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terça-feira, 9 de maio de 2017

3032 - SX O valor de cada palavrão



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5281 SX                           Data: 9 de maio de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV

DESAFOROS

Tem horas em que o sujeito perde a compostura e diz barbaridades. Impropérios de corar um frade podem ser lançados por personagens diversos, sejam eles lordes do almirantado britânico ou traficantes da zona portuária.
Arrependimentos acontecem. Há quem admita que exagerou na dose. “Meu Deus, onde estava eu com a cabeça quando disse aquelas barbaridades ao Alfredinho?” Mas alguns ratificam o destempero: “Cacilda, esqueci de xingar aquele vagabundo disso, disso e mais aquilo!...Fica para a próxima vez...”
Gosto dessas narrativas sobre gente que chutou o pau da barraca. Vou relatar algumas. Para não escandalizar por demais os leitores, recorro à figura musical do “crescendo”. Começo com um episódio “light”, para chegar, na última história, a um final “majestoso”.

                                  Episódio 1 – O IRREDUTÍVEL TOMÁS

Roberto Ruiz de Gamboa foi um brilhante economista, com quem trabalhei na década de setenta. Morreu cedo, para imensa tristeza de uma legião de amigos e admiradores. Gamboa era o que se convencionou chamar um “intelectual de esquerda”. Combatia os governos militares e não perdia uma chance de participar de discussões acaloradas sobre distribuição de renda, reforma agrária, democratização do ensino e por aí ia. No auge de sua militância política, passou um tempo no Chile, trabalhando na CEPAL.
Essa disposição de combate pelas causas sociais já existia quando ele cursou a Faculdade Nacional de Economia, na Praia Vermelha. Participava ativamente do Diretório Acadêmico, empenhado em lutar por suas convicções.
Nem todos concordavam com suas ideias. Os embates eram diários. Um opositor contumaz era Tomás Villaret. Gordinho, rosado, rico, sotaque lusitano a denunciar que a família chegara há pouco de Portugal, Tomasinho era um oponente a ser batido. Essa incompatibilidade já se estendia por alguns semestres acadêmicos e, pelo visto, iria persistir até a cerimonia de formatura dos dois litigantes.
Gamboa era teimoso. Um belo dia se aproximou de Tomasinho com o discurso ensaiado: “Tomás, sei que nós já tivemos muitas contendas, e jamais concordamos. Mas hoje, depois de tantas desavenças, venho te propor um tema que, não tenho a menor dúvida, vai contar com o seu apoio”.
“Diga lá, Roberto”.
“Trata-se do seguinte. Trago aqui, para colher tua assinatura, um manifesto contra a bomba atômica”.
“Não assino!”
“Peraí Tomás. Acho que você não entendeu bem. Estou falando da bomba atômica. Uma calamidade! Uma loucura que pode acabar com a vida sobre a terra!”
“Não assino!”
“Tomás! Tenho certeza de que você não está entendendo. O que está em pauta é algo capaz de exterminar todos nós! Nossas famílias, nossos filhos...Acaba o mundo! Basta um maluco apertar um botão e tudo vai pelos ares!”
“Não assino!”
Gamboa perde a paciência. Percebe que não vai alcançar seu intento e não resiste a uma provocação final: “Tomás, sabe por que você não assina o manifesto? Pois eu sei! Você não assina porque é um covarde!”
“Covarde eu, Roberto? Covarde és tu que tens medo de bomba atômica!...”
  
                                          Episódio 2 – PAPAI NOEL

Véspera do Natal de 1958. Paulo Fortes dirigia, escrevia o roteiro e cantava, enfim, fazia tudo no programa “Carrossel Tonelux”, uma das atrações da TV-Rio.
Ele idealizou um programa dedicado ao Natal. Não havia vídeo-tape. Tudo era apresentado ao vivo. O problema é que o “Carrossel” terminava tarde da noite. Todos os envolvidos, artistas, equipe técnica, estavam loucos para dar o trabalho por encerrado e correr às suas casas para comemorar a data com os familiares.
Programa de Natal tem que ter Papai Noel. Marino Terranova, cantor de ópera paulista que vinha tentando a sorte no Rio de Janeiro, foi convencido pelo chefe a aceitar o papel. O traje do bom velhinho lhe caía bem. Marino era gordinho e simpático. Muito querido por seus colegas do Teatro Municipal, até porque era festeiro e cozinhava divinamente.
Pois muito bem. O “Carrossel” chega ao seu final e o que se vê é uma desabalada corrida de toda a equipe em direção ao vestiário da TV-Rio. Vestem-se freneticamente e saem a jato da emissora do Posto Seis. Todos, menos um: Marino Terranova. Sabe-se lá porquê, Papai Noel se atrasou. E encontrou o vestiário hermeticamente fechado. Gritou, deu socos na porta...e nada. Entrou em pânico quando se deu conta de que não tinha um tostão no bolso. Na verdade, nem bolso havia na sua roupa de Papai Noel.
Nada a fazer. Começou sua caminhada da estação de TV até a Rua Constante Ramos, onde alugava um pequeno apartamento. Espumava de raiva, antevendo o problemão que tinha pela frente. Não deu dez passos e ouviu o grito de um mendigo: “Papai Noel, me dá um presente?” A resposta foi carinhosa: “Vá prá puta que o pariu!” Dois quarteirões mais adiante o português do bar debochou do andar apressado do nosso personagem, incompatível com a idade do bom velhinho. Foi saudado com um rotundo “Vai à merda!”
Crianças também não foram poupadas nesse trajeto. Um guri acompanhado de pais e irmãos teve a má ideia de cobrar: “Papai Noel! Cadê o saco?” A resposta quase resultou em porradaria: “Pergunta prá mamãe, viadinho! Pergunta prá mamãe onde está o saco!”
Constante Ramos, finalmente. Papai Noel, ou melhor, Marino Terranova, respira aliviado. Até fica contente ao encontrar o porteiro antipático do prédio. Este o saúda com um “Corre, Papai Noel, porque está atrasado!”
Marino cogitou acrescentar um soco ao seu estoque quase esgotado de “Vá à merda!” Pensou bem, respirou fundo e foi dormir.

