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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

3169 - esse trem não volta mais para a estação (5)


7. A VISITA






Antes de Ace chegar naquela casa de Recife, um filme antigo e desbotado de tanto ser visto, mas ainda colorido, passava pelas pupilas de Volumosa. 


Em uma casa de azulejos gastos no sopé das ladeiras de Olinda, vivia Maria Thereza, a Tetei, uma menina de nove anos, olhos e cabelos claros de holandesa quase quatrocentona. O ano era 1935 e desde a Intentona Comunista, o mundo dela nunca mais seria o mesmo.


Seu pai, o tenente Joaquim Andrade, tombou durante o levante de novembro, o primeiro morto em confronto com os revoltosos. A dor era calada em casa — a mãe chorava pouco, os vizinhos cochichavam e ela apenas ouvia, aprendendo cedo que a morte também podia ser política.


Diziam, nas vielas próximas ao Forte de Olinda, um nome sussurrado que causava calafrios: Gregório Bezerra. Sargento do Exército, comunista declarado, liderou um grupo armado que dominou Olinda e tentou instaurar um novo regime. Para muitos, um heroi do povo. Para outros, um traidor da pátria.


Maria Thereza, a Tetei, não entendia de ideologias, mas sabia que o tal Gregório era o homem que seu pai tentara deter. Certa manhã, enquanto ajudava a mãe nas compras da feira do Carmo, viu um grupo de soldados cercando uma casa. Alguém gritou: “É ele! É Gregório Bezerra!” A multidão se agitou e a menina, como que movida por um instinto maior que a infância, aproximou-se.


De dentro da casa saiu um homem algemado, ferido, mas ereto e pançudo. Tinha os olhos endurecidos de quem muito já apanhara da vida e dos homens. Pequena diante do tumulto, Tetei gritou com a força de quem já conhecia perdas:

— Foi por tua culpa que meu pai morreu!


Gregório parou por um instante. Olhou alheiamente para a menina e nada disse. Talvez visse nela a filha que não tivera.  O silêncio entre os dois durou apenas segundos, mas ficou gravado na memória da cidade.


Ela cresceu ouvindo histórias sobre aquele levante, sobre a prisão de Gregório, sobre a ditadura. Nunca esqueceu o dia em que, aos nove anos, enfrentou um símbolo da rebelião — não por política, mas por amor ao pai. Da casa azulejada frente de rua, saíram mãe e filha de Olinda para virar uma página da vida e vieram para Recife, na casa pequena de tamanho e recordações.


Quando a segunda-feira amanheceu, o filme já tinha acabado, sem remorsos, ficara só a certeza de que não se pode depender dos outros, a vida é só sua e o futuro é você quem faz. Decidida a fazer a própria história, Volumosa lembrou-se de que não haviam combinado hora, só o dia, mas não seria isso que a faria trepidar. Pensou que antes das dez horas seria cedo em demasia e às onze e meia, um auto-convite para um almoço não cogitado, portanto, ele chegaria entre dez horas e onze e meia. Um minuto antes das dez e cinco, Ace chegou.


Determinar ligações espirituais e terrenas depois de acertos cronológicos dessa ordem seria chover em lençol matrimonial molhado. Minúscula Salomé, a mãe de Volumosa, mulher pequena que odiava seu nome de batismo, mas de tanta sagacidade quanto sua homônima bíblica, logo percebeu a sonoridade da dupla; naquela manhã, Ace se despediu antes do almoço e ela declarou para a Volumosa radiante, esfogueada e até suada, de tantos vapores recebidos e transferidos:


- Esse Eisse é o certo, esse Eisse é o certo! Minúscula não parava de repetir. Nada sabia de Labskaus, nem desconfiava da santinha que criara, mas, de verdade, detestava o deputado Quarto.


E Volumosa, entusiasmada com o encontro e meio temerosa da enfática aprovação materna, decidiu: Acho melhor eu casar logo com o Ace, ou é mamãe quem casará...


Filha de Salomé sempre sabe.











8. A CONTRAVENÇÃO






Volumosa se casou com Ace em 1953, passaporte de solteira na viagem para Tânger, então Zona de Estatuto Internacional, administrada pela ONU, um status pós-II Guerra de cidade internacional, repartido com Xangai e Trieste.


Em Tânger conviviam todas as nacionalidades e religiões. Os relacionamentos interreligiosos - o que era rigorosamente do que se tratava, ou aqueles em situação de fragilidade documental, que ninguém dizia, mas também era exatamente o caso do casal - adquiriam solidez com as certidões tangerinas.


