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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

3010 - o CD de Cole

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O BISCOITO MOLHADO
 
Edição 5259SX                                 Data:  26 de janeiro de 2016
 
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BOA CONVERSA COM COLE PORTER
  
- Biscoito!
 
- Cole Porter!
 
- Paulo Fortes me falou de você... Disse que o amigo é fascinado pelas minhas canções... O que me deixa envaidecido...
 
- O que o Paulo disse é a pura verdade! Adoro seus musicais! Especialmente aqueles que resultaram em grandes produções para o cinema... Fred Astaire e Eleanor Powell dançando a trilha sonora de "Rosalie"... Isso jamais me saiu da cabeça!
 
- Parabéns pelo bom gosto, Biscoito! Que dupla de bailarinos era aquela! Mas vou te confidenciar uma coisa, pedindo ao amigo, desde já, a devida reserva... Naquelas filmagens percebi que Fred Astaire e Eleanor Powell não se suportavam!
 
- Não acredito, Sr. Porter! Como pode ser? Não conheço nada que transmita maior paixão do que a dança daqueles artistas maravilhosos...
 
- É o que parece, Biscoito. É o que parece. Mas a realidade é outra. Posso explicar. "Rosalie", que o amigo mencionou, foi uma comédia musical que alcançou incrível sucesso na Broadway, em 1928. Sua grande estrela era Marilyn Miller, grande atração de bilheteria na época. O enredo: uma princesa europeia visita os Estados Unidos e se apaixona por um cadete da Academia Militar de West Point. Uma história irresistível para as plateias norte-americanas! A música, produzida por George Gershwin e Sigmund Romberg, também era belíssima. Nove anos mais tarde, os chefões de Hollywood decidiram que "Rosalie" deveria chegar ao cinema, com um elenco bastante reformulado e com músicas inteiramente novas, que fiquei encarregado de compor.
 
Idiossincrasias hollywoodianas... Afinal, a partitura de George Gershwin era maravilhosa... Mas, voltando ao que interessa: o que todos na época perceberam é que os gigantescos investimentos destinados a essa produção atendiam por um nome: Eleanor Powell. Ela, que era considerada a maior sapateadora do mundo, assinara em 1935 um contrato milionário com a Metro. Seus filmes rendiam rios de dinheiro. Para as filmagens de "Rosalie" foram contratados os maiores cartazes da época: James Stewart, Robert Taylor, George Murphy, Nelson Eddy, Robert Young... e Fred Astaire. É claro que Fred Astaire, na condição de um quase coadjuvante, não estava se sentindo confortável. Além disso, espalhou-se a lenda de que Eleanor Powell era a única "partner" realmente temida pelo extraordinário dançarino. Comentava-se que o dinamismo e a força dos movimentos da estrela causavam-lhe medo. Muitos concluíram que somente ela conseguia se ombrear a Fred Astaire em um número de dança. Começava aí uma incandescente rivalidade...
 
- Que história, Sr. Porter! Acho que já tinha ouvido algo a respeito no "Rádio Memória", programa dos meus amigos Jonas Vieira e Sergio Fortes...
 
- Jonas Vieira? Sergio Fortes? Nunca ouvi falar...
 
- É verdade, Sr. Porter. O senhor não os conhece. Mas posso lhe assegurar que também eles são seus fãs ardorosos. Suas canções estão sempre presentes no programa que apresentam nas manhãs de domingo, numa estação de rádio de minha cidade.
 
- Folgo em saber...
 
-Esteja certo disso! Mas, satisfaça minha curiosidade: o Paulo Fortes é uma amizade recente? Vocês brilharam em campos musicais diferentes...
 
