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terça-feira, 13 de agosto de 2013

2443 - O Lincoln que não era carro 2



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4243                           Data:  02 de  agosto de 2013
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92ª VISITA À MINHA CASA
2ª PARTE

-Lincoln, o problema da escravidão nos Estados Unidos sempre esteve fixado na sua mente; você foi ainda mais incisivo quando a Suprema Corte emitiu uma decisão em que os negros não eram considerados cidadãos e, por isso, não estavam protegidos pelos direitos constitucionais.
-Isso foi em 1857. Eu argumentei que os autores da Declaração da Independência jamais disseram que todos eram iguais em cor, tamanho, intelecto, desenvolvimento morais ou capacidades sociais, e sim que eles consideravam todos os homens criados iguais em direitos intransferíveis, como à vida, `a liberdade e à busca pela felicidade.
-No ano seguinte, você foi candidato ao Senado, já no Partido Republicano, quando proferiu o celebrado “Discurso da Casa Dividida”.
-Eu me baseei no evangelho segundo Marcos, capítulo 3, versículo 25. Uma casa dividida contra si mesma não pode permanecer. Eu acredito que este governo não pode suportar, infinitamente, ser metade livre e metade escrava. Disse que não esperava o desmoronamento da União, que não esperava ver a casa cair, mas que ela deixasse de ser dividida.
-Nessa sua campanha para o Senado, em 1858, você enfrentou o seu adversário de toda hora, Stephen A.Douglas, em sete debates.
-Stephen A.Douglas dizia que os colonizadores locais eram livres para escolher se queriam ou não a escravatura, baseado na Doutrina Freeport e eu o acusava de distorcer os valores firmados pelos Pais Fundadores, que todos os homens são criados iguais.
-Você perdeu a eleição e ele foi reeleito.
-Sim, mas adquiri um jornal para divulgar as minhas ideias, o “Illinois Staats-Anzeiger.”, de língua alemã.
-Eram tantos os americanos com ascendência germânica?
-Em Illinois, 130 mil, a maioria votou no Partido Democrata, mas não esmoreci.
 -No Brasil, diz-se que política muda como nuvem e nos Estados Unidos, parece que é assim também. Em 1860, você já era o candidato do Partido Republicano à Presidência da República. - comparei.
-Ajudou-me o fato de o meu pai ter sido um homem da fronteira, rotularam-me como o “Candidato das Ferrovias”.
-Os seus partidários mostraram, com êxito, que você foi um menino comum, vindo da agricultura, que alcançou o topo, através do trabalho, por seus próprios méritos.
-Os rapazes foram eficientes; conseguiram demonstrar o poder superior do trabalho livre.
-E um escritor do “Chicago Tribune” elaborou um panfleto com a sua biografia que vendeu centenas de milhares de cópias. Depois, foram tantas as obras sobre a sua vida que podemos considerá-lo um precursor em biografias.
-Era preciso enfrentar os riscos, e eu não recuei.
-Você foi eleito presidente e, quando tomou posse, em março de 1861, sete estados do sul se retiraram da União e, pouco depois, mais quatro, formando os Estados Confederados da América.
-Eles bombardearam o Forte Sumter, o que provocou a Guerra Civil. Era uma terrível crise que eu tinha de enfrentar com energia: decretei o bloqueio dos portos sulistas, e aumentei o número de soldados além do que rezava a lei.
-O Norte, Lincoln, cerrou fileiras pela União Nacional depois do ataque confederado. - disse quando notei que faria uma pausa.
-Concentrei os esforços militares e políticos na guerra. Meu objetivo era unir a nação.
-E tomou medidas drásticas.
-Como o sul estava em rebelião, exerci a minha autoridade para suspender habeas corpus para deter, sem julgamento, milhares de separatistas suspeitos. Evitei que o Reino Unido reconhecesse os Estados Confederados.
-Nesse caso, a sua habilidade prevaleceu no conflito diplomático. - assinalei.
-Aquela época pedia muita habilidade. - disse ele.
-No ano seguinte ao ataque do Forte Sumter, foi publicada a sua proclamação que concedia a liberdade dos escravos dos estados confederados.