A Igreja Anglicana de Santo André os acolheu, um tabelião registrou e, em frente à Eglisse des Sables de Sainte-Jeanne-d'Arc, ainda em acabamento, Maria Thereza Sardinha tirou uma fotografia, com a ideia de mandar para os católicos da família, mas Ace a dissuadiu, pois a foto poderia acabar sob as vistas de Quarto.


Ace tinha noções de contrainteligência e, de Tânger voaram para Dacar, permanecendo 3 meses na Ilha de Gorée, de onde partiram quase todos os escravos senegaleses, uma mancha na reputação do lugar, mas uma sombra ótima para encobrir um lugar onde não ser achado.


Entretanto, as preocupações cabíveis do piloto não encontravam eco no dia-a-dia de Quarto, totalmente envolvido com a campanha política para o Legislativo que se aproximava, em outubro de 1954. Quarto não era getulista, mas seu partido era base do governo do ex-ditador, agora presidente eleito desde 1950, o pai dos pobres. A eleição de presidente só ocorreria em 55 e estava claro que o presidente não se envolveria em 54, pois era imensa a força da oposição e não havia mais o conjunto de sistemas silenciadores do Estado Novo; estava evidente para a classe política que Getúlio não nadava bem na piscina da democracia e cada um que se virasse por si. Uma péssima época para uma reeleição. Muito menos para pensar no sonhado salto para o Senado Federal, não iria ser desta vez que as mil hipóteses de Quarto encontrariam alguma solidez, o jeito era se desvencilhar do jeitão getulista e posar de meia oposição.


Mas as informações que Ace dispunha não eram tão detalhadas assim e o casal resolveu estacionar em Gorée por esses três meses. A ilha era circundada por águas calmas e transparentes, com abundantes formações de corais, era um paraíso para o mergulho e a pesca. A fauna marinha local incluía uma variedade formidável de enguias e moreias e a genética piscosa de Ace fez com que ele lembrasse que, nos arredores de Dacar, em Adjacent Field, ficaram alguns restos de três bombardeiros B-24 Liberator acidentados, do tempo do Trampolim da Vitória. Vislumbrou a cena de um aquário construído com cinco ou seis belas torres de metralhadoras. 


Arranjou um caminhão e foi verificar, eram seis as aproveitáveis; as armas não estavam mais, mas o plexiglass das torres estava em bom estado de transparência e ele bem sabia como fazer delas seis aquários, pois trazia da infância a memória dos tanques de água salgada que serviam para preservar bem vivas as lagostas pescadas.


Instaladas nas paredes da casa de um aviador francês, incapacitado para voar devido à perda do olho direito nas batalhas da Indochina, as torres cheias de água do mar ficaram lindas com seu interior colorido e vibrante, com as espécies devidamente separadas, para evitar a predação entre elas. Duas das torres eram ligadas por um largo canal elíptico transparente e as enguias e moreias eram useiras e vezeiras de trocar seus respectivos aquários, em vai e vem inexplicável. Igualmente cativante era ver a aproximação delas da curvatura do plexiglass, que amplificava a imagem para o exterior e funcionava como uma lente côncava para os peixes. Dava a impressão que as enguias entendiam de ótica e que afastariam predadores com a boca oticamente imensa, cheia de dentes desfigurados.


As enguias viraram um sucesso entre os poucos habitantes da ilha, era o Aquário do Caolho - L'Aquarium de Qu'un-oeil. Daí, a curiosidade entre os habitantes continentais, estrangeiros e nacionais, fez aumentar, em poucas semanas, a frequência dos barcos de ligação entre Dacar e Gorée. Essa inesperada descoberta do potencial turístico da esquecida ilha fez Ace perceber que era hora de abandonar o paraíso, o Aquário, o Caolho, enguias e moreias. 


Dali a recomendação era seguir para a África do Sul, mais quatro semanas na Cidade do Cabo. Volumosa gostou de entrar no cinema Metro igualzinho ao de Copacabana, da beleza à beira-mar, embora sem o jeitão descontraído do Rio de Janeiro. Formavam o casal mais anônimo do mundo sem registro em nenhum hotel, eram hóspedes de aviadores da Segunda Guerra, ex-combatentes ao lado de Ace, uma tropa solidária e disponível em todas as partes do mundo. Depois desse último mês de esconderijo, partiriam para a França, um desejo que Ace acalentava desde o fim da guerra.

