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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

3011 - a BIC azul-claro


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O BISCOITO MOLHADO

 

Edição 5260D                                 Data:  29 de janeiro de 2016

 

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ENTRE A CRUZ E A CALDEIRINHA

 
Estávamos tranquilamente no BRT do Céu, Simonsen, Paulo Fortes, Cole, Biscoito e eu, quando ingressamos na Avenida Suburbana, não renomeada de Helder Câmara, visto que ele aqui é vivo e não deve ser homenageado. Na altura de Maria da Graça, o coletivo deu uma meia parada com a porta aberta e o Biscoito não se conteve:

- Gente, aqui é o meu lugar, venham comigo!

Indecisos frente àquela ordem inusitada, vinda de personalidade que nem sempre sequer fala o que pensa, titubeamos o suficiente para não descer e escutar um PIMBA! E vimos nosso colega ser arremessado 200 metros por um Fiat 147 azul.

- Foi um Deus nos acuda, na acepção da palavra, mas antes que o próprio Deus acudisse, apareceu um guarda de trânsito que era vermelho como um camarão e tinha um discreto rabo, também vermelho, serpenteando entre as pernas.

Desconfiamos que pudesse ser o Diabo em pessoa, mas Simonsen, ex-aluno do Santo Inácio, além de primeiro colocado, sentenciou: aquilo não é um rabo, é só uma fantasia neste Carnaval em que moramos!

Simonsen enganou-se mais uma vez, diria o Delfim, que ainda não chegou e, portanto, nada ouvimos. E era mesmo o Diabo, que levou a todos, Fiat 147, motorista e atropelado – no caso, o nosso Biscoito.

Era agora o emprego literal de: “... e o Diabo que os carregue”, que se aplica a qualquer acidente de trânsito que ocorra no Céu, onde tudo tem que ser perfeito. Em três minutos, toda a cena se desfez.

E nós, no ônibus, ficamos alvoroçados, lógico, mas um querubim chegou voando, com uma mão a pedir tranquilidade e disse: “É assim, aqui no Céu. Quem trata das ocorrências, julgamentos e punições é o Lá de Baixo, pois é Lá Embaixo que ficam esses departamentos, digamos, policialescos, com todas essas classes profissionais que não existem no Cá em Cima.”

-Sim, disse Simonsen, disciplinado, mas como poderemos saber o que acontecerá ao nosso amigo?

- Queremos saber, queremos depor... já fui testemunha de inúmeros casos terrenos de aposentadorias e sei como manusear os argumentos favoráveis – trombeteou, com pausas precisas, a voz poderosa de Paulo Fortes.

-E se ele demorar? Poderá ficar por lá forever and a day, emendou sem traduzir, Cole Porter, capturando da minha canção Love is Here to Stay, a melhor frase...

Ante tal turbilhão de vontades, calei-me, afinal tudo já tinha sido dito.

- Nada posso garantir, mantenham a calma... – e o querubim sumiu, num cintilante fremir de suas quatro asas. Desmaterializou-se simplesmente.

Os dias se passaram no Céu sem passeios de BRT, as noites sem cantorias, sem serenatas, aquela turma outrora animada agora esmaecia minuto a minuto, quem os conhecesse diagnosticaria uma zica de tristeza coletiva, sem direito a SUS.

Uma tarde, o Sol se preparava para colorir três nuvens solitárias e apareceu um serafim em altíssima velocidade. Mal pousou, recolheu suas seis asas e ainda ofegante, balbuciou:

- Puf-puf, o Biscoito, amigo de vocês vai, puf-puf, ser solto. Deve chegar na próxima subida, puf-puf, do Lá de Baixo – ninguém no Céu fala Diabo, nem anjo, nem arcanjo, quanto mais um reles serafim – junto com uns problemáticos, puf-puf-puf .

Ficamos felizes pela notícia, mas apreensivos com a inclusão de uma alma sã amiga nossa com um ser problemático. Certamente, novas histórias apareceriam, menos mal.

Não perderíamos por esperar, vimos dois vultos na tarde seguinte; vindo a pé, o Biscoito estava trazendo um problemático até nós.

Era gringo e com um sorriso enigmático na cabeça totalmente raspada, se apresentou, já que ninguém o conhecia: Farrokh Bulsara. Biscoito retirara-se para um canto e eu juro que ria por dentro do bigode; fui lá e perguntei:

- Quem é a bichona, Biscoito? Ele me olhou meio incrédulo, como se eu não fosse capaz de achar outra além do Cole e meio aborrecido, com a minha desnecessária demonstração de homofobia, em completo desuso naquelas paragens celestiais.

- Não se preocupe, George, você ainda não o conhece, mas vai gostar.

Nisso, um dueto mais do que improvável, Paulo Fortes e Freddie Mercury, iniciou um Anything Goes de arrepiar Bing Crosby. Não se sabe de onde, uma multidão de jovens overdosados adentrou a nossa esquina e, com canetas BIC azul celeste, cutucavam o Freddie em busca de autógrafos.

- Nem aqui eu escapo, disse o Freddie desconsolado.

- E a nossa paz se foi, emendou um Cole Porter enciumado.

Um comentário:

  1. Dieck, você com esta prosa bem composta, me leva a ficar mais próximo da crença. Mas tenho tanta coisa que fazer por aqui, que acho que, quanto mais eu descrer, mais demoro a ir embora.

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