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quarta-feira, 10 de junho de 2015

2870 - o despertador de Haydn


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5120                                  Data:  05 de junho de 2015

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CARTAS DOS LEITORES

 

-Compulsando as páginas do Biscoito Molhado do meu arquivo, deparei-me com um dos muitos exemplares que trataram do programa dominical Rádio Memória, do Jonas Vieira e do Sérgio Fortes. Nesse número, o Dieckmann é criticado porque, como convidado, pediu uma gravação com a Lady Gaga. Agora, que vemos a cantora formar um dueto com Tony Bennett, o maior cantor americano segundo o Frank Sinatra e que vai se apresentar, com elogios fartos,  num tributo ao filme “A Noviça rebelde”, na entrega do Oscar, como fica essa crítica? Aproveitando a oportunidade, uma informação: por que o Dieckmann não foi mais ao Rádio Memória?... Foi por causa da Lady Gaga? Nuno Álvares

BM: Recordo-me que, na nossa crítica ao Dieckmann, nós escrevemos que a Lady Gaga não era para ser ouvida e sim vista. Nós prestávamos atenção em tudo da Lady Gaga, menos na sua voz, o que nos levou a cometer essa injustiça, não com o Dieckmann, que subverteu a filosofia saudosista do programa, mas à cantora, que não é apenas um corpo bem fornido.

Dieckmann não vai mais ao Rádio Memória, pelo que a reportagem do Biscoito Molhado apurou, por causa de um desentendimento com o Jonas Vieira; o Dieckmann é Márcia, e o Jonas Vieira, Marisa Gata Mansa. Acreditamos que, nessa polêmica, o titular do Rádio Memória também fugiu da filosofia do programa. Se se desentendessem porque um é Emilinha, e o outro, Marlene, aí sim, estaria tudo certo.

 

-O Biscoito Molhado registrou as palavras do Sérgio Fortes em que ele, no papel de Homem-Calendário, referindo-se à fundação da cidade de Juiz de Fora, comentou que indo para lá, num domingo em que jogavam Botafogo e Flamengo, encontrou parte da população trajando a camisa da estrela solitária, e parte, a camisa rubro-negra. Será que este periódico pode nos informar quem venceu essa partida? Clóvis

BM: A reportagem do Biscoito Molhado procurou o Sérgio Fortes, mas ele não pôde nos atender porque ensaiava uma ária da ópera Werther de Massenet. Ser tenor era o grande sonho do nosso amigo, mas o seu pai, o grande barítono Paulo Fortes, exigiu tanto da sua voz, numa aula, que ele ficou um dia inteiro sem falar, conforme narrativa do Rogério Barbosa Lima na sua biografia “Paulo Fortes - Um Brasileiro na Ópera”.

Apesar desse contratempo, tentaremos responder a sua pergunta da melhor maneira possível. Se essa ida a Juiz de Fora do Sérgio Fortes se deu naqueles anos em que o Botafogo foi promovido de General Severiano a Marechal Hermes, o Flamengo ganhou, mas se ele foi no tempo em que o goleiro Manga dizia que já gastava o dinheiro do bicho na feira por antecipação, nos jogos contra o Flamengo, o Botafogo, com toda certeza, ganhou.

 

-Num desses Sabadoidos do Biscoito Molhado, eu li que o aniversário da Gina, no dia 23 de abril, não poderia ser esquecido por causa de duas referências mnemônicas poderosíssimas: o dia e mês de nascimento do Pixinguinha e o Dia do Choro. Perguntamos: o que é isso?... Bullying com São Jorge? Eduardo

BM: Não, nada disso, respeitamos o Santo Guerreiro. O fato é que o foguetório que celebrou o seu dia foi tamanho que os bairros do subúrbio se transformaram, cada um, numa Copacabana na passagem do ano; portanto, nas nossas páginas sobre o Dia 23 de abril, mesmo que ele não seja citado, está presente. Aliás, no atual momento político do Brasil, ele é evocado todos os dias do ano para matar o dragão, e não é à inflação que estamos nos referindo.

Já escrevemos, em páginas pretéritas, sobre a sua imagem dentro de uma redoma, em plena ação, envolta de flores vermelhas e brancas, na Praça Manet; pois, passados quase dois meses, ela lá continua soberana e altaneira, nenhum iconoclasta, nenhum chutador de santa apareceu para agredi-la, apesar da proximidade da sede da Igreja Universal do Reino de Deus.

Nos anos anteriores a este em que houve a inauguração dessa imagem, o ponto alto da festividade do Dia de São Jorge, em Del Castilho, era, por volta das 18 horas, uma cavalhada seguida por uma carreata pelas ruas do bairro. Nesses momentos, quase estourava um guerra santa contra os seguranças da citada igreja evangélica, pois eles recebiam ordem de impedir a passagem da procissão do Santo Guerreiro. Mas os católicos seguiam em frente, unidos com os umbandistas, formando uma força poderosa. Mas faltou pouco para os jornais noticiarem a “Noite de São Bartolomeu de Del Castilho”.

 

 -No verbete Decepção do Minidicionário Autobiográfico do redator do Biscoito Molhado, foi registrada a sua breve soneca durante a fala do Robero Galli, um dos grandes nomes da Marinha Mercante brasileira, num simpósio, o que levou o palestrante a se decepcionar. Ora, eu já assisti a incontáveis palestras e, até agora, só não surpreendi o conferencista dormindo. Assim sendo, não há razão para se apoquentar. Gregório.

BM: Sim, concordamos. Num espaço amplo, como aquele em que eu me encontrava, em Botafogo, com uma miríade de cabeças entre mim e o palestrante, imaginei que poderia dormitar sem ser descoberto.

No trecho sobre o verbete citado no Minidicionário Autobiográfico, foi citado o Comandante Jorge Para Nina, que se tornou nosso chefe no Bureau de Estudos de Fretes, após oito anos no posto de delegado do Lóide Brasileiro, em Hamburgo, na Alemanha. Essa lembrança me conduz a um dorminhoco mais ousado do que eu. Passemos, agora, para esse caso.

Numa reunião com os representantes estrangeiros da Conferência Brasil/Europa Brasil, sobre o reajuste geral de fretes do ano, o nosso chefe, que a coordenava, quando tratou da seção IV desta Conferência – Inglaterra e Reino Unido - expôs as suas considerações e, em seguida, dirigiu-se ao seu representante:

-Mister Rose.

Nada.

