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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

3009 - choro pluviométrico


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O BISCOITO MOLHADO

 

Edição 5258L                                 Data:  26 de janeiro de 2016

 

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CRIME E CASTIGO


Não se preocupem com o título, não tem nada a ver com a obra de Dostoievski. Está mais para “O Processo”, de Kafka – eu e o personagem do escritor tcheco tínhamos em comum desconhecer os motivos de nossas condenações.

Isso explicado, seguimos com os fatos evidentes e sem os retoques da ficção.

O crime é de minha autoria, como de minha autoria é esta crônica. Eu era inocente, como inocente era Josef K.

Eu tinha só oito anos de vida, em plena infância, ainda fora da idade da razão.

O castigo foi ter sido levado para um pobre “colégio interno”, cuja clientela era de crianças “sem eira, nem beira”, quiçá órfãs.

Pois eu tinha pais, irmão e irmãs, vivia à beira deles e eira, eu não conhecia.

Foram quatro anos de reclusão, com vários indultos.

A cada saída, uma alegria que perdia sempre para a tristeza do retorno. Ah, como doía!

O inconformismo e a indignação diante de tamanha injustiça, só me faziam chorar... E era tanto choro que nada nesse mundo represava as torrentes que vazavam de meus olhos.

Chorava muito, dormia chorando e acordava chorando.

Chorava, ia para o desjejum chorando e, em vez de brincar, chorava...

Na hora do almoço, comia muito pouco, mas chorava bastante – gotejava em volta do prato, na borda e mesmo dentro dele.

A maioria das outras crianças e adultos com quem convivia nem ligava. Uns riam, outros só me olhavam.

A escola toda se sentia bem, só eu não suportava e não entendia porque saíra de casa para ser levado àquela prisão. E então, chorava...

Um belo dia - belo é força de expressão - um inspetor austero, de nome Izauro, depois de me observar bem, achou que era hora de acabar com aquela choradeira e interromper a tromba d’água.

Sabia que eu chorava há três meses e concluiu que, se eu parasse de beber água, a choradeira pararia, pois para ele lágrima era feita de água. Este tinha um QI de ameba!

Mas o tempo é apaziguador e enxugou meus dias chorados.

Fui encarregado de cuidar da biblioteca. Gostei da tarefa.

Varria, passava pano molhado no chão e, com um espanador, tirava poeira dos livros.

Ninguém ia lá fazer sequer um pedido de algum exemplar.

Em minha reclusão, que durou quatro anos, li todo o acervo da biblioteca.

Calma! Não me vejam pretensioso e nem um pseudo José Mindlin!

O total de livros não passava de três dúzias, todos de temas infantis e os de grande valia eram os treze volumes de Monteiro Lobato.

Minha vida escolar acabou ali, um parco ensino primário.

A vida acadêmica, que não tive, tem tudo a ver com o que não aprendi naquele colégio.  E tudo o que sei, e mais do que sei, é o que penso que sei.

E também foi lá que aprendi.

Estou refeito. Pena cumprida. Família bem construída.

Monteiro Lobato me apresentou a Machado de Assis e, toda vez que leio o “Caso Pluvioso”, de Carlos Drummond de Andrade, me emociono e misturo minhas lágrimas com os belos versos que o poeta fez chover.

 

Um comentário:

  1. Muito boa retrospectiva e uma bela lição de vida. Lá você.. aprendeu muito e construiu a família que tem. Daí você gostar de ler muito e ter a facilidade de fazer esse jogo de comparações entre os autores. Candida.b. moura.

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