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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

1996 - torturas e discursos

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 3826 Data: 9 de agosto de 2011

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MEIA-NOITE EM PARIS E MEIO-DIA NO SABADOIDO

PARTE II

O Sabadoido estava se transformando em palco de torturas mnemônicas.

- Como se chama aquela atriz escultural, que é filha de um integrante de Os Cariocas?...

- Aquela que é sapatão, Luca?...A Lúcia Veríssimo...

- Não, Claudiomiro. Eu me refiro àquela que provocou uma ereção em um ator, dentro de uma piscina gelada, às seis horas da manhã...

Lembrei-me então do filme “Rio-Babilônia” e citei o nome da Denise Dumont.

- Isso!... Denise Dumont! - vibrou o Luca.

- Ela é filha do Humberto Teixeira, parceiro do Luís Gonzaga, que nunca foi d’Os Cariocas. - disse meu irmão, como um professor que dá reprimenda na turma.

- A Lúcia Veríssimo até revelou que manteve relações com outras mulheres, mas ela não é sapatão. - contrapôs o Luca.

- A Denise Dumont produziu um documentário sobre o pai, chamado “O homem que engarrafava nuvens”. - falei.

- Produziu, porque o pai ficou em um injusto esquecimento, por causa da fama do Luís Gonzaga. - frisou meu irmão.

Fazendo justiça ao termo Sabadoido, o esforço de memória para trazer o nome da filha de Humberto Teixeira foi em vão, pois a conversa derivou para as habitantes da Ilha de Lesbos, na Grécia.

- O Vagner está organizando a Marcha do Dia do Orgulho Hétero e conta com a presença de todos. - assinalei.

Houve sorrisos, mas retruquei com seriedade:

- Um vereador do Rio de Janeiro conseguiu a aprovação do Dia do Orgulho Heterossexual.

Dissesse eu que se tratava de um político do DEM ou do PT, talvez se instalasse um debate no território do Sabadoido, mas me calei porque não sabia a que partido pertencia esse defensor das minorias, que, aliás, é um dos filhos de Jair Bolsonaro, deputado federal.

No entanto, a política passou a ser o assunto:

- O Ministério da Defesa é extremamente sensível. O Lula segurou o Nélson Jobim o quanto pôde e a Dilma coloca logo o Celso Amorim no lugar dele... - mostrou o Luca preocupação.

- A Dilma dá esporro. E o Nélson Jobim deve ter levado um. - imaginei que essa tenha sido a causa de ele ter buscado sua demissão.

- Jobim disse que a Ideli Salvati é fraquinha...

- E é fraquinha mesmo, Luca. - reforçou o Cláudio.

- E veio o Sarney, pensando que acertava as coisas, e diz que a Ideli Salvati é gordinha.

No meio dos risos, prossegui:

- Eu escutava o comentário do Merval Pereira, na CBN, com intervenções do Carlos Alberto Sardemberg e, quando este se referiu à tentativa do Sarney de colocar panos quentes, os dois caíram na gargalhada.

- Nélson Jobim se ajustava ao ambiente militar, vestia até uniforme de campanha...

Luca foi interrompido por meu irmão, que falava com a voz exaltada:

- Nélson Jobim perdeu o valor, para mim, quando colocou José Genoíno como seu assessor. Um sujeito que responde a processo no Supremo, que até foi afastado do partido...

- E logo o Genoíno!... - brilharam de malícia os olhos do Luca, lembrando a sua fama de alcaguete.

- Jair Bolsonaro fez um discurso, na Câmara dos Deputados, em que afirma que José Genoíno entregou os companheiros da guerrilha de Araguaia, sem levar sequer um tapa.

- Eu recebi o filme desse discurso pela internet. - informei.

- A única coisa boa para o Nélson Jobim, nessa história, é que ele não saiu por corrupção.

- Sim, Claudiomiro, com toda essa gente demitida por ser corrupta, ele saiu porque discordava dos métodos da Dilma.

Depois de concordar com o Cláudio, Luca se voltou para mim.