-Mister Rose. - repetiu.

Nada.

A gargalhada do Comandante Parga Nina acordou o Mister Rose.

O compositor Haydn, que foi celebrado em todo o mundo culto, mesmo enquanto vivia – alguns o consideravam o Shakespeare da Música, compôs uma sinfonia, a de número 94, denominada “Sinfonia Surpresa”. Nessa obra, há um momento em que a orquestra toca em piano quando, subitamente, soa um acorde em fortíssimo. O compositor explicou, depois, a razão desse trecho: era para acordar os que estavam dormindo na plateia.

        Grande Haydn.

 


 

 

terça-feira, 9 de junho de 2015

2869 - Henry Mancini Vol.2


 

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5119                                  Data:  03 de junho de 2015

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HENRY MANCINI NO RÁDIO MEMÓRIA

PARTE II

 

-Eu tenho uma surpresa para vocês agora.

-Outra, Simon? - surpreendeu-se o Jonas Vieira.

-Humphrey Bogart...

-Bogart. - voltou o titular do programa ao seu tempo de professor de inglês ao corrigir a pronúncia do Simon Khoury.

-Ingrid Bergman...

-Bergman. - ensinava-lhe, agora, a pronúncia sueca.

Como o Simon Khoury não citou, em seguida, nenhum nome polonês, o Sérgio Fortes permaneceu silencioso.

-Os dois fizeram um filme juntos e a música seria de Max Steiner, mas o produtor não gostou, queria um tema diferente, uma coisa bonita, melodiosa.

E prosseguiu o filho da Anna Khoury:

-Havia um baú com uma série de músicas rejeitadas, elas ficavam lá até que um dia pudessem ser aproveitadas ou não. Assim, pegaram desse baú uma música para esse filme que se tornou famosa em todo o mundo. Mancini veio e deu um colorido todo especial a ela. Não vou dizer o nome porque é por demais óbvio.

Deleitamo-nos com “As Time Goes By”.

-”Casablanca” é de que ano?

Com essa pergunta, Sérgio Fortes rechaçava a observação ferina do Dieckmann de que ele não assiste a filmes em preto e branco.

-1942.

Depois, o programador musical do Rádio Memória desse domingo informou que a canção “As Time Goes By” foi composta por Herman Hupfeld; o ano, 1931.

-Muito bem. - aprovou tudo o Jonas Vieira.

A palavra retornou ao empolgado Simon Khoury.

-Perceberam o nosso jogo?... uma música instrumental de Mancini e de outro compositor, arranjada por ele, porque era generoso; gravou mais temas dos outros do que dele próprio.

-O gênio é assim. - assinalou o decano dos radialistas do Rio de Janeiro.

Nos programas em que o Simon Khoury participa, sempre histórias são contadas por ele, mas, dessa vez, quem tomou a iniciativa foi o Jonas Vieira.

-Há uma do Einstein que, para mim, é uma delícia. Em mil novecentos e vinte e pouco, ele costumava sair para conferências, palestras; mas não gostava de andar no carro dele, de dirigir; contratou, então, um motorista de táxi para levá-lo a esses eventos. Einstein falava e o motorista ficava com ele, assistindo a todas essas palestras. Um dia, indo a determinado lugar, ele disse que não suportava mais falar sobre o mesmo assunto. O motorista, então, lhe disse: ”Não tem problema, eu já ouvi tanto o senhor falar que já sei tudo de cor e salteado. Eu falo por você.” O cientista concordou e eles trocaram de roupa. Quando o motorista terminou a palestra, vieram muitas palmas e alguém se levantou e lhe fez uma pergunta terrível. O motorista disse que aquela pergunta era tão simples, que ele ia pedir ao seu motorista para respondê-la.

-Há também uma história muito conhecida do Einstein. - interveio o Simon Khoury enquanto riam da primeira.

-Ele estava no ponto de ônibus de cuecas, uma moça, quando o viu, o interpelou: “O que é isso?... O senhor não tem vergonha, não?” E Einstein: “Desculpe-me. Qual é o nome da menina?” A moça respondeu: “Albertina Einstein, não é papai?”. Ele era muito distraído.

Depois da “Pausa para meditação”, Simon Khoury retornou no mesmo diapasão de entusiasmo.

-Mais uma surpresa para vocês. Henry Mancini fez sucesso com vários seriados na televisão: “Peter Gunn”, “Mister Lucky” e outros. Ele ousou, então, criar um arranjo para “Mister Lucky” em ritmo de Cha-Cha-Cha. Como se não bastasse, ele colocou cordas, toda a parte de percussão e, vejam só, o órgão, que ninguém usa por medo, é difícil pra burro de tocar, eles preferem pegar essas coisas eletrônicas que todo o mundo faz.

Após o “Mister Lucky”, Jonas Vieira justificou o “atualidades”, que é um dos componentes anunciados do programa Rádio Memória, e investiu contra a criminalidade.

 -Ouvintes, nós batalhamos, mas, infelizmente, as coisas vêm acontecendo. Mais um caso terrível, escabroso, que foi o assassinato desse médico, na Lagoa, por um pivete, um criminosozinho protegido por ONGs e por pensamentos absolutamente doentios; de gente doente que deveria fazer as pazes com a vida. Eu gostaria que a Marieta Severo e outros levassem esses meninos para cuidar; mas não querem, eles querem que os outros cuidem. Por que o Chico Buarque não faz isso?

-Por que a Marieta Severo? - aparteou o Simon Khoury.

A resposta foi dada pelo Sérgio Fortes:

-Ela deu uma entrevista no segundo caderno do Globo. Foi um azar tremendo, coitada, é bem verdade, porque na véspera desse episódio, ela falou loucamente contra a maioridade penal aos 16 anos.

Feito o esclarecimento ao Simon Khoury, expôs seu parecer:

-É um negócio de uma obviedade; você prende um menino desses que já foi preso 15 vezes.

-15 vezes, e não é punido. - acrescentou o Jonas Vieira.

-Punido, nada. Na casa dele, havia 9 bicicletas, uma montanha de facas.

