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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

2757 - Pompeia de Hitchcock


 

 

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5007                                      Data: 21  de  dezembro de 2014

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SUSPENSE NO SABADOIDO

 

-Assistiu ao “Hitchcock”, Claudio?

-A que filme dele?

-Refiro-me ao filme que realizaram sobre a vida dele.

-Esse que o Telecine vem levando: Não.

-Na verdade, fizeram um corte temporal...

-Corte Temporal?!... Isso é jargão de historiador. - aparteou.

-Consideram apenas o tempo da vida dele em que filmou “Psicose”.

-Esse filme levou no Cine Cachambi.

 -Não me esqueci, Claudio. “Psicose” mais “E Deus Criou A Mulher” foram os únicos filmes que o Secreta impediu a minha entrada no cinema.

-Mas ele deixou a Suzete entrar. - citou a nossa irmã.

-Ela viu “Psicose” porque acompanhou a Dona Salete do apartamento acima do nosso.

-Eu sei, Carlinhos, a vizinha do 202.

-Suzete e Dona Salete foi uma rima e uma solução, pois conseguiu entrar no cinema mesmo com 15 anos de idade.

-Depois, ficou com medo de tomar banho.

-Não foi nada disso, Claudio.

-Tudo bem; mas a Janet Leigh confessou que, depois dessa cena, não conseguiu mais tomar banho de chuveiro sem ficar apreensiva.

-Nesse “Hitchcock”, do Telecine, como a Janet Leigh não demonstrava o pavor na intensidade desejada pelo Hithcock, ele pegou o facão e desferiu várias apunhaladas de cima para baixo.

-O Anthony Perkins como o assassino Norman Bates... não é este o nome do personegem?

Depois de eu confirmar, prossegui:

-Como Norman Bates, ele esteve muito bem. Creio que foi o melhor papel da carreira dele, embora eu não tenha assistido ao “Processo”, de Orson Welles.

-O Norman Bates, doentiamente ligado à mãe, tinha uma sexualidade fora dos padrões; Alfred Hitchcock convocou, então, o Anthony Perkins para vivê-lo na tela.

-Hitchcock tinha um olho clínico, pois, naquela época, os atores escondiam a sua preferência sexual por homens. - comentou.

-Quanto às mulheres, Alfred Hitchcock sempre preferiu as louras.

-Janet Leigh, Grace Kelly, Joan Fontaine, Kim Novak, Doris Day, Tippi Hedren...

-Tippi Hedren?!... - estranhei.

-A personagem principal de “Os Pássaros”.

-Sei que o filme é baseado num livro da Daphne du Maurier, autora também de “Rebecca”, que Hitchcock também transformou em celuloide.

-Nós vimos “Rebecca” no Cine Cachambi, Carlinhos.

-Dizem que Daphne du Maurier plagiou o romance “A Sucessora”, de Carolina Nabuco. Não houve, porém, processo judicial.

Após esse meu comentário, Claudio retomou a palavra.

-A esposa do Alfred Hitchcock não estranhava de ele só colocar louras como protagonistas das suas fitas?

-Numa briga de casal, ela bradou que sempre suportou os amores platônicos dele pelas atrizes, portanto, ele não tinha o direito de sentir ciúmes dela.

-Ela gostava de homens louros? - brincou meu irmão.

-Essa fita prendeu a minha atenção desde a primeira cena porque começa com aquele seriado televisivo de suspense...

Entusiasmado, Claudio me interrompeu:

-Eu assistia a todos “Hitchcock Apresenta”, só não sei precisar o canal, mas acredito que seja o 13, a TV Rio.

-Quando ouvi a música-tema desses seriados, estremeci na cadeira: “Há mais de vinte anos que não ouço essa joia musical!”

-Qual era?

-”Marcha Fúnebre para uma Marionete”, de Gounod. Só descobri o nome depois de pesquisas; a música, mesmo depois desse tempo todo, eu poderia assoviar nota por nota.

-Não assovia, não, Carlinhos. - suplicou.

-Quem também nutria amores platônicos pelas atrizes das suas obras era o Nélson Rodrigues.

-Não duvido. - disse o Claudio.

-O Ruy Castro conta que a Maria Della Costa...

 -Outra loura. - cortou-me meu irmão.

-Quando ela se preparava para pisar o palco, o Nélson Rodrigues entrava no camarim dela e lhe dizia: “Como vai proeminente figura?” Não era proeminente, mas vai esse adjetivo, já que a memória não me ajuda.

-E o que ela respondia?

-Senta, Nélson Rodrigues.

-Ele sentava para dar instruções a ela de como representar a sua personagem?

-Não, Claudio; ele ficava para contemplá-la embevecido. A atriz era sua musa, como a Claudia Cardinale no “Fellini Oito e  Meio”.

Nesse instante, meu sobrinho surgiu na cozinha.

-Daniel, chegou a propósito. Estamos aqui numa terrível polêmica: quem foi a atriz principal de “Os Pássaros”, de Alfred Hitchcock?

Meu sobrinho sacou o celular do bolso da bermuda, tocou o dedo aqui e ali, e, em menos de um minuto, respondeu:

-Melanie Daniel.

Sem tomar fôlego, manifestou-se:

-Daniel?”... Que negócio é esse? Nós somos atores, não, atrizes.

-Procure “Tippi Hedren”. - pediu-lhe o Claudio.

Acionado de novo o celular, veio a explicação.

-”Tippi Hedrin” era o nome artístico da Melanie Daniel. Agora sim, a coisa se acertou. Meu nome não pode ser de atriz.

-Eu não erro em matéria de cinema. - vangloriou-se meu irmão.

-E você, Daniel, qual o último filme a que assistiu: - perguntei-lhe.

-”Pompeia”.