3168 - esse trem não volta mais para a estação (4)

5. VAPOROSA






Com tantas viagens e mais a quarta-feira ocupada, Volumosa perdiaquase um quilo por mês, merecendo em um ano a qualificação de vaporosa, a falsaVolumosa. Não havia como deixar de notar e Volumosa atraía os maisdistraídos olhares, ela era alta, costas e ancas largas, atitude imponente.

 

Como viajava para os mesmos lugares, Volumosa para sempre Volumosa nuncadespachava bagagens, conservando em sua frasqueira tudo o que precisava, àsvezes ocupando uma maleta de mão com algum presente. Saía sempre direto doavião para um táxi, ou para um carro que a estivesse esperando.


Nessa rota de rápida passagem pelo saguão do aeroporto, trocava cumprimentoscom a tripulação igualmente expedita no desembaraço de seus afazeres finais. Asaeromoças ficavam a pensar que sucesso ela não faria em qualquer primeira classe,os pilotos e comandantes acenavam e sorriam com um "se esse broto fosse meu",

ou "Ah! esse violão na minha mão". Daí só pra pior… Volumosa tinha borogodó!


Depois do acaso de Volumosa descartar o Gercino de uma vez por todas, estavana hora de haver compensação e fazer aparecer Robert "Ace" Sardinha em sua  vida. Mas como se despedir de Gercino, conhecer Ace Sardinha e deixar o acaso ao léu,  sem as notícias do sorveteiro-pistoleiro?


Quarto acompanhava diariamente pelos jornais uma nota, simples que fosse, sobreGercino. Dois, três dias e nada, nem uma nota de rodapé, que coisa angustiante.Seria o caso de ir na Polícia e procurar informações, mas e o revólver? Seria melhor

deixar o barco correr e fazer chegar aos parentes um aviso e algum dinheiro? Orevólver, ai, o revólver, nem pensar, ir na Polícia, não.


Na terça-feira, finalmente sai em O Dia: foi atropelado e morto Gercino dos Santos,

na Rua Estrela, por motorista não identificado, no dia 9 do corrente. A Políciaencontrou documentos na pensão em que morava e o corpo está à disposição dosfamiliares no Instituto Médico Legal, na Avenida Mem de Sá, 152, nesta Capital.Entre seus bens encontra-se um revólver Smith & Wesson, com munição de festim.


Era o bastante, Quarto fez o resto e Gercino dos Santos foi devidamente honradocom funeral apropriado.


Entrou então em cena Robert "Ace" Sardinha, americano das comunidades debaleeiros portugueses, que conheceu o Brasil como co-piloto da Força Aérea doExército Americano, durante as operações do Trampolim da Vitória, iniciadas nofinal de 1942. Sabia falar razoavelmente a língua, e apesar de alguma dificuldadecom expressões regionais e os sotaques, de parte a parte, ele era imprescindívelpara o sucesso potiguar dos colegas americanos enquanto estava na base,Parnamirim Field. 


Tinha menos de 20 anos em 1943 e fazia parte da tripulação  de Jim "Roscoe"Brown, apelido semi-equino atribuído à sua diplomacia no trato com mecânicos,superiores e colegas. Por um mínimo sinal de falha, abortava a missão e retornavataxiando seu avião até um ponto de manutenção, com um extenso relatório deavarias. Atrapalhava a logística da guerra mundial - só isso, mas nenhum voo seuteve contratempos, ou como era comum com os quadrimotores, nenhum avião sobseu comando chegou ao destino com um ou dois motores em pane.


Essa foi a escola do Robert Sardinha, que tornou-se comandante de aeronave aindaem 1943. Pegou os macetes de busca de falhas usados pelo Roscoe, acelerava ummotor ao máximo, cortava e reacelerava. E ia repetindo a manobra, motor pormotor. Quando girava na cabeceira da pista já tinha plena segurança, ou abortavao voo. Era o método Roscoe... agora Roscoe-Ace


Como essa atitude não era lá muito prova de habilidade, ou de virilidade, virou"Ace" um tanto pejorativamente. No entanto, sua tripulação o adorava, poisninguém suava frio e os mecânicos confirmavam sempre que havia alguma pane,ninguém vira um "Ace" de graça. Para os americanos pronunciarem seu nome,entretanto, era um horror, saía sardinn-rra, sardin-rei e outras dissonâncias menores.Chamá-lo de Bob era redundante, cinquenta bobs atenderiam, aí ACE pegou.