Jonas Vieira retomou a palavra:

-E essas ONGs, e essa gente, juristas, não sei o quê, defendendo... Vai piorar. A cidade tem de ser defendida. Não pode ficar a mercê desses criminosos. Tira de circulação e aí, faz um colégio, bota as freiras para ensinar, para todos eles ficarem santos. Eu não aguento mais essa coisa! Está insuportável! A mídia é outra culpada, contribui para isso porque noticia essas coisas, dá grande destaque às facadas, como aquela no Centro da cidade. Por que noticia essas coisas? Isso incentiva mais o crime. Poxa! Você vê, depois, uma série de crimes com faca na mão, tudo por causa da mídia que dá um espaço enorme à violência. Tomara que o Congresso tome uma providência. Tenho netos, filhos, amigos que estão expostos a isso.

A palavra voltou para o Sérgio Fortes:

-Jonas, esse médico, que foi brutalmente assassinado, já estava no chão, absolutamente dominado e foi esfaqueado diversas vezes. Esses anjinhos... Qual o pressuposto? Você coloca num lugar, e eles viram congregados marianos?...

-Essa leniência tem de parar, não só com menores, mas de um modo geral. Um cara com 90 anos de condenação é solto... Veio um juiz e soltou essa figura... É brincadeira.

-Jonas, houve um que saiu no Dia das Mães e não voltou mais.

-Porque o Brasil é uma mãe, Sérgio.

Parodiando o Jonas Vieira e o Sérgio Fortes: pior do que isso só no inferno.

Depois do desabafo, o titular do programa se voltou para o fã nº1 do Henry Mancini:

-Simon Khoury, vamos abrandar o programa.

Mas quem se manifestou foi o Paulo Fortes:

-Simon Khoury, você falava de um CD de 1991, intitulado “French  Collection”...

-”Connection”

-Você escreveu “Collection”.

-Errei sim, manchei o seu nome. - citou o Simon Khoury um grande sucesso da Dalva de Oliveira.

Sérgio Fortes perguntou, e ele mesmo respondeu:

-Quais são as músicas? “Crown, o Magnífico”, “Era Uma Vez, um Verão”, “Love Story” e “Um Homem e Uma Mulher”. Nesse CD, Mancini dirige, não é pouca coisa, a London Symphony Orchestra e homenageia Michel Legrand e Francis Lai.

E a música reinou absoluta.

-Esse pout-pourri  é de uma beleza extraordinária. - não se conteve o Jonas que, em seguida, se voltou para o seu parceiro.

-Creio, Sérgio, que chegamos ao final do nosso encontro com Henry Mancini.

-Há mais uma música. - interveio o Simon Khoury. Um filme de 1970, dirigido por Victorio De Sica com Sofia Loren e Marcelo Mastroiani.

Embora o tempo urgisse, ele contou a sinopse do filme, Girassóis da Rússia, para, em seguida, anunciar a última gravação do programa num inglês de jogador de futebol brasileiro com um mês na Inglaterra.

Ouvida a bela música, tema da fita, Jonas Vieira pediu que ele repetisse o nome.

Como não foi entendido, Simon Khoury soletrou: L-O-S-S-O-F-L-O-V-E. Depois, juntou tudo numa pronúncia parecida com a do técnico Joel Santana.

-Perdoai, Pai, ele não sabe o que diz. - foi a reação do Jonas Vieira.

Bem, leitores do Biscoito Molhado, este foi o Rádio Memória do dia 24, transmitido às 5h da manhã, que só a coruja da nossa redação ouviu e gravou. No dia 31, ele foi bisado no seu costumeiro horário. Ainda bem, pois programa assim não é coisa que se perca.

 

    

 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

2868 - Henry Mancini Vol.1


 

 

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5118                                  Data:  02 de junho de 2015

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HENRY MANCINI NO RÁDIO MEMÓRIA

PARTE I

 

-Rádio Roquette Pinto 94.1 Programa Rádio Memória.

Jonas Vieira foi interrompido pelo seu parceiro:

-Continua 94.1?... Algumas emissoras, como a Rádio MEC, trocaram a frequência.

Depois da confirmação, veio a dúvida: 94.1 ou 94,1. Chegaram, logo, a um acordo: 94;1.

Agora, a voz roufenha do Simon Khoury se fazia ouvir:

-A minha mãe lançou a Rádio Eldorado com um slogan: “O mínimo de palavras e o máximo de prazer para os seus ouvidos.”

Enquanto o Sérgio Fortes elogiava o lema da Anna Khoury, que também trouxe as frequências moduladas para a radiofonia brasileira, seu filho chamava a atenção do Jonas Vieira:

-Jonas, não é para botar já a música. Deixa-me falar.

-Se é o mínimo de palavras...

-Eu sou paradoxal. - assumiu o Simon Khoury.

Mas quem falou foi o Sérgio Fortes:

-O Simon preparou um roteiro para o programa de hoje que eu diria encapetado. Ele juntou demandas de ouvintes importantes do Rádio Memória, Barack Obama, Angela Merkel, Bill Clinton, David Cameron e o Diretor da Casa da Moeda, este aqui vai porque é chefe do sobrinho do Carlos Nascimento do Biscoito Molhado, que pediram gravações do Henry Mancini. Dois deles ainda solicitaram Ennio Morricone, John Barry, Burt Bacharach, Dimitri Tiomkin, Max Steiner, além de Michel Legrand.

E Sérgio Fortes prosseguiu na sua locução:

-Vamos ver se está certo, Simon; começando com uma música que é marca registrada de Henry Mancini, a interpretação do tema principal de “A Pantera Cor de Rosa” com a participação do exímio flautista, que vinha tocar no Teatro Municipal do Rio, James Caldwell.

Depois da gravação, o titular do programa se manifestou:

-Simon está, aqui, debulhando Henry Mancini, não é verdade, Sérgio?

Ele confirmou e disse que o flautista James Galway viria tocar, no ano passado, com a Orquestra Sinfônica Brasileira, mas um problema de saúde o impediu.

-A sua mulher, que o acompanharia, também é flautista, se não me engano.

Veio, então, o calendário do dia 31 de maio no dia 24, como já explicamos na edição do Biscoito Molhado anterior, cuja perícia nas carrapetas do André Ricardo fez que ouvinte algum notasse a costura; foi, como diriam os poetas parnasianos, “um manto inconsútil”.

Agora, Jonas Vieira se voltava mais uma vez para o apresentador bissexto do Rádio Memória:

-Simon Khoury, você que se acha um grande entendedor de Henry Mancini, quais foram as influências que ele recebeu?

-Victor Young, David Rose.

-Somente, Simon?

-E os clássicos. Todos os grandes compositores estão ligados aos clássicos. - acrescentou.

