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terça-feira, 6 de agosto de 2013

2441 - Memória surpresa 2



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O BISCOITO MOLHADO
Edição 4241                           Data:  31 de  julho de 2013
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A SURPRESA NO RÁDIO MEMÓRIA
PARTE II

Demonstrando a sua surpresa com a escolha do Papa Francisco, Jonas Vieira falou dos argentinos que, comumente, são contestadores compulsivos.
Sérgio Fortes se referiu, então, à expectativa de Dom Odilo Scherer ser eleito, que Luís Paulo Horta não cultivou.
-O conclave tem um dado misterioso. Bergoglio chegou a dizer a um amigo que não estava no páreo por ter 76 anos. Eu rezo, como católico, para que ele tenha um pontificado produtivo.
-Quais são as suas orações? - aproveitou o Jonas Vieira a deixa.
-As minhas orações são as tradicionais; Ave Maria, Pai Nosso, Credo.
Enquanto o convidado do programa citava as suas rezas, eu me reportava à bronca que levei da professora de catecismo porque desconhecia o Credo, mais tarde, decorei o Credo do Otello, de Verdi/Boito, mas não era a mesma coisa.
Quando mais uma vez o chamaram de teólogo, afirmou que os santos, sim, são teólogos e citou Santa Teresa D' Ávila, cujos livros lê sempre.
Sérgio Fortes fez um paralelo do Papa Francisco com o Papa João XXIII e Luís Paulo Horta logo interveio:
-O contexto era outro; elegeram João XXIII, com 77 anos de idade, para ficar quatro, cinco anos e, depois, elegeriam outro. Eles não imaginavam que, em quatro anos, ele mudaria a face da igreja. Era um psicólogo.
A palavra passou para o Sérgio Fortes:
-Eu me lembro, quando estava entrando no Santo Inácio, em 1958, que um colega meu gritou “Viva o Papa João XXIII”, que acabava de ser eleito.
-O atual papa me lembra muito o Luciani, o João Paulo I, que era uma figura formidável.- disse aquele que também estudou no Santo Inácio.
Talvez a alusão ao João Paulo I tenha suscitado no Jonas Vieira a  crença  de que ele foi assassinado, o que é mostrado no filme “O Poderoso Chefão 3”, pois  se referiu aos episódios terríveis que ocorreram no Vaticano, que até foram narrados por Stendhal nas “Crônicas Italianas”.
-Papa Francisco, contrariando interesses, não corre riscos? - perguntou:
-Não creio em teorias da conspiração. A Cúria não é o Politburo.
Nesse instante, Sérgio Fortes interferiu:
-Na Rússia é diferente. O que sumiu de gente... Saiu, no Globo, uma relação de políticos que desapareceram, foram muitos.
A palavra retornou ao Luís  Paulo Horta:
-A Rússia forneceu grandes escritores, Dostoievsky, Tolstoi... Um deles, Gogol, escreveu “Almas Mortas”, e colocou na epígrafe: “Olhai a vida russa e arrebentai em lágrimas.”
-É uma tragédia a vida lá. - comentou o Jonas Vieira.
-Nós não podemos dispensar a Rússia. Já imaginou o mundo sem Tolstoi, sem Dostoievsky, sem Stravinsky, sem Tchaikovsky?...
-Sem os enxadristas.- acrescentou o Jonas Vieira.
-Para esquecer a vida, eles jogam muito xadrez e bebem muita vodca.- concluiu o Luís Paulo Horta.
Então, as vozes se calaram e ouviu-se o dueto “La ci darem la mano”, do Don Giovanni de Mozart.
Logo em seguida, entraram os reclames comerciais que não respeitam nem os momentos divinos.
Depois de anunciar que ouvíamos o Rádio Memória, Jonas Vieira comentou que lia, ou melhor, devorava o livro “Sobre o Céu e a Terra” em que o então arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, dialoga com o rabino Abraham Skorka. Expressou o seu encanto com os dois religiosos e até leu um trecho do livro, o que prova que ele o devora mesmo, pois o levou até para o programa.
E destacou a frase: “Somente o caminho do conhecimento humano nos leva a Deus.”
Luís Paulo Horta, que, naturalmente, conhece a obra, expôs o seu parecer:
-É um livro que toca em pontos importantes.  Trata de encontros, mesmo o encontro político.
E prosseguiu:
