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terça-feira, 23 de setembro de 2014

2700 - o terceiro round


 

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 4950                                    Data: 19 de  setembro de 2014

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ANDREA LEMBRA MOACIR SANTOS NO RÁDIO MEMÓRIA

PARTE III

        

-Rádio Roquette Pinto. 94.1 Programa Rádio Memória.

Evidentemente, não foi o Sérgio Fortes que disse isso, pois ele sempre esquece.

Recomeçava, assim, o programa, depois das irritantes propagandas eleitorais obrigatórias. Necessitávamos, então, de uma boa música para desintoxicar o espírito, mas a flauta da Andrea Ernest Dias não soou logo, porque o Simon Khoury deu início a uma observação.

-Tudo o que essa moça grava é de suma importância, como esse lundu do Calado. Ela grava Cachimbinho, Jacob do Bandolim, o que há de melhor na música popular brasileira, mas não é tocado.

-Não se toca, Simon, porque o dinheiro é que manda.- interveio o Jonas Vieira - o mercado se guia pelo dinheiro.

E continuou na sua indignação:

-Esse programa “Fantástico” gastou três domingos com esse negócio rural...

-Música sertaneja. - aparteou o Sérgio Fortes.

A palavra voltou para o titular do Rádio Memória:

-Isso, tomando um espaço de vinte minutos, claro que o horário não foi de graça. Tem dinheiro, aparece, não tem, não passa nem na porta, mesmo que tenha o talento de um Frank Sinatra, de um Orlando Silva, ou de quem for.

Como falamos nas “irritantes propagandas eleitorais”, lembramos que os candidatos procuram aparecer ao lado de artistas com muita popularidade e pouca arte.

Mais uma pergunta do Simon Khoury à convidada:

-Andrea, você gravou “Gostosinho”, do Jacob do Bandolim. O “Apanhei-te Cavaquinho” também é um desafio para o flautista?

Ela respondeu que sim, mas que é uma música tão bem construída que se adapta à técnica da flauta.

-Nazareth era um gênio do piano e é muito bom tocar na flauta peças que foram escritas originalmente para esse instrumento. - acentuou ela.

-Agora, “Gostosinho”. - anunciou o Jonas Vieira.

Apesar de o Simon ter dito, minutos antes, que é o “Crocante Inesquecível”, não ousou concorrer com a composição do Jacob do Bandolim, que reinou absoluta com Andrea na flauta, Cristóvão Bastos no piano, Bernardo Aguiar na percussão e João Lyra no violão.

A introdução, seguida de uma pergunta, partiu, dessa vez, do Jonas Vieira.

-Temos grandes flautistas na música popular brasileira: Joaquim Calado, Pixinguinha... Há ainda dois por quem tenho grande admiração: Benedito Lacerda e Altamiro Carrilho... e mais o Dante Santoro, lembro-me agora.  Andrea, qual desses que eu mencionei, tirando o Calado e o Pixinguinha, evidentemente, é o da sua preferência?

-Ou outro flautista que você queira acrescentar. - aditou o Sérgio Fortes.

-Eu acrescentaria o Copinha, um estilista.

-Sim, o Copinha. - penitenciaram-se todos pelo esquecimento.

Algum ouvinte desavisado, admirador da dupla sertaneja Cacique & Pajé e coisas parecidas, que sintonizasse a Roquette Pinto naquele momento, julgaria – imaginamos – que se tratasse da Copa das Copas que, depois da derrota do Brasil por 7 a 1 pela Alemanha, se transformou, para os brasileiros, em Copinha; não, tratava-se agora do grande instrumentista e compositor Nicolino Copia.

-Ele era um estilista, todos os citados são estilistas do instrumento. Eu tenho forte admiração por esse tipo de músico.

-Copinha também era saxofonista?

-E clarinetista. - respondeu ela ao Jonas Vieira.

-Paulinho da Viola tinha grande admiração pelo Copinha. - assinalou o Jonas Vieira.

-Ele gravou todos os discos do Paulinho. - ressaltou a flautista.

-Sabem que o Copinha compôs um choro para mim?

Não, ninguém sabia que o filho da introdutora das frequências moduladas no rádio do Brasil inspirou o compositor. Assim, Simon Khoury contou mais um causo. Levado pelo Sebastião Tapajós, foi visitar o Copinha, que se encontrava doente. Diferentemente da maioria das pessoas, chegou ao enfermo alegremente e lhe disse:

-Copinha, eu só falto beijar os seus pés, vem a Margarida Autran, elogia o seu show e você faz uma valsa para ela.

Contou ele que o Copinha riu do seu ciúme e pegou uma música que transcreveu para o piano porque estava proibido de tocar flauta. Era o “Choro para o Khoury”; uma surpresa geral e emocionante que até citava a sua cidade natal, Cambuci. 