Então, o Jonas Vieira citou o seu ídolo:

-E do Andre Kostelanetz?... Ele não sofreu influência?

Simon Khoury negou duas vezes.

-E o Glenn Miller?

-Não, Jonas, ele tocou trombone com o Glenn Miller, mas não foi influenciado.

-Eu não sabia que o Henry Mancini tocou com o Glenn Miller. - confessou o Sérgio Fortes.

A palavra voltou para o Simon Khoury:

-Eu mudei o roteiro; agora Henry Mancini com Duke Ellington: “C. Jam Blues”. Vejam o que vai acontecer.

-Fantastique! - extasiou-se o Jonas Vieira em francês e, em seguida, em português.

-Primeiramente, a composição; Duke Ellington é, para mim, o maior nome da música americana jazzística; é um gênio compondo, tocando, tudo.

-Com o toque do Henry Mancini. - aditou o Sérgio Fortes.

-Você ouve, ao mesmo tempo, Duke Ellington e Henry Mancini. Duke Ellington pegava a orquestra dele, colocava um para fazer o solo, então, entrava o seu piano bem sutil.

-Melhor do que isso só no céu. - concluiu o Sérgio Fortes as palavras do Jonas Vieira.

-E agora, Simon?

-Agora, Jonas, uma coisa pessoal. Houve uma música que ouvi, em 1964, que mudou totalmente a minha maneira de ver a música. Estavam na minha cabeça um pouco de bossa-nova, aquelas coisas antigas, concertos... A minha mãe me obrigava a ouvir Chopin... Então, eu estava quieto, ouvindo a Eldorado, e, de repente...

De repente, a epifania do Simon Khoury, vamos a ela nas suas palavras:

-...Tocou um negócio, uma coisa meio latina... apareceu um violão, um trombone, e quando entraram as cordas... a maneira como juntou as cordas... Antes, era o Andre Kostelanetz, Mantovani, Paul Western, mas aquilo...

Após o seu êxtase retrospectivo, Simon Khoury esclareceu:

-Era Henry Mancini com o tema que se chama “Lujon”, que não foi composto para o cinema, mas todo o mundo passou a usar em vários filmes em cenas de suspense. Atentem para as cordas no arranjo. Tem saxofone, violão, uma coisa impressionante... meio latina.

Entrou, em seguida, a gravação de “Lujon”, que também é chamada de “Slow Hot Wind”.

-Um banquete para os ouvidos e corações. - reagiu o Jonas Vieira antes da intervenção do Sérgio Fortes.

-Eu fico imaginando o capricho que envolve realizar uma gravação dessas; o equilíbrio de tudo, a entrada dos instrumentos. O que aparece na parte final... vou dizer uma barbaridade, tipo reco-reco, é no tom certo. É de uma sutileza... Eu admito que a gravação dessa faixa tenha levado um mês para sair.

-Uma precisão, uma exatidão, que chega à perfeição.

E o Jonas Vieira não mais rimou, porque o Simon Khoury interveio.

 

 

sexta-feira, 5 de junho de 2015

2867 - prostituição musical


 

 

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5117                                  Data:  30 de maio de 2015

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SABADOIDO LEVADO NA FLAUTA

 

Daniel conduzia a mãe para um restaurante no Méier e, como normalmente faz, alterou o percurso para me deixar em casa. Quando o seu carro, parou no primeiro sinal que encontramos, a Gina se manifestou.

-Ontem, quando este sinal fechava para os motoristas, uma mulher, com uma blusa tomara que caia, uma calça arrochada que realçava ainda mais o seu traseiro, se metia no meio dos automóveis tocando flauta,

-A popozuda era uma Altamiro Carrilho de saia, digo, de calça arrochada?

-Nada, Carlinhos; ela enfiava os dedos em qualquer buraco e soprava. Queria, certamente, que alguém a carregasse para o motel. - respondeu-me.

-Era uma prostituta que abordava os clientes musicalmente.

-Ela queria nota, Carlão e não era da flauta. - manifestou-se meu sobrinho.

-Quando eu dirigia, eu topava muito, nos sinais, com garotos fazendo malabares com limões, laranjas, quaisquer coisas esféricas. Não tenho visto mais esses malabaristas.

-Passaram a fumar craques. - disse a Gina.

-Não foi notícia, agora, um menino que se tornou médico depois de vender bombons no ônibus? Talvez alguns deles tenham entrado numa faculdade do governo.

Sempre cética, minha cunhada zombou do meu otimismo para arrematar:

-Mesmo que entrassem, não adiantaria nada, pois está tudo parado. Não há verba nem para limpar os banheiros.

-É a pátria educadora da Dilma candidata.

-Pátria cagadora.

-Carlão, chegamos.

Como sempre faz, ao deixar-me em casa, Daniel imitou o Luca que, em Sabadoidos passados, levava nós três no seu carro como caronas.

-Dê miiiiiiiiil abraços apertados na Dona Vivi.

A abertura desse Sabadoido se deu como o seu encerramento, sem alterações dignas de nota, a não ser se eu visse uma flautista calipígia no meu caminho até a casa das nossas reuniões de sábado. O que encontrei foram as obras da Prefeitura que duram uma eternidade.

-Cada vez o buraco na sua calçada aumenta mais; sem sustentação, o muro vai cair. - disse ao Claudio quando ele abriu o portão para mim.

-O pior que só sai um fiozinho de água nas torneiras lá dentro. - reclamou.

Na cozinha, os assuntos foram outros.

-Já leu a autobiografia do Bill Clinton?

-Claudio, já vai distante o tempo em que eu lia volumes de 400 páginas em menos de uma semana e esse do Bill Clinton é um cartapácio de mais de 900 páginas. Segundo o meu cronograma de leitura, em um mês, eu chego ao imbróglio dele com a Monica Lewinsky.

-Você agora está onde?

-Lá pela página 260; quando ele se refere ao tempo de governador do Arkansas, o seu estado natal.

-É interessante?

-Um cargo desses é interessante, no mínimo, muito movimentado. Mas o que achei mais curioso foram os seus textos sobre uma eleição anterior sua para congressista, que ele se empenhou com todas as forças e perdeu. Clinton comenta que a derrota lhe tirou o ânimo, quase o levou da tristeza à depressão, e que, anos depois, constatou que, caso fosse vitorioso, jamais chegaria à Presidência da República.

-Diz o ditado popular: o que é do homem, o bicho não come. - manifestou-se.

