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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

2691 - carne frita


 

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 4941                                  Data:  07  de  setembro de 2014

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SABADOIDO SEM AS PASSADAS DO PEZÃO

PARTE II

 

-De que vocês falam tanto?

-De cinema, de Fórmula 1, dos dois ao mesmo tempo.- respondi à Gina.

A palavra retornou ao Daniel:

-Carlão, o Alain Prost seguiu os 20% de limite de segurança do Niki Lauda. Ele parou o carro por causa de uma chuvarada que caía na pista.

-O Senna nem queria saber de 20%. No filme, o James Hunt contesta esse limite de segurança do Niki Lauda que, segundo ele, estragava a beleza do esporte. - disse o Claudio.

-E corrida de carro é esporte?- entrou a Gina na conversa.

-O jogo de xadrez não é também... Aliás, o João Saldanha disse: “Se o jogo de xadrez é esporte, São Jorge é turfe.” - lembrei.

Daniel anunciou que iria tocar um pouco de teclado. Ele, que trouxe o assunto automobilístico, levou-o consigo.

Gina, que veio com o seu tablet, distraía-se com ele.

-Claudio, encontrei o DVD do “Amei um bicheiro” na Saraiva do Norte Shopping.

-É uma raridade, Carlinhos.  O preço devia estar nas alturas.

-Foi o que imaginei, pois encontrei o DVD do “Êxtase”, filme de 1930, em que a futura Hedy Lamarr aparece nua e o preço era salgado. É claro que não estou comparando uma fita com a outra.

-Ela casou com um milionário judeu, fabricante de armas, que ordenou que todas as cópias da mulher despida fossem recolhidas, mas algumas escaparam, até o Mussolini tinha uma consigo.

-E “Amei um bicheiro”? - não conteve a curiosidade meu irmão. 

- O ano do filme, eu não me lembro. Sei que assistimos a ele, por volta de 1957, num Festival do Cinema Brasileiro que houve no Cinema Cachambi, um filme por dia.

E acrescentei:

-Era o filme da segunda-feira, o de domingo seria “Nem Sansão nem Dalila”, os outros cinco sumiram todas da minha cabeça.

-“Amei um bicheiro” é um filme de 1952.- interveio a Gina depois de consultar o seu tablet, demonstrando que não estava alheia à nossa conversa.

-Quando vi que o filme custa 12 reais e alguns centavos comprei.

-Comprou por essa lembrança? - indagou-me a Gina.

-Foi a principal razão, também comprei porque o Dieckmann diz que aparece o carro da mãe do Dick e do Cyl Farney nas ladeiras de Santa Teresa, e porque o Paulo Francis, que dissolvia tudo com a sua crítica ácida, elogiou a fita.

-Eu me lembro que o Grande Otelo morre numa caixa de gás, onde se esconde.

-Claudio, revendo esse filme, depois de décadas, eu só me recordava dessa cena, de tanto que ela me marcou e do apelido dele, Sabiá.

-Há também alguma coisa com cavalo, não há?.

-Há sim; o Cyl Farney, precisando de dinheiro, banca as apostas no cavalo, no dia de São Jorge, enganando o chefão dele, o José Lewgoy.

-E deu cavalo?

-Deu leão e o Cyl Farney pôde pagar a operação da mulher.

-Carlinhos, na realidade, qualquer pessoa que der um golpe num chefão do jogo do bicho é um futuro cadáver.

-Sempre sobressai a parte fictícia, falávamos há pouco do “Rush”, que mostrou uma rivalidade de anos entre o Niki Lauda e o James Hunt que não existiu, porque o austríaco era bem superior.

-E o carro da mãe dos Farney de que o Dieckmann falou?

-Gina, eu não reconheci nem Santa Teresa no filme.

-Nós conhecíamos o Grande Otelo pelas chanchadas da Atlântida, mas ele era ótimo ator dramático; a morte dele envenenado por gás é impressionante. - frisei.