                                          Episódio 3 – O JUMBO

Roberto Dieckmann levou a notícia aos seus colegas de Engenharia, no Fundão: “Pessoal, o Jumbo vai pousar hoje no Galeão!”
Início dos anos setenta, era a primeira vez em que um Boeing 747, da Pan American, chegava ao Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro. Dieckmann botou uma pilha na turma: “Precisamos ir lá! Esse é um acontecimento histórico! Não é longe daqui!”
Sugestão aprovada, comitiva formada, partem em direção ao aeroporto. Lá chegando, percebem que não vai ser fácil ver o tal do Jumbo. Esbarram na proverbial burocracia que massacra os brasileiros. Um sujeito diz que não vai ser possível pelo motivo”A”. Outro diz que não pode autorizar a turma a subir ao terraço, de onde o avião poderia ser avistado, pelo motivo “B”. Um terceiro declara que “visitas de grupos” devem ser previamente agendadas. Outro idiota de plantão, daqueles que adoram mostrar a autoridade de que estão investidos, chega a sacar o “Regulamento Geral dos Aeroportos”, para que a turma se dê conta da gravidade da transgressão que cogitam perpetrar.
Mas o fato é que os jumbófilos foram se virando, abrindo portas e chegando cada vez mais perto do tal pátio, objetivo de sua excursão.
Uma última porta os colocou de frente para o crime. Ela foi aberta e a turma se deparou com o gigantesco e assustador leme do Jumbo, que sobressaía, majestoso, muitos metros acima de um último muro. Um segurança, um soldado da Aeronáutica, quase do tamanho do muro se aproximou: “Vocês não podem ficar aqui!”
A turma repetiu seus argumentos, explicando tratar-se de uma visita rápida, que não duraria mais do que alguns poucos minutos...” “Vocês não podem ficar aqui!” repetiu o clarividente segurança. A garotada decidiu recorrer a argumentos técnicos. Eram alunos da Faculdade de Engenharia, ali perto e a visita àquela maravilha tecnológica era para eles irresistível. Sai o veredito final do segurança: “Vocês não podem ficar aqui!”

Mottinha, o baixinho, o tímido, o mais calado do grupo, resolve dar o assunto por encerrado: “Enfia o Jumbo no cu!”

sábado, 6 de maio de 2017

3031 - SX O canto do cisne. Drama.



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5280 SX                           Data: 06 de maio de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV

  AS  AGRURAS  DE  ANACLETO

Na mitologia grega, Caronte, o barqueiro, carrega as almas dos mortos recentes sobre as águas do Estige e do Aqueronte, rios que dividem o mundo dos vivos do mundo dos mortos.
Anacleto, alvo de nossa reportagem, passava boa parte do tempo na ante-sala próxima ao quarto de sua mulher, Dorotea. Na expectativa da chegada de Caronte.
Dizendo-se apaixonado, com ela se casou já na idade madura. Achou que isso poderia ser a solução de seus problemas. Dorotea era rica. Feia de doer. Isso não lhe causava problemas. Até porque não olhava para ela. Incômodo? Só um. Os amigos que lhe deram o apelido de São Jorge. Aquele que sabe lidar com o dragão.
A doença grave de Dorotea deixara Anacleto animado. Ela não saía mais da cama, perdia peso a olhos vistos e a cor de sua pele assumia tonalidades dignas de um pintor renascentista deprimido.
Mas se recusava a morrer. O marido mantinha as aparências. Especial-mente diante do cunhado, que ele odiava. Este administrava com mãos de ferro a fortuna da família. Anacleto tinha certeza de que o sogro, já falecido, fazia dele péssimo juízo. Certamente teria instruído o filho a vigiá-lo de perto.
Diante dessas evidências, nosso herói ficava na torcida para que Dorotea partisse dessa para a melhor antes que Ribamar, o cunhado, armasse algum estratagema para afastá-lo da dinheirama da família.
Representava bem seu papel. No que contava com a cumplicidade do porteiro do prédio. Este sempre o alertava sobre a chegada do cunhado. A tempo de Anacleto se colocar na cabeceira da mulher, solidário e carinhoso. A cena era sempre a mesma. Segurava com carinho a mão de Dorotea. Sem que se percebesse que aquele era o momento em que a doente encontrava forças para tentar quebrar os ossos da mão do marido que, ela sabia, tantas vezes a enganara.
Os dias assim se passavam. Na ante-sala, à espera de Caronte, Anacleto pensava nas peripécias que haviam marcado sua trajetória no Rio de Janeiro, desde que chegara da Paraíba, em 1952. Fora importado por seu tio, o Deputado Federal Renan Nonato. Sua mãe, viúva, passava por dificuldades. O irmão lhe acenara com a possibilidade de empregar Anacleto na Câmara dos Deputados. O que foi feito. Emprego mixuruca, já que os melhores cargos do gabinete estavam ocupados por mulheres que não iriam certamente alcançar o reino dos céus. Na avaliação do Deputado, um emprego na dimensão certa para formar o caráter e reforçar a têmpera do sobrinho. 
Foi curta a trajetória de Anacleto sob o amparo do tio Renan. A tragédia aconteceu no momento em que as coisas começavam a melhorar. Acreditava o sobrinho que muito cedo viria até mesmo a participar das estripulias patrocinadas pelo tio deputado.
O ano de 1958 chegava à metade quando Renan Nonato resolveu visitar suas bases eleitorais na Paraíba. Queria participar das eleições municipais que lá iriam transcorrer. Incorrigível, envolveu-se com a filha de um inimigo político, que jurou-o de morte. Dito e feito, em meio ao café da manhã servido num hotel do interior, foi surpreendido pelos capangas de seu desafeto. Prevalecem, até hoje, duas versões para sua morte. Segundo alguns, teria sido decorrência de violentos golpes de melancia que levou na cabeça. Outros afiançam que teria sobrevivido a essa agressão, com o que seus algozes decidiram asfixiá-lo enfiando-lhe uma jaca pela cabeça, até a altura do colarinho. Por uma questão de compostura, parentes e aliados políticos providenciaram um atestado de óbito que atribuiu o desenlace a um ataque cardíaco sofrido no exato momento em que o rádio bradou o solitário gol de Pelé contra o País de Gales, na Copa de 1958.
Desde então a vida de Anacleto desandou. Lembrava-se de vários episódios perturbadores, alguns dos quais noticiados com destaque nos jornais. Entre esses a ocasião em que perdeu os freios de seu velho Chevrolet, herança do deputado, no cruzamento da Avenida Copacabana com Figueiredo Magalhães. Foi obrigado a avançar o sinal e, para não atropelar uma velhinha que brandia um guarda chuva em sua direção, invadiu a Casa Gaio Marti, sendo soterrado por toneladas de latas de goiabada e extrato de tomate. Trabalhou três anos para pagar o prejuízo.
Outros episódios trágicos acorriam à sua mente. Entre eles o incêndio que consumiu seu automóvel no estacionamento da boite Fred´s... A batida na Cadillac de Tenório Cavalcanti, que rendeu-lhe oito meses de hospital... O dia em que quase foi linchado quando, bêbado, atravessou a Galeria Menescal a sessenta quilômetros por hora, certo de que trafegava na Rua Santa Clara.
Tudo ia de mal a pior, até acontecer o casamento com Dorotea. Ela ficou doente, e ele muito animado. Bastava-lhe aguardar a chegada do tal Caronte. Que não aparecia nunca. Possivelmente engarrafado na Linha Vermelha. Ou, quem sabe, retido em alguma blitz da Lei Seca.
Sua paciência foi se esgotando. Resolveu dar uma ajudinha para acelerar o processo. Instalou um sistema de som no quarto de Dorotea. Escolheu uma programação musical que privilegiava a música sertaneja. Programas de televisão também foram escolhidos a dedo. Ivete Sangalo, Claudia Leite, Daniela Mercury...Insuportáveis programas humorísticos do Multi Show também ganharam espaço especial na TV de Dorotea. Filmes iranianos...Séries culinárias...Carnaval baiano...a tudo ela resistia.
Anacleto resolveu radicalizar. Providenciou vídeos com as novelas bíblicas da TV Record. Concursos de canto envolvendo crianças e o programa da Bela Gil também não foram esquecidos. Nada dava certo. Dorotea até mudava de cor. Mas resistia bravamente.
Numa atitude extremada, providenciou uma fita com várias horas de pronunciamentos da “Presidenta” Dilma Rousseff . Inadvertidamente, assistiu parte deles. Quando o cunhado Ribamar chegou para a visita de praxe, encontrou Anacleto e Dorotea em paz. Calmos e, como sempre, de mãos dadas.