Depois do Trampolim da Vitória, Ace permaneceu na recém criada Força Aérea,sempre nas rotas de carga, jamais nas frentes de combate. Era o único Ace,ás-piloto de carga. Foi ficando, graças ao seu jeito seguro e ausente de falhas e, em1949, quando os russos fecharam as fronteiras da Alemanha Oriental e a ponteaérea de Berlim foi estabelecida, não foi surpresa saber quem mais fez voos sempane.


Os anos 50 chegaram e foi a década do desenvolvimento da aviação comercial emtodo o mundo e no Brasil não foi diferente. Distâncias continentais foramencurtadas de dias de estrada para horas de voo. Aviões militares excedentes deguerra foram convertidos aos milhares e necessitavam de duas e, às vezes, trêstripulações por avião. E a Panair do Brasil, ainda fortemente ligada à Pan American

Airways recrutava muitos pilotos nos Estados Unidos para as recém criadas linhasinternacionais brasileiras.


Definitivamente Ace Sardinha era o homem certo no lugar certo, na hora certa.





6. UM ESBARRÃO 






Saguão do Aeroporto dos Guararapes, seis e meia da manhã, Volumosa nãoencontrou o carro que deveria lhe esperar e voltou para a cafeteria, que malcomeçava a fazer seus vapores. Pediu um café e procurava um lugar para sentarquando um jovem esbaforido e uniformizado de cáqui entra aos pulos, olhandopara cima, enquanto clamava aos berros: Telegrama para Senhor Barretto!


Não chegou a repetir o chamamento e já arremessava Volumosa então vaporosasobre o balcão, que girou pela borda arredondada até que uma mão forte travou omovimento da moça: - Moça, acho que o salvei!


Ace Sardinha falava bem o português, mas esbarrava nas concordâncias,principalmente em emergências. Ficava evidente que não era do lugar. Volumosa,num suspiro e ainda sem ver a cena direito, mas sentindo-se bem amparada,proferiu uma frase um tanto inédita: 


- Obrigada! Mas você não é daqui, não é?


Ace assentiu e notou com a proximidade dos corpos e o balanço da travada, queVolumosa trazia no colo um cordão de ouro com um Santo Antônio igual ao seu.Mostrou-lhe o seu  santo igual, como se isso lhes proporcionasse uma irmandadeimediata e começou uma conversa que só parou com a chegada do Hudson quelevaria Volumosa ao centro da cidade.


Sentada no sedâ azul, refletia sobre o inesperado, um tombo e uma mão do destinoa evitar uma queda espalhafatosa, a queda da Volumosa, quase vaporosa. E decomo essa mão, em conversa de oito, dez minutos, tinha lhe feito dizer tanta coisa,incluindo o endereço da mãe na Itamaracá do Espinheiro; e pior, que já iria esperara visita de Ace, na segunda-feira. Precisava tratar de adiar o retorno no domingo...Êta, que confusão.


“Ainda mando um telegrama hoje para o Quarto”, pensou, ao mesmo tempo emque comparava as ações simples, diretas e eficientes de Ace com as mil conjecturas,

hipóteses e cenários que Quarto desfilaria ante uma simples mensagem. Claro, eleera o Deputado Issi?, onde a interrogação faz parte do nome próprio, e se a mãeestivesse necessitando de cuidados, e se ela pegou uma gripe, e se o ex-namoradoda Marquês do Paraná - que nem era tão longe assim da Barão de Itamaracá eambas amparadas por rima rica e por heráldica imperial, houvesse reaparecido?Claro, Quarto, o deputado Issi?, iria passar a manhã botando e tirando os óculos,para descobrir sob as tirinhas impressas pelo teletipo uma explicação subliminarpara:  PRECISO FICAR AQUI, ADIE MINHA PASSAGEM, não, era melhor:QUERIDO, PRECISO FICAR AQUI, ADIE MINHA PASSAGEM. 


É, ficou muito melhor.


E Labskaus? Ora Labskaus entenderia que não era dia e à praia iria sem uma rugano dedão do pé. E ria enquanto pensava como Labskaus se encaixava em qualquersituação de maneira estável, Labskaus se fosse jogado no canto, formaria quina, oumelhor, para falar cientificamente, um vértice e três arestas. Se for jogado numatigela, formaria uma semiesfera, ou meia bola, para falar no coloquial. Labskausera gostoso, mas não era preocupação.


Puxou o cordão do pescoço e deu dois beijinhos no santo, antevendo a dupladespedida. Volumosa Vaporosa iria evaporar de verdade, que fosse para sempre e,ora, ora, ora, por que não um viva para Volumosa Vaporosa?


Viva Volumosa Vaporosa!