-Eu também vi, mas na televisão, animado pelo enredo histórico. Ao perceber que era cinema-catástrofe, não havia mais tempo para eu fugir, tive de ir até o fim.

-Não gosta de cinema-catástrofe, Carlão?

--Tenho ojeriza a efeitos visuais e, nesse caso, há uma overdose. Películas com muitos efeitos visuais têm muita casca e pouco miolo.

-Há “Os Últimos Dias de Pompeia”, do Sérgio Leone. - evocou meu irmão.

-No dia anterior à decisão do campeonato carioca de 1960, Fluminense e América, vi um cartaz com o nome dessa fita, num cinema de São Cristóvão e disse para a minha mãe que, no domingo, acabaria Pompeia.

-Infelizmente, Carlão, não acabou.

-O goleiro do América não foi o Pompeia, e sim, o Ari. Ele até espalmou um pênalti batido pelo Pinheiro, que, pegou o rebote, e meteu o gol, mas não bastou. - trouxe à tona essas tristes reminiscências para os tricolores meu irmão.

-Depois, o América empatou, mas o empate dava o título ao Fluminense. Então, o Nilo bateu uma falta, o Castilho bateu roupa, como dizia o Oduvaldo Cozzi e o Jorge, que era lateral direito, enfiou o gol do título.

-Como você se lembra disso tudo.

-Porque seu avô queria dar chinelada na televisão, Daniel.

-Era o primeiro campeonato do Estado da Guanabara; a Capital Federal já havia sido transferida para Brasília. - assinalou meu irmão.

E a conversa mudou das telas do cinema para os campos de futebol.

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

2756 - Arquivo Morto sua pra xuxu


           

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5006                                      Data: 19  de  dezembro de 2014

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REMINISCÊNCIAS DA MARINHA MERCANTE

 

A manchete dos jornais de hoje de todo o mundo, o reatamento das relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos, me conduziu às recordações do meu trabalho na Marinha Mercante.

No início da década de 80, um colega nosso atendeu um telefonema e, em seguida, se dirigiu aos demais, preocupado:

-Um exportador tem carga para Cuba e quer saber quais as embarcações brasileiras que fazem transporte para lá. Ele disse que é urgente, pois está para fechar o negócio com os cubanos em poucas horas.

 -Ô rapaz, o Brasil não tem relações com Cuba, isso é trote. - alertamos.

Às vezes, havia fogo amigo, ou seja, trote entre nós mesmos. Uma ocasião, colocaram o seguinte recado na mesa da secretária do almirante Luiz da Motta Veiga, o então chefe do Bureau de Fretes: “o almirante pediu para telefonar com urgência para dona Ema solicitando dados sobre sua próxima viagem”. Acompanhando essas palavras o número de um telefone que era do Jardim Zoológico.

O Bureau de Fretes tinha um arquivista que, de tão “eficiente” recebeu o codinome de “Arquivo Morto”.  Certa vez, em reunião, na sua sala, com vários representantes estrangeiros das conferências de fretes, Motta Veiga entreabriu a porta e pediu ao Arquivo Morto o exemplar de setembro de 1978 da revista Maritime Research.

-Maritime o quê? ...

A pergunta ficou no ar porque, imediatamente, o almirante fechou a porta, voltando à reunião.

Arquivo-Morto coçou a cabeça e pegou o porta-fichário que se achava sobre um armário. Coçou a cabeça pela segunda vez e pôs a correr as fichas pelos dedos trêmulos, enquanto balbuciava a letra “M”. Eis que o porta- fichário, para o seu estupor, falseou nas suas mãos e foi de encontro ao solo. Soltou um palavrão e vendo as fichas com a ordem alfabética desfeita, xingou de novo.

Quando o Arquivo-Morto coçou a cabeça pela sexta vez, o almirante Motta Veiga abriu a porta e lhe disse:

-A reunião acabou; não precisa mais.

Saltando alguns anos, chegamos ao Departamento de Marinha Mercante, um dos muitos nomes que a SUNAMAM recebeu depois que foi extinta pelo Plano Verão do governo Sarney em 1989.

Paulo Octávio de Paiva Almeida, mais conhecido pelas iniciais do seu nome – POPA – era o Coordenador-Geral de Transportes Marítimos, CGTMAR. Os cultivadores do humor cáustico o chamavam à sorrelfa, afinal, ele era o chefe, de “Orca, a baleia assassina”, porque era gordo e agressivo. Com o passar dos anos, ficou menos agressivo e mais gordo, mudando, por isso, de status, agora é “Jubarte Encalhada”.

Mas não é de hoje que vamos tratar, e sim da Copa do Mundo de 1998 na França. Foi elaborado um bolão que abrangeu essa Copa do jogo inaugural à decisão, foram aceitas apostas pecuniárias não só dos funcionários da CGTMAR como dos seus parentes (filhos e pais). A cada partida encerrada, o programador do bolão acionava bits e bytes e saía uma nova lista com a colocação dos apostadores que buscavam o primeiro prêmio (até o terceiro lugar, tinha-se direito ao valor rateado.

Essa lista era afixada junto à ombreira da porta da cozinha no caminho para a sala do chefe. Com isso, todas às vezes que alguém passava pelo corredor, dirigindo-se para lá, ouvia a pergunta:

-Qual o bolão que você vai ver?

Quando o POPA perdeu o cargo, foi de servidor a servidor se despedir; quando me abraçou, cochichou-me no ouvido: “Eu adorava o Biscoito”. Não aludia, certamente, ao Biscoito Molhado, porque tem zero de caloria.

Substituiu-o o Dieckmann que, comparado com a corpulência do seu antecessor, era, no máximo, robusto.