Estavam mortos.

terça-feira, 2 de maio de 2017

3030 - SX No cabelo, só ROLEX




O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5279 SX                           Data: 02 de maio de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV

CELSO LARA BARBERIS

Comparecer nos sábados à feira de antiguidades da Praça XV qualifica o visitante a disputar o troféu "Cocar de Ouro". Programa de índio da mais alta categoria. A feira perdeu qualidade, tornou-se gigantesca no tamanho e proibitiva nos preços. Foi-se o tempo em que os membros da ACCCDPBS(Associação dos Compradores Compulsivos de Coisas Desprezadas pelas Pessoas de Bom Senso) para lá acorriam na expectativa de encontrar raridades irresistíveis, a preços convidativos. Ninguém mais faz referência à lenda urbana, propagada em tempos remotos, de que ali alguém teria comprado um belíssimo quadro de Di Cavalcanti pelo preço de um Eski-Bon. 
Durante muito tempo integrei a associação dos compradores compulsivos, mesmo ciente de que estava perdendo tempo e contrariando a lógica. Achava que iria encontrar mais uma Parker 51, estalando de nova. Possivelmente na cor verde musgo, difícil de encontrar. Ou um punhado de Dinky Toys novos em folha, acondicionados em caixas originais. Uma coleção completa e encadernada da "Revista de Automóveis"...Tudo barato. Muito barato.
Pessoas com juízo sabem que nada mais disso acontece. Nos bons tempos, em que um número menor de barracas sofisticadas ficavam dispostas em volta do restaurante Albamar, fui agraciado com algumas compras realmente interessantes. A começar por um programa oficial do Circuito da Gávea de 1954, último realizado, vencido pelo Barão de Graffenried. Novinho. Um achado.
Destaque, também, para um Rolex Submariner. Alguém imagina encontrar hoje uma preciosidade dessas na Praça XV ? Pois eu encontrei. Na barraca de um senhor muito simpático e a um preço convidativo. Tomei coragem e perguntei se poderia pagar em três parcelas. O vendedor disse que sim. Me dei conta, no entanto, que só um maluco entregaria um Rolex em troca de três cheques assinados por um sujeito desconhecido.
Me antecipei às preocupações do vendedor e sugeri que levasse o relógio na segunda-feira seguinte ao meu trabalho, na Rua do Ouvidor. Isso foi feito. No dia aprazado, um terno azul marinho e uma porção de Gumex conferiram-me a devida credibilidade para concretizar o negócio.
Bem depois, descobri que a compra do relógio havia sido um negócio ainda mais proveitoso do que eu havia suposto. Meu Rolex era um "Red Submariner". Alguns dizeres que constam do seu mostrador estão gravados em letras vermelhas, ao invés das brancas usuais. Trata-se de uma raríssima variação, que mexe com a libido dos apreciadores da marca.
O ponto alto de minhas incursões à Praça XV ainda estava por acontecer. Anos mais tarde, num sábado nublado, estávamos eu e minha mulher empenhados em nossa pesquisa quando ela se aproximou de uma barraca a ser, a meu juízo, solenemente ignorada. Dezenas de xicrinhas, perinhas de prata, tacinhas de cristal, e por aí vai. "Coisa de viado...", diriam certamente meus amigos. Indócil para afastar a Beth daquele valhacouto de inutilidades, deparei-me com um prato bonitão, de prata, com algo incrustado no meio da peça.
O "algo dourado" era uma baratinha dos anos 50, semelhante a uma Maserati 250 F. Uma beleza.
Nervoso, peguei o prato e li o que estava nele gravado: "III 500 Quilômetros de Interlagos. Patrocínio da Metal Leve e Folha de São Paulo. 7 de setembro de 1960. Campeão".
Definitivamente tenso, dei-me conta de que havia encontrado, em plena Praça XV, o troféu ganho pelo vencedor da mais importante prova automobilística disputada no Brasil no ano de 1960. Quem seria ele? Camilo Christófaro? Chico Landi? Roberto Galucci? Celso Lara Barberis? Ciro Cayres? Caí na real e concluí que aquela era uma dúvida a ser esclarecida em casa. Importante, naquele momento, era comprar o troféu. O que faria se o dono da barraca me pedisse um preço absurdo, sabedor da preciosidade que tinha em mãos? "Quanto? 250 reais? Tô achando o preço um pouco pesado. Não dá para fazer por 150? 200? O.K., eu fico com ele". Negócio fechado, prato embrulhado, só aí me dei conta do olhar de impaciência da Beth, ávida por encontrar mais xicrinhas.