-Na hora, lembrei-me da derrota do Fernando Henrique Cardoso para o Jânio Quadros. Se o Fernando Henrique Cardoso se elegesse prefeito de São Paulo, ele nunca seria presidente da República.

-Essa eleição foi em 1985, bem antes, Carlinhos.

-Sim; mas o F.H.C. se elegeu porque comandou a equipe de notáveis que formulou o Plano Real. O Itamar Franco já havia escolhido três ou quatro ministros da Fazenda, em dois anos, que não deram certo, então o Roberto Freire lhe sugeriu nomear o F.H.C., que era o ministro das Relações Exteriores.

-Ele aceitou contra a vontade. - assinalou meu irmão.

-O êxito do Plano Real o catapultou à Presidência da República, afinal, o povo não aguentava mais uma hiperinflação que, no acumulado de 17 anos, chegava a casa dos quintilhões, ou número parecido, por cento.

-Então, valeu a pena sentar na cadeira de prefeito de São Paulo, que o Jânio Quadros desinfetou com uma lata de inseticida?

-Como valeu! - respondi ao meu irmão.

-Como está Dona Vivi? - perguntou-me a Gina adentrando a cozinha.

-A mamãe está cada vez mais surda. Dia desses, chegando do trabalho, vi a minha mãe jantando e, como sempre, com o rádio ligado.

-Ela escuta muito a Rádio Catedral. - aparteou-me o Claudio.

-Estranhei porque a prédica religiosa era quase gritada, dita com ferocidade. Padre não fala assim... Fui averiguar a emissora. Depois, voltei-me para ela. “Mãe, você está ouvindo um pastor. Isto é rádio evangélica.” Ela quase engasgou: “Tira daí... Tira daí.”

-Carlinhos, nós temos de nos preparar: a mamãe, a Tia Flavinha, o Tio Vivinho...

-A Tia Sofia, que nós não conhecemos. - acrescentei à lista de humor negro do meu irmão.

-Todos surdos. É genético. - afirmou.

-Eu percebo que a audição do meu ouvido esquerdo está aquém do outro, e, às vezes, tenho de passar o telefone para o ouvido direito para ouvir o meu interlocutor, - revelei.

-Carlinhos, se eu fosse você, já começava hoje mesmo um curso intensivo de leitura labial. - não perdeu a Gina a oportunidade para mais uma piada.

-Numa das cartas da Rosa, ela escreveu que um dos maiores sofrimentos dela é não poder mais ouvir a Sinfonia nº7 de Beethoven e o “Miserere” da ópera “O Trovador”, de Verdi. - lembrei.

-Carlão, você foi no casamento do Roberto Jefferson? - era agora o Daniel que marcava a sua presença na cozinha.

-Roberto Jefferson é o São Dimas da política brasileira. Ele salvou o Brasil de ter o José Dirceu como presidente da República.

-Em compensação, temos a Dilma Rousseff.

-Dos males o menor, Gina. - devolvi.

-Falando em ladrões, Carlão, e o presidente da CBF?

-Merece julgamento e cadeia nos Estados Unidos, onde a justiça é de um país sério. - comentei.

-Bem, vou agora para a academia. Volto daqui a pouco.

-Vê se não desamina dessa vez, Daniel. Se você não estiver perdendo peso na rapidez que pretendia, é porque está ganhando massa magra, músculos, que também pesam, mas são bem vindos.

-Carlão, um dia, você será o meu Nuno Cobra. - disse ao sair.

-Não demora para a gente não almoçar muito tarde no Méier - gritou a Gina quando ele já rumava para o portão.

E a conversação se seguiu do seu retorno até a carona que me eu, como foi contado.

 

 

 

 

 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

2866 - os cariocas do brejo


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5116                                  Data:  31 de maio de 2015

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RÁDIO MEMÓRIA NA HORA CERTA

 

-Sérgio, o que aconteceu no dia 31 de maio?

-Espero que esse calendário não vá ao ar 5 horas da manhã, se não, só as corujas de Del Castilho vão nos ouvir.

-Dessa vez, o Rádio Memória não vai cair da cama. - garantiu o titular do programa.

Falando sério agora: o calendário do dia 31 de maio foi citado no programa do domingo anterior, mas ninguém viu a costura, tal a perfeição com que o operador de áudio, André Ricardo, trabalhou nas carrapetas.

-Em 1469, nasceu Dom Manuel I, rei de Portugal, cognominado “O Venturoso”.

-Ele não era pé frio?

-Não era, Jonas.

-Outro dia, você não disse que houve uma peste no reinado dele?

-Nem tudo é perfeito. Vamos lá.

-Em 1491, nasceu Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus. Jonas, foi o pontapé inicial para o surgimento do Colégio Santo Inácio. Todos sabem que eu morro de orgulho da minha iniciação inaciana.

-E do Colégio Piratininga, pelo jesuíta Manoel de Nóbrega, que deu origem à cidade de São Paulo. - lembrou o Jonas Vieira.

-Sim, mas o Colégio Santo Inácio é bem mais importante e eu sou insuspeito para dizer isso.

-Em 1492, os Reis Católicos, Isabel de Castela e Fernão de Aragão, firmaram um decreto de expulsão dos judeus de todos os seus reinos.

-Lamentável, Sérgio.

-Jonas, em 711, a península ibérica foi invadida por muçulmanos que lá ficaram instalados durante séculos. Nesse período, árabes, judeus e católicos coexistiram sem maiores sobressaltos.

E pensar que os muçulmanos já foram um exemplo de harmonia...

-Em 1594, morreu Jacopo Tintoretto, pintor veneziano.  Jonas, você tem um Tintoretto em casa?

-Não, mas tenho um Picasso.

-Em 1793, os extremistas da Convenção, os jacobinos, declararam os girondinos, ou moderados, fora da lei, dando início ao período conhecido, na Revolução Francesa, como Terror. Jonas, em um ano de duração, foram guilhotinadas mais de 5 mil pessoas.

-Só parou quando guilhotinaram Robespierre, o líder dos Jacobinos, não foi?

-Sim, Jonas. Depois de se matarem, os franceses, sob o comando de Napoleão Bonaparte, saíram pela Europa matando os outros.

-Em 1809, morria um gênio da música: Joseph Haydn.

-Grande compositor! - exclamou.