-”Com a disparidade de renda, pessoas são levadas por caudilhos, que exploram as fraturas na sociedade. Eles separam a sociedade em nós e eles. Vejam o caso do Hugo Chavez; não discuto se foi bom para os pobres, há quem diga que sim, mas ele rachou a sociedade venezuelana. Quem faz isso com muita aplicação é a Cristina Kirchner, que não gozava das boas graças do Arcebispo Bergoglio. Ele não admitia que a Argentina fosse arrastada para um clima de exasperação. Vai haver lá, agora, em outubro, eleição para deputado. É um clima de você tem de ser a favor, se for  contra, é traidor da pátria,  bandido...
Se o Luís Paulo Horta não queria tocar na política brasileira, foi puxado para ela pelo Jonas Vieira.
-É como faz o Seu Lula.
-Por que ele tem de falar tão mal do seu antecessor, que teve pontos muitos interessantes? Ficou o clima de nós contra eles. Nesse ponto, Bergoglio é um vocacionado, veio trazer o diálogo. A vida cristã é o contrário do nós contra eles.
-Vemos um belíssimo diálogo entre um cristão e um judeu.- disse o Sérgio Fortes, antes de o Luís Paulo Horta retomar a palavra.
-Houve conflitos históricos entre cristãos e judeus. A grande tragédia da nossa história foi o antissemitismo, porque Jesus era judeu, Maria também. Se você é antissemita, você não pode ler a Bíblia. Veja esta frase de Bergoglio: “Antes de ser cristão, você tem de ser judeu.”
E continuou inspirado pelos bons fluidos:
-O Papa Francisco é preparado para o ecumenismo. Vivemos numa sociedade pluralista: católicos, evangélicos, islamitas...
E citou o ateu, como aquele que não teve formação religiosa, enfim, todos, sem exceção, que o papa quer unidos num grande encontro.
Durante alguns minutos, a música de Bach reinou absoluta.
Veio, em seguida, a parte mais profana do Rádio Memória desse domingo.
-Não é preciso dizer que é Bach. - disse o titular do programa.
-O compositor que a minha mestre chamava de Tião Medonho.
Entendi que o Tião vinha de Sebastian, mas o Medonho?... os risos impediram a explicação do musicólogo e mais ainda a intervenção do Jonas Vieira.
-No meu livro sobre Gonzagão e Gonzaguinha, aproveito para fazer a propaganda do livro...
Enquanto eu pensava nesse livro, “Encontros e Desencontros”, que escreveu com Simon  Khoury, ele prosseguiu:
-Bach tocava também nos enterros.
-Bach dirigia um coro de meninos que cantava  nos enterros porque não podia levar o órgão para o cemitério. - acrescentou o crítico de música.
Jonas Vieira retomou a palavra:
-Numa carta, Bach reclama do prefeito que morria pouca gente em Leipzig. Como pode um gênio capaz de compor obras tão sublimes ter esse pensamento tão mesquinho?
-Padrão Odorico Paraguaçu.- encaixou o Sérgio Fortes a sua piada.
-Ele teve vinte filhos, era um reprodutor.
-Teve duas esposas. - interferiu de novo o Sérgio Fortes,
Mas o musicólogo continuou como se Maria Barbara Bach tivesse os vinte filhos, e não treze, que também é um número assombroso.
-Imagino a mulher dele.. Ele precisava de dinheiro para sustentar a família. Naquela época, também, a mortalidade infantil era brutal.
E os instigantes fuxicos foram adiante até o Luís Pulo Horta chegar à explicação definitiva:
-É a fúria germânica.
Jonas Vieira interveio com mais uma pergunta sobre o papa, Depois, ouviu-se o dueto da Boheme, “Oh soave fanciulla”, com Pavarotti e Mirella Freni; os  dois cantores de Modena, que nasceram no espaço de quatro meses e mamaram na mesma ama de leite. Diria o Luís Paulo Horta, caso esse fato fosse abordado, que houve intervenção do Espírito Santos nesse leite.
-Gostou? - perguntaram ao convidado.
-Uma beleza...
-Você que não gosta de óperas... - brincou o Sérgio Fortes.
-Algum livro? - indagou o Jonas Vieira.
-Estou escrevendo um livrinho, que espero terminar logo, chama “De Pedro a Francisco, História de Papas.”
E fez a ressalva que não era “dos papas”, senão, seria um calhamaço. Em seguida, reportou-se ao jornalista Elio Gaspari, uma inteligência cintilante que, embora não seja católico, está fascinado com o Papa Francisco.
Penalizado, Jonas Vieira, agradecendo ao seu convidado, anunciou o encerramento do Rádio Memória daquele domingo.
Bem, nós, do Biscoito Molhado, procuramos, dentro das nossas possibilidades, reproduzir a conversação que, sob os bons fluidos da visita papal, tanto nos enriqueceu os espíritos.
 
 






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