Cheguei em casa exultante. Procura daqui, pesquisa dali, mato a charada no excelente livro "Chico Landi de ponta a ponta", do meu amigo Paulo Scali. No capítulo que trata das proezas do grande Chico Landi no ano de 1960 consta: "Vice-campeão dos 500 Km de Interlagos"
O vencedor? Celso Lara Barberis.
Dúvida esclarecida, dediquei-me a pesquisar a carreira de Barberis. Recorri à "Revista Brasileira de Automóveis" e à Internet, especialmente o site do Jan Balder.
Celso nasceu em São Manuel, nas proximidades de Botucatu, em 28 de fevereiro de 1916. Filho do médico e fazendeiro de café Joaquim Orestes Barberis, italiano que chegou ao Brasil em 1914, e de Dona Maria Augusta Lara. Grande desportista, nadou e remou no Clube de Regatas Tietê e no Floresta. Campeão brasileiro no single skiff, foi convocado para representar o país nos jogos olímpicos de 1936. Uma intoxicação levou-o ao hospital e ele não pôde viajar. 
Foi, também, um destemido lutador de boxe. Em 1949, julgando-se "velho" para remar, iniciou suas atividades automobilísticas. Primeiro, com um Alfa Romeo Sport. Depois, com um Cisitalia 1300, que comprou para disputar o campeonato paulista de 1952. Com esse carro venceu o Circuito da Quinta da Boa Vista na categoria "Sport-Adaptados até 1500 cc".
Destacou-se numa série de provas em Interlagos, guiando inicialmente uma Ferrari de 2 litros e, posteriormente, uma de 3000 cc. Venceu as "Duas Horas de Velocidade de São Paulo", chegando em segundo lugar na prova que comemorou o IV Centenário da cidade. Em 1957, disputou o "Triângulo Sul Americano", enfrentando de igual para igual adversários do porte de José Froilan Gonzalez. Participou em três ocasiões dos "1000 Kilômetros de Buenos Aires". Seu melhor resultado aconteceu em 1960. Um quarto lugar, conduzindo uma Maserati 300 S em dupla com Christian Heins. Vale registrar a concorrência: a prova foi vencida por Phil Hill e Cliff Allison. Em segundo lugar, chegaram Richie Ginther e Wolfgang von Trips. Em terceiro, Jo Bonnier e Graham Hill. Nada mal, não é mesmo?
Em 1957 o Automóvel Club de São Paulo resolveu comemorar os primeiros passos da indústria automobilística nacional e ao mesmo tempo saudar o 7 de setembro. Para isso promoveu os "500 Kilômetros de Interlagos", disputados nos 3.460 metros do anel externo do antigo e saudoso autódromo. Celso Lara Barberis venceu esta primeira edição, com Maserati - Corvette, depois da quebra de Ciro Cayres. Voltou a vencer os "500 Kilômetros" em 1960 e 1961, com Maserati 300 S e Maserati - Corvette, respectivamente.
Em 1963, seu projeto era correr essa prova em dupla com Chico Landi. O carro era um monoposto construído por Toni Bianco e Landi, equipado com motor JK 2000. A confiança na vitória era grande. Tanto assim que chegaram a combinar que Barberis daria a largada e Landi, possivelmente como vencedor, receberia a bandeira quadriculada.
Mas ainda na primeira volta, Barberis foi abalroado pela Maserati- Corvette de Amaral Junior, na curva que antecede o retão de Interlagos. Seu carro foi de encontro a um barranco, capotando várias vezes. O piloto foi projetado à distância, teve fratura de crânio e esmagamento de tórax. Ninguém teve dúvidas sobre a culpa de Amaral Junior no episódio. Ele nunca mais foi visto sequer nas proximidades de uma pista de corridas.
Estou sempre limpando e dando polimento no troféu do grande campeão. Faço mil conjecturas, mas não consigo imaginar de que maneira ele veio parar no Rio de Janeiro, na feira de antiguidades da Praça XV. Mariozinho de Oliveira, grande amigo de Barberis, vibrou com a minha aquisição. mas não teve como colaborar para a elucidação desse mistério.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

3029 - SX O filho do corno



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5278 SX                           Data: 28 de abril de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV


UM BUICK LONGE DEMAIS

Andrew Keitel não escondia de ninguém o quanto considerava seu padrasto, Richard Ciril O´Connor, o sujeito mais estranho que tivera a oportunidade de conhecer. Homem seco, de poucas palavras e hábitos conservadores. Vestia sempre camisas brancas, calças, sapatos e meias pretas, compradas invariavelmente numa acanhada loja de departamentos que se instalara na pequena Palmer, subúrbio de Detroit que acolhia os trabalhadores menos qualificados da indústria automobilística.

