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terça-feira, 13 de junho de 2017

3038 - Suicídio declarado a plenos pulmões


           
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5298 SX                           Data: 12 de junho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


WARREN, O FENÔMENO

Prometo que vou falar sobre o barítono Leonard Warren, uma das mais extraordinárias vozes jamais ouvidas no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Isso, no tempo em que havia ópera no Teatro Municipal. Melhor dizendo, no tempo em que havia Teatro Municipal. E autoridades minimamente comprometidas com as demandas da cultura.

Nos bons tempos de nosso Teatro, que, tudo indica, não voltam mais, reinava Gabriela Bezansoni. Foi uma cantora extraordinária, dona de uma majestosa voz de contralto, capaz de mobilizar a atenção das plateias mesmo quando dividia a cena com colegas do porte de Titta Ruffo e Enrico Caruso.

Essa grande artista, nascida na Itália, manteve vínculos estreitos com o Brasil. Sua primeira apresentação no Rio de Janeiro aconteceu em 19 de setembro de 1918, quando cantou “Sansão e Dalila”, um dos pontos culminantes de seu repertório.
Frequentadora assídua de nossas temporadas líricas, Gabriela Bezansoni casou-se em 1925 com o industrial Henrique Lage, uma das maiores fortunas brasileiras daquela época.

Afastada dos palcos, encontrou diversas maneiras de permanecer incentivando a arte lírica em nosso país. Promoveu espetáculos e organizou companhias de ópera. Em sua fantástica mansão do Jardim Botânico, hoje conhecida como Parque Lage, transmitia seus conhecimentos para uma valorosa nova geração de cantores brasileiros. Entre eles, Paulo Fortes, Maria Henriques, Heloísa de Albuquerque e Violetta Coelho Neto de Freitas.

Inesquecíveis eram os saraus que promovia. Cantorias se prolongavam até as madrugadas, quando ali se apresentavam os maiores nomes da cena lírica mundial, então participando das temporadas promovidas na época áurea do Teatro Municipal.

Foi ali que o novato Paulo Fortes teve o privilégio de presenciar algo inacreditável: Leonard Warren, o extraordinário barítono norte-americano, cantar, em tom, “La Fleur Que Tu M’avais Jetté”, ária do tenor na ópera “Carmen”, de Georges Bizet.

Chegamos, enfim, ao tema da nossa crônica. Para dizer que a carreira de Leonard Warren esteve repleta de fatos extraordinários. A começar pelo dia em que ele resolveu se inscrever para participar das rigorosas audições promovidas pelo Metropolitan Opera House, de Nova Iorque, sob o comando do maestro famoso Wilfrid Pelletier. Corria o ano de 1938. A experiência do rapaz, filho de imigrantes russos cujo verdadeiro sobrenome era Warenoff, era nenhuma. Se dependesse exclusivamente da vontade de seu pai, o jovem Leonard jamais deixaria de trabalhar na loja de peles que assegurava o sustento da família.

Warren havia estudado com Sidney Diete, quando era praticamente um menino. Conseguira um emprego no coral do Radio City Music Hall. Conhecia, mal, cinco árias de ópera. Para não se dizer que sua experiência de palco era nenhuma, há que se registrar o papel de índio que ele fez no colégio, numa encenação sobre o herói Daniel Boone.

Pois naquela audição, quando Warren começou a cantar, o Maestro Pelletier, muito zangado, passou a circular pela plateia, na tentativa de encontrar o responsável por aquela brincadeira. Aquilo só podia ser uma gravação! Possivelmente do célebre barítono Giuseppe De Luca... Não era. Leonard Warren foi imediatamente contratado pelo Metropolitan. Havia pressa. O problema agora era transformar uma voz extraordinária em um verdadeiro cantor de ópera. A tempo de ocupar o espaço de Lawrence Tibbett, o grande barítono do MET, que entrava em declínio.

Warren foi mandado para a Itália. Para estudar em Milão com o Professor Riccardo Picozzi. Em sete meses preparou exaustivamente cinco papéis. Inclusive o de Paolo, em “Simão Bocanegra”. Nele faria sua gloriosa estréia no palco nova-iorquino.

Começava ali a carreira fulgurante de um dos maiores fenômenos vocais do século XX. Que alcançou os mais importantes palcos do mundo da ópera. Cumpriu, no Metropolitan Opera House, mais de 600 apresentações. Visitou muito o Brasil, tendo se apresentado 43 vezes no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e 9 vezes no Municipal de São Paulo. Em 1945, cantou a “Força do Destino”, tanto no Rio quanto em São Paulo.

Leonard Warren tinha 48 anos de idade quando essa trajetória gloriosa chegou ao fim. Aconteceu em 4 de março de 1960, em pleno palco do Metropolitan Opera House. Numa sexta-feira à noite, o teatro, completamente lotado, encenava “A Força do Destino”, de Giuseppe Verdi, com um elenco estelar que incluía Renata Tebaldi, Richard Tucker e Jerome Hines.

No meio da segunda cena do terceiro ato, Warren dava início ao recitativo que antecede a ária famosa “Urna Fatale Del Mio Destino”. Ele exclamou: “Morir! Tremenda cosa!” e desabou no palco do Metropolitan. Sofrera um fulminante ataque do coração. Às 22h30, Rudolf Bing, gerente geral do teatro, colocou-se à frente da cortina e disse: “Esta é uma das noites mais tristes da história desse grande teatro. Peço uma homenagem à memória de um dos nossos maiores artistas, que acaba de morrer em meio a uma de suas mais extraordinárias performances”.














         

5 comentários:

  1. Autopsicografia,
    F. Pessoa.

    O poeta é um fingidor
    Finge tão completamente
    Que chega a fingir que é dor
    A dor que deveras sente

    E os que lêem o que escreve,
    Na dor lida sentem bem,
    Não as duas que ele teve,
    Mas só a que eles não têm

    E assim nas calhas de roda
    Gira, a entreter a razão,
    Esse comboio de corda
    Que se chama coração

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  2. Sei que não preciso explicar o porquê da poesia de Pessoa.
    Sei também que a dor que não é sua também dói. Muito.
    "A experiência do rapaz, ..........., era nenhuma." A emoção total!

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  3. Mais F. Pessoa,
    (que precisou ser mais de um para ser um só.)

    Tenho saudade de mim.
    De quando de alma alheada
    Eu era não ser assim,
    E os versos vinham do nada.

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  4. Eu fico torcendo que os leitores de O BISCOITO MOLHADO, concorrente literário de O GLOBO, FOLHA e ESTADÃO, que têm muita sorte das nossas edições não serem diárias, visitem os comentários. Mas que nada...

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