Dieckmann apresentou, como cartão de visitas, um pacote de medidas: reuniões todas as segundas-feiras, às 8h 30min da madrugada (para muitos). E mais: quem se atrasasse seria recepcionado com uma tremenda vaia, inclusive ele. Muitos passaram a chegar cedo com a esperança de vaiar o próprio Dieckmann, mas, morador de Sana Teresa e tendo o relógio da Central do Brasil como despertador (do seu quarto de dormir se avistava o dito cujo), não se atrasava nunca, mesmo que o mencionado dito cujo falhasse, o que acontecia a toda hora.

Como entrou no nosso ambiente sem conhecer os seus subordinados, pôs em prática ideias inovadoras que poderiam provocar tragédias, como a que descreveremos no parágrafo seguinte:

-Numa reunião, para que todos os presentes pudessem meditar sobre as melhores medidas para ativar o funcionamento do órgão, no caso, burocrático, pediu que se apagassem as luzes durante dez minutos. “Minha Nossa Senhora!” Temi, quando tudo foi iluminado, ver colegas com gargantas cortadas e com punhais cravados nas costas.

Em outra reunião, Dieckmann nos ensinou a respirar, argumentando que, com uma má respiração, a fala sai entrecortada, o que prejudica a comunicação, não só no trabalho como na vida social. Assim, fez-nos pôr a mão na barriga para levantá-la, quando inspiramos e descê-la ao expirarmos. Mesmo respirando pelo diafragma, o pessoal continuou sem se entender.

Já estávamos na ANTAQ quando o Natan caiu estatelado no chão. Antes, uma pequena introdução para melhor compreensão dos leitores.

Bresser Pereira, ministro da Administração do governo FHC, seguindo o modelo de países mais avançados, criou as agências no Brasil. Fomos, então, do Departamento de Marinha Mercante para a ANTAQ. Lá, nos primeiros meses de 2002, apareceram uns doze terceirizados, supostamente com qualificação, que nós chamávamos de “Homens de Preto”, do filme MIB – Men In Black.

Natan, que estudara no Pedro II, no Colégio Naval, Escola Naval, vivera anos e anos nos Estados Unidos, talvez fosse o mais capacitado dos Homens de Preto, porém, as vicissitudes da vida, que o levaram a se entupir de remédios, danificaram a sua lucidez.

Numa manhã, sentado à sua mesa, engrolou as palavras, despencou da cadeira e foi ao chão. Depois do “Deus nos acuda”, constatou-se que sofrera uma queda da pressão arterial.

-Bem pior foi a queda do índice da bolsa de Wall Street, perdi quase tudo. - diria ele, após o desmaio, à reportagem do Biscoito Molhado.

Com alguma dificuldade, era corpulento, foi levado para a saleta mais próxima, onde permaneceu deitado, à luz de boate, até a sua pressão se normalizar.

Nesse ínterim, seus colegas relaxaram e o relaxamento foi tanto, que começaram as piadas, que o Natan, com aquela barriga descomunal, estava grávido. Daí, surgiu uma dúvida: qual era  a conjugação do verbo parir na primeira pessoa do presente do indicativo; uma metade garantia que era “eu paro”, a outra, discordava. A Internet foi descartada como fonte de consulta, lembraram-se, então, do Houaiss, mimo que agraciou o Dieckmann nas festas do fim do ano 2001.

Dieckmann era, agora, gerente-geral de Outorgas, colocou o dicionário sobre uma mesinha da sua sala e avisou que ele estava franqueado a todos que quisessem consultar as suas páginas. Precisou o desmaio do Natan para que houvesse a primeira consulta depois de tanto tempo.

Como sofremos no dia a dia com a canícula do verão que se avizinha, vale relembrar o Barão (ele era a cara da cédula de 1000 cruzeiros). Barão era ascensorista do prédio onde se localizava a SUNAMAM na década de 80. Um dia, subíamos no elevador dele, suando por todos os poros, quanto um passageiro afirmou com convicção: “Adoro este tempo”.

Assim que saltou do elevador, o Barão comentou em voz alta:

-”É pobre até no gosto.”   

 

 

 

 

 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

2755 - 14 de dezembro ainda não é rua


           

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5005                                      Data: 17  de  dezembro de 2014

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RÁDIO MEMÓRIA CHEGANDO AO FIM DO ANO

 

-Muitíssimo bom-dia.

Como esta expressão já foi patenteada pelo Jonas Vieira e ninguém quer correr o risco de lhe pagar direitos autorais, não há necessidade de identificarmos quem fez essa saudação.

-Podemos afirmar que o ano acabou. - disse o Sérgio Fortes.

-Desde fevereiro que estamos dizendo que o ano acabou; agora, não tem mais jeito.

Ouvi os dois, mas não iludi os cachorros da vizinhança, que têm uma audição cinco vezes maior do que a nossa, nem os gatos e as pessoas de gosto refinado; o tenebroso foguetório do reveillon ainda vem por aí. Por muito menor estrondo, o filósofo Schopenhauer, do século XIX, cunhou a seguinte frase: “A soma de barulho que uma pessoa pode suportar está na razão inversa de sua capacidade mental.”

-Jonas, vamos ao calendário.

-Vamos lá.

-Dia 14 de dezembro. Em 1939, a União Soviética é expulsa da Liga Das Nações pela sua agressão à Finlândia.

-Voltou-se para o Jonas Vieira.

-A História se repete.

-O tempo todo. -concordou.

-É um ciclo.

Com o pensamento na Ucrânia, de hoje, acrescentou:

-Vou usar uma expressão moderníssima: a União Soviética é useira e vezeira em agressões.

 -Um povo tão inteligente... A literatura russa, a música, os enxadristas... abismou-se o Jonas Vieira.

-De vez em quando surge lá um Putin. - citou o seu companheiro de apresentação de programa esse nome dissonante.