-Jonas, ele era tão conceituado que, na época, Napoleão Bonaparte, dominava Viena, pela segunda vez, com o seu exército. Ao saber que Haydn estava doente, ele enviou soldados para proteger a casa do compositor e, quando ele faleceu, vários dos seus generais e oficiais compareceram aos funerais.

-Napoleão foi um apreciador das sinfonias, dos quartetos de corda, das óperas e oratórios de Haydn, eu suponho, Sérgio.

-Jonas, na verdade, Napoleão gostava mesmo era de hinos e marchas militares, mas ele tinha de manter as aparências de personalidade culta; afinal, ele fez questão de conhecer Goethe.

E prosseguiu o Sérgio Fortes:

-Michel Bessler, spalla da Orquestra Sinfônica Brasileira, sempre me dizia que temos de tocar Haydn, que só se forma uma grande orquestra tocando Haydn.

-Em 1819, nascia Walt Whitman, poeta norte-americano. Ele foi muito admirado, influenciou um dos heterônimos do Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, que escreveu o poema “Saudação a Walt Whitman”.

-Ele era o ídolo do professor do filme “A Sociedade dos Poetas Mortas”, que citava “O Captain! My Captain!”. - lembrou o Jonas Vieira.

-Captain era como o poeta chamava o presidente Abraham Lincoln.

-Uma boa notícia: em 1820, acabava a Inquisição no México.

-No Brasil, deve ter se encerrado por aí, Sérgio.

-Mas ainda deu tempo para a Rainha Carlota Joaquina se apropriar de uma chácara em Botafogo cujo proprietário foi delatado como judeu.

-Em 1850, houve a fundação da cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais. Consta que é a cidade mais carioca de Minas Gerais. Alguém cometeu a maldade de dizer que quem nasce em Juiz de Fora é carioca do brejo. Eu lembro que fui a Juiz de Fora, num domingo, dia do clássico Botafogo e Flamengo, e, quando lá cheguei, por volta das 10h da manhã, a cidade inteira estava vestida com a camisa dos dois clubes. Estava confirmado.

-Em 1874, estreia, na Igreja de São Marcos de Milão, a Missa de Réquiem que Verdi compôs para a morte do escritor Manzoni. Uma obra-prima.

Voltou-se, em seguida, para o titular do programa.

-Uma curiosidade. Na época, havia uma grande rivalidade entre os apreciadores das composições de Verdi e das de Wagner. Hans von Bullow, marido de Cosima Lizst, maestro preferido de Wagner, quando, de passagem por Milão, olhou a partitura do Réquiem e ironizou, disse que Verdi acabava de transcrever mais uma ópera ainda que travestida  de caráter eclesiástico. Ao saber desse comentário, Brahms disse: “Dessa vez, meu caro Hans Von Bullow fez papel de bobo.”

-Wagner não tomaria, mais tarde, a mulher do maestro Hans Von Bullow?

-Sim, Jonas, mas Brahms não entrou nessa fofoca.

-Em 1900, Guerra de Transvaal: os britânicos tomaram Johannesburgo e os boers, colonos holandeses da África Austral, retiraram suas tropas para Pretória.

-Todos queriam uma fatia da África.

-Em 1923, nascia o Príncipe Rainier de Mônaco. Acho que ficou mais famoso porque casou com a Grace Kelly do que pelos seus 50 anos no principado.

-Em 1930, nasce Clint Eastwood, ator, cineasta, produtor cinematográfico e compositor norte-americano. Esqueceram de dizer político, pois ele foi prefeito de Carmel-by-the-Sea na Califórnia. Jonas, eis um talento poliédrico.

-Em 1931, nasce Shirley Verret, mezzo-soprano norte-americana. Jonas, ela era detentora de uma voz excepcional, tanto cantava no registro de meio-soprano como de soprano dramático.

-Em 1932, nasce Ed Lincoln, músico e produtor musical brasileiro.

-Dançou muito nos bailes ao som do Ed Lincoln, Sérgio?

-Eu não, pé de valsa é o Dieckmann.

-Em 1938, nascia Luiz Carlos Miele, ator, cantor, e, lembraria o Simon Khoury se cá estivesse, contador de piadas.

-Em 1948, Marco Nanini.

-Um excelente ator. - acentuou o Jonas Vieira.

-Em 1959, nascia Andrea De Cesaris, um dos maiores barbeiros da Fórmula 1, segundo o Nélson Piquet. Desafortunadamente, morreu num acidente de moto no ano passado.

E continuou:

-Era fácil perceber a presença de Andrea De Cesaris; sempre que havia uma grande confusão, batiam 12 carros, voava pneus para todos os lados, pedaços de baratinha, aparecia ele, sempre o causador de tudo.

-Em 1960, falece o poeta e romancista russo Boris Pasternak, autor de Dr. Jivago. Todo o mundo viu o filme, mas ninguém leu o livro, creio que nem mesmo a Rosa Grieco, amiga do Carlos Nascimento que está completando 80 anos de leitora, lê desde os 4.

-Em 1966, monges budistas atearam fogo nos próprios corpos, em Saigon, em protesto contra a Guerra do Vietnã. Não havia outra forma de protesto, Jonas? Flambar o próprio corpo...

-Foi uma guerra completamente sem sentido, Sérgio.

-Em 1973, foi criada a Infraero, um marco brasileiro importante. A gente viaja o mundo inteiro, passa por aeroportos da maior qualidade, chega a um aeroporto bagunçado, sujo, onde nada funciona, filas quilométricas, vê que está no Brasil, num aeroporto da Infraero. A Infraero é muito ruim.

-Em 2002, inicia-se a 17ª edição da Copa do Mundo. Boas lembranças.

-Agora, uma má lembrança, Jonas: em 2003, acontece o último voo de um Concorde da Air France.

-Bons tempos, Sérgio: eu almoçava no Rio e comia a sobremesa em Paris.

Sérgio continuou com o avião:

-Foram fabricados 20 Concordes, o primeiro acidente aconteceu quase no fim da trajetória dele. Voava duas vezes e meia a velocidade dos jatos normais. O que dava tempos incríveis.

-Em 2009, um Air Bus A330 da Air France do voo Rio de Janeiro-Paris desaparece sobre o Oceano Atlântico com 228 pessoas a bordo, das quais 59 brasileiros, entre eles, Sílvio Barbato do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, um maestro importante, que compôs duas óperas. Lastimável. Um rapaz muito novo, tinha muito a dar ainda.

-Jonas, em 2009, falecia Milivina Dean, última sobrevivente do Titanic.

