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segunda-feira, 24 de abril de 2017

3028 - Uma baleia no Aterro



O  BISCOITO  MOLHADO
Edição 5277 SX                           Data: 24 de abril de 2017

FUNDADOR: CARLOS EDUARDO NASCIMENTO - ANO: XXXIV

  A TURMA DA BALEIA

A gente vai ficando velho e se dá conta de que existe uma montanha de assuntos que somente são do conhecimento e do interesse dos demais coroas que nos cercam. Incluí-los na pauta de uma conversa com gente mais jovem é uma frustração só. Fica sempre a sensação de que, aos olhos do nosso interlocutor, somente alguém recém chegado de Saturno poderia estar preocupado com tema tão irrelevante.
Recentemente pensei no assunto depois de conversar com dois bons amigos, o violinista Michel Bessler e o flautista Paulo Guimarães, instrumentistas da Orquestra Sinfônica Brasileira. Falamos sobre "Moby Dick". Não o livro consagrado de Herman Melville, tampouco o filme dirigido por John Huston e estrelado por Gregory Peck, que fez muito sucesso quando foi lançado em junho de 1956.

Nossa "Moby Dick" é outra. No mesmo ano em que o filme estreou, alguns caras espertos tomaram a iniciativa de estacionar nas proximidades do Aeroporto Santos Dumont uma carreta sobre a qual estava depositada a imensa carcaça de uma baleia jubarte, com 20 metros de comprimento e 60 toneladas de peso. Havia sido pescada no Oceano Atlântico, na costa do Marrocos. A atração circulou pela Europa e veio parar na América do Sul, trazida pelo navio Lloyd Nicarágua. Sua conservação implicava mantê-la durante as noites imersa em um tanque com 7 mil litros de formol. Do que resultava um cheiro terrível.

 Anunciada como "Moby Dick", a baleia atraiu milhares de pessoas. Do Rio de Janeiro a parafernália seguiu para Santos, para novamente mobilizar multidões. Segundo os espertos, seu empreendimento ali prestava uma homenagem ao Santos Futebol Clube, campeão paulista de 1955. Sendo o símbolo do Santos uma baleia...

Michel, Paulo Guimarães e eu temos quase a mesma idade. Descobrimos que os três participaram da visita ao cetáceo. Paulo chegou a sugerir a confecção de camisetas com a inscrição "Sou da Turma da Baleia", a ser usada em nossos próximos encontros.
O leitor há de concordar. Faz sentido comentar esse bombástico episódio com as novas gerações ? É claro que não.

Empolgado com o relato sobre a baleia, menciono outros assuntos que mobilizaram o Rio de Janeiro nos anos 50 e 60. Nos dias de hoje, seriam qualificados como conversa de malucos.

Quem se lembra do Silk? E do Zokan? Eram faquires. Disputavam a atenção do grande público passando longas temporadas sem se alimentar. Instalados sobre camas de pregos e, quase sempre, cercados de cobras. Silk podia ser visitado ( $$$ ) na sobreloja do Cineac Trianon. O reduto de Zokan era a Praça Tiradentes. Como justificar a circunstância de serem ambos gaúchos?

E o Professor Bey? Foi uma grande atração dos auditórios de televisão nos anos 50. Consta que seu nome era Oriethy Bey e que teria nascido em Corumbá. Dizia-se hipnotizador, telepata, numerólogo, astrólogo, mágico e psicólogo. Ilka, sua assistente, permanecia no centro do palco, enquanto Bey percorria o auditório. Ouvia as confidências dos espectadores e as repassava "telepaticamente" para Ilka. Esta, de olhos vendados, sempre começava sua intervenção com a frase..."Professor, vejo que a minha consulente...". Não errava uma ! O auditório delirava...

Vamos permanecer na televisão. Quem se lembra do violinista Fafá Lemos ? E dos "Trigêmeos Vocalistas"? Armando, Raul e Humberto Carezatto nasceram no Brás, na cidade de São Paulo, e, é claro, descendiam de italianos. Cantavam e sapateavam. Fizeram muito sucesso no Cassino da Urca, em 1942, num espetáculo em que Pedro Vargas ficou rouco de tanto cantar " Besame Mucho ".

Falemos das terças-feiras. Era dia de "77 Sunset Srip". Nas quartas, Eliot Ness combatia mafiosos na série "Os Intocáveis", com a impecável narração de Murilo Néri. Quinta-feira era dia de "Cidade Nua".
"Músicas na Passarela" e "Peça Bis Pelo Telefone" eram as grandes atrações da Rádio Tamoio. 

Calças Lee eram compradas no Mercadinho Azul. Camisas, na "Don Quixote". Para a aquisição de sapatos, as alternativas eram muitas: Mario, Motex, Peixoto, Moreira, Copamarfel, Calçados Meu Tio...

Dezenas de assuntos animam as conversas da velha guarda. Com esses papos reforçamos nossa certeza de que antigamente o mundo funcionava muito melhor.



