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quarta-feira, 23 de julho de 2014

2654 - sete a um



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4904                         Data:  15 de  julho de 2014
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RÁDIO MEMÓRIA PIANÍSTICO
O Homem-Calendário, que se ausentara no domingo retrasado, se fez presente no dia 13 de julho com uma notícia sanguinolenta: Jean-Paul Marat, enquanto tomava banho, foi apunhalado mortalmente por Charlotte Corday. Vivia-se a Revolução Francesa. “... Foi a época da fé, foi a época da descrença, foi a época da luz, foi a época da escuridão...”, segundo Charles Dickens nas primeiras linhas do seu romance “Duas Cidades”.
Será que, por causa dessa tragédia, os franceses, traumatizados, fogem do banho? O Homem-Calendário ficou de investigar.
A bem da verdade, Marat se encontrava, no seu último momento de vida, numa banheira porque sofria de uma dolorosa doença de pele que era suavizada com a imersão do seu corpo na água.
O Homem-Calendário arrolou outras ocorrências históricas do dia 13 de julho até chegar ao santo do dia. O nome dele não me recordo, confesso, mas me surpreendi quando ele afirmou que deveria ser o santo protetor do Simon Khoury.
-Como, transcorreram mais de cinco minutos e o Simon Khoury se manteve calado?
-Tenho devoção e admiração. - garantiu o Jonas Vieira.
Não, não se tratava do santo do dia, e sim da convidada do programa, que assim foi anunciada pelos seus dois apresentadores:
Sérgio: “Fernanda...”
Jonas: “Canaud.”
Parecia que a dupla ensaiou essa apresentação.
O Simon Khoury se manifestou sobre o sobrenome francês e ela, simpaticamente, se reportou aos seus familiares. Nada a ver, portanto, com a mãe do Caetano Veloso, Dona Canô, que é de ascendência baiana.
E veio a música: a “Tocata” de Radamés Gnatalli, peça que, pelo virtuosismo que exige do pianista, lembrou-me a “Tocata” de Camargo Guarnieri e que uma senhora pediu que Nélson Freire tocasse, conforme o documentário de João Moreira Salles.
A primeira gravação foi em 1944 por Roberto Szidon, informou a grande pianista, antes de outra peça de Radamés Gnatalli, gravada por ela, “Noturno”, ser ouvida.
Depois, ela passou a falar de um parceiro seu, outro grande artista, o bandolinista Joel do Nascimento.
Com a palavra, a pianista:
-Com Joel gravei diversas valsas, nós incluímos (no CD) o 2º movimento da suíte “Retratos”, que Radamés Gnatalli chamou de Ernesto Nazareth. A obra original era com orquestra e bandolim solando; eu e Joel fizemos um arranjo em que o piano substitui a orquestra. Espero que vocês gostem.
Claro que gostamos, mesmo não tendo a oportunidade do Jonas Vieira de exclamar: “Lindíssimo!”
E entrou a voz da Fernanda Canaud dizendo que começaram ela e Joel do Nascimento com “Farrula”, ela acompanhava, ele solava; depois, ela solava, ele acompanhava.
-E nesse bate-bola...
-Era um CD que devia entrar contra a Alemanha. - não perdeu o Jonas Vieira a piada sentindo, como todos nós, o rescaldo da humilhante derrota brasileira por 7 a 1 na Copa do Mundo.
A “fagulha”, enquanto isso, ficou solta no ar.
Simon Khoury aludiu à simplicidade apenas aparente do Radamés Gnatalli, com a concordância de todos os presentes.
-Ele veio para o Rio com 18 anos de idade e foi solista do concerto para piano do Tchaikovsky. - lembrou o Sérgio Fortes.
-Isso, mas, por condições financeiras, ele passou a trabalhar com arranjos de música popular...
-Radamés fez tudo. - seguiram-se às palavras da Fernanda Canaud as do Jonas Vieira.
Ela prosseguiu:
-Antigamente, era complicado misturar música clássica com popular. Radamés Gnatalli, quando incursionava pelo popular, usava o pseudônimo Vero.