E seguiu com o calendário:

-Em 1911, o Polo Sul é alcançado pela primeira vez pelo explorador Roald Amundsen. Jonas, ele não parou com as estripulias e, em 1928, saiu em busca do dirigível Itália e desapareceu também.

-Igual ao Ulysses.

Apesar de o Ulysses dado a aventuras mil seja o de Homero, o Jonas Vieira se referia, certamente, ao político, pois aquele não andava de aeronave e Penélope não o esperou por anos e anos o seu retorno em vão.

-Em 1998, houve o referendo no qual os habitantes de Porto Rico decidiram manter o estatuto de Estado Livre Associado dos Estados Unidos.

-”I like to be in America.”

-Nós sabemos, Jonas.

-Falo da música de Leonard Bernstein que os porto-riquenhos cantam no “West Side Story”.

-Jonas, é o musical preferido do Carlos do Biscoito Molhado.

-O meu também.

- Nascimentos. Jonas. Em 1503, nascia uma figura a que você é ligado: Nostradamus, astrólogo e matemático francês. Chamava-se Michel de Nostradame.

-Sérgio, esse cara vaticinou muita coisa certa. Em uma das suas centúrias, ele fala que este é o último papa.

-É mesmo?!...

-E que vai haver uma série de colisões de astros contra a terra. O fim do mundo.

Fui conduzido, por essas palavras, à minha escola primária, agosto de 1958, quando, na hora do recreio, correu o boato que, às 3 horas da tarde, o mundo iria acabar. Na verdade, estávamos ainda assustados com as explosões nos paióis do Exército, em Deodoro, que ecoaram por dezenas e dezenas de quilômetros.

Sérgio Fortes trouxe de volta a costumeira descontração do Rádio Memória com um pergunta:

-Será que Nostradamus previu que a Unimed deixaria o Fluminense?

-Um terror. - entrou logo o titular do Rádio Memória no clima de descontração usual do programa.

Jonas Vieira, justiça seja feita pelo Biscoito Molhado, não é daqueles místicos fanáticos, tem bom coração: perdoou o Dieckmann, por ter escolhido uma gravação de Lady Gaga, convidando-o para outros Rádio Memória, e a nós que, por erro de imprensa, o chamamos de Jonas Rezende. Mas voltemos ao Homem-Calendário.

-Em 1895, nascia o Rei George VI, aquele que tinha problema de gagueira. O pai da Rainha Elizabeth e da Princesa Margareth.

Se citasse o filme “O Discurso do Rei”, talvez todos identificassem George VI, que assumiu o trono porque  seu irmão, Eduardo VIII, enrabichado por uma americana divorciada, renunciou.

-Em 1933, a grande atriz Eva Wilma.

-A minha preferida. - afirmou o Jonas Vieira.

-Em 1947...

O Homem-Calendário titubeou nesse momento.

-Acho que vou pular essa, Jonas?

-Quem nasceu? - despertou a curiosidade do parceiro.

-Dilma Rousseff.

-É melhor pular mesmo, Sérgio.

-Em 1952, Pedro Collor de Mello, também conhecido como “O Cunhado”. Ele arranjou muita confusão.

Aqui, o subconsciente do nosso amigo veio à tona, ele falou no irmão do ex-presidente do Brasil, com a cabeça na Thereza Collor de Mello, “a cunhada”. Mas quem não pensaria nela, de estonteante beleza, na época das delações que derrubaram o Fernando Collor de Mello do poder?... Parodiando o Jonas Vieira, a minha cunhada preferida.

-Falecimentos. - virou a página do calendário.

-Em 1799, uma figuraça, George Washington, o primeiro presidente dos Estados Unidos da América.

Uma grande figura histórica, de fato; tinha o Exército nas mãos, mas, em vez de se tornar o ditador que Napoleão viria ser, lutou pele consolidação da democracia depois de ela sumir, dois mil anos atrás, na Atenas de Péricles.

-Em 1861, Alberto de Saxe-Coburgo-Gota, marido da Rainha Vitória, príncipe consorte do Reino Unido.

Os dois apresentadores do Rádio Memória não resistiram ao trocadilho consorte sem sorte. Com a cabeça ainda na Thereza Collor de Mello, Sérgio Fortes arrasou com a beleza de Sua Majestade. Dos 21 até os 42  anos de idade, quando o príncipe consorte faleceu, a Rainha Vitória não era feia, o problema veio na terceira idade.

 -Em 1966, morria Rubem Bertha, o primeiro funcionário e presidente da Varig. Imagine, Jonas, se ele tivesse testemunhado esta derrocada da VARIG.

-Há uma coisa, foi a VARIG que pressionou para acabar com a Panair do Brasil. -registrou o Jonas Vieira.

 Um adendo: a Panair do Brasil era um dos maiores orgulhos dos brasileiros, e a sua cassação, em 1965, foi uma das medidas mais violentas da ditadura militar.

-Em 2006, falecia Sivuca, grande músico.

-Em 2013, falecia o ator irlandês Peter O' Toole.

Chegava, agora, a parte final do calendário,

-14 de dezembro é o Dia de São João da Cruz. Dia do Ministério Público.

-A turma do Ministério Público está com a corda toda. - comentou o Jonas Vieira.

-Todo o mundo que pintou e bordou o Ministério Público está pegando.

-Estou vendo em que país eu me exilo. - divertiu-se o Jonas Vieira.

-Alguma nós fizemos...

-Usaram o meu nome em vão.

Com a corrupção que afunda o nosso país, só restou mesmo às pessoas honestas o humor.

