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quinta-feira, 20 de abril de 2017

3027 - Deus Salve o América




O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5276 SX                           Data: 20 de abril de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV

DEUS SALVE O AMÉRICA

Foi em 1957 que assumi minha paixão pelo Fluminense. Péssimo momento. Na final do campeonato carioca daquele ano fomos massacrados pelo Botafogo com um acachapante placar de 6 x 2. Nem mesmo o extraordinário Castilho foi capaz de impedir que um endemoniado Paulo Valentim vazasse a meta tricolor em nada menos do que cinco oportunidades.
Pela lógica, eu deveria torcer pelo América. Desde os primórdios era o time da família de  meu pai. O médico Paulo Barata Ribeiro, irmão do meu avô paterno, foi campeão carioca em 1922. Era o capitão do time, assim escalado: Ribas, Perez e Barata; Miranda, Oswaldinho e Matoso; Guerra, Chiquinho, Gonçalo, Gilberto e Brilhante. Tio Paulo, o "Baratinha", foi o capitão do "Campeão do Centenário", glória que, durante décadas, foi motivo de orgulho para o grande contingente de torcedores, especialmente tijucanos, que apoiavam o clube da Rua Campos Sales.
Tio Paulo, do alto dos seus 1,65 metros, foi, também, "beque central" e capitão da seleção brasileira, vice campeã do sul americano de 1921, promovido na Argentina. Já era então, ele  explicava, um especialista na arte de desatar cadarços de calções dos atacantes adversários, impedindo-os de com ele disputar bolas pelo alto.
Pelo lado de minha avó paterna o americano de destaque foi o Promotor de Justiça Max Gomes de Paiva. Presidente do clube, esforçado defensor do seu time de aspirantes, Tio Max deu uma contribuição importante na elaboração das leis que regem o desporto brasileiro. Tinha seu nome o auditório da Confederação Brasileira de Futebol, quando situado na Rua da Alfândega. Na Barra da Tijuca, para onde um bando de larápios transferiu mais tarde a sede da CBF, não sei se isso ainda persiste.
De Tio Max conheço uma história sensacional. Menino ainda, gabava-se de ter aprendido, sozinho, a falar alemão. Falava pelos cotovelos, para espanto e admiração de familiares e vizinhos.
Isso até o dia em que um cidadão nascido na Baviera foi morar na casa ao lado da mansão dos Gomes de Paiva. O menino Max durante um bom tempo não foi visto. Reapareceu aos poucos, discretamente, para admitir que aquela língua praticada em seus longos discursos não era propriamente o alemão.
Minha avó paterna, Zélia Gomes de Paiva, também ganhou fama entre os torcedores do América. Dizia meu pai que ela e sua irmã, Dagmar, jogavam basquetebol no clube. O que acho bastante improvável. Atribuo sua fama ao versinho que criou quando o grande goleiro Marcos Carneiro de Mendonça deixou o América e se transferiu para o Fluminense. Ela repetia à exaustão:
                  O Marcos do Fluminense
                  Pegador de bola morta
                  De tanto fazer firula
                  Acabou com a perna torta
Diante de tão importantes ancestrais, seria mais do que natural torcer pelo América. Não levo em conta os parentes de minha mãe. Meu avô Rafael Xavier, paraibano formado na Faculdade de Direito do Recife, se dizia torcedor do Náutico, Duvido muito que soubesse dizer as cores de sua camisa. Falando em cores, registre-se que o América não nasceu vermelho e branco. E nem mesmo na Tiju ca. Foi criado na Saúde e suas cores eram o preto e o branco.. Transferiu-se para a Tijuca em 1911, quando de sua fusão com o Haddock Lobo Futebol Clube, agremiação então muito maior do que ele.
A mudança para o vermelho e branco foi sugerida por Belfort Duarte, grande baluarte do América, inspirado no uniforme do Mackenzie College de São Paulo.
Encontros que envolvessem Tio Paulo, Tio Max, Paulo Fortes e seu irmão Sergio Fortes sempre abordavam as façanhas americanas. Com atenção redobrada, eu tomava conhecimento das façanhas de Oswaldinho, Maneco, Fernando Ojeda, Carola e Canário. Um assunto recorrente era a perda do campeonato carioca de 1955, que resultou em tri-campeonato do Flamengo, atribuída à violência do zagueiro Tomires, que ainda no primeiro tempo do jogo decisivo quebrou a perna do astro argentino Alarcon. 
Meu pai não fez força para que eu me tornasse americano. Orgulhoso, gabava-se do privilégio de estar na companhia de seus amigos Max Nunes, Lamartine Babo, Silvio Caldas, Mario Reis, Carlos Galhardo, João Cabral de Melo Neto. Marques Rebelo, Jorge Amado, Silveira Sampaio e Sobral Pinto. entre muitas outras figuras de relevo.
Tornei-me tricolor sempre gostando do América. O segundo time de quase todos os cariocas. Não sofri quando o América aplicou um 2 x 1 no Fluminense na final do campeonato carioca de 1960. Menos ainda quando se sagrou campeão da Taça Guanabara de 1974, também diante do Fluminense, possivelmente com o último de seus grandes esquadrões, onde despontavam Orlando Lelé, Alex, Geraldo, Flexa, Eduzinho, Braulio, Ivo, Luisinho e Gilson Nunes.
Sofro com o América nos dias de hoje. Quando vejo o clube se apequenar, envolvido em intermináveis transações imobiliárias, promovidas com a finalidade de cobrir buracos financeiros cada vez maiores.
Sofro com o América quando acompanho seus rebaixamentos nos campeonatos brasileiro e carioca.
Ainda bem que Tio Paulo, Tio Max e o Paulo Fortes não testemunharam essas tragédias.


  




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