-Durou, então, 100 anos.

-Quase, Jonas, morreu com 97.

-Hoje, é o Dia do Não-Fumante.

-Xô, cigarro.

-E dia do Festival de Prosérpina, a rainha do submundo. Segundo a mitologia romana, o seu rapto foi marcante. Na ópera, Manon Lescault, de Puccini, a protagonista é comparada por um estudante, amigo do raptor, o também estudante Des Greux, à Prosérpina.

-Muito bem. - disse o Jonas Vieira no término do calendário.

 

 

 

 

terça-feira, 2 de junho de 2015

2865 - O Baile do Dicionário Biográfico


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5115                                   Data:  26 de maio de 2015

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XXXVIII MINIDICIONÁRIO AUTOBIOGRÁFICO

 

DEBUTANTE - A festa de aniversário dos 15 anos da minha irmã aconteceria no dia 24 de agosto de 1961 e mal sabíamos nós que seria a nossa Festa da Ilha Fiscal da Rua Cachambi, pois poucos meses depois, nesse mesmo ano, nós teríamos de mudar de endereço.

Lá, em casa, até então, havia apenas comemorações de aniversários, chochas, provavelmente, pois nenhuma delas ficou marcada da minha memória. A exceção para ficar na história viria quando a minha irmã debutasse, pois bem antes dessa data, ela, vendo a festa da sua prima mais velha, exigiu dos meus pais a mesma atenção. Assim, eles suaram para sair o máximo de moedas possíveis do cofre para atender ao pedido da filha e não a deixar apequenada diante das primas e das amiguinhas.

Minha mãe, que comparecera à festa de debutante mencionada, levando a mim e a minha irmã, constatou que duas coisas eram imprescindíveis para os convidados, entre outras: o bolo de sorvete da Kibon – grande sucesso na época – e o barril de chope de serpentina.  Assim, no sábado – a festança foi adiada para esse dia porque dia 24 caiu na quarta-feira – a minha mãe se encarregou de encomendar o bolo da Kibon, enquanto o meu pai ficou com o encargo do barril de chope de serpentina e do gelo, essa última parte não seria problema, pois o geleiro não distava mais de 100 metros da nossa casa e, por diversas vezes, aqueles compridos paralelepípedos de gelo eram comprados por meu pai.

Os vizinhos espanhóis, Dona Maria e o seu filho Fernando, sempre muito próximos a nós, ajudaram bastante nos preparativos.

Comparada com as festas de debutante de hoje, aquela seria bem simples; quanto à tranquilidade, pelo contrário, e uma das razões era a experiência quase nenhuma dos nossos pais de iluminar todas as luzes da casa e dar comida, bebida e divertimento aos que aparecessem.

Atualmente, as festividades dos 15 anos da filhota são temáticas, em locais alugados pelos pais com toda a parte braçal a cargo dos profissionais do ramo: retratos, filmes, decorações etc. Quanto mais os responsáveis gastam, menos trabalho têm. Caso diametralmente oposto com a festa de debutante da minha irmã: quanto mais se teve de economizar, mais trabalho houve.

Hoje, também, a debutante pode pedir, em vez disso tudo, uma viagem à Disneylândia. No caso da minha irmã, seria impensável.

-Você não achava que está grandinha para ver o Mickey?- diria o meu pai, que sempre estava com o humor aflorado, a ela essas palavras ou algo parecido.

Não fugiu da minha retentiva que tamanho era o esforço para que tudo corresse a contento, na hora do baile, que almocei arroz, com feijão e ovo estrelado, apenas, mas conformado, pois, de noite, eu teria mais espaço no estômago para os doces, o bolo e o sorvete.

Meus irmãos Claudio e Lopo, com 12 e 10 anos, respectivamente, estavam no auge da traquinagem e, desde que não atrapalhassem, pois ajudar era inviável, já era lucro. Ocuparam-se, sobre o muro que separava o nosso quintal do terreno baldio, com as pipas no céu, e o nosso cachorro Big estava sempre pronto a alertá-los nos momentos em que as pipas subiam nas cercanias.

Uma das preocupações maiores da minha irmã era o vestido, mas nesse particular, não era para o nível de cortisol subir nas artérias, pois a costureira era de confiança, além de a minha mãe também entender do riscado. Ela falava sem parar que a valsa que dançaria com o pai, à meia-noite em ponto, seria o “Danúbio Azul”, de Johann Strauss – dez de cada dez misses preferiam o livro “O Pequeno Príncipe”, assim como dez entre dez debutantes preferiam o “Danúbio Azul” como o ponto supremo da sua festa. Será que ela ensaiou com o meu pai? Talvez sim, mas eu não vi; como ele se casou com 29 anos de idade, deve ter valsado por aí (que a minha mãe não me ouça).

Bebidas a serem servidas além do chope de barril: guaranás, Coca-Cola e Cuba-Libra.

Músicas a serem ouvidas além do “Danúbio Azul”: discos de rock do Elvis Presley, por quem a aniversariante era fanática, Neil Sedaka, Litlle Richard, Johnny Restivo e, principalmente, por agradar os convidados de todas as idades, os LPs do Ray Conniff, do Românticos de Cuba  e do Ed Lincoln.

O melhor da festa é esperar por ela, eis um clichê de que não podemos fugir. Isso posto, não temos muito a realçar quando ela efetivamente começou, a não ser a presença de uns três penetras que participavam da turma da Rua Cachambi esquina com a Rua Getúlio. Eles trajavam calças Jeans, topetes que mais pareciam bolo de sorvete de casquinha e costeletas. Como não chegavam a ser transviados, meu pai aceitou a entrada deles lá em casa. No dia seguinte, porém, deparou-se com vomitados no vaso sanitário e a sua suspeita recaiu sobre os penetras, já que a aproximação do Claudio, minha e demais adolescentes da família e da vizinhança do barril de chope foi rigorosamente impedida. E os componentes daquela turma foram devidamente xingados pelo meu pai com as suas respectivas genitoras.

Foi, como eu disse acima, o nosso último (e também primeiro) baile da Ilha Fiscal da Rua Cachambi. 

 

 

 

 

segunda-feira, 1 de junho de 2015

2864 - Tragando Dicionário Biográfico


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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5114                                   Data:  23 de maio de 2015

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MINIDICIONÁRIO AUTOBIOGRÁFICO XXXVII

 

CIGARRO - Quando eu e meu irmão Claudio entramos na fase infantojuvenil, nosso pai tirou o maço de cigarro que carregava no bolso da camisa,  mostrou-nos  e disse:

-Fumar pode, beber, não.