Os luxos de Richard eram poucos. Dois deles evidenciavam a origem irlandesa de sua família. A mistura de corrente de ouro e chaveiro que portava à cintura de domingo a domingo pertencera a seu pai, assassinado numa briga de rua quando Richard, o primeiro O´Connor nascido nos Estados Unidos, mal havia completado três anos de idade. Seus cachimbos eram também notoriamente irlandeses. Podiam tirar a alegria de viver de qualquer ser movente que entrasse no raio de ação de seu odor insuportável.
Luxo de verdade, levando-se em conta a pobreza dos moradores de Palmer, estava no fato de possuir dois automóveis.

Mae Keitel, mãe de Andrew, casou-se com Richard em outubro de 1949, dois anos após a súbita morte do seu primeiro marido. Richard possuía um Buick 1938. Seu enteado, precocemente apaixonado por automóveis, já o considerava um carro fora do comum e particularmente bonito. O problema é que o Buick Special Sport Coupe não comportava a nova família de Richard, que passara a ser integrada por Mae, Molly, a avó paterna acolhida pelo Sr. O´Connor, o irmão mais velho, Stan, e o próprio Andrew. Um carro maior foi providenciado. Um Chevrolet de quatro portas e muitos lugares.

O Buick não foi entregue como parte de pagamento do Chevrolet, um carro bem mais moderno. Se a compra do primeiro automóvel, logo depois da guerra, marcara a evolução profissional de Richard, de esforçado vendedor autônomo a proprietário de uma revenda de pneus, a compra desse segundo carro atestava que seu novo negócio estava caminhando muito bem.

Os irmãos Stan e Andrew não se davam bem com Richard. Não conseguiam entender sua personalidade, sua incapacidade para demonstrar afeto ou até mesmo de se colocar à frente de seus melhores gestos. Mas para eles era suficiente a certeza de que o padrasto adorava sua mãe e tinha por Molly, a avó, um carinho quase inexplicável.

Em meados dos anos 50 uma atitude de Richard veio comprovar, mais do que qualquer outra, sua complexa personalidade. Fazia muitos anos que Mae trabalhava na fábrica Packard, costurando acabamentos na forração daqueles automóveis extraordinários.
Sofria os efeitos da crise que alcançava aquela indústria. Sair cedo de casa para enfrentar os problemas de uma empresa condenada à extinção significava um sacrifício que excedia suas forças. Richard pediu-lhe que deixasse a empresa, argumentando que o negócio de pneus estava em franca expansão e que precisava muito de uma pessoa de confiança para auxiliá-lo na administração do negócio. Deixou claro que falava de uma relação profissional, que estava disposto a lhe pagar o dobro do que recebia na Packard. Mae aceitou. Jamais botou os pés na loja de pneus. Mas nunca deixou de receber o salário combinado, religiosamente em dia.

Esse lado especial de Richard não encobria seus problemas de relacionamento. Com a maturidade, Andrew fazia esforços enormes para evitar constrangimentos para sua mãe, que por sua vez se desdobrava para atenuar aquela relação belicosa.

Na primeira oportunidade que surgiu, Stan fez sua opção por estudar longe de casa, abraçando em seguida uma carreira militar que lhe assegurava distância do padrasto.
Andrew não foi tão radical. Fez diversos cursos, inclusive engenharia mecânica, em Detroit. No final dos anos 60 estava envolvido com a fabricação de peças de reposição destinadas a automóveis antigos, juntando atividade profissional à paixão que desde cedo demonstrara pelos carros de coleção.

Nessa altura dos acontecimentos, Richard ainda possuía o Buick 38. Nos últimos anos vários automóveis haviam passado por suas mãos, sem que o Buick perdesse sua vaga na garagem. Para Andrew, um especialista, aquele automóvel raro e de linhas elegantes tinha um significado especial. Mas a ele Andrew não tinha acesso.

Com o passar dos anos, o Buick começou a mostrar sinais de deterioração. Por diversas vezes o enteado colocou-se à disposição do padrasto para empreender sua restauração, dedicando a essa empreitada uma competência que já era então reconhecida entre colecionadores de todo o país. Seus préstimos foram sempre recusados.

Anos depois, Andrew começou a assistir, finalmente, o que parecia ser o processo de recuperação do Buick, executado pessoalmente pelo padrasto. Viu-se diante de um filme de terror. O carro ganhou cor metálica, imprópria e feia, além de estofamento plástico em cores berrantes. Pneus fora dos padrões ressaltavam os muitos enganos cometidos. Em relação à parte mecânica, a conjugação de adaptações surpreendentes com peças de maus fornecedores parecia assegurar, definitivamente, a inviabilidade do projeto.

Richard O´Connor e Mae foram morar em Grand Rapids, cidade mais de acordo com a fortuna que ele acumulara com o negócio dos pneus. Em 1979, Andrew transferiu família e negócios para Sacramento, na Califórnia, onde floresciam as atividades relacionadas à restauração de automóveis antigos.

Pouco tempo depois, Mae faleceu. Andrew imaginou que suas relações com o padrasto fossem esfriar completamente. Mas isso não aconteceu. De alguma forma ele se sentia ligado àquele homem que tinha sido tão especial para sua mãe. Não deixou de telefonar-lhe pelo menos duas vezes por semana. Richard O´Connor tinha, à época, mais de oitenta anos de idade. 

Para surpresa de Andrew, o assunto Buick passou a constar, sutilmente, das conversas de seu padrasto. O automóvel já estava em poder de Richard há quase cinquenta anos. Uma ou outra informação lhe era solicitada. O endereço de alguns fornecedores devidamente confirmados.