-Foi o caminho para a abolição da escravatura em todo o país e, para mostrar ao mundo, que o sentido da guerra era a liberdade dos escravos.
-Em seguida, você assinou a lei da Proclamação da Emancipação, estimulando os estados escravocratas da fronteira tornarem a escravidão ilegal, preparando a aprovação da Décima Terceira Emenda à Constituição, no Congresso, que daria fim definitivo à escravatura.
-A votação da 13ª Emenda, na Câmara dos Representantes foi outra guerra. - disse ele respirando profundamente.
-Uma guerra, enquanto a da Secessão não tinha terminado.
-E não poderia acontecer naquele momento, pois atrapalharia todos os meus planos para dar a liberdade aos escravos. - disse um tanto agitadamente.
-Mas a votação da 13ª Emenda  ocorreu no mesmo ano do fim da guerra da Secessão.
-1865 foi um ano emblemático nos Estados Unidos. - atalhou.
-Alguns meses antes, houve as eleições e você foi reeleito.
-Muitos deputados também, mas alguns não obtiveram a reeleição. - assinalou com um brilho indizível no olhar.
-Na campanha eleitoral de 1864, narram os historiadores que a sua atuação foi extremamente astuta, apoiando a facção bélica do Partido Democrata sem perder a liderança do bloco maior do Partido Republicano.
-Eu, que sofri tantas derrotas na minha vida política, cheguei a um ponto que era a vitória ou nada. A chance de recuperação não existia mais para mim.
-Se não se reelegesse, terminaria o seu mandato como um lame duck, como se diz na política do seu país, “pato manco”.
-Mas aquela eleição de 1864 fez muitos lame ducks. - voltou-lhe o brilho indizível no olhar.
-Bem, era necessária mais do que a maioria absoluta na Câmera dos Representantes, a maioria qualificada, para libertar os negros, mas como obtê-la se a casa estava dividida? - perguntei.
-Foi necessária muita costura política.
-Imagino... Não, não imagino.
-Muitos deputados da oposição não se reelegeram, então, meus assessores vislumbraram a chance de conseguir os votos dos “patos mancos” favoráveis à libertação dos escravos.
-E o que você sugeriu?
-Escancaradamente, nada, mas deixei bem claro para eles que tínhamos de conseguir os votos necessários na Câmara dos Representantes.
-Apesar de a causa ser de uma grandeza única, não se recorreu a meios abjetos, como franquear os cofres públicos, para aprová-la.
-Não os “patos mancos” não receberam dinheiro, meus homens lhe ofereceram empregos para o tempo das vacas magras que se aproximava com a extinção dos seus mandatos.
-Muitos já eleitos ou reeleitos, mesmo no Partido Republicano, queriam que a eleição acontecesse depois da Guerra, que já chegava ao seu final.
-Isso representaria a derrota da 13ª Emenda.
-Sim, porque eu não trataria os sulistas como derrotados e sim, como cidadãos. Assim, os políticos de lá impediriam que a lei da libertação dos escravos vingasse.
-Sim, eles, os confederados, seriam cidadãos, pois o seu propósito maior era a União.
-E ainda havia republicanos que só aceitavam que os negros fossem livres, mas que não tivessem os mesmos direitos civis do branco. Bem, eu não podia obter tudo, a liberdade dos negros já era um grande avanço naquela época tão conturbada.
-Passaram cem anos e os negros americanos ainda lutavam pelos direitos civis. - frisei.
Bem, importa que ganhamos na Câmara dos Representantes, e a 13ª Emenda passou com este texto:
“Seção I – Não haverá nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito à sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição de um crime pelo qual o réu tenha sido condenado.”
“Seção II – O Congresso terá competência para fazer executar este artigo por meio das leis necessárias.”
-E pouco tempo depois, a guerra que custou 600 mil mortos terminou com a rendição dos sulistas.
-Apesar dessas vitórias, eu andava triste e a depressão me levou a sonhar que eu morria. Bem, contei esse sonho para Mary Todd, minha esposa, mas não vou contá-lo aqui.
Ergueu-se da poltrona e, com um sorriso melancólico, partiu.




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