O meu pai tinha razões incontornáveis para odiar a bebida: o alcoolismo de seu irmão. Porque trabalhavam juntos, pela madrugada como revisores e eram vizinhos – durante um tempo ele morou, com a mulher e a filha, no apartamento 102 da Rua Cachambi, ao lado do nosso, meu pai tinha constrangimentos cotidianos com as suas bebedeiras.

Consequentemente, não admitia garrafa alguma lá em casa que não fosse de refrigerante, a rigor, nem isso, pois bebíamos mesmo mate, que ele mesmo preparava, e leite, CCPL ou Vigor, com café. Por isso, eu não entendia por que, sempre que se gripava, encharcava o lenço de álcool e o colocava sobre o nariz como os assaltantes do faroeste americano. Quanto a nós, seus filhos, tínhamos de cheirar mesmo Vick Vaporub.

No que concerne ao cigarro, meu pai se ajustava naquela observação do escritor Mark Twain: “Deixar de fumar é fácil, eu já deixei umas cem vezes.” Para o meu pai, a facilidade estava em não tragar a fumaça para dentro do organismo, estava em apenas puxar a fumaça e soprá-la para fora, assim, o vício não o dominou, nem mesmo se submeteu ao feitiche de portar um cigarro entre os dedos; pois, na verdade, ele o trazia entre os lábios e incontáveis vezes eu vi cinza já encurvada de tão grande, na ponta de cigarro, ou espanando a cinza que caíra sobre si, porque esquecia de fumá-lo depois de aceso.

Bem, ele deu o sinal verde para mim e para meu irmão, mas não o dinheiro para comprar um maço de Continental, nem mesmo para um maço de Caporal Amarelinho, Liberty Ovais ou Mistura Fina, os matarratos ??? da época. Meu irmão Claudio resolveu esse problema. Explico-me. Fernando, o vizinho espanhol, apesar de ter uns 3 anos a mais do que eu, não encontrou do seu pai a mesma  liberalidade do nosso. Para que não fosse surpreendido, sempre que retornava da escola, escondia o seu maço de LS na caixa de gás do prédio. Um dia, ao chegar à janela – morava no segundo andar – se deparou com o meu irmão, sentado no telhado da fábrica EMPER soltando fumaças como uma chaminé. Entusiasmou-se, logo, com mais uma traquinagem do meu irmão:

-Mamma! Mamma!... Venha ver o Claudio fumando.

Depois que a Dona Maria saiu da janela, meu irmão lhe mostrou o maço LS. Quando o nosso vizinho espanhol caiu em si, quase caiu da janela de raiva.

-Vou foder-lhe a alma.

Cada ameaça era seguida de uma baforada desafiadora do Claudio. A partir de então, Fernando tinha de procurar um esconderijo para os seus cigarros tão seguro quanto o do tesouro espanhol.

Com 12/13 anos de idade, quando me preparava para as provas de admissão a um colégio do governo, vi-me sozinho, uma tarde, em casa e, melhor ainda, eu tinha uns trocados, 10 cruzeiros. Rumei para o botequim da Rua Honório, esquina com a Rua Cachambi e pedi um maço de cigarro Continental.

-Todo mundo só pede esse cigarro. - foi a reação do vendedor que nunca esqueci.

Em 1960, o maço do Continental custava Cr$ 4,20, segundo os arquivos internéticos, se eu estava mesmo 10 cruzeiros, recebi troco que me garantia, mais tarde, outro maço, mas falemos do meu primeiro.

Coloquei-o no bolso da camisa e voltei para casa. Abri o maço, bati com ele na palma da mão, e três ou quatro cigarros saíram pela metade para fora. Puxei um, acendi com um palito de fósforos e fumei. Tossi com as primeiras baforadas, mas fui em frente. Sem esmorecer, parti para o segundo. Como a minha mãe não chegava com os meus irmãos, passei para o terceiro cigarro. Senti-me tonto e parei de fumar.

Por que a tonteira, a fumaçada, o cheiro ruim, a tosse não me fizeram parar na primeira tentativa? Todos os meus heróis da tela do Cinema Cachambi fumavam e agradavam as mulheres mais bonitas do mundo, talvez, por isso, eu segui em frente como fumante.

Depois da primeira vez, tornei-me menos açodado e obedeci a intervalos de uma hora, mais ou menos, entre um cigarro e outro.

O vizinho espanhol, embora se declarasse comunista, louvava as delícias dos cigarros americanos L&M e Chesterfield. Imaginando que Cary Grant, Tyrone Power se tornavam irresistível com eles entre os dedos, e não com mero Continental, nem mesmo com Minister, o meu ciúme cresceu em intensidade. Porém, esse reconhecimento não tinha mais valor para mim: eu já me tornara um tabagista viciado.

O cigarro estrangeiro que o Fernando fez chegar até mim, gratuitamente, nada tinha a ver com os Estados Unidos, era espanhol; filara ocultamente do tio ou do pai, não sei precisar. Caramba, nunca pitei nada tão fedegoso do que aquilo, nem mesmo quando as moedas rareavam e eu me via obrigado a comprar cigarros Misbella a varejo, traguei e soprei fumaça mais fedorenta.

Fumei nos meus quatro anos de curso ginasial sofrendo as consequências: apelidaram-me de Maconha e recebi uma suspensão de cinco dias por ter sido surpreendido pelo diretor do colégio com a boca no cigarro.

Com 16 anos de idade, cogitei largar o vício. Meu pai me ajudou comprando para mim cigarros medicinais, assim eram chamados porque (esse era o objetivo) de tão intragáveis levava o fumante à repugnância pelo tabaco. Deixei de fumar... os cigarros medicinais, que mais me pareceram aquele que o meu vizinho espanhol me dera anos atrás.

Nessa idade, 16 anos, eu me enquadrei na mencionada frase do Mark Twain, mas pelo lado perverso, isto é, deixei de fumar cem vezes, e cem vezes, sucumbi ao vício, diferentemente do meu pai, que, como mencionei acima, jamais tragava.

Um dia – um médico de 81 anos de idade, Maurício Campos de Medeiros, com um cigarro fumegando no cinzeiro da sua mesa, disse-me para eu parar de fumar e eu parei definitivamente. Estava com 17 anos de idade.