Na madrugada do dia 13 de fevereiro de 1991, Andrew recebe o telefonema de um antigo vizinho de Palmer. Seu padrasto havia falecido, aos 86 anos. Subitamente, depois de um fim de semana em que chegara até mesmo a aparar a grama do quintal.
Dois dias depois, Andrew e Stan participaram dos serviços fúnebres, acompanhados dos amigos que Richard fizera em Grand Rapids, ligados às obras de benemerência que o padrasto vinha apoiando. E, em poucos dias, conheceram os termos do testamento. Uma fortuna apreciável seria dividida entre os dois enteados e as obras de caridade a que Richard se dedicava.

Nos termos do documento, Andrew era, agora, o novo proprietário do Buick. Foi à casa do padrasto. Carregava o grande molho de chaves e a corrente de ouro que tão bem conhecia. Visitou os diversos cômodos da casa e comoveu-se diante das inúmeras lembranças da mãe que Richard O´Connor mantinha vivas. Finalmente, dirigiu-se à garagem para rever o automóvel que tanto apreciava e que se mostrara, para ele, sempre inacessível. Depois de experimentar um sem número de chaves, conseguiu, finalmente, abrir a porta da garagem. Dezenas de caixas empilhadas impediam o acesso ao Buick. Todas elas vazias. Ao removê-las, identificou marcas e logotipos de vários fornecedores de peças, amplamente conhecidos. Atônito, viu-se diante de um automóvel primorosamente restaurado em seus mínimos detalhes. Trabalho, sem dúvida, dos melhores especialistas.

Conferidos todos os detalhes da empreitada, sentiu-se compelido por uma força estranha a vasculhar o porta-luvas do Buick. Dentro havia um cartão amarelado com os dizeres: "Espero que tenha valido a pena esperar. Um beijo de seu pai, Richard O'Connor"


segunda-feira, 24 de abril de 2017

3028 - SX Uma baleia no Aterro



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5277 SX                           Data: 24 de abril de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV

  A TURMA DA BALEIA

A gente vai ficando velho e se dá conta de que existe uma montanha de assuntos que somente são do conhecimento e do interesse dos demais coroas que nos cercam. Incluí-los na pauta de uma conversa com gente mais jovem é uma frustração só. Fica sempre a sensação de que, aos olhos do nosso interlocutor, somente alguém recém chegado de Saturno poderia estar preocupado com tema tão irrelevante.
Recentemente pensei no assunto depois de conversar com dois bons amigos, o violinista Michel Bessler e o flautista Paulo Guimarães, instrumentistas da Orquestra Sinfônica Brasileira. Falamos sobre "Moby Dick". Não o livro consagrado de Herman Melville, tampouco o filme dirigido por John Huston e estrelado por Gregory Peck, que fez muito sucesso quando foi lançado em junho de 1956.

Nossa "Moby Dick" é outra. No mesmo ano em que o filme estreou, alguns caras espertos tomaram a iniciativa de estacionar nas proximidades do Aeroporto Santos Dumont uma carreta sobre a qual estava depositada a imensa carcaça de uma baleia jubarte, com 20 metros de comprimento e 60 toneladas de peso. Havia sido pescada no Oceano Atlântico, na costa do Marrocos. A atração circulou pela Europa e veio parar na América do Sul, trazida pelo navio Lloyd Nicarágua. Sua conservação implicava mantê-la durante as noites imersa em um tanque com 7 mil litros de formol. Do que resultava um cheiro terrível.

 Anunciada como "Moby Dick", a baleia atraiu milhares de pessoas. Do Rio de Janeiro a parafernália seguiu para Santos, para novamente mobilizar multidões. Segundo os espertos, seu empreendimento ali prestava uma homenagem ao Santos Futebol Clube, campeão paulista de 1955. Sendo o símbolo do Santos uma baleia...

Michel, Paulo Guimarães e eu temos quase a mesma idade. Descobrimos que os três participaram da visita ao cetáceo. Paulo chegou a sugerir a confecção de camisetas com a inscrição "Sou da Turma da Baleia", a ser usada em nossos próximos encontros.
O leitor há de concordar. Faz sentido comentar esse bombástico episódio com as novas gerações ? É claro que não.

Empolgado com o relato sobre a baleia, menciono outros assuntos que mobilizaram o Rio de Janeiro nos anos 50 e 60. Nos dias de hoje, seriam qualificados como conversa de malucos.

Quem se lembra do Silk? E do Zokan? Eram faquires. Disputavam a atenção do grande público passando longas temporadas sem se alimentar. Instalados sobre camas de pregos e, quase sempre, cercados de cobras. Silk podia ser visitado ( $$$ ) na sobreloja do Cineac Trianon. O reduto de Zokan era a Praça Tiradentes. Como justificar a circunstância de serem ambos gaúchos?

E o Professor Bey? Foi uma grande atração dos auditórios de televisão nos anos 50. Consta que seu nome era Oriethy Bey e que teria nascido em Corumbá. Dizia-se hipnotizador, telepata, numerólogo, astrólogo, mágico e psicólogo. Ilka, sua assistente, permanecia no centro do palco, enquanto Bey percorria o auditório. Ouvia as confidências dos espectadores e as repassava "telepaticamente" para Ilka. Esta, de olhos vendados, sempre começava sua intervenção com a frase..."Professor, vejo que a minha consulente...". Não errava uma ! O auditório delirava...

Vamos permanecer na televisão. Quem se lembra do violinista Fafá Lemos ? E dos "Trigêmeos Vocalistas"? Armando, Raul e Humberto Carezatto nasceram no Brás, na cidade de São Paulo, e, é claro, descendiam de italianos. Cantavam e sapateavam. Fizeram muito sucesso no Cassino da Urca, em 1942, num espetáculo em que Pedro Vargas ficou rouco de tanto cantar " Besame Mucho ".