- Mais ou menos, Biscoito. Mais ou menos. Sempre lembrando que também sou um grande apreciador da música clássica. Minha mãe, Kate Porter, propiciou-me uma formação musical sofisticada. Queria que eu, em tenra idade, fosse reconhecido como gênio da música. Uma espécie de Mozart norte-americano, entende? 
Ela me fez aprender violino com seis anos de idade. Piano, com oito. Com dez, alardeou que eu havia composto uma opereta. Não disse para ninguém, mas é óbvio que esse trabalho foi quase todo por ela realizado. 
A danada chegou a alterar a data da minha certidão de nascimento, de 1891 para 1893. Tudo para fazer valer minha suposta "genialidade precoce". Mas o certo é que eu só comecei a me destacar, musicalmente, quando cursei a Universidade de Yale. Minhas primeiras músicas de sucesso tinham a ver com o incentivo ao nosso time de futebol americano. Mas falávamos do Paulo Fortes, não é mesmo? Realmente nos aproximamos por conta da nossa paixão pela música clássica. Somos amantes da ópera, com uma queda especial pela obra de Giacomo Puccini, que ambos consideramos um melodista insuperável. E, sobretudo, um gênio do teatro, em quem, de certa forma, busquei inspiração anos mais tarde.
 
- Sua música "Bring me back my Butterfly", com inserções de acordes da "Madame Butterfly", deixa isso bem claro... O Sergio Fortes não pára de programar essa canção lindíssima, na voz de Thomas Hampson, um grande barítono norte-americano.
 
-Também não conheço esse Thomas Hampson. Muito menos, como já disse, esse tal de Sergio Fortes. O rei dos barítonos americanos do meu tempo era o Lawrence Tibbett. Maravilhoso! Mas bebia demais e sua carreira foi abreviada por isso. O Paulo Fortes não conhecia essa música e ficou muito empolgado. Disse ele que "Madame Butterfly" é a ópera favorita do público LGBT. Não sei bem o que é isso, mas acho que ele estava fazendo alguma referência às minhas inclinações sexuais, que são conhecidas...
 
-É, Sr. Porter, entendo que sim. Mas, mudando um pouco de assunto, ocorre-me informá-lo que em minha cidade, o Rio de Janeiro, estão encenando com muito sucesso "Kiss me Kate", um marco na sua trajetória de imensos êxitos...
 
-Que bom! Fico feliz com isso. Aliás, Biscoito, chame-me Cole. Realmente "Kiss me Kate" foi importantíssimo na minha carreira. Na década de 1930 eu fazia muito sucesso na Broadway. Foi quando apresentei três musicais bastante apreciados: "Anything Goes”, "Du Barrie was a Lady" e "Panama Hatie". Aí aconteceu um imprevisto terrível. Um acidente num passeio a cavalo causou-me inúmeras fraturas nas pernas. Uma delas foi esmagada com o peso do cavalo. Muito vaidoso, recusei-me terminantemente a aceitar a amputação que os médicos recomendavam. Com isso, vi-me na contingência de conviver durante anos com dores tremendas. Coincidência ou não, o sucesso dos anos 30 desapareceu na década seguinte. Isso perdurou até 1948. Foi quando apresentei "Kiss me Kate", musical baseado num livro de Samuel e Bella Spewak. Jamais comentei, mas fique você sabendo, Biscoito: aquela foi a minha resposta ao sucesso extraordinário de "Oklahoma”, da grande dupla Rodgers e Hammerstein II. Não gosto de me vangloriar, mas penso que o amigo sabe que "Kiss me Kate" ganhou todos os prêmios imagináveis! A produção alcançou mais de mil encenações na Broadway. E chegou às telas do cinema em 1953, numa produção da Metro Goldwin Mayer que também fez muito sucesso. No elenco estavam Howard Keel, Kathryn Grayson, Ann Miller e Tommy Rall. "So in love" é minha música favorita desta trilha sonora que, modéstia à parte, concebi em momentos de grande inspiração.
 
-Concordo plenamente, Cole. Também sou apaixonado por "So in love". Tenho um CD em que essa música extraordinária é cantada por Roberta Peters e Robert Merrill. Está gasto de tanto eu ouvir...
 
- CD, Biscoito? O que é CD?
 

2 comentários:

  1. Se o Sergio Fortes continuar promovendo estes maravilhosos encontros didáticos do meu amigo Carlos com estas feras, vou acabar acreditando na vida eterna, cantando "BEGIN THE BEGUINE". Amen.
    Luca

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