 

 

 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

2754 - O caixa generoso


           
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O BISCOITO MOLHADO
Edição 5004                                        Data: 16  de  dezembro de 2014
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SABADOIDO DAS CRACUDAS À CAIXINHA DE NATAL
 
-Eu não lhe disse que o gol foi do Roberto?
Meu irmão aludia a um gol marcado no dia 12 de dezembro de 1964. Explico: Claudio e eu vínhamos, alguns Sabadoido atrás, que não constaram da ata devido a ausência do Vagner, falando da decisão do Campeonato Carioca do ano citado. Vamos reproduzir, então, alguns trechos desses diálogos para melhor entendimento.
-Carlinhos, você leu no “Globo Há 50 Anos”, que o Botafogo vai jogar contra o Flamengo?
-Recordo-me, Claudio, que na semana dessa partida, um dirigente do Flamengo, Fadel Fadel, caso a memória não me traia, cruzou com o Nílton Santos no Leblon, onde o jogador morava, e lhe disse: “Nós vamos ganhar do Fluminense no próximo domingo, não vamos?” Resposta da Enciclopédia do Futebol: “Vamos, e, no domingo seguinte, ganharemos do Flamengo.”
-Carlão, não vai me dizer que o Botafogo ganhou do tricolor? - interveio o Daniel.
-Ganhou e o rubro-negro passou a liderar o campeonato de 1964 no seu final.
-A decisão foi entre Fluminense e Bangu, em duas partidas, com o Fluminense campeão. - antecipou-se meu irmão.
-Isso porque se consumou o que o Nilton Santos dissera. - frisei.
-O Botafogo ganhou de 1 a 0 gol do Roberto. - afirmou ele.
-Roberto?!... É verdade que ele participava do melhor time de juvenis da história do alvinegro, que o Jairzinho já havia subido para o time principal, mas o Roberto... - mostrei-me dubitativo.
-Foi o Roberto. - ratificou.
Dois Sabadoidos depois, mal eu pisei o chão da cozinha, meu irmão bradou:
-Eu não disse que o gol foi do Roberto?
Daniel que, como o pai, já lera o “Há 50 Anos” do Globo que, nesse dia o entregador enviara cedo (a caixinha de Natal explica) se manifestou.
-Carlão, se o Flamengo ganhasse, seria bicampeão, se fosse empate, haveria um supercampeonato, como em 1958, entre a dupla Fla-Flu e o Bangu; derrotado, o Flamengo estaria aniquilado. O Botafogo foi cruel.
Enquanto meu sobrinho falava, eu corria os olhos por aquele memorável jogo.
-Escreveram, nessa reportagem de 1964, no Globo, que as lágrimas dos flamenguistas inundaram o Rio de Janeiro.
E acresecentei:
-Nilton Santos e Nélson Rodrigues, que viu o Fluminense campeão, numa crônica, mesmo depois de derrotado pelo Botafogo, acertaram em cheio.
-Não falei que o gol foi do Roberto? - repetiu, mais uma vez, meu irmão.
Pretendíamos tratar da melhor de três com o Bangu, mas a entrada de uma falante Gina tirou o foco do futebol.
-Está sabendo, Carlinhos, que o Lar de Júlia será um centro de recolhimento de cracudas? É o que dizem...
-Vocês ficarão a menos de 50 metros das cracudas? - perguntei.
-Não será pior do que as batucadas da casa ao lado e das brigas da Lourdes com o Rubinho que vieram antes da umbanda. - comentou meu irmão.
-As cracudas falam baixo, uma delas me chamou de viado, dia desses, de madrugada, quando eu rumava para a estação de Del Castilho do metrô.
-Por que ela lançou tamanha calúnia? - perguntou-me o Daniel com o seu usual jeito cômico.
-Porque não lhe dei dinheiro para comprar crack; mas, como disse, ela mal bulbuciou o viado.
-Nem força para falar elas têm, por isso, eu não me preocupo com essa vizinhança.
-Batuque de atabaques com cantos africanos, pega pra capar entre a Lourdes e o Rubinho, estamos cascudos. - afirmou o Claudio.
-Alguns peladeiros de futebol de salão, na quadra o Lar de Júlia, foram precursores dos cracudos, pareciam zumbis jogando. - falei em tom bem humorado.
-Poucos peladeiros, a grande maioria era agitada. - contrapôs meu irmão.
-O Mazzola da Rua Estevão Silva, por exemplo, tinha nome de craque, mas não jogava nada.
-Houve dois Mazzola craques, o italiano e o brasileiro, que, quando largou o Palmeiras pelo Milan, passou a ser chamado na Itália de Altafini para não haver confusão. - seguiram as palavras do Claudio às minhas.
-Vagner e Pirulito, em certa partida, gozaram tanto o Mazzola, dizendo que ele jogava sem a bola, como o Tostão, que tirou o tênis do pé e disse que os dois iam engoli-lo.
-O que aconteceu?... Eles engoliram o tênis sem ketchup? - interessou-se o Daniel.
-O Vagner, que era mais ouriçado, respondeu belicamente, mas o Pirulito redobrou as gozações e tudo terminou em paz.
E concluí:
-Nós dávamos um péssimo exemplo para os órfãos do Lar de Júlia.
-Com as cracudas, vocês poderiam repetir tudo o que fizeram, porque elas já seguiram todos os péssimos exemplos. - comentou o Daniel.
-Acredito que o Lar de Júlia, agora, será um centro de recuperação dessas viciadas, portanto, o ambiente delas tem de ser tranquilo.
-Não faria bem a elas assistir a minha briga com o Maninho, a do Luca com o Kung Fu, a do Seu Renato com o Sérgio, a do Mazzola com o Vagner e o Pirulito. - concordei com a Gina.
-Hora do meu carro tomar banho. - anunciou o Daniel a sua saída para a rua.
-Resolveu o problema com o cartão do Santander, Carlinhos? - quis saber a Gina.
-Aquele que surgiu porque me tornei cliente Van Gogh, ficando sem a orelha e sem o dinheiro?... Está resolvido.
-Já tem acesso, então, à sua conta do Santander.
-Tenho, Claudio, mas nessa semana, fui, lá pelas 9 da manhã, retirar dinheiro do caixa eletrônico do Banco do Brasil, o que faço há anos, quando aconteceu algo inédito comigo.
-Você tem de se benzer, Carlinhos. - previu a Gina coisa ruim,
-Deixa o Carlinhos contar, Gina.
E contei.
-Teclei para retirar 200 reais, e veio a mensagem de sempre “Aguarde. Contagem de cédulas”,  acompanhada  daquele barulho de máquina contando cédulas. Quando o barulho cessa, levanta, normalmente, uma espécie de tampa com o dinheiro sacado.
-O dinheiro não apareceu? - suspeitou a Gina.
-Não apareceu, mas retornou o barulho de máquina contando cédulas; fiquei, então esperançoso. Nada. Resumindo: a coisa se repetiu umas quatro vezes.
-Carlinhos, isso era porque o computador pensou que você estava retirando dinheiro da Petrobras e estava tomando fôlego para lhe entregar toda a dinheirama de uma vez.- brincou meu irmão.
Continuei sem entrar no espírito de brincadeira.
-Chamei um vigilante fardado a uns 10 metros de mim e ele me disse, depois de me perguntar o valor do saque, para ver se, no extrato, os 200 reais foram retirados da minha conta. Nesse ínterim, sai o dinheiro, ou melhor, ele é cuspido do caixa eletrônico e cai no chão. Peguei as notas, contei e lhe disse que faltavam 40 reais.
-E o guarda? - indagou a Gina.
-Disse que eu estava nervoso e, sem sair do meu lado, pediu para contar as cédulas de novo. Contei e percebi, então, que duas notas de 50 reais, novinhas, estavam coladas uma na outra. Vieram a mais 10 reais.
-Carlinhos, para você, 10 reais não são nada, para o Banco do Brasil, menos ainda. - comentou o Claudio.
-Terei de voltar mais tarde para devolver – resmunguei.
“Deixe o dinheiro comigo que eu entrego” - disse-me o guarda.
-Não vai me dizer que deixou, Carlinhos? - manifestou-se a Gina.
-Deixei, na pior das hipóteses, ficou como caixinha de Natal para ele.
 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

