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terça-feira, 19 de janeiro de 2016

3008 - o pior ainda vem por aí


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O BISCOITO MOLHADO

 

Edição 5257SX                                 Data:  18 de janeiro de 2016

 

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PAPO DE ÓPERA

 

- Biscoito!

 

- Paulo Fortes!

 

- Não esperava encontrar o amigo tão cedo... Através do “Biscoito Molhado”, sabia da sua vida metódica, dos cuidados com a saúde... Daí o inesperado... Uma legião de amigos e admiradores não se conforma...

 

- É a vida, Paulo... Mas, finalmente, encontro o grande barítono, que sempre admirei muitíssimo...

 

- Obrigado, Biscoito! A admiração é recíproca! Sou um leitor assíduo do “Biscoito Molhado”. Gosto de tudo, especialmente seus escritos sobre o mundo da ópera. Sempre recomendo sua leitura ao Mario Henrique Simonsen. Ele também gosta muito das tuas crônicas. Vamos conversar muito sobre o mundo da ópera! Sinto falta desses papos...

 

- Mas como assim, Paulo? Não falta gente com quem conversar! O próprio Simonsen...

 

- Não é bem assim, Biscoito. Adoro o Mario, o conhecimento dele sobre o mundo da ópera é avassalador. Mas ele anda sem tempo. É procurado por dezenas de pessoas que querem conhecer suas opiniões e prescrições para a crise infernal em que a “Presidenta” enfiou nosso país. Ele não está muito animado...

 

- É, Paulo, a situação está realmente complicada. Acho que o Professor Simonsen tem razão para estar preocupado. Devo imaginar que, por conta dessa agenda atribulada, vocês não devem encontrar tempo para aquelas cantorias que costumavam promover nos restaurantes que frequentavam. Ou até mesmo no gabinete do Professor, na Fundação Getúlio Vargas. O que levava à loucura a secretária do nosso grande economista...

 

- É isso mesmo... Lembro-me de uma ocasião em que, como de costume, o Brasil estava metido em uma tremenda enrascada econômica. O governo editara um imenso pacote de medidas e todos os jornalistas queriam ouvir a avaliação do Mario Henrique sobre as providências tomadas. Por determinação de sua secretária, todos deveriam aguardar na sala de espera. Segundo ela, o Professor estava super ocupado. O problema é que essa espera já durava algumas horas e todos estavam preocupados com o “fechamento” dos jornais. Para piorar, podiam ouvir a cantoria que estava acontecendo na sala do Professor. Pela enésima vez, ensaiávamos o dueto de “Falstaff“ com ”Ford", página singular de Giuseppe Verdi que envolve dois barítonos. Nunca vou esquecer a expressão de ódio dos jornalistas quando finalmente demos nosso ensaio por encerrado e saímos da sala do Mario, felizes da vida...

 

- E esse dueto, Paulo, não tem se repetido por aqui?

 

- É como eu disse, Biscoito. Por um lado, o Simonsen está sem tempo. Também não aguento mais cantar todo dia a mesma coisa. E tem mais. Que ninguém nos ouça, mas a voz do Mario está completamente quebrada. Ele continua a fumar desbragadamente!

 

- Que pena, Paulo... Mas não existem alternativas para se perpetuar esse papo operístico? Sei que você fez amizade com o Pavarotti...

 

- É verdade. Vou te apresentar a ele. Mas devo te prevenir: não se anime muito! Acredite se quiser, Pavarotti revela um monumental desconhecimento sobre o mundo da ópera. Ele não tem noção do que aconteceu na arte lírica nos anos 40, 50 e 60. Isso, de certa forma, não me surpreende. Estamos falando de um sujeito que morou vinte anos em Nova Iorque e não aprendeu uma palavra de inglês...Um grandíssimo tenor. Mas um papo muito limitado. Mas, e você, Biscoito? Como explica sua paixão pela lírica? O Sergio, meu filho, ficou impressionadíssimo quando te conheceu...

 

- Bondade dele... O que posso dizer é que a minha chegada ao mundo da ópera se deveu ao meu pai. Ele trabalhou nos principais jornais, era um revisor muito competente. Tinha profundo conhecimento sobre os mais diversos assuntos. Foi quem me inoculou o vírus da música clássica. Ouvíamos as transmissões da Rádio MEC, diretamente do Teatro Municipal. O Sergio quase caiu para trás quando me ouviu falar sobre as grandes personalidades da época. Lamentavelmente, isso faz parte de um passado remoto, concorda, Paulo?

 

- Você tem razão, Biscoito. Essas transmissões eram maravilhosas! Para registrá-las, a MEC fazia uso de um gigantesco gravador AMPEX. O técnico da emissora era o Joacir, um bom amigo, casado com a Clara Marisi, soprano importante daquela época. Essas gravações permaneciam guardadas nos arquivos da Rádio MEC. Um belo dia, por lá apareceu um diretor que, alegando falta de espaço, jogou tudo no lixo! Durante anos o grande tenor Mario Del Monaco me cobrou uma cópia do fantástico "Guarany" que cantamos em 1951. Nunca tive coragem de lhe dizer que ela não mais existia...

 

- Que barbaridade, Paulo! Uma amostra do apequenamento que prevalece em vários segmentos da arte em nosso país. No Brasil ou no mundo todo? Confesso que tenho dificuldades para avaliar a dimensão desse fenômeno.

 

- Comigo acontece a mesma coisa, Biscoito. Mas acho que, nesse campo, estamos na vanguarda do atraso. Saltam aos olhos os exemplos: o que é, hoje, a programação das nossas rádios? Alguém se lembra de que a Rádio Nacional possuía várias orquestras? Que tocavam os arranjos de Radames Gnatalli, Lyrio Panicalli, Leo Perachi... E os cantores ? Que timaço! Orlando Silva, Francisco Alves, Carlos Galhardo, Silvio Caldas... Além disso, programas geniais produzidos pelo meu super amigo Max Nunes, pelo Haroldo Barbosa... Isso para não falar na deliciosa PRK - 30.

 

- Terríveis comparações, Paulo. O teatro de prosa também decaiu muito. Onde estão as grandes companhias, o Teatro Brasileiro de Comédia, Teatro dos Sete, as companhias de Procópio Ferreira, Dulcina, Eva Todor? Dá para pensar, nos dias de hoje, em encenações de terça-feira a domingo? Com algumas matinés intercaladas?

 

- É isso mesmo Biscoito. Sobre a ópera, tenho até problemas para falar. Eu cantava sessenta récitas de ópera no Teatro Municipal, nos anos 50 e 60. O que acontece ali hoje em dia ? É uma tristeza...

 

- Não sobrou nem para o futebol, Paulo! Que milagre foi esse que reduziu a capacidade de espectadores do Maracanâ, de 200 mil para 70 mil torcedores? Não quero nem falar nos 7 x 1 da Alemanha. Isso não passa pela minha garganta...

 

- Biscoito, você quer um símbolo maior de nossa derrocada futebolística do que a decadência do meu América?

 

- Acho que você tem razão, Paulo. Pelo menos o meu Fogão está de volta à Série A do Campeonato Brasileiro.

 

- De futebol, Biscoito, vamos falar em nosso próximo papo.

 

2 comentários:

  1. O espetáculo da vida me consola. Mas o "papo de ópera" entre Paulo Fortes e Carlos Eduardo Nascimento seria "imperdível", com certeza. Viraria compêndio. Bem sacado.
    Luca

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