ao Batalhão. Que eu procurasse o Batalhão.

Da Artilharia até a Infantaria havia mais de 500 metros, passando pelo estádio esportivo e por uma longa alameda sombreada, com árvores do tempo do Império. Um suicídio até soaria honroso, mas não tínhamos nem cordas e nem havia precipício. Sem opção, o jeito era ir.

E lá se foi a Bateria serpenteando, numa marcha nada digna do nome, chutando as pedrinhas que houvesse. Depois que atravessamos a Alameda, vimos a Infantaria impecavelmente formada. Demos uma ajeitada no grupo e, marchando, entramos no pátio onde um capitão instruía seus comandados.

Chegando próximo, ordenei “Bateria, Alto!”.

Era horrível. Cavalaria tem os seus cavalos e forma o Esquadrão. A Infantaria tem seus mosquetões e forma seu Batalhão. A Bateria tem canhões e nós não tínhamos nada, nem nas mãos e nem dentro do corpo. Não era uma bateria, era uma bateria de nada.

A “bateria” estancou e fui me apresentar ao Capitão Vereza, bem conhecido por ser irmão do ator Carlos Vereza e com jeitão de simpático. Ele me olhou, respondeu ao cumprimento e foi nos receber. Logo percebeu que nossos rostos tinham a cor tão cinza quanto o cimento do pátio.

Devia ser psicólogo. Imediatamente deu um fora de forma para os infantes e para nós, antes que a nossa animação contaminasse o seu batalhão; e que formássemos um grupamento só, por ordem de altura. Isso já alterou o rumo das coisas, todos éramos colegas, e achar a altura sempre tem ar de entrosamento, entre esbarrões e empurrões.

Formados, o Vereza entrou entre as colunas e foi tirando uma meia dúzia de alunos, eu entre os escolhidos. Disse a cada um selecionado o que ele carregaria no desfile de 7 de Setembro: a um, a bandeira do Brasil, a outro, sei-lá-o-quê e a mim, o Símbolo da Infantaria. Alem do símbolo, eu não usaria quepe e sim um barrete vermelho tipo francês, com um penacho felpudo verde e amarelo, de quase um palmo.

Eu deveria levar para o meu armário o barrete francês. Com naturalidade, passei, rápido, bem na frente do Divanir, que percebeu o barrete quase escondido e saiu atrás de mim, perguntando o que era aquilo; eu com passo quase de corrida, trazendo-o praticamente a reboque, expliquei: “Nada demais, tenente. Fui escolhido como Símbolo da Infantaria. Bacana, né?”

Desde então, quando ouço no Hino da Infantaria, a estrofe “... És a nobre Infantaria, das Armas a Rainha...” concordo e aplaudo, quieto, de dentro do coração.











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