Falemos das terças-feiras. Era dia de "77 Sunset Srip". Nas quartas, Eliot Ness combatia mafiosos na série "Os Intocáveis", com a impecável narração de Murilo Néri. Quinta-feira era dia de "Cidade Nua".
"Músicas na Passarela" e "Peça Bis Pelo Telefone" eram as grandes atrações da Rádio Tamoio. 

Calças Lee eram compradas no Mercadinho Azul. Camisas, na "Don Quixote". Para a aquisição de sapatos, as alternativas eram muitas: Mario, Motex, Peixoto, Moreira, Copamarfel, Calçados Meu Tio...

Dezenas de assuntos animam as conversas da velha guarda. Com esses papos reforçamos nossa certeza de que antigamente o mundo funcionava muito melhor.



quinta-feira, 20 de abril de 2017

3027 - SX Deus Salve o América




O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5276 SX                           Data: 20 de abril de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV

DEUS SALVE O AMÉRICA

Foi em 1957 que assumi minha paixão pelo Fluminense. Péssimo momento. Na final do campeonato carioca daquele ano fomos massacrados pelo Botafogo com um acachapante placar de 6 x 2. Nem mesmo o extraordinário Castilho foi capaz de impedir que um endemoniado Paulo Valentim vazasse a meta tricolor em nada menos do que cinco oportunidades.
Pela lógica, eu deveria torcer pelo América. Desde os primórdios era o time da família de  meu pai. O médico Paulo Barata Ribeiro, irmão do meu avô paterno, foi campeão carioca em 1922. Era o capitão do time, assim escalado: Ribas, Perez e Barata; Miranda, Oswaldinho e Matoso; Guerra, Chiquinho, Gonçalo, Gilberto e Brilhante. Tio Paulo, o "Baratinha", foi o capitão do "Campeão do Centenário", glória que, durante décadas, foi motivo de orgulho para o grande contingente de torcedores, especialmente tijucanos, que apoiavam o clube da Rua Campos Sales.
Tio Paulo, do alto dos seus 1,65 metros, foi, também, "beque central" e capitão da seleção brasileira, vice campeã do sul americano de 1921, promovido na Argentina. Já era então, ele  explicava, um especialista na arte de desatar cadarços de calções dos atacantes adversários, impedindo-os de com ele disputar bolas pelo alto.
Pelo lado de minha avó paterna o americano de destaque foi o Promotor de Justiça Max Gomes de Paiva. Presidente do clube, esforçado defensor do seu time de aspirantes, Tio Max deu uma contribuição importante na elaboração das leis que regem o desporto brasileiro. Tinha seu nome o auditório da Confederação Brasileira de Futebol, quando situado na Rua da Alfândega. Na Barra da Tijuca, para onde um bando de larápios transferiu mais tarde a sede da CBF, não sei se isso ainda persiste.
De Tio Max conheço uma história sensacional. Menino ainda, gabava-se de ter aprendido, sozinho, a falar alemão. Falava pelos cotovelos, para espanto e admiração de familiares e vizinhos.
Isso até o dia em que um cidadão nascido na Baviera foi morar na casa ao lado da mansão dos Gomes de Paiva. O menino Max durante um bom tempo não foi visto. Reapareceu aos poucos, discretamente, para admitir que aquela língua praticada em seus longos discursos não era propriamente o alemão.
Minha avó paterna, Zélia Gomes de Paiva, também ganhou fama entre os torcedores do América. Dizia meu pai que ela e sua irmã, Dagmar, jogavam basquetebol no clube. O que acho bastante improvável. Atribuo sua fama ao versinho que criou quando o grande goleiro Marcos Carneiro de Mendonça deixou o América e se transferiu para o Fluminense. Ela repetia à exaustão:
                  O Marcos do Fluminense
                  Pegador de bola morta
                  De tanto fazer firula
                  Acabou com a perna torta
Diante de tão importantes ancestrais, seria mais do que natural torcer pelo América. Não levo em conta os parentes de minha mãe. Meu avô Rafael Xavier, paraibano formado na Faculdade de Direito do Recife, se dizia torcedor do Náutico, Duvido muito que soubesse dizer as cores de sua camisa. Falando em cores, registre-se que o América não nasceu vermelho e branco. E nem mesmo na Tiju ca. Foi criado na Saúde e suas cores eram o preto e o branco.. Transferiu-se para a Tijuca em 1911, quando de sua fusão com o Haddock Lobo Futebol Clube, agremiação então muito maior do que ele.
A mudança para o vermelho e branco foi sugerida por Belfort Duarte, grande baluarte do América, inspirado no uniforme do Mackenzie College de São Paulo.
Encontros que envolvessem Tio Paulo, Tio Max, Paulo Fortes e seu irmão Sergio Fortes sempre abordavam as façanhas americanas. Com atenção redobrada, eu tomava conhecimento das façanhas de Oswaldinho, Maneco, Fernando Ojeda, Carola e Canário. Um assunto recorrente era a perda do campeonato carioca de 1955, que resultou em tri-campeonato do Flamengo, atribuída à violência do zagueiro Tomires, que ainda no primeiro tempo do jogo decisivo quebrou a perna do astro argentino Alarcon. 
Meu pai não fez força para que eu me tornasse americano. Orgulhoso, gabava-se do privilégio de estar na companhia de seus amigos Max Nunes, Lamartine Babo, Silvio Caldas, Mario Reis, Carlos Galhardo, João Cabral de Melo Neto. Marques Rebelo, Jorge Amado, Silveira Sampaio e Sobral Pinto. entre muitas outras figuras de relevo.
Tornei-me tricolor sempre gostando do América. O segundo time de quase todos os cariocas. Não sofri quando o América aplicou um 2 x 1 no Fluminense na final do campeonato carioca de 1960. Menos ainda quando se sagrou campeão da Taça Guanabara de 1974, também diante do Fluminense, possivelmente com o último de seus grandes esquadrões, onde despontavam Orlando Lelé, Alex, Geraldo, Flexa, Eduzinho, Braulio, Ivo, Luisinho e Gilson Nunes.
Sofro com o América nos dias de hoje. Quando vejo o clube se apequenar, envolvido em intermináveis transações imobiliárias, promovidas com a finalidade de cobrir buracos financeiros cada vez maiores.
Sofro com o América quando acompanho seus rebaixamentos nos campeonatos brasileiro e carioca.
Ainda bem que Tio Paulo, Tio Max e o Paulo Fortes não testemunharam essas tragédias.


