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sábado, 17 de junho de 2017

3042 - Piadas de caserna


           
O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5302 D                           Data: 18 de junho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO:XXXIV


                                      O BELICHE DO GALO

Aconteceu comigo, um dos poucos brasileiros que teve a oportunidade de servir à Pátria duas vezes. E jurar à Bandeira por duas instituições militares diferentes. 

Até hoje, já livre dos fardos de ser um reservista bidirecionado, ainda sinto arrepios em pensar a qual arma deveria servir, caso uma se colocasse contra a outra e não contra a Argentina.

A primeira viagem de instrução de aspirantes a oficial estava prevista para julho de 1969 e fui escalado para tripular o Cruzador Barroso, o famoso Charlie 11, até Salvador, Bahia.

Charlie é o nome da letra C no Código Internacional de Sinais, e onze era o número do Barroso. Não há número de um dígito nas marinhas, certamente para impressionar e iludir os agentes inimigos. Tudo começa em onze. E em todas as marinhas.

Na nossa Marinha, o Barroso era o 11 e o Tamandaré, o 12. 

Quem tripulou o Charlie 11 não esquece dos alto falantes que berravam 24 horas por dia; Charlie Onze, e o corneteiro tocava a Alvorada, Charlie Onze, início do Exercício XPTO, Charlie Onze, um apito avisava que chegou o Comandante, Charlie 11, Postos de Combate.

O chamado para Postos de Combate era odiado. Não porque fosse ocorrer qualquer escaramuça, mas porque todas as passagens, portas, escadas, tudo era tornado estanque com as devidas tampas e deixada uma abertura circular de 40 centímetros por onde você tinha que se esgueirar e achar, do outro lado, o primeiro degrau, em locais com iluminação reduzida.

Era tombo atrás de tombo. Enquanto isso, um oficial combatente ficava com um cronômetro, esperando que os bravos aspirantes chegassem a seus postos, devidamente encapacetados, encoletados e prontos para a batalha.

Aí, o fonoclama – é esse o nome do alto falante – chamava Charlie Onze e apitava, com potência redobrada, o fim do combate, mas de maneira que todos pudessem ouvir o aviso em qualquer ponto do Oceano Atlântico. Irritante demais.

Aguardávamos, esperançosos, o esganiçado chamar Charlie Onze e apitar Postos de Abandono do Navio, mas este sucesso nunca foi tocado.

No dia do embarque no Charlie Onze, a ansiedade era enorme. Nós todos tínhamos uniformes iguais e portávamos um saco de lona, redondo, branco e igual, onde tudo que coubesse era o que teríamos para a viagem. Fosse de 3 dias, ou de 40.

Alguém nos contou que os beliches eram cinco, um em cima do outro, com um espaço bem restrito entre camas. Aqueles que fossem mais aptos deveriam escolher as camas superiores, onde o espaço era bem maior. Dito e feito, mal a lancha atracou na escada de portaló, nós tomamos o Barroso de assalto, com a selvageria típica de vikings ocupando uma capela de freiras.

Bem capacitado fisicamente pelos torneios de Medicine Ball dos velhos tempos do Primeiro Exército, subi a escada em terceiro ou quarto lugar, e segui a orientação dos oficiais verdadeiros, que incentivavam e se divertiam com a corrida. Cinco conveses abaixo (ou andares, se preferirem) encontrei o nosso alojamento e, bem chegado, joguei o saco no beliche mais alto.

À noite, ao fim do primeiro dia de navegação, que inclui sempre a saída do Rio de Janeiro ao por do Sol, voltei à gruta que eu tão sabiamente escolhera. Tudo certo, meu saco de viagem estava lá, troquei de roupa e subi.

Dei de cara com uma viga estrutural (sicorda) que passava, gigante, exatamente ao longo do meio do beliche, deixando sobre o meu nariz uns cinco centímetros de ar.

Todo dia um galo novo.


Registro I: Tripulei o Barroso em 69 e ajudei a construir, em 73, um Rebocador de Alto Mar, o Aquarius, da Wilson Sons. Uma tarde brumosa, poucos meses depois da entrega do Aquarius, eu voltava de Niterói enquanto o Barroso saía rebocado, justamente pelo Aquarius em direção ao desmanche, em Santos, onde nasci.

Fiquei olhando, olhando, até aquelas duas silhuetas tão conhecidas se fundirem ao cinza molhado daquela tarde triste.


Registro II:  O Barroso e o Tamandaré, embora de projeto idêntico, tiveram destinos separados. Na Segunda Guerra Mundial, o Barroso (então USS Philadelphia) operou no Norte da África e no Mediterrâneo, enquanto o pré-Tamandaré (USS Saint Louis) sobreviveu ao ataque em Pearl Harbor e, modernizado, batalhou no Pacífico.

Sofreu um ataque kamikaze, que danificou seriamente a proa, mas não o afundou e consta que, desde então, a alma do piloto japonês assombrava o navio, ora fechando válvulas, ora apitando à meia noite, ora projetando no radar a bolinha do avião de Toshiro Kaskatayama, tudo sobrenaturalmente inexplicável.

O Tamandaré foi desmobilizado três anos depois do Barroso e foi vendido para ser desmanchado no Extremo Oriente. Durante a operação de reboque, a proa cedeu e, lentamente, o navio penetrou para sempre no Atlântico, já próximo da costa africana.

O ataque kamikaze teve sucesso, finalmente. Muito melhor assim.



7 comentários:

  1. Aprendi coisas que não sabia e gostei do texto. O piloto japonês descansou!

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    1. Sempre se pode aprender alguma coisa, mesmo comigo.

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  2. Belo retorno do Editor às lides literárias. Mas fica claro que o simpático japonês não teve nada a ver com o afundamento do Tamandaré.
    Foi culpa do Editor.

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    1. Grato, Redator-Chefe, mas cabe esclarecer que o Editor jamais pisou no mencionado C-12. Teria que ser obra de poder mental extremo, o que nego, embora tenha que levar em conta de que você é a terceira pessoa a suspeitar.

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  3. "E os milhares de Kamikase, e os americanos que levaram com eles, cujas cinzas se misturam em algum ponto do Pacífico..."
    Em 1967 li A terrível hora dos kamikase e a frase acima se tornou inesquecível.
    Busquei o livro, agora sem capa, lembrei da emoção da menina que acreditava que japoneses comiam criancinhas (eu) e de seu despertar para a realidade das guerras.
    Para os japoneses, A Divina Tormenta.

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  4. Obrigada pela busca do livro e pela emoção rediviva.

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  5. O seu O BISCOITO MOLHADO é que agradece. Muitos povos comiam criancinhas, menos os antropófagos.

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