2753 - O Cavaleiro Solitário deixa de ser solitário


 

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5003                                         Data: 14  de  dezembro de 2014

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RÁDIO MEMÓRIA A CARGO DO SÉRGIO

PARTE III

 

-Jonas, vamos para a parte musical que você me incumbiu de cuidar.

Silêncio tumular. Jonas passava, agora, para o chá de hortelã inglês, mimo de Natal do Fernando Milfont, que acompanhava a garrafa de uísque.

-Vamos começar com um compositor deslumbrante: Wolfgang Amadeus Mozart. A ópera é “Bodas de Fígaro”, com uma ária que foi popularíssima na época, ”Voi Che Sapete”, cantada pelo maravilhoso soprano Tatiana Troyanos, que, infelizmente, morreu muito cedo.

Como todas as grandes divas, tinha as suas idiossincrasias e Sérgio Fortes se referiu a algumas delas.

Entrou a música e eu fui conduzido ao final dos anos 50, início dos 60, quando as manhãs de domingo, na minha casa, eram embaladas pelo programa Januário Ferrari da Rádio Guanabara; na primeira hora eram os “Cancioneiros Famosos” (napolitanos) e, na segunda, apenas óperas.

Enganei-me: a segunda atração era um musical da Broadway, “Showboat”, especificamente, de Jerome Kern e Oscar Hammerstein II. A cantora, uma soprano, tinha voz para não fazer feio em alguns papéis operísticos: Katryn Grayson. Ela cantou “Can't Help Loving That Man”.

Depois de comentar os problemas étnicos do enredo de “Showboat”, Sérgio Fortes passou para outra composição.

-Agora, uma cantora que fez um sucesso terrível (no bom sentido). Ela cantava com o Trio Los Panchos.

Pule de dez: Eydie Gormé.

-Composição de Pedro Buenaventura Jesus del Junco-Redondas, ou apenas Pedro Junco, “Nosotros”, que teve mais de 400 gravações. Esta gravação da Edith Gourmet com o Trio Los Panchos é de 1943.

Sem mais delongas, clichê que o Sérgio Fortes nem sempre evita, ele foi adiante.

-Agora, um compositor extraordinário, compôs dezenas de música para o cinema: Nino Rota.

Também escreveu óperas, uma inspirada opereta “O Chapéu de Palha”, concertos para os grandes teatros, mas Sérgio Fortes se ateve às suas criações mais populares.

-Ouviremos a música dele “Nino”, tocada pelo grande acordeonista  Richard Galliano.  Como ele é francês, aqui vai: “Gallianô”.

Dieckmann, que considera o acordeom um instrumento grandiloquente e critica o Sérgio Fortes por admirá-lo, deve ter torcido o nariz na Rua Triunfo em Santa Teresa. (*)

Logo em seguida, veio a nossa Kiridinha Te Kanawa.

-Com ela, “Smoke Gets in You Eyes”, de Jerome Kern e Otto Harbach.

Interpretação de levar ao esquecimento “The Platters” com falsetes e tudo o mais.

A “Pausa para Meditação”, crônica do Fernando Milfont”, uma espécie de intermezzo do Rádio Memória, com o tema “Raro Encontro”, se fez ouvir.

Jonas Vieira ainda bebia seu chá de hortelã inglês, por isso, não houve as suas costumeiras reflexões sobre a Pausa. Sérgio talvez tenha pensado no encontro entre o Jair Bolsonaro com a Maria do Rosário, mas não se manifestou, talvez porque ele não fosse tão raro assim.