13 comentários:

  1. O editor do seu O BISCOITO MOLHADO também foi ver a baleia. Ficava estacionada sobre uma carreta puxada por um caminhão Mack verde garrafa, entre o Aeroporto e a Avenida Rio Branco. Ali foi feito um grande aterro com o desmonte de parte do Morro de Santo Antônio e se chamava Aterro da Glória (ia até onde hoje é o Monumento dos Pracinhas e onde montaram o Congresso Eucarístico de 1955). Depois arrasaram o morro todo e completaram o que virou Aterro do Flamengo, já na virada dos anos 60. Voltando à baleia, o cheiro era insuportável.

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  2. O editor do seu, do meu, do nosso O BISCOITO MOLHADO há de se lembrar da TV Continental, Canal 9, ali na Rua das Laranjeiras, onde hoje existe uma concessionária de automóveis. Talvez se lembre do seriado "Falcão Negro", na TV Tupi, estrelado por Gilberto Martinho, sob o patrocínio da Padaria Benamor - até hoje na Rua Marquês de Abrantes, quase esquina com Clarice Índio do Brasil - cujo bordão era "o melhor pão do bairro". Não poderia jamais esquecer do "Almoço com as Estrelas", também na TV Tupi, apresentado pelo casal Aerton e Aziza Perlingeiro. Os artistas comiam e, quase de boca cheia, íam ao microfone para cantar. Animariam um papo da velha guarda falar de filmes seriados como "Inferno no Céu" que mostrava missões na Segunda Guerra com uma esquadrilha de fortalezas voadoras B-17, "Mike Nelson", "Jim das Selvas", etc.
    VM

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    1. Sem esquecer Jet Jackson, Mike Nelson, Steve Canyon, Bat Masterson, Missão Impossível Patrulha Rodoviária, Shannon, Bonanza, O homem do Rifle, Teatrinho Trol, Capitão Furacão.

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  3. Prezado Leitor VM, o editor lembra do Falcão Negro sim, que estava no ar em 1960, quando chegou a TV em sua casa. Antes disso, houve uma temporada como televizinho, às sextas-feiras, assistindo os Buick 1955 da Patrulha Rodoviária, do Broderick Crawford. Mike Nelson, Jim das Selvas, Papai Sabe Tudo e o fabuloso Jonny Quest, primeira edição, eram igualmente indispensáveis. Entretanto, "Inferno no Céu", nunca viu, uma pena - era certamente uma continuação do ótimo filme "Twelve O'Clock High", ou Almas em Chamas. Resta acrescentar duas coisas:
    1) que o editor promete visitar a Padaria Benamor, co-responsável pela fabricação de inúmeras espadas de madeira em Santa Teresa.
    2) que o redator desta edição, conhecido como SX, tem a memória iluminada apenas por impactos inolvidáveis, como o peso da indigitada baleia do Aterro.

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  4. Da baleia nao lembro, mas do Silk na Slopper de Copacanana sim...foi desmoralizado comendo um hamburguer na falecida Cirandinha.
    Parecida com o greve de fome do Garotinho na sede do PMDB no Centro, no mesmo predio em que eu trabalhava...dizem as mas linguas que a noite subia un lanche do Espadeiro.

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  6. Músicas na Passarela.....O locutor era Humberto Reis, posteriormente jurado do Programa Flávio Cavalcanti ou do Um Instante Maestro, também do Flávio Cavalcanti, ou de ambos.
    Uma coisa, melhor dizendo, uma cor me deixava intrigado naqueles tempos em que o máximo era ter uma Barsa. Quando ouvia aquela voz imponente:
    _ Na passarela música "cyclamen"....
    Que diabo se cor seria "cyclamen"? Tinha música carmim, música turquesa, música cor-de-burro-quando-foge, tudo quanto era cor, mas a indecifrável música "cyclamen" me desafiava como a Esfinge. Anos se passaram e o Google decifrou o enigma da Esfinge.

    VM

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  7. Desta baleia eu nunca ouvi falar, mas os seriados americanos eram assistidos por mim na TV Zenith pequenininha que eu tinha no quarto. Eu certamente era mais jovem que o editor naquelas épocas, era Café com Leite, como se dizia, mas me lembro bem do Broderick e sua imensa viatura, dos carros que circulavam na Sunset Strip, da Corvette na Rota 66 e do pequeno Buick do detetive Shanon que tinha um revolver numa gavetinha que saía do painel.

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  9. E do Alô Doçura, com John Herbert e Eva Wilma, o editor do nosso BM se lembra?

    https://www.youtube.com/watch?v=5hkqbY3zqYY

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  10. E da Canção das Misses, interpretada por Ellen de Lima, lembra, ilustre editor?

    https://www.youtube.com/watch?v=r1K7q7Aib-Q

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    1. O editor, lisonjeado com as perguntas a ele dirigidas, responderá abaixo. Cabe ainda, entretanto, endereçar as perguntas ao redator desta edição, o indefectível SX.
      Alô, Doçura - não via, mas lembro da Quatro Rodas número 7, com o casal e filhos acampando numa Kombi 1960.
      Canção das Misses, não lembro.

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  11. O Buick do investigador de seguros Shannon, também era equipado com uma filmadora e um telefone. Ambos ficavam escondidos no console. É os coe boys Riu Rogers com seu cavalo Trigger é o cachorro Bullet. O outro era Gene Autry. Na linha canina estrelavam Rin Tim Tin, um pastor alemão e Lassie, uma cadela Colbie.

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