Vida que segue.

-Nesse meu disco, tem uma valsa do Copinha, “Reconciliação”...

-Vamos ouvir agora ou depois?... - cortou o Simon Khoury.

Não se ouviu agora, pois lhe foi cobrada a resposta que não foi dada.

-Eu respondi, cada um deles trouxe alguma coisa para mim. Peguei coisas do Altamiro...

-Algum deles exerceu maior influência? - interromperam-na.

-Somos influenciados todos os dias. - escapou daqueles que exigiam que ela fosse menos política.

-Você gostaria de tocar como quem? - insistiu o Jonas Vieira.

-Como tanta gente... Gosto da desenvoltura do Copinha, da técnica do Altamiro e do Benedito.

Jonas Vieira foi incisivo:

-O meu favorito é o Benedito Lacerda.

-Os choros do Benedito com as músicas de Beethoven, de Vivaldi são maravilhosos.

-E não deixou de ser ele, deixou a sua marca. - seguiram-se as palavras da Andrea às do Simon Khoury.

Jonas Vieira voltou à sua escolha:

-Se o Altamiro estivesse vivo, diria: “Poxa, Altamiro, me traindo!”... Mas o próprio Altamiro dizia que era continuador do Benedito Lacerda.

E voltou-se para a convidada do programa?

-E agora?

-”Reconciliação”.

-Nicolino Copia. Grande Copinha! - extasiou-se o Jonas Vieira com a valsa.

Andrea citou o arranjo de Cristóvão Bastos e mais os músicos que tocaram com ela (os mesmos do “Gostosinho), e aludiu ao trabalho que fizeram juntos no “Pife Moderno”, dirigido pelo Carlos Malta.

O titular do programa pediu um espaço do tempo com um tom de voz dissonante que quebrava a descontração reinante.

-Um registro desagradável: a morte do meu amigo e vizinho Miltinho. Doente há quatro anos de enfisema, teve uma morte terrível como o Roberto Paiva. Eu dedicarei a ele, oportunamente, um programa.

E prosseguiu.

-Lamento não ter conseguido escrever a biografia dele, porque sentia medo de morrer logo em seguida.

Sérgio Fortes interferiu para falar de uma possível biografia da Fernando Montenegro e de pessoas que advogam que as homenagens devem ser prestadas enquanto a pessoa estiver viva.

Simon Khoury se referiu a uma entrevista que fez “espiritualmente” com a Henriette Morineau e se voltou para a flautista.

-Andrea, a sensibilidade você tem.  A técnica... Você tem um concerto para o público, você fica preocupada?... porque é uma missão.

-Vou me preocupar até o último dia.

E Simon Khoury contou um causo relacionado à sua pergunta.

-Paulo Autran, um monstro sagrado do teatro, ficava irreconhecível antes de pisar o palco; parecia um franguinho, um pintinho. Ele me olhava e não me via. “Você, um monstro sagrado do teatro, vai estrear amanhã e está assim.” E ele me disse: “Vou usar um termo chulo: quem tem cu tem medo.” Isso na estreia, porque a técnica ele tinha, depois do segundo dia, vinha a emoção , e Paulo Autran arrebentava.

Nesse instante, Sérgio Fortes interveio.

-Eu acho, Simon, que isso é proporcional à grandeza do artista. Uma vez, o meu pai foi cantar uma matinê no Teatro Municipal que era às 5 horas, ele chegou 1 hora da tarde. Alguém falou para ele de um barítono, cuja carreira correu paralelamente com a do meu pai, e lhe perguntou por que, com 50 anos de carreira, chegava tão cedo, enquanto esse barítono aparecia 10 minutos antes do espetáculo. Resposta do meu pai: “Ele não se chama Paulo Fortes”.

-E agora? - pediu o Jonas Vieira mais música à sua convidada.

-Eu sugiro Tom Jobim. - entrou intempestivamente a voz do Jonas Vieira.

-Claro. Nessa faixa, que você já escolheu, Tom Jobim homenageia dois ídolos dele, dois ícones: um compositor e um jogador de futebol, Radamés Gnattali e Pelé.

-Vamos ouvir antes que o programa acabe. - interrompeu-a o Simon Khoury.

-”Homenagem ao Pelé”. - anunciou o Sérgio Fortes.

O titular do programa lamentou ter sacrificado a “Homenagem ao Pelé” no meio da gravação, e perguntou à Andrea onde se encontra seus discos.

-Nas melhores lojas, entre elas a Arlequim, a Livraria da Travessa, a Livraria Folha Seca, que foi a editora do meu livro “Moacir Santos ou os caminhos de um músico brasileiro.”

E o programa chegou ao final sem o “demorado abraço”, porque já tinha sido dado no seu início.

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