-Morte que impressionou vocês dois até hoje. - comentou a Gina com um sorriso irônico.

-Há uma cena do “Amei um bicheiro” em que o Cyl Farney diz para Grande Otelo que iria jogar na borboleta e no macaco para ganhar um bom dinheiro, é interrompido pelo Grande Otelo que lhe pergunta se sonhou com ele, Cyl Farney responde que não. “Então, jogue só na borboleta” - aconselhou.

-Carlinhos, você leu a crônica de ontem do Paulo César Caju?

Claudio não aguardou a minha resposta afirmativa e seguiu adiante.

-Ele escreveu que, no meio dos torcedores racistas do Grêmio, estavam dois negros xingando o goleiro Aranha de macaco.

-Li também, Cláudio, que ele escreveu, nesse texto, que, em 1968, os jogadores do Botafogo foram jogar em Bagé e toparam com um cartaz na porta de um restaurante: “Proibida a entrada de negros”.

-O Rio Grande do Sul é o estado brasileiro onde há mais racistas. - atalhou a Gina.

-O Alceu Collares, no entanto, que passava de moreno, foi eleito governador do Rio Grande do Sul de 1991 a 1995. - lembrei.

-O Alceu Collares era apoiado pelo Brizola que, na época, embranquecia qualquer candidato que apoiasse. - avaliou o Claudio.

-No meio de uma torcida de futebol, a pessoa perde sua individualidade e age de acordo com a massa, talvez essa moça, que está sendo execrada, só tenha um pouco de preconceito que quase todas as pessoas têm, inclusive os negros. - contemporizei.

-Certo, Carlinhos, mas existe diferença entre preconceito e racismo. - interveio a Gina.

O assunto não prosperou, porque estávamos de acordo, e eu me reportei à minha volta ao trabalho na quinta-feira.

-Logo nesse dia, tive de fiscalizar um terminal em Niterói. Fui almoçar depois das duas horas da tarde.

-Você que acorda tão cedo, não morreu de fome?

Ouvi a pergunta do meu irmão e prossegui:

-Fui, com meus dois colegas de fiscalização, almoçar no Mercado São Pedro. Era a minha primeira vez. Lá, você compra o peixe, sobe para o segundo andar, onde há pequenos restaurantes, entrega o dito cujo que eles fritam, cozinham, grelham para depois servi-lo. (*)

-Então, você almoçou às 3 horas da tarde? - calculou a Gina.

-Na espera, eu pensava em uma entrevista do Ariano Suassuna sobre um jantar de gente rica a que compareceu; morto de fome, porque a comida saiu quase meia-noite, ele enchera as mãos de petiscos para se manter de pé.

-Foi o que você fez também, Carlinhos? - queriam saber.

-Eu queria pão, que embucha um pouco, mas perdi para a maioria que preferiu um diminuto bolinho de bacalhau, enquanto o cherne era grelhado.

-Ariano Suassuna, não, Ariano Suassuana, como diz a Dilma. - lançou a Gina a sua farpa.

-E a bebida? - quis saber o Claudio.

-Depois de muitos e muitos anos, tomei uma Caracu. Mas valeu a pena, voltaria lá de novo, mas com meia dúzia de bananas na mochila.

-Tem sabido do Luca, Carlinhos?

-Gina, se ele não estiver jogando tênis de mesa, está assistindo ao US Open. - respondi.

De volta para casa, passando pela pracinha tomada por peladeiros, torcedores e crianças, reparei numa moça meio atarantada olhando de um lado para outro.

-Cadê o Pezão? - murmurava.

Nesse sábado, o Pezão não deixaria as marcas das suas passadas na Praça Manet, mais conhecida por Praça Mané.

 

(*) Deve haver um exagero do redator do seu O BISCOITO MOLHADO. Habitualmente se encontra peixe cozido, ou frito, ou grelhado. As três operações no mesmo peixe não prometem bom resultado. Mas é só a opinião do Distribuidor, nada além disso.

 

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