-E Francisco Mignone, Chico Bororó. - acrescentou o Sérgio Fortes.
Jonas Vieira se referiu aos estilos marcantes de Ernesto Nazareth e Radamés Gnatalli. A palavra voltou para a convidada que tratou da forte influência que Radamés sofreu do Jazz, e pediu que fosse tocada a criação dele “Noturno” que “prenuncia a Bossa Nova”. E assim foi feito.
Depois, Sérgio Fortes citou os renomados professores da convidada: Linda Bustani, Arnaldo Cohen e Antonio Guedes Barbosa, reportando-se à complexidade com que topam artistas de música erudita que enveredam pela música popular.
-Pequena, eu era apaixonada por Beethoven e Bach...
Depois de uma pausa, ela também entrou no clima descontraído:
-7 a 1 Alemanha.
E prosseguiu, mais séria, recorrendo ao compositor mais citado do programa, que, com formação erudita, se deixou seduzir pela arte musical do povo.
O piano não foi o instrumento único da Fernanda Canaud, também estudou viola, teve aulas no prédio da Mesbla com o professor Frederick Stephany, que liderou por muitos anos o naipe de violas da Orquestra Sinfônica Brasileira. Fato esse registrado pelo Sérgio Fortes.
Também é compositora; bissexta, afirmou ela. E uma peça sua, “Prelúdio”, de natureza contemplativa, soou e trouxe calma aos nervos de todos, ainda abalados com a maior goleada que o escrete brasileiro levou nos seus 100 anos de história.
Jonas Vieira, que já havia telefonado no programa da Marlene, resolveu telefonar nesse também. A coisa começou meio surrealista.
Jonas Vieira: “Bom dia, Élton Medeiros”.
Élton Medeiros: “Bom dia.”
Jonas Vieira: “Pode falar”.
Élton Medeiros: “Falar o quê?”
Depois de o Jonas Vieira esclarecer que deveria falar da Fernanda Canaud, os elogios para ela e sua família, por parte do Élton Medeiros, foram intensos.
Desligado o telefone, Simon Khoury, inusitadamente calado, se manifestou:
-Qual foi o elogio mais insólito que você recebeu?
Antes de ela responder seu nome foi trocado pelo da Fernanda Montenegro, o que ensejou a promessa do Simon Khoury de trazer a grande atriz, futuramente, no Rádio Memória.
No Clube do Choro, disseram que a Fernanda Canaud é tão bonita que não precisava tocar tão bem e vice-versa – foi o elogio insólito.
E ressoaram as teclas do seu piano com a bela composição de Francis Hime, “Pássaros”.
Mais pergunta do Simon Khoury:
-A vida do compositor influi na sua interpretação, ou você pega a música pela música?
Resumindo a resposta dela, disse que se inspira no que consta na partitura, mas que saber da vida do compositor também ajuda na interpretação.
E a voz do Jonas Vieira, com entonação solene, ressoou:
-Antes de terminar, bomba.
-Lá vem piada. - ouviu-se ao fundo a voz da convidada.
E era piada mesmo; embora não tivesse jogado com a camisa rubro- negra, Jonas Vieira viu na Alemanha o time do Flamengo. Isso posto, Sérgio Fortes viu no Schweinsteiger o Carlos Eduardo (*) e eu vi o Negueba em vez do Miroslav Klose.
Em seguida, Jonas Vieira falou séria e veementemente:
-Acabou a empáfia do Scolari, que ele passou para os jogadores.
E foi em frente:
-Acabou a empáfia brasileira.
Poucas horas depois, acabaria também a empáfia argentina.
Quanto ao Rádio Memória desse domingo, encerrou-se com todos felizes. Antes, a “Farrula” que ficara no ar, criação de Anacleto de Medeiros, finalmente flamejou no bandolim de Joel Nascimento e no piano de Fernanda Canaud.
Foi um ótimo início de domingo.

(*) o Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO, horrorizado com a infame comparação perpetrada pelo redator – que obviamente nada entende de futebol – vem a público dessacralizar o Sergio Fortes, que jamais proferiria na mesma frase os nomes do Schweinsteiger e desse outro aí.



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