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sábado, 3 de junho de 2017

3043 - Aqueles olhos azuis



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5293 FM                           Data: 3 de junho de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


COISAS DE CEARENSE

Cearense é assim, como direi, sem ser diferente nem exótico. Tem seu linguajar próprio, fala com “E” e “O”abertos, usa o “R” com suavidade, pronuncia certas palavras como “aberto” ou “Roberto” quase cantando. Só faz exceção, ao se dirigir a uma plateia, em saudação, com discurso empolado: “Meus senhores e minhas senhôras”, assim mesmo, com o “o” cretinamente fechado. Pelo menos, era desse modo. Os ouvintes, para não vaiar o pernóstico, temperavam a garganta, com certo ruído. No mais, acompanhavam o falante em silêncio e, se houvesse alguma exaltação no dizer e concordassem com o dito, estalavam os dedos como se fossem espanhóis tocando castanholas. Era a maneira educada de não atrapalhar o discurso, embora pudessem deixar o falante imaginando estar sendo criticado, com o castanholar inusitado, caso não conhecesse o modo pouco convencional de aplaudir, sem bater palmas, atitude única de aprovação, jamais imitada.

Afora isso, o cearense é, ou era, tão irreverente, que a santa terrinha já foi alcunhada de “Ceará moleque”. Isso porque, a tudo se vaiava, até mesmo o vento forte que soprava nos finais das tardes, no mais movimentado quarteirão do centro da capital, por onde passava meio-mundo de gente. Eram os que estavam indo ou vindo das compras, ou gente sem nada a fazer. As moças, se tinham a saia levantada pela ventania, não escapavam da curiosidade da rapaziada. Que alento, ver pernas de fora! Quando o tempo estava em calmaria, os afoitos assobiavam chamando vento, um passatempo para quem nada fazia, a não ser ver o tempo passar...e esperar o resultado.

Quem se atrevesse a exibir modas extravagantes e ousasse desfilar no quarteirão fatídico, que se preparasse para receber sonora vaia. E isso era para todos, não importava quem fosse. Modismos exagerados eram uma ofensa aos costumes locais. Vaia neles ou nelas. Não havia perdão.

Bem viva chega à lembrança, a mais ruidosa e imponente vaia, quem tomou foi o Sol, nos idos dos anos 40 ou começo dos 50, do já também ido século. Aconteceu assim: depois de um dia e uma noite de chuva forte, coisa incomum naquelas bandas, por volta das 10 horas da manhã, parou de chover de repente e, também de repente, o Sol abriu, claríssimo, que até causou espanto, iluminando a tradicional Praça do Ferreira, o local mais movimentado do centro da capital. Pois os espantados não se deram por achados, quem estava presente não resistiu ao impulso, daí a sonora vaia, que ficou nos anais históricos, e foi até mesmo consagrada por notícia em jornal. Quem conta, foi testemunha. Viu a chuva parar, o Sol brilhar e da vaia também participou. Está nas recordações.


Como nada escapava à irreverência cearense, é também de viva lembrança o tempo da Segunda Guerra Mundial quando, na cidade, foi instalada uma base aérea cedida aos norte-americanos. Os soldados que por ali passavam, rumo ao norte da África, ficavam uns dias de folga e, por natural, procuravam as moças, para namorar, isso causava ciúmes aos rapazes da terra que, preteridos, vingavam-se. Quem namorasse, era chamada de Coca-Cola, lembrando o refrigerante que estava chegando à cidade. O termo generalizou-se, não importa quanto pejorativo fosse. E o resultado, pelo excesso de liberdade e pela falta de cuidados, da geração Coca-Cola nasceram muitos John da Silva – cabeça chata de cearense, olhos azuis de americano.

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