  




sexta-feira, 14 de abril de 2017

3026 - FF FICOU LÁ ATRÁS

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O BISCOITO MOLHADO

Edição 5275FF                           Data: 14 de abril de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV

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FICOU LÁ ATRÁS

Preciso me certificar que minha foto está lá, no quadro de formandos. Todo aluno que se forma no Santo Inácio tem sua foto num quadro, atestando que ele se formou pela instituição. Eu tenho certeza que não, que minha foto nunca esteve. Há semanas sonho que não consegui me formar, algo ficou para trás, uma vida que é um engodo.  Não poderia ter feito faculdade, não poderia ter feito concurso para a Petrobras, não poderia ter feito concurso para a Secretaria da Fazenda do Rio Grande do Sul. Já começo a fazer contas de quanto devo, pelo menos 11 anos de salários. Se estou negativo hoje, como pagarei 11 anos de salários? Minhas mãos tremem, suo frio, como se fosse pegar uma nota de física do Professor Zarur.

A suspeita na minha cabeça já é certeza conforme os sonhos acumulam. Pego o primeiro avião que consigo para o Rio de Janeiro para visitar meu antigo colégio, Santo Inácio, Santo Inácio de Loiolaaaa...Vem um ritmo de música na cabeça, a letra não. O que lembro, o que esqueci?  Nunca me formei em 1994, ano em que o Senna morreu, ano do Plano Real, ano da Copa do Mundo. Quero apenas me certificar de que a mentira que vivo é verdade. Quantas mentiras mais tenho?
De fora parece o mesmo colégio. Entrada discreta, grades as mesmas. Um novo baleiro sem a cara simpática do falecido Madura.
 - Você vende uvinha?
 - Uvinha? O que é isso?
 - Deixa pra lá;

Entrar no colégio é surpreendentemente fácil. Um paletó azul marinho me dá um ar professoral, livros diversos nas mãos são um álibi óbvio e eficiente. Cabelo grisalho e ninguém me interrompe. Entro pelo metrô, como chamavam na minha época. Já chamo tempos passados de minha época. Não sei por que se chama metrô, não acho parecido. Antigamente as notas eram pregadas aqui, parece que foi ontem que fiquei de recuperação em física e catei meu nome como um doido para ver se eu tinha passado. Será que as notas são por whatsapp hoje em dia? Se minha foto não está no quadro em que matéria repeti? Alguma de exatas com certeza. Sempre fui uma besta matemática. Amigos riam das minhas dificuldades, da falta de talento em desenho  geométrico…Mediatriz? Nunca consegui fazer uma.

Caminho pensando como farei para pagar a matéria que devo. Um homem de 40 anos sentado ao lado de meninos de 17. Será que os padres aceitam suborno? Há padres ainda?
Não sei por onde começar a procurar. Na frente do colégio ficam os quadros mais recentes, era assim antigamente. Percorro os andares nervoso, a sensação de desconforto de um adolescente tímido volta com mais força. Olho para o banheiro onde me escondia, mas agora não quero mais me esconder. Quero achar uma vida, talvez a que não devesse estar vivendo.

Lá está ele, o quadro. Brega como imaginava que era. Uma cor que não sei precisar, salmão acho. Minhas pernas tremem mais ainda, como antigamente. O quadro está alto, já não enxergo tão bem, cacete, cadê minha foto?
Vejo professores que já morreram, amigos que nunca mais vi, adolescentes populares, adolescentes tímidos loucos por sexo, uma playboy que fosse. Ah Luciana Vendramini!!!  Mas não me vejo. Cadê minha foto? Meu olhar percorre o quadro salmão brega na maior velocidade que consigo. Não está na ordem isso, Bernardo Langoni, Bruno Wong, , Eduardo...?

 - Bom dia, tudo bem contigo? Posso te ajudar?
Um professor, padre, não sei como se vestem hoje em dia, fala comigo com olhar desconfiado. Me dou conta que estou suado, tremendo todo, não sei o que responder sem despertar suspeitas.
 - Procuro uma fraude.
Ele me olha meio assustado, mas não se alonga. Segue seu rumo, qualquer que seja.

Mais nervoso ainda, procuro a bendita foto, a prova de que existo na sociedade. Minhas mãos geladas prenunciam que irei ter um troço se não achá-la, mas a encontro.
Como as notas de antigamente nas provas de matemática olho uma, duas vezes, três para ter certeza que passei. Passei de ano. E agora, passei do quê?

Um cabelo escorrido, lambido, sorriso forçado, discreto. Ela está lá. Fabio Fortes, sim, meu nome. Cabelo castanho, hoje grisalho. Está lá.  Das mentiras que sou e carrego, esta não faz parte. Olho mais uma, duas, dez vezes. Mais relaxado, vejo os colegas, muitos dos quais não lembrava. São lembranças, boas ou indiferentes. A idade te ensina a não guardar mágoas.

Mais calmo desço as escadas e reparo como elas continuam afundadas nas pontas.  Bebo a água do bebedouro mais forte, o da ponta e, como antigamente, ele esguicha forte no meu rosto me molhando todo. Continua gelada, penso. Na cantina com o apelo clean da modernidade peço um cheeseburger. O queijo não vem derretido e escorrido como antigamente. Sento na arquibancada para ver o jogo e reparo que poucos prestam atenção. Entretidos com seus celulares postam felicidades virtuais sem viver o presente. Terão lembranças como eu?  O campo de futebol me parece ainda menor do que da última vez que estive no colégio. Cabiam 20 times quando criança achava, hoje mal cabem 2.
Minha foto está lá, mas continuo achando que algo ficou para trás.