- O Jobim foi Ministro da Defesa durante todo o governo do Lula, não foi?

- Creio que sim. O Fernando Henrique criou esse ministério.

- Eu sei que foi o Fernando Henrique.

- Ele colocou o Valdir Pires como ministro. Não me lembro de outro...

- Eu também não, Carlinhos. Será que houve outro?

A nossa dúvida foi transferida para o Cláudio, que não a desfez. Depois, apurei que José Viegas, diplomata de carreira e ex-aluno do Colégio Militar do Rio de Janeiro, foi Ministro da Defesa ainda no início do governo Lula, em 2003 e 2004.

Voltei-me para o Vagner:

- Fernando Henrique Cardoso juntou os três ministérios militares em um só. Houve, antes, até rivalidades entre eles. Juscelino Kubitschek comprou, espertamente, o porta-aviões Minas Gerais, para que a Aeronáutica brigasse com a Marinha e, assim, todos não tivessem tempo para conspirar contra o seu governo.

Agora, o assunto José Genoíno tomava o lugar do ex-ministro da Defesa em nossa conversa:

- Eu, quando entrei para grupos de esquerda, avisei logo: não me digam segredo algum, porque eu não suporto dor, conto tudo.

- Esse cagão do Luca morre de medo de injeção. - comentou o Vagner. Sarcasticamente.

- E, no entanto, passou por esse atropelamento de motocicleta. - intervim.

Luca tomou a palavra:

- Sabem que um rapaz foi atropelado por uma motocicleta, agora, no mesmo lugar onde aconteceu comigo?!... Os bicheiros me contaram.

Só existe segurança mesmo no território do Sabadoido. - pensei sem nada dizer.

- Ele se encontra em estado de coma, porque bateu com a cabeça, o que não ocorreu comigo.

- Você ficou até com as marcas do pneu nas costas. - lembrei.

- Mas não bati com a cabeça.

Olhei para o relógio: meio-dia.

Olhei para o céu e concordei com o Luca: o céu, quando visto do Sabadoido, é mais bonito.

Veio-me à mente uma expressão recorrente do vice, na chapa do então candidato Lula, em 1989, o senador gaúcho José Paulo Bisol: “- Azul cerúleo”.

- Carlinhos, eu assisti a um programa que falava de Beethoven...

E Luca reproduziu o “tan-tan-tan-tan!...”.

- É o “Destino batendo à porta”. A surdez de Beethoven aumentava, e ele, então, representou com essas notas as batidas do Destino à sua porta. - falei.

Também esse era o chamado do celular do Dieckmann, que interrompeu duas aulas do Prof. Fiani, no Departamento de Marinha Mercante. - pensei, mas sem trazer esse caso à baila.(*)

A chegada da Gina, com o braço dobrado, embora não estivesse envolto em gesso ou outro material que o imobilizasse, fez convergirem todas as atenções.

- Soube que você caiu, Gina! - penalizou-se o Luca.

- E não foi medicada? - emendou.

- Havia tanta gente na emergência do hospital, que preferi dar meia volta e vir para casa.

- Não vai, então, sair?

- Não. E o Daniel foi trabalhar, mas daqui a pouco, chega.

- Fala, então, com ele, que a academia de ginástica fica aberta até três da tarde. - informou o Luca.

- Vamos, Carlinhos. - apressou-me.

Antes de pegar carona com o Luca, para Del Castilho, Gina me levou até a cozinha.

- Carlinhos, entregue este presente à sua sobrinha. Não poderei ir à festa por causa do braço...

- Gina, a festa é perto do Engenhão e hoje tem jogo do Flamengo... Haverá engarrafamento!...

- Talvez não. - mostrou-se otimista.

- Eu, quando era menino, peguei a barca de Niterói bem na hora em que a torcida do Flamengo voltava para o Rio, depois de um jogo contra o Canto do Rio. Sei o que é isso...

- Boa sorte. - desejou a Gina.

(*) Trata-se de um caso raro: a pessoa pensa, não fala e escreve o que fez e o que não fez.

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