A sexta música do Rádio Memória esteve a cargo de um cantor que, segundo o parceiro do Jonas Vieira, tem um lugar privilegiado na sua estante: o baixo cosmopolita Cesare Siepi.

-Ele é meio italiano, morou na Suíça, viveu nos Estados Unidos. Ele canta Begin The Beguine de Cole Porter...

Quebrou a sua frase para comentar a sua demora, neste domingo, em pôr criações de Cole Porter para se ouvir e continuou:

-Essa música foi composta quando Cole Porter estava num cruzeiro pelas Ilhas Fiji. Cole Porter compunha em qualquer circunstância.

Guardadas as devidas proporções, assim foi com Debussy, que compôs a suíte “La Mer” numa casa de campo no interior da França.

Outro compositor prodigioso deleitou os ouvintes que preferiram trocar a missa dominical das 8h da manhã pelo Rádio Memória: Michel Legrand.

-Ele compôs a canção “After The Rain”, que a minha querida Kiri Te Kanawa gravou.

Before, During, After The Rain, com Michel Legrand e Kiri Te Kanawa é puro deleite, ou “puro deuísque”, diria o Jonas Vieira.

-Voltemos ao musical “Showboat”, com dois cantores diferenciados, um deles já foi apresentado neste programa: Katryn Grayson, o outro é Howard Keel. Eles cantam o dueto “Make Believe”.

Cesare Siepi e Cole Porter foram, de novo, chamados à cena pelo Sérgio Fortes.

-Cesare Siepi fez um sucesso extraordinário nos anos 50 e 60. Ele esteve no Brasil na última temporada lírica, a de 1964, quando veio o elenco completo do Teatro São Carlos de Nápoles. Lamurientos, podemos declarar que há 50 anos não existem óperas para valer no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Nós, do Biscoito Molhado, não estávamos na plateia, como ele, mas colamos as orelhas na PRD-5, Rádio Roquette Pinto e ouvimos tudo. Fomos testemunhas auditivas do triunfo alcançado pela soprano Magda Olivera quando cantou e bisou a ária “L' Altra Notte In Fondo Al Mare”,  Enciumado, Cesare Siepi, que deveria colher os maiores aplausos do público,  pois era o protagonista do “Mefistófoles“, de Arrigo Boito, abandonou a temporada no meio, voltando para casa. Não são apenas as divas que têm idiossincrasias, os divos, também.

-Cesare Siepi vai cantar “So In Love”. - anunciou.

Levei as mãos aos céus, milhares de Rádio Memória com Cole Porter e nada do “So In Love”.

Antes da primeira nota, Sérgio Fortes fez uma pequena introdução:

-Ouço essa música e fico todo arrepiado. Ela fecha o filme admirável sobre a vida de Cole Porter, “De-Lovely”. Cole Porter canta para a mulher que está morrendo “So In Lovely”. Eu não sei se corresponde a verdade dos fatos.

Depois que essa canção foi ouvida, imaginei as reações dos diversos tipos de ouvintes.

Os mais jovens: “Sinistro!”

Os mais velhos: “Supimpa!”

Os menos intelectualizados: “É do balacobaco!”

Os mais intelectualizados: “Os efeitos sinestésicos do “So In Love”, do Cole Porter”, que sinto na alma, não posso reproduzir em palavras, por isso, emudeço.

Depois de deixar todo o mundo arrepiado como ele, o programador musical único desse  dia, partiu para os boleros.

-Lucho Gatica, grande cantor chileno, está com uns 125, 126 anos. O  que, Peter?... Para eu fazer um abatimento?... Vá lá: 90 anos de idade (na verdade 86 anos). Ele não canta como antes, mas para seus fãs, ele está cantando cada vez melhor. “Noche de Ronda”, de Agustin Lara, é o que ouviremos com ele.

Depois de acionadas as carrapetas pelo Peter, que, às vezes, ele chamava de Tonico ou outro nome parecido, entrou no ar a canção mundialmente conhecida.

-No terreno fértil dos boleros, vem Luís Miguel interpretar um dos meus favoritos “La Barca”.  Conheço umas cem gravações, mas me prendo mais ao Pedro Vargas, ao Carlos Ramirez,

Depois que a barca partiu, o programa se aproximou do seu desfecho.

-Jonas, esta é a minha seleção musical. Espero que tenha gostado.

Nesse instante, o titular do Rádio Memória acabava de sorver o último gole do chá de hortelã inglês.

-Claro que gostei, Serginho, você tem bom gosto, senão, não seria meu amigo.

Com os poucos segundos que ainda restavam, Jonas Vieira, revigorado, citou seus companheiros de copo de leite da Rua General Glicério e um casal de livreiros da Casa “A Letra Viva”, na Rua Luiz de Camões”, onde aliás, nós do Biscoito Molhado, compramos  o livro “Depoimento”, de Carlos Lacerda.

-Voltaremos, no próximo domingo, no horário das 8 horas britânico. - prometeu o Jonas Vieira.

Tratei, então, de acertar o meu relógio pelo meridiano de Greenwich.

 

(*) Dieckmann confirmou aqui para o Distribuidor do seu O BISCOITO MOLHADO: Torci mesmo! Sanfona, só as de Paris ou forró. E Nino Rota é repetitivo demais, xô!

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

2752 - O Cavaleiro Solitário na Roquete 2


           

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5002                                            Data: 13  de  dezembro de 2014

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RÁDIO MEMÓRIA A CARGO DO SÉRGIO

PARTE II

 

-Vamos aos nascimentos, Jonas?

Nenhuma resposta à pergunta do Homem-Calendário. Jonas Vieira ainda degustava o uísque que ganhara de Natal do Fernando Milfont.

-Nascimentos. - soou grandiloquente a voz do Homem-Calendário.

-Em 1915, o ator norte-americano Eli Wallach. Ele trabalhou naquele western-spaghetti “O Bom, o Mau e o Feio”. Eu não sei, até hoje, Peter, se ele era o Mau ou o Feio. Era as duas coisas, Peter? Sim, mas o Bom, o Cint Eastwood, também era mau. O quê, Peter?... A confusão foi tamanha que resolveram mudar o nome do filme para “Três Homens em Conflito”?... Ficou melhor assim, mais politicamente correto. A ministra Maria do Rosário aplaudiu certamente.

-Em 1924, Mário Soares, político português muito importante.

Um parêntese: com 90 anos de idade, ele está mais lúcido do que muitos jovens, constatamos ao vê-lo numa entrevista concedida ao Roberto D'Ávila. Sua grande paixão eram as viagens. Segundo a estatística dos opositores, os seus passeios com o dinheiro público correspondiam, em milhagem, a vinte e duas vezes a volta à Terra. Já os gozadores portugueses diziam que Deus, ao criar o mundo, encontrou o Mário Soares em todos os lugares.

-Em 1925, nascia Hermano da Silva Ramos. Alguém vai perguntar: “Quem é?” Foi o terceiro piloto brasileiro de Fórmula 1.

Era da sua enfermaria e da do Dieckmann também, Sérgio Fortes não poderia deixar de citar esse aniversário. E prosseguiu:

-Ele tem muito pouco de brasileiro, digamos que é 99,9% de francês, pois nasceu na França; fui colega do filho dele, Edgar,  na Faculdade Nacional de Economia. O Hermano passou boa parte da sua vida aqui, outra, na França; fala um português mal alinhavado, mas fala.

-Em 1956, Larry Bird, ex-jogador de basquete norte-americano. Como jogava bem! Se estudasse mais, ele e o futebolista Iniesta, do Barcelona, seriam físicos nucleares, de tão inteligentes que eram nos seus ofícios.

-Em 1964, Roberta Close, atriz brasileira. Há uma história interessante envolvendo ela ou ele. Não, Peter, nada tem a ver com a canção do Erasmo Carlos que, nesse caso, não chamou o Roberto Carlos para ser seu parceiro.  Causos assim são com o Simon Khoury, meus causos não são proibidos para menores de 18 anos. A história é a seguinte: O professor Mário Henrique Simonsen descansava na rede da sua casa, em Búzios, quando vislumbrou um mulherão passando. Saudou-a: “Olá, Roberta Close”; era a Luiza Brunet. Ela não se aborreceu, pelo contrário, tornou-se grande amiga do professor até a sua morte prematura, com 61 anos de idade. Luiza Brunet compareceu ao seu enterro. Ele foi o mais destacado aluno da história do Colégio Santo Inácio, a pessoa mais inteligente que conheci.

Sem pausas, foi adiante:

-Falecimentos. Em 43 a.C. Cícero, político e orador romano que foi executado por ordem de Marco Antônio.

Nós, do Biscoito Molhado fazemos aqui um adendo para aludir à mensagem eletrônica de um professor universitário, que nos foi repassada pelo Sérgio Fortes, em que a ganância do falecido advogado de bandidos de alto coturno, Márcio Thomas Bastos, era comparada com a de Cícero e, não contente, o tal professor desejava que esse advogado tivesse a mesma morte do romano, a degola em vez de uma prosaica doença pulmonar. Bem, passados mais de 20 séculos, estamos, aqui, falando de Cícero, uma das mentes mais brilhantes da Roma Antiga, que compaginou a filosofia grega com a romana. Quanto ao Márcio Thomas Bastos, só se será lembrado na companhia dos maiores assaltantes dos cofres públicos no Brasil durante 15 anos no máximo. Isso porque, como dizia Ivan Lessa: “De 15 em 15 anos, o brasileiro esquece o que aconteceu há 15 anos.”

-Em 1975, falecia Plínio Salgado, uma figuraça da política brasileira. Se você for escrever sobre Plínio Salgado, serão precisos dez, quinze livros.

E uma paciência de Jó. - acrescentamos nós, em pianíssimo, para não sermos ouvidos pelo Sérgio Fortes, que prosseguiu com o líder do integralismo, o qual estava baseado numa política tradicionalista ultra-conservadora.

-Anauê, os integralistas se saudavam com esse brado dos índios Tupi. Para os seguidores de Plínio Salgado, anauê também significava “você é meu irmão”. Isso me lembra da Revolução Francesa, Peter. Não é só o Plano Real que tem tripé; o dos revolucionários era “Liberdade, Fraternidade e Igualdade.” Metternich, político austríaco de humor refinado, ao ver a matança entre os franceses, disse em Paris: “Reinando a fraternidade que aqui se usa, se eu tivesse irmãos, tratá-los-ia de primos.”

-Essa frase, Peter, foi citada por Ruy Barbosa no Dircurso pronunciado na colação do grau de bacharel em ciências e letras no Colégio Anchieta, de Friburgo, em 1903. Texto que constava na “Nova Antologia Brasileira”, do professor Clóvis Monteiro, que estudamos no Santo Inácio. Voltando ao integralismo, Peter, essa história de anauê - “você é meu irmão”... sei não. .. Seria melhor que todos fossem tratados de primos.

Silêncio que logo foi quebrado:

-Hoje, é o Dia do Oficial de Justiça. Houve uma pendenga judicial da mãe da Maria Callas contra a filha. Quando ela foi cantar nos Estados Unidos jogaram uma notificação, que ele recusava receber, nas suas costas. Ele ficou uma fera, os paparazzi aproveitaram... Eu conto esta história em outro dia.

E continuou:

-7 de dezembro também é o Dia Internacional da Aviação Civil.

Será que o aniversário do Mário Soares teve influência nessa escolha?- perguntamos nós.