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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

2692 - assovios nada tranquilizadores 2


 

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 4943                                  Data: 10 de  setembro de 2014

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ASSOVIOS NO RÁDIO MEMÓRIA

PARTE II

 

Antes de seguirmos na nossa narrativa, queremos nos reportar ao causo contado pelo Simon Khoury, na primeira parte, sobre as vacas que foram atiradas para fora do avião em que viajava uma trupe de artistas, enquanto sobrevoava a floresta amazônica.  Também jogaram vacas de um avião, nesse caso, no Extremo Oriente e uma delas vitimou uma moça, num barco, no momento em que era pedida em casamento. Mote para uma joia do recente cinema argentino, “Um Conto Chinês”.

-Rádio Roquette Pinto 94.1 FM. Programa Rádio Memória. - localizou os ouvintes o Jonas Vieira que, segundo o Sérgio Fortes, é advertido por ele porque se esquece de dizer isso.

-Hoje, com a seleção trazida pelo Simon Khoury.

Ele, que cresceu consideravelmente no meu conceito, ao me dedicar a “Marcha Turca”, de Mozart, arregaçou as mangas:

-A próxima atração é o grande Laurindo de Almeida, um compositor que gravou mais de mil trilhas sonoras de filmes nos Estados Unidos. Lá, ele mostrou também gravações de chorinho.

E foi ao ponto:

-Laurindo de Almeida fez uma gravação bonita de “Garota de Ipanema”: violão e assobio.

Jonas Vieira, empolgado com a música que ouvira, chamou o Laurindo de Almeida de gênio que foi para os Estados Unidos e seguiu adiante com o grande artista:

-Laurindo de Almeida gravou uma peça do Radamés Gnattali e enviou para ele. Radamés, gentilmente, me deu de presente e eu emprestei a um amigo que nunca mais me devolveu.

Ao lamento do Jonas Vieira seguiu-se o do Simon Khoury:

-Eu quero pedir ao Egberto Gismonti que me devolva uma entrevista lindíssima que o Nélson Cavaquinho me concedeu.

Logo, contou uma parte dessa entrevista, em que o genial sambista lhe disse que morreria à meia-noite, numa sexta-feira e que, sempre nesse dia e hora, se preparava para receber a “indesejada das gentes”, como dizia o poeta Manuel Bandeira.

Mas o Simon Khoury não parou por aí:

-Jaguar, me devolva a fita do Milton Nascimento. Eu ficaria tão grato.

-Só se você der um porre nele. - interveio sadicamente o Jonas Vieira.

-Como ele agora, Simon, toma cerveja sem álcool, vai ficar mais difícil ainda. - acrescentou.

Aproveitando que foi aberta a seção de reclamações, nós, do Biscoito Molhado, pedimos ao Dieckmann que, por gentileza, nos devolva um documentário americano de 60 minutos de duração sobre as dez maiores marcas de carro de todos os tempos. Lá estão o Ford Mustang e o Dodge Charger do filme Bullit, que citamos uns dois Biscoito Molhado atrás. (*)

Fazendo coro ao Jonas Vieira e ao Simon Khoury:

-Devolva.

Ah, sim, quase esqueci que o Dieckmann também está, há séculos, com o Dicionário Sefaradi de Sobrenomes do revisor deste periódico, o Elio, o nosso olho de lince que vê erros até do tamanho de uma vírgula. (**)

De novo, os momentos luminosos do Rádio Memória, a música.

-Agora, Debussy. Gostou da pronúncia, Simon? - provocou.

-Muito afrescalhada. - rebateu.

Depois de uma rápida polêmica sobre a afrancesada ou afrescalhada pronúncia de Debussy, foi apresentada a sua criação mais popular “Clair de Lune”; peça que deixava a nossa maior novelista tão enlevada, que nela se inspirou para a confecção do seu sobrenome: Janete Clair.

Bem, Jonas Vieira e Simon Khoury dedicaram tanto tempo para pronunciar o sobrenome do autor, que não consegui entender direito o nome de quem assoviou, falha nossa também, reconhecemos, que cada vez mais entendemos errado as palavras estrangeiras (as nacionais em menor grau). Teria sido Pierre Chateau? Vá lá Pierre Chateau, pois, nessa questão, nem o Google nos ajudou.

“Um autêntico bico de ouro”.

Concordamos inteiramente com o Jonas Vieira; ele seria um canário belga caso não tivesse nascido na França.

Veio a “Pausa para Meditação”, do Fernando Milfont, sobre sua atração pelas bandas, intitulada “Hinos”. Tudo a ver com o dia 7 de setembro.

Na volta, foi a vez de o Jonas Vieira fazer a “Pausa nos assobios”, para pôr no ar a Banda Filarmônica do Rio de Janeiro sob a conduta de Antônio Henrique Seixas, que já esteve no Rádio Memória levado pelo Sérgio Fortes. Ouvimos, então, não um dos hinos citados pelo Fernando Milfont, mas o chorinho “Delicioso”, de Severino Araújo, que faz justiça ao título.

De novo, os assovios.

Imaginei que viria, agora, Sílvio Silva, o “Garoto Assobiador”, que tanto êxito alcançou nas décadas de 50 e 60, mas não; Simon Khoury não foi tão simples assim, tanto que escolheu uma peça musical e, em seguida, desafiou o Jonas Vieira:

-Quem é o autor? Quem interpreta? E qual o nome da valsa?

Revivia, assim, os seus tempos da Rádio Jornal do Brasil quando, vez ou outra, lançava essas charadas para os ouvintes decifrarem.  Meu irmão até hoje se queixa de ter acertado uma delas e ganhado, de presente, uma viagem na Challenger, o ônibus espacial que explodiu em 1986.

Se o Jonas Vieira não soube responder, imagine o caro leitor nós, por isso, passemos para a próxima atração.

-Agora, para vocês, o tema do penúltimo filme da Catherine Deneuve.

Simon Khoury fez, então, a resenha do filme, dizendo o seu nome “Potiche”.

E ouvimos o tema do filme num assobio afinadíssimo de um francês chamado Pierre.

-Qual é o nome do filme, Simon?

-Esqueci.

Foi a vez do Jonas Vieira se vingar: primeiramente riu, depois disse que ele não sabia nem que estava na Rádio Roquette Pinto e que o redator do Biscoito Molhado devia estar se divertindo.

Sendo sincero, diverti-me muito mais num Rádio Memória em que o Dieckmann anunciou uma peça instrumental e nós ouvimos o vozeirão de um cantor (***). Além do mais, Simon Khoury, depois de me dedicar a “Marcha Turca”, de Mozart, está perdoado de tudo, até de enviar meu irmão ao voo da Challenger.

Apesar de o número musical seguinte ser assobiado, quem o apresentou foi o Jonas Vieira:

-Agora, o lindíssimo “El Condor Pasa”; música tradicional da América Latina, do Peru.

-Os americanos se meteram, mas a música é latina. - assinalou com alguma veemência o Simon Khoury, aludindo, provavelmente, a versão de Simon & Garfunkel de 1970. 

-E aí, Simon?

-Vamos fechar com o maior compositor vivo do mundo; compôs mais de 400 trilhas sonoras para o cinema e não recebeu Oscar algum, mas ele não dá a mínima bola para isso. Chama-se Ennio Morricone. Ouviremos “Por Uns Dólares a Mais”.

Simon Khoury não exagerou, foi até comedido; na verdade, Ennio Morricone foi responsável  pela composição e arranjo de mais de  500 filmes para o cinema e a televisão. 

Foi o fecho de ouro das obras musicais assoviadas, porque o Jonas Vieira ressaltou o centenário do Orlando Silva, que acontecerá em 3 de outubro de 2015, e pediu o samba-canção “Coqueiro Velho”, de Fernando Martinez Filho e José Marcílio, gravação de 1940.

Depois, foi enfático:

-Os centenários de grandes artistas têm passado em branco ou estão passando em branco...

-Este é o ano do centenário do Lupicínio Rodrigues e não é festejado. - aparteou o Simon Khoury.

-Com o Orlando Silva, isso não vai acontecer porque eu não vou deixar. - assegurou o Jonas.

E encerrou o Rádio Memória da Independência com o costumeiro abraço aos senhores ouvintes.

 

(*) O Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO tentou, em vão, localizar o Dieckmann, que não respondeu a nenhuma das mensagens enviadas. Parece que a devolução não ocorrerá, talvez devido ao excesso de fungos que há em Santa Teresa.

(**) O Distribuidor se lembra deste caso. O Dieckmann entregou o livro, interessantíssimo, por sinal, a alguém, que sumiu.

 (***) As falhas são o tempero da refeição dos críticos. Por falar nisso, escreveu-se tanto sobre assovios e nenhum dos mencionados e laureados, falantes ou escreventes, lembrou-se de mencionar o Oscar do assovio, a Marcha do Colonel Bogey, uma composição de 1914 que se tornaria célebre na trilha sonora do filme A Ponte do Rio Kwai. A trilha do filme recebeu o Oscar, merecidamente, na humilde opinião deste